O mundo de Sofia (Excertos)

 

 

 

O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 28 (Excerto)
Kierkegaard

(Páginas 398-410.)

(…)

De repente, Sofia ouviu alguém batendo na porta. Alberto olhou para ela muito sério.

— Não queremos ser perturbados, queremos?

Bateram mais forte.

— Vamos falar agora sobre um filósofo dinamarquês, que ficou muito irritado com a filosofia de Hegel — disse Alberto.

Mas começaram a bater tão forte que a porta chegava a tremer.

— É claro que é o major nos enviando outra de suas personagens fantásticas, só para ver se consegue nos pegar de novo — disse Alberto. — Para ele isto não é problema.

— Mas se não abrirmos e vermos quem é, ele também não terá o menor problema em demolir a casa inteira.

— Talvez você tenha razão. Vamos abrir.

Foram até a porta. Pela força das batidas, Sofia estava esperando um gigante, no mínimo. Mas lá fora só havia uma menina com um vestido florido e longos cabelos loiros. Na mão ela segurava dois frascos: um era vermelho, o outro azul.

— Olá! — disse Sofia. — Quem é você?

— Meu nome é Alice — respondeu a menina enquanto fazia um gesto de cortesia meio envergonhada.

— Foi o que pensei — disse Alberto. — É Alice no País das Maravilhas.

— Mas como ela chegou até aqui?

A própria Alice explicou:

— O País das Maravilhas é um lugar sem fronteiras, o que significa que ele está por toda a parte. Mais ou menos como a ONU. Por isso o País das Maravilhas deveria se tornar membro honorário da ONU. Precisamos de um representante em cada comitê.

— Ah, o major! — disse Alberto, sorrindo satisfeito.

— E o que traz você aqui? — perguntou Sofia.

— Eu trouxe estes dois frascos da filosofia para você.

Entregou a Sofia os dois frascos; num deles havia um líquido vermelho e no outro um líquido azul. No frasco vermelho estava escrito “BEBA-ME!” e, no azul, “BEBA-ME TAMBÉM!

No instante seguinte, um coelho branco passou correndo pela cabana. Ele corria sobre duas patas e usava um colete e um paletó. Quando passou na frente da cabana, tirou do bolso do colete um relógio e disse:

— É tarde! É tarde!

E continuou a correr. Alice fez menção de sair correndo atrás dele; antes, porém, voltou-se para Sofia e Alberto, fez uma reverência e disse:

— Vai começar tudo de novo!

— Mande um abraço para Diná e para a Rainha! — disse Sofia para Alice, que a esta altura já tinha saído atrás do coelho.

Pouco depois, Alice desapareceu na floresta. Alberto e Sofia ficaram parados à entrada da cabana olhando os dois frascos.

— “BEBA-ME!” e “BEBA-ME TAMBÉM!” — leu Sofia. — Não sei se devo. Pode ser veneno.

Alberto sacudiu os ombros.

— Esses vidros vêm do major e tudo o que vem do major é pura imaginação. Portanto, isso aí não passa de um suco imaginário.

Sofia tirou a rolha do vidro vermelho e encostou-o cautelosamente nos lábios. O suco tinha um gosto adocicado e estranho. Mas isto não era tudo. Imediatamente aconteceu algo à sua volta: primeiro, foi como se a imagem do lago, da floresta e da cabana se fundissem numa coisa só. Depois lhe pareceu que tudo o que ela via era apenas uma pessoa e que esta pessoa era ela mesma. Quando finalmente olhou para Alberto, ele também parecia ter se transformado numa parte dela mesma.

— Que coisa estranha — disse ela. — De repente, tudo o que vejo parece estar relacionado. Tenho a sensação de que tudo é apenas uma única consciência.

Alberto concordou com a cabeça, mas Sofia teve a sensação de que era ela mesma quem concordava.

— Isto é o panteísmo, ou a filosofia da unidade — disse Alberto. — É o espírito do mundo dos românticos, que experimentavam tudo como um único e grande “eu”. Mas é também Hegel, que, sem perder o indivíduo totalmente de vista, considerava tudo expressão de uma razão universal.

— Você acha que eu devo beber o líquido do outro vidro?

— É o que está escrito aí.

Sofia tirou a rolha do outro vidro e deu uma boa golada. O líquido azul tinha um gosto mais fresco e mais azedo do que o vermelho. Mas também desta vez tudo à sua volta se transformou de imediato: no mesmo instante passou o efeito do líquido vermelho e tudo voltou ao seu lugar. Alberto voltou a ser Alberto, as árvores da floresta voltaram a ser árvores da floresta e o lago voltou a ser lago. Mas isto também durou apenas um segundo, e então tudo o que Sofia via começou a se desmanchar. Para começar, a floresta deixou de ser floresta; era como se, de repente, a menor das árvores fosse um mundo em si, cada galho uma aventura sobre a qual podiam ser contados milhares de contos de fadas. O pequeno lago transformou-se para ela num oceano infinito, não porque fosse grande e profundo, mas por causa de seus milhares de detalhes cintilantes e por suas ondas de formas e tamanhos fascinantes. Sofia entendeu que poderia ficar observando este pequeno lago pelo resto de sua vida e ainda assim ele continuaria sendo um mistério indecifrável para ela.

Sofia olhou, então, para a copa de uma árvore. Ali, três pardais estavam entretidos numa brincadeira divertida. Eles já tinham pousado na árvore antes de Sofia beber o líquido vermelho, mas só agora é que ela realmente os tinha percebido. O líquido vermelho, que ela bebera da primeira vez, apagara todos os contrastes e todas as diferenças individuais.

Sofia levantou-se do degrau de pedra em que estava sentada, ajoelhou-se e observou a grama. E ali também encontrou um mundo à parte, mais ou menos como se tivesse dado um mergulho e abrisse os olhos pela primeira vez no fundo do mar. Entre os ramos e as folhinhas da grama, milhares de formas de vida movimentavam-se febrilmente. Sofia viu uma aranha que se movia segura e energicamente sobre o musgo, um pulgão subindo e descendo por um raminho de grama e um pequeno exército de formigas trabalhando em conjunto. E mesmo entre as formigas, cada uma tinha o seu jeito particular de levantar as pernas.

O mais curioso de tudo, porém, foi quando Sofia se levantou novamente e olhou para Alberto, que continuava de pé à soleira da porta. De repente ela viu nele um ser completamente fora do comum, uma espécie de homem de outro planeta, ou uma personagem saída de um conto de fadas diferente daquele que ela vivia no momento. Ao mesmo tempo, ela também se percebeu a si mesma de uma maneira completamente diferente; ela era uma pessoa especial, extraordinária, não apenas uma pessoa comum, não apenas uma jovem de quinze anos: ela era Sofia Amundsen e só ela era assim!

— O que você está vendo? — perguntou Alberto.

— Vejo que você é um pássaro muito esquisito.

— É mesmo?

— Acho que nunca vou entender como é ser outra pessoa. Não há duas pessoas iguais em todo o mundo.

— E a floresta?

— Ela não parece mais ser a mesma. Ela é como um universo de muitos contos fantásticos.

— Foi o que pensei. O vidro azul é o individualismo. Ele foi a reação de Søren Kierkegaard à filosofia da unidade do Romantismo. E não foi por acaso que o escritor de contos fantásticos Hans Christian Andersen foi contemporâneo de Kierkegaard. Ele tinha o mesmo olhar aguçado para a infinita riqueza de detalhes da natureza. Cem anos antes, este mesmo olhar já havia estado presente em Leibniz, que reagiu à filosofia da unidade de Spinoza do mesmo modo como Kierkegaard reagiu à de Hegel.

— Estou ouvindo o que você diz, mas você me parece tão estranho que tenho de me esforçar para não rir.

— Entendo. Então beba mais um golinho do vidro vermelho. Vamos nos sentar aqui na escada da entrada. Ainda temos de falar alguma coisa sobre Kierkegaard antes de terminarmos nosso encontro de hoje.

Sentaram-se e Sofia bebeu um golinho do vidro vermelho. No mesmo instante as coisas dispersas voltaram a se concentrar, só que um pouco demais, pois Sofia sentiu novamente que as diferenças haviam deixado de ser importantes. Tocou os lábios rapidamente no gargalo do frasco azul e o mundo ficou mais ou menos como era antes de Alice chegar trazendo aqueles frascos com líquidos estranhos.

— Mas qual é verdadeiro? — perguntou Sofia. — É o líquido vermelho ou o azul que nos permite experimentar o mundo como realmente ele é?

— Ambos, Sofia. Não podemos dizer que os românticos estavam enganados. Mas talvez eles tenham sido parciais demais.

— E o líquido azul?

— Acho que Kierkegaard deve ter tomado uns bons goles dele. De qualquer forma, ele tinha o olhar muito aguçado para a importância do indivíduo. Somos mais do que “filhos de nosso tempo”, dizia ele. Cada um de nós também é um indivíduo único, que só vive esta única vez.

— E parece que Hegel não se interessou muito por isto, não é?

— Exato. Hegel estava mais preocupado com as grandes linhas da história. E foi exatamente isto que deixou Kierkegaard irritado. Ele disse que a filosofia da unidade dos românticos e que o historicismo de Hegel tinham tirado do indivíduo a responsabilidade pela sua própria vida. Para Kierkegaard, Hegel e os românticos eram farinha do mesmo saco.

— É compreensível que ele tenha ficado furioso.

— Søren Kierkegaard nasceu em Copenhague em 1813 e foi criado por um pai muito severo, de quem herdou também certa melancolia religiosa.

— Isto não me parece nada bom.

— Não mesmo. Esta melancolia chegou mesmo a levar o jovem Kierkegaard a romper um noivado, fato que não foi bem recebido pela burguesia de Copenhague. Assim, desde muito cedo ele foi uma pessoa marginalizada e alvo de chacotas. Bem, a verdade é que logo ele passaria a dar o troco aos outros à sua volta e se tornaria paulatinamente aquilo que Ibsen chamou de “um inimigo do povo”.

— Tudo por causa do rompimento de um noivado?

— Não, não só por causa disso. No fim de sua vida, sobretudo, Kierkegaard se tornou um crítico severo de toda a cultura européia. Ele dizia que toda a Europa estava a caminho da bancarrota. Kierkegaard achava que os tempos em que vivia eram totalmente destituídos de paixão e engajamento, e criticava duramente a atitude tépida e frouxa da Igreja. Sua crítica à chamada “igreja de domingo” podia ser qualquer coisa menos sutil.

— Hoje em dia fala-se do “cristianismo da confirmação”. Isto porque muitas pessoas só passam pela confirmação para ganhar presentes.

— Sim, você tem razão. Para Kierkegaard, o cristianismo era ao mesmo tempo tão avassalador e tão adverso à razão que só podia ser “ou isto, ou aquilo”. Quer dizer, ele achava que não era possível ser “um pouco cristão”, ou então “cristão até certo ponto”. Pois ou Jesus Cristo tinha ressuscitado no domingo de Páscoa, ou não. E se ele realmente tivesse se levantado dos mortos, isto seria algo tão avassalador que teria necessariamente de marcar toda a nossa vida.

— Entendo.

— Mas Kierkegaard observava que a Igreja e a maioria dos cristãos de seu tempo tinham uma posição extremamente evasiva em relação às questões religiosas. E ele não aceitava isto de jeito nenhum. Religião e razão eram, para ele, como fogo e água. Kierkegaard achava que não bastava achar “verdadeiro” o cristianismo. Ter uma fé cristã significava seguir os passos de Jesus.

— E o que isto tinha a ver com Hegel?

— Opa! Talvez tenhamos começado pela ponta errada.

— Então sugiro que você engate marcha à ré e comece do começo.

— Aos dezessete anos, Kierkegaard começou a estudar teologia, mas logo foi se interessando cada vez mais por questões filosóficas. Doutorou-se aos vinte e oito anos com a tese “O conceito da ironia em Sócrates”. Nesta obra, Kierkegaard acerta as contas com a ironia romântica e com a forma descompromissada de os românticos brincarem com a ilusão. À ironia romântica Kierkegaard contrapõe a “ironia socrática”. Sócrates também fizera uso do recurso estilístico da ironia, mas só com o intuito de chamar a atenção de seus ouvintes para uma atitude mais séria em relação à vida. Sócrates era para Kierkegaard, ao contrário do que significa para os românticos, um pensador existencial, ou seja, alguém que transporta toda a sua existência para dentro de sua reflexão filosófica. Ao contrário dos românticos, que para Kierkegaard não tinham feito nada disso.

— Entendo.

— Depois de romper seu noivado, Kierkegaard viajou em 1841 para Berlim, onde assistiu a conferências de alguns filósofos, dentre eles Schelling.

— Ele chegou a se encontrar com Hegel em Berlim?

— Não. Hegel já havia falecido dez anos antes, embora continuasse a viver “em espírito” em Berlim e em muitas partes da Europa. Seu “sistema” era usado como uma espécie de explicação geral para todas as perguntas imagináveis. Kierkegaard assumiu uma posição radicalmente oposta e explicou que as “verdades objetivas”, com as quais se ocupava a filosofia hegeliana, eram totalmente irrelevantes para a existência do homem enquanto indivíduo.

— E que verdades seriam relevantes?

— Para Kierkegaard, mais importante do que a busca de uma VERDADE com letras maiúsculas era a busca por verdades que são importantes para a vida de cada indivíduo. Ele dizia que o importante era encontrar “a minha verdade”, a verdade de cada um. Ele opunha o indivíduo ao “sistema”, portanto. Kierkegaard dizia que Hegel também tinha se esquecido de que era apenas uma pessoa. Ele zombava do tipo do professor hegeliano que vivia no alto de uma torre de marfim e que, preocupado em explicar os mistérios da vida, esquecia o seu próprio nome, esquecia-se de que era uma pessoa, uma pessoa como outra qualquer, e não meia dúzia de parágrafos bem elaborados que de verbo tinham se tornado carne.

— E o que é o ser humano para Kierkegaard?

— Isto não dá para responder de uma maneira geral. Kierkegaard não está nem um pouco interessado numa descrição genérica da natureza ou do “ser” humano. Fundamental para ele é a existência de cada um. E o homem não experimenta sua existência atrás de uma escrivaninha. Somente quando agimos, e sobretudo quando fazemos uma escolha, é que nos relacionamos com nossa própria existência. Uma história que se conta sobre Buda pode ilustrar o que Kierkegaard quer dizer.

— Sobre Buda?

— Sim, pois a filosofia de Buda também tem como ponto de partida a existência humana. Certa vez, um monge disse a Buda que ele dava respostas pouco claras para perguntas importantes, tais como o que é o mundo ou o ser humano. Buda respondeu com o exemplo de uma pessoa que é ferida por uma seta envenenada. O ferido não tem qualquer interesse teórico em saber de que material a seta é feita, em que tipo de veneno ela foi embebida ou de que ângulo ela o atingiu.

— Provavelmente, o que ele quer é que alguém lhe extraia a seta envenenada e cuide do ferimento.

— Não é mesmo? Isto sim seria existencialmente importante para ele. Tanto Buda quanto Kierkegaard tinham plena consciência de que só viveriam por um curto período de tempo. E, como dissemos, nesse caso não dá para ficar sentado atrás de uma escrivaninha, especulando sobre o espírito do mundo.

— Entendo.

— Kierkegaard também disse que a verdade era “subjetiva”. Não no sentido de que é totalmente indiferente o que pensamos ou aquilo em que acreditamos. Kierkegaard só queria dizer que as verdades realmente importantes são pessoais. Somente tais verdades são “verdades para mim”, são verdades para cada um.

— Você poderia me dar um exemplo dessas verdades subjetivas?

— Uma questão importante, por exemplo, é a de se saber se o cristianismo é verdade. Para Kierkegaard, esta não é uma questão para ser encarada do ponto de vista teórico ou acadêmico. Para alguém que se entende como algo que existe, trata-se aqui de vida ou morte. E isto não se discute simplesmente porque se gosta de discutir. Trata-se de algo que deve ser abordado com absoluta paixão.

— Entendo.

— Quando você cai na água, você não fica teorizando sobre a questão de saber se vai ou não se afogar. Também não é interessante ou desinteressante saber se há crocodilos na água. Trata-se de uma questão de vida ou morte.

— Claro!

— É preciso distinguir, portanto, entre a questão filosófica de saber se Deus existe e a relação do indivíduo para com esta mesma questão. Trata-se aqui de questões com as quais cada um tem de se confrontar sozinho. Além disso, não podemos abordar estas questões através da . Kierkegaard não considera essencial aquilo que somos capazes de compreender com nossa razão.

— Não entendi.

— Oito mais quatro são doze, Sofia. Podemos estar absolutamente certos quanto a isto. Trata-se de um exemplo para as verdades racionais, sobre as quais falaram todos os filósofos desde Descartes. Mas nós as incluímos em nossas orações antes de dormir? E por acaso ficamos quebrando a cabeça sobre elas em nosso leito de morte? Não. Por mais “objetivas” ou “genéricas” que tais verdades sejam, é exatamente por isso que elas são tão pouco importantes para a existência de cada um.

— E a questão da fé?

— Você não pode saber se uma pessoa te perdoa quando você faz alguma coisa de errado para ela. Trata-se de uma questão com a qual você está profundamente envolvida. E exatamente por isso ela é existencialmente importante para você. Você só pode acreditar ou ter esperança de que assim seja. Apesar disso, essas coisas são mais importantes para você do que o fato incontestável de que a soma dos ângulos de um triângulo é cento e oitenta graus. Por fim, ninguém pensa na lei da causa e efeito ou nas “formas da sensibilidade” de Kant quando ganha o primeiro beijo.

— Não, isto seria uma loucura.

— E a fé assume importância maior quando se trata de questões religiosas. Kierkegaard acha que se quero entender Deus objetivamente, isto significa que eu não creio; e precisamente porque não posso entendê-lo objetivamente é que preciso crer. Assim, se quero preservar minha fé, preciso estar sempre atento para não me esquecer de que estou na incerteza objetiva “sobre setenta mil braças de água”, e ainda assim creio.

— Esta foi da pesada.

— Antes de Kierkegaard, muitos tinham tentado provar a existência de Deus ou então entendê-la racionalmente. Mas quando nos envolvemos com tais provas de existência de Deus ou com tais argumentos racionais, perdemos nossa fé e, com ela, nosso fervor religioso. Isto porque o fundamental não é saber se o cristianismo é verdadeiro, mas se é verdadeiro para mim. Na Idade Média expressava-se o mesmo pensamento com a fórmula “credo quia absurdum”.

— O quê?

— A expressão significa “Creio, porque é absurdo”. Se o cristianismo tivesse apelado à razão, e não ao nosso outro lado, ele não seria uma questão de fé.

— Agora entendi.

— Vimos, portanto, o que Kierkegaard entendia por “existência”, “verdade subjetiva” e “fé”. Kierkegaard chegou até esses conceitos por meio da crítica à razão filosófica, sobretudo a Hegel. Só que esses conceitos também expressam toda uma crítica da civilização. Para Kierkegaard, a sociedade urbana moderna transformou o homem em “público”, em “instância coletiva”, e a primeira característica da multidão é justamente este “palavrório” inconseqüente. Hoje talvez empregássemos a palavra “conformidade”, ou seja, o fato de que todos “acham” ou “defendem” uma mesma coisa, mas ninguém tem uma relação verdadeiramente apaixonada com o tema.

— Imagino o que Kierkegaard não teria dito aos pais de Jorunn!

— De fato, ele não foi muito indulgente com os outros. Foi um crítico mordaz, capaz de usar uma ironia cáustica. Ele escreveu, por exemplo: “A multidão é a inverdade”. Ou: “A verdade está sempre na minoria”. Kierkegaard disse também que a maioria das pessoas se relacionava de forma extremamente inconseqüente com a vida.

— Colecionar bonecas Barbie é uma coisa. Ser uma Barbie é ainda pior…

— Isto nos leva à teoria de Kierkegaard sobre os três estágios na trajetória da vida.

— O que você disse?

— Kierkegaard achava que havia três possibilidades diferentes de existência. Ele mesmo emprega a palavra “estágios”. A essas possibilidades ele dá o nome de “estágio estético”, “estágio ético” e “estágio religioso”. Quando emprega a palavra “estágio”, ele quer dizer que podemos estar vivendo num dos dois estágios inferiores e de repente conseguimos “saltar” para um estágio superior.

— Aposto que vem aí uma explicação. Eu mesma estou curiosa para saber em qual dos três estágios me encontro.

— Quem vive no estágio estético vive o momento e visa sempre ao prazer. Bom é aquilo que é belo, simpático ou agradável. Desse ponto de vista, tal pessoa vive inteiramente no mundo dos sentidos. O esteta acaba virando joguete de seus próprios prazeres e estados de ânimo. Negativo é tudo aquilo que aborrece, que “não é legal”, como se costuma dizer hoje em dia.

— Ah… Isso aí eu conheço muito bem.

— O romântico típico também é um esteta, pois não se trata aqui simplesmente de prazer sensorial. Uma pessoa que possui uma relação lúdica com a realidade, ou, por exemplo, com a arte ou a filosofia de que se ocupa, também vive num estágio estético. E mesmo diante da preocupação e do sofrimento é possível se adotar um comportamento estético ou “de mero observador”. Neste caso, é a vaidade que toma as rédeas de tudo. Peer Gynt, de Ibsen, é retrato do esteta típico.

— Acho que entendo o que Kierkegaard quer dizer.

— Você está se reconhecendo neste conceito?

— Não inteiramente. Mas acho que isto tudo lembra um pouco o major.

— Sim, sim, é possível, Sofia. Embora isto seja outro exemplo da ironia romântica kitsch que é peculiar a ele. Você deveria lavar a boca!!

— O que você disse?

— Bem… não foi sua culpa.

— Prossiga.

— Aquele que vive no estágio estético está sujeito a sentimentos de medo e a sensação de vazio. Mas se ele experimenta esses sentimentos, então também há esperança. Para Kierkegaard, o medo é uma coisa quase positiva. Ele é um sinal de que a pessoa se encontra numa “situação existencial”. O esteta pode então decidir se quer dar o salto para um estágio superior. Ou ele acontece, ou então não acontece. De nada ajuda estar na iminência de pular e depois não realizar o salto. Ou uma coisa ou outra. E também não é possível que outra pessoa dê o salto em seu lugar. Você mesma tem de decidir e você mesma tem que pular.

— É mais ou menos como quando alguém quer largar a bebida ou as drogas.

— Sim, talvez. Quando Kierkegaard fala dessa decisão, ele nos faz lembrar um pouco de Sócrates, para quem todo conhecimento verdadeiro vinha de dentro. A decisão que leva uma pessoa a saltar de uma visão de mundo estética para uma ética ou religiosa deve vir de dentro. É exatamente isto que Ibsen mostra em Peer Gynt. Outro exemplo magistral de uma escolha existencial nos é dado pelo romance Crime e castigo, do escritor russo Dostoievski. Quando terminarmos nosso curso de filosofia, você não pode deixar de ler este livro.

— Vamos ver. Quer dizer que Kierkegaard acha que quando a coisa fica séria para o lado de alguém, a pessoa escolhe outra forma de ver a vida.

— E talvez comece a viver num estágio ético. Este estágio é marcado pela seriedade e por decisões consistentes, tomadas segundo padrões morais. Você se recorda da ética do dever, de Kant, segundo a qual devemos tentar viver de acordo com a lei moral. Como Kant, Kierkegaard também dedica sua atenção neste assunto sobretudo ao temperamento humano. O essencial não é necessariamente o que se considera certo ou errado. O essencial é a decisão de se posicionar em relação ao que é certo e ao que é errado. O esteta se interessa apenas pelo que é divertido ou entediante.

— E não se corre o risco de se levar a vida um pouco a sério demais quando se vive assim?

— É claro que sim. Mas Kierkegaard ainda não está satisfeito com o estágio ético. Para ele, também chega o dia em que o homem zeloso se cansa de ser tão ordeiro e tão cônscio de seus deveres. Muitas pessoas passam bem tarde na vida por esta fase de tédio e de fadiga. E então é possível que algumas delas adotem uma atitude mais lúdica em relação à vida e retornem ao estágio estético. Outras, por sua vez, ousam mais um salto rumo ao próximo estágio, o estágio religioso. Elas ousam o grande salto rumo às “setenta mil braças de água” da fé. Elas preferem a fé ao prazer estético e aos mandamentos da razão. E embora possa ser desesperador “cair nas mãos do Deus vivo”, para usar uma expressão do próprio Kierkegaard, só nesse caso o homem pode se reconciliar com sua própria vida.

— Através do cristianismo, portanto.

— Sim. Para Kierkegaard, o estágio religioso era o cristianismo. Apesar disso, sua filosofia influenciou também muitos pensadores não-cristãos. Em nosso século [XX] surgiu uma chamada filosofia da existência, ou Existencialismo, fortemente inspirada em Kierkegaard.

Sofia olhou o relógio.

— São quase sete. Preciso voltar correndo para casa, senão minha mãe vai ficar louca comigo.

Despediu-se do seu professor de filosofia e desceu correndo rumo ao lago onde estava ancorado o barco a remo.

 

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