O mundo
de Sofia (Excertos)
O mundo de Sofia
De Jostein
Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.
Capítulo 29 (Excerto)
Marx
(Páginas 417-429.)
(…)
Mais uma vez sentaram-se à mesa próxima da janela que dava vista para o lago. Sofia ainda se lembrava muito bem de como tinha visto o lago depois de ter bebido o líquido azul. Agora os dois frascos estavam sobre o console da lareira. Sobre a mesa havia uma cópia em miniatura de um templo grego.
— O que é isto? — perguntou Sofia.
— Uma coisa de cada vez, minha cara.
E então Alberto começou a falar sobre Marx:
— Em 1841, quando Kierkegaard foi a Berlim, é provável que ele tenha se sentado ao lado de Karl Marx nas palestras de Schelling. Kierkegaard tinha escrito uma tese sobre Sócrates, e Karl Marx, na mesma época, tinha defendido o seu doutorado sobre Demócrito e Epicuro. Sobre o materialismo na Antigüidade, portanto. Nos trabalhos dos dois já estava embutido o rumo que suas reflexões filosóficas iriam tomar.
— Quer dizer, Kierkegaard se tornou um filósofo existencialista e Marx um materialista.
— Chamamos Marx de um materialista histórico. Voltaremos a isto mais adiante.
— Continue!
— Tanto Kierkegaard quanto Marx tomaram como ponto de partida a filosofia de Hegel. Ambos foram influenciados pela forma de pensar hegeliana, mas ambos também se distanciaram da noção hegeliana de espírito universal, ou daquilo que chamamos do idealismo de Hegel.
— Na certa Hegel era um tanto vago para eles.
— Exatamente. De modo muito geral, podemos dizer que a era dos grandes sistemas filosóficos terminou com Hegel. Depois dele, a filosofia toma um novo rumo. Os grandes sistemas especulativos dão lugar às “filosofias da existência” ou “filosofias da ação”, como também podemos chamá-las. É a isto que Marx se refere quando diz que até então os filósofos sempre tinham tentado interpretar o mundo, em vez de tentar modificá-lo. E são exatamente essas palavras que determinam uma virada importante na história da filosofia.
— Depois de ter me encontrado com Scrooge e com a menina da caixa de fósforos, posso entender tranqüilamente o que Marx quis dizer.
— O pensamento de Marx tem, portanto, um objetivo prático e político. É preciso salientar que ele não era apenas filósofo. Marx foi também historiador, sociólogo e economista.
— E ele foi pioneiro em todas essas áreas?
— De qualquer forma, nenhum outro filósofo foi mais importante para a prática política. Por outro lado, precisamos ter cuidado para não identificarmos com seu pensamento tudo o que depois dele se chamou de “marxista”. Dizem que o próprio Marx se tornou “marxista” por volta de 1845, mas que durante toda a sua vida ele manifestou seu desconforto quanto a esta designação.
— Jesus também não foi cristão?
— Também isto é discutível.
— Continue.
— Desde o início, seu amigo e colega Friedrich Engels contribuiu para o que mais tarde foi chamado de marxismo. No século passado, Lênin, Stalin, Mao e muitos outros reivindicaram o reconhecimento público por terem levado o marxismo mais adiante. Nos países do Leste, depois de Lênin, apareceu o conceito de “marxismo-leninismo”.
— Acho melhor a gente se concentrar no próprio Marx. Você o chamou de “materialista histórico”, não foi?
— Ele não foi um filósofo materialista como os atomistas da Antigüidade ou como os materialistas mecanicistas dos séculos XVII e XVIII. Mas ele achava que eram as condições materiais de vida numa sociedade que determinavam nosso pensamento e nossa consciência. Para ele, tais condições materiais eram decisivas também para a evolução da história.
— Isso soa verdadeiramente diferente de Hegel e de seu espírito universal.
— Hegel havia explicado que a evolução histórica surgia da tensão entre opostos, que eram resolvidos numa mudança repentina. Desaparecidos os opostos, desaparecia também a tensão, é claro. Marx concordava com este pensamento. Ele achava apenas que o pobre Hegel tinha colocado tudo de cabeça para baixo.
— Mas não o tempo todo, espero.
— Hegel chamava de “espírito universal” ou “razão universal” a força que impelia a história para frente. Marx achava que este ponto de vista colocava a realidade de cabeça para baixo. Ele queria mostrar que as condições materiais de vida eram decisivas para a história. Nesse sentido, Marx dizia que não eram os pressupostos espirituais numa sociedade que levavam a modificações materiais, mas exatamente o oposto: as condições materiais determinavam, em última instância, também as espirituais. Além disso, Marx achava que as forças econômicas numa sociedade eram as principais responsáveis pelas modificações em todos os outros setores e, conseqüentemente, pelos rumos do curso da história.
— Você poderia me dar um exemplo?
— A filosofia e a ciência na Antigüidade tinham sido cultivadas quase como algo completamente desvinculado da realidade prática. Os antigos filósofos não estavam muito interessados em saber se os seus conhecimentos teóricos poderiam modificar para melhor as coisas na prática.
— Não?
— Isto se explica pelo modo como eram organizadas as sociedades em que eles viviam. A vida e a produção de alimentos nas sociedades da Antigüidade tinham por base sobretudo o trabalho escravo. Por esta razão, os cidadãos não tinham a menor necessidade de melhorar a produção com novidades práticas. Temos aí um exemplo de como o pensamento pode ser influenciado pelas relações materiais numa sociedade.
— Entendo.
— As relações materiais, econômicas e sociais numa sociedade são chamadas por Marx de bases desta sociedade. O modo de pensar de uma sociedade, suas instituições políticas, suas leis e também sua religião, moral, arte, filosofia e ciência são por ele chamados de superestrutura.
— Base e superestrutura, portanto.
— E talvez agora você possa me passar o templo grego.
— Com todo o prazer.
— Isto é uma cópia em miniatura do antigo Partenon, na Acrópole. Você chegou a vê-lo como ele realmente é.
— Na fita de vídeo, você quer dizer.
— Observe que o templo possui um telhado realmente elegante e ricamente ornamentado. Talvez sejam o telhado e o frontão os dois elementos que mais nos chamam a atenção à primeira vista. E é exatamente isto que podemos chamar de superestrutura. Só que o telhado não pode pairar sozinho no ar.
— Ele é sustentado por colunas.
— A construção inteira precisa de um alicerce sólido, uma base que a sustenta como um todo. Para Marx, as condições materiais “sustentam”, por assim dizer, todos os pensamentos e idéias de uma sociedade. Isto significa que a superestrutura de uma sociedade é o reflexo de sua base material.
— Você está querendo dizer que a teoria das idéias de Platão era apenas um reflexo das olarias e da viticultura de Atenas?
— Não, não é tão simples assim. O próprio Marx chamou expressamente a atenção para isto. É claro que a base e a superestrutura de uma sociedade se condicionam reciprocamente. Se Marx tivesse negado isto, ele teria sido um “materialista mecanicista”. Mas por ele ter reconhecido que entre a base e a superestrutura de uma sociedade também existe uma interação, uma tensão, nós o chamamos de materialista dialético. Você deve estar lembrada do que Hegel entendia por uma evolução dialética. E, a propósito, é bom dizer que Platão não trabalhou nem como oleiro, nem como viticultor.
— Entendo. Você ainda vai falar mais um pouco sobre o templo?
— Sim. Observe cuidadosamente a base dele. Será que você poderia descrevê-la para mim?
— As colunas estão apoiadas numa fundação composta por três camadas, ou degraus.
— Da mesma forma, podemos distinguir numa sociedade três camadas. Embaixo de tudo está o que Marx chama de as condições naturais de produção de uma sociedade. Nela estão compreendidas as condições naturais, os recursos naturais que preexistem, por assim dizer, à própria sociedade: o tipo de vegetação, as matérias-primas, as riquezas do solo, entre outros. Tais condições constituem os verdadeiros muros de arrimo na fundação de uma sociedade; e estes muros de arrimo estabelecem claras restrições quanto ao tipo de produção possível e, por extensão, quanto ao próprio tipo de sociedade e de cultura que podem florescer em determinado lugar.
— Não se pode pescar arenque no Saara, nem plantar tâmaras na Lapônia.
— Isso mesmo. Numa cultura nômade, porém, as pessoas pensam de forma completamente diferente do que, por exemplo, num povoado de pescadores na Noruega. A próxima camada é formada, então, pelas forças de produção de uma sociedade. Aqui, Marx está pensando na força de trabalho do próprio homem, mas também nos tipos de equipamentos, ferramentas e máquinas, os chamados meios de produção.
— Antigamente, as pessoas saíam remando para apanhar os peixes. Hoje em dia eles são apanhados em traineiras gigantescas.
— E com isto você já está passando para a terceira camada da base de uma sociedade. A coisa aqui se complica um pouco, pois se trata de quem detém os meios de produção numa sociedade e de como o trabalho é organizado no interior da sociedade. Trata-se, portanto, das relações de posse e da divisão de trabalho. Marx chama isto de relações de produção de uma sociedade. Elas são, portanto, a terceira camada da base social.
— Entendo.
— Até aqui podemos concluir, portanto, que para Marx o modo de produção numa sociedade determina que relações políticas e ideológicas podemos encontrar nela. Não é por acaso que hoje em dia pensamos diferente, e possuímos uma moral diferente, das pessoas que viviam numa sociedade feudal antiga.
— Quer dizer que Marx não acreditava num direito natural válido para qualquer época.
— Não. Para Marx, a resposta à pergunta sobre o que é moralmente correto era um produto da base social. De fato, não é por acaso que nas antigas comunidades de camponeses os pais determinavam com quem seus filhos deviam se casar. Afinal, tratava-se também de saber quem herdaria as terras. Numa grande cidade moderna, as relações sociais são outras; conseqüentemente, também são outras as formas pelas quais as pessoas buscam seus parceiros. Podemos conhecer nossos companheiros ou companheiras numa festa, ou então numa discoteca, e, se nos sentirmos suficientemente apaixonados um pelo outro, podemos passar a dividir uma casa ou um apartamento.
— Eu não ia gostar nada se meus pais escolhessem meu futuro marido.
— Não, pois você é fruto de sua época. Marx também afirmava que em geral era a classe dominante numa sociedade que determinava o que é certo e o que é errado. Pois, para ele, toda a história era a história das lutas de classes, ou seja, das discussões sobre a quem deveriam pertencer os meios de produção.
— Mas os pensamentos e as idéias das pessoas também não contribuem para as mudanças da história?
— Sim e não. Marx tinha consciência de que as relações na superestrutura de uma sociedade tinham algum efeito sobre a sua base. Só que ele negava que a superestrutura tivesse uma história só sua, independente do resto. Para ele, o que tinha feito a história avançar da sociedade escravocrata da Antigüidade até a sociedade industrial eram sobretudo as modificações na base da sociedade.
— Sim, você já disse isso.
— Em todas as fases da história existe, segundo Marx, um conflito entre duas classes dominantes da sociedade. Na sociedade escravocrata da Antigüidade havia um conflito entre os cidadãos livres e os escravos; na sociedade feudal da Idade Média, um conflito entre os senhores feudais e os vassalos e, mais tarde, entre nobres e plebeus. Mas no tempo de Marx, numa sociedade burguesa ou, como dissemos, capitalista, ele via este conflito sobretudo entre capitalistas e trabalhadores, ou entre capitalistas e o proletariado, quer dizer, entre os que possuíam e os que não possuíam os meios de produção. E como a classe “que estava por cima” jamais abriria mão voluntariamente de sua posição de dominância, só uma revolução seria capaz de provocar uma modificação nesse estado de coisas.
— E a sociedade comunista?
— Marx dedicou-se especialmente à questão da transição de uma sociedade capitalista para uma sociedade comunista. Para tanto, ele fez uma análise detalhada do modo de produção capitalista. Só que antes de abordarmos esta questão, vamos falar um pouco sobre o que Marx pensava a respeito do trabalho humano.
— Vamos lá.
— Antes de se tornar comunista, o jovem Marx interessava-se pelo que realmente acontece com o homem quando ele trabalha. Hegel também analisou este aspecto e constatou uma relação de troca mútua, uma relação “dialética” entre o homem e a natureza. O jovem Marx chegou à mesma conclusão: quando o homem altera a natureza, ele mesmo também se altera. Ou, em outras palavras: quando o homem trabalha, ele interfere na natureza e deixa nela suas marcas; mas neste processo de trabalho também a natureza interfere no homem e deixa marcas em sua consciência.
— Diz-me com que trabalhas e te direi quem és.
— Exatamente. Marx dizia que o modo como trabalhamos marca a nossa consciência, mas a nossa consciência também marca o modo como trabalhamos. Podemos dizer que existe uma interação entre “mão” e “cabeça”. Desta forma, o conhecimento do homem está intimamente relacionado com seu trabalho.
— Então deve ser horrível ficar desempregado.
— Sim. De certa forma, quem não tem um trabalho está solto no ar. Hegel já havia dito isso. Para Hegel e Marx o trabalho é uma coisa positiva; uma coisa que pertence à condição humana.
— Então também deve ser positivo ser um trabalhador.
— Fundamentalmente, sim. Mas é exatamente sobre este ponto que Marx constrói sua crítica avassaladora do modo de produção capitalista.
— Estou curiosa!
— No sistema capitalista, o trabalhador trabalha para outra pessoa. Dessa forma, seu trabalho é algo externo a ele mesmo; em outras palavras, seu trabalho não lhe pertence. O trabalhador se aliena em relação a seu trabalho e, ao mesmo tempo, em relação a si mesmo. Ele perde sua dignidade humana. Usando uma expressão hegeliana, Marx fala de alienação.
— Entendo o que você está dizendo. Eu tenho uma tia que embrulha bombons há mais de vinte anos numa fábrica. Ela diz que odeia ir para o trabalho todos os dias.
— E se ela odeia seu trabalho, Sofia, de alguma forma ela também se odeia.
— De qualquer forma ela odeia bombons.
— Na sociedade capitalista, o trabalho é organizado de modo a que um trabalhador realize um trabalho escravo para outra classe social. Desta forma, o trabalhador “cede” não apenas sua própria força de trabalho, como também toda a sua existência humana.
— Mas é tão ruim assim mesmo?
— Estamos falando de como Marx via as coisas. Por isso precisamos tomar como ponto de partida as condições sociais vigentes na Europa por volta de 1850. E nesse caso, a resposta à sua pergunta é “SIM”, em alto e bom som. Na grande maioria dos casos, os trabalhadores cumpriam uma jornada de trabalho de catorze horas dentro de fábricas geladas. E o que ganhavam era tão pouco, que até crianças e mulheres grávidas tinham de trabalhar. Tudo isto levou a condições sociais indescritíveis. Muitas vezes, parte do salário era paga em forma de aguardente barata e muitas mulheres tinham de se prostituir. Seus clientes eram os respeitáveis cidadãos da cidade. Em poucas palavras: o trabalho, que deveria ser um símbolo da dignidade humana, transformara o trabalhador num verdadeiro animal.
— Fico furiosa com essas coisas.
— Marx também ficava. Ao mesmo tempo, os filhos dos burgueses podiam tocar violinos em salões amplos, aquecidos, depois de terem tomado um banho reconfortante. Ou então podiam sentar-se ao piano, antes de saborear um delicioso almoço com quatro pratos principais. Muitas vezes eles também tocavam violino ou piano à tardinha, depois de um longo passeio a cavalo.
— Que injustiça!
— Marx também achava. Em 1848, ele publicou junto com Friedrich Engels o famoso Manifesto comunista. A primeira frase desse manifesto é a seguinte: “Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo”.
— Puxa… me dá até medo.
— Pois os burgueses sentiram a mesma coisa. E foi então que o proletariado começou a se rebelar. Você quer ouvir como termina o manifesto?
— Quero.
— Então vamos lá: “Os comunistas não se importam de revelar suas idéias e intenções. Eles declaram abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados por meio de uma violenta revolução de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam diante da revolução comunista. Os proletários não têm nada a perder além de seus grilhões. Eles têm um mundo a ganhar! Proletários de todo o mundo, uni-vos!”.
— Se as condições de vida eram tão ruins quanto você falou, eu também teria assinado este manifesto. Mas hoje em dia as coisas mudaram, não é mesmo?
— Na Noruega sim, mas não em todos os lugares. Ainda há milhões de pessoas vivendo em condições subumanas. Ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas fabricam coisas que deixam cada vez mais ricos os capitalistas. É isto que Marx chama de exploração.
— Você poderia explicar um pouco melhor esta palavra?
— Quando o trabalhador fabrica uma mercadoria, ela tem certo valor de venda.
— Sim.
— Se você descontar do preço de venda da mercadoria o salário do trabalhador e outros custos de produção, sempre acaba sobrando certa quantia. Esta quantia Marx a chama de mais-valia, ou lucro. Isto significa que o capitalista toma para si um valor que na verdade foi gerado pelo trabalhador. E é isto que Marx chama de exploração.
— Entendo.
— Pode acontecer, então, de o capitalista aplicar uma parte do lucro em novo capital, por exemplo, na modernização das instalações de produção. Ele o faz porque quer produzir as mercadorias a preços mais baixos e espera que, com isto, seus lucros aumentem.
— Sim, isso é lógico.
— Sim, isso parece lógico. Mas Marx dizia que nesse caso, como em muitos outros, as coisas não aconteciam no longo prazo exatamente como o capitalista tinha imaginado.
— O que ele queria dizer com isso?
— Marx achava o modo de produção capitalista contraditório em si. Para ele, o capitalismo era um sistema econômico autodestrutivo, sobretudo porque lhe faltava um controle racional.
— Quer dizer que no fundo isto era bom para os oprimidos, não era?
— Podemos dizer que sim. Para Marx, em todo caso, era certo que o sistema capitalista acabaria perecendo vítima de suas próprias contradições. Ele considerava o capitalismo “progressivo”, isto é, algo que aponta para o futuro, mas só porque via nele um estágio necessário a caminho do comunismo.
— Você pode me dar um exemplo de como o capitalismo seria autodestrutivo?
— Sim. Dissemos que o capitalista fica com um excedente de dinheiro e aplica uma parte deste lucro na modernização de sua empresa. É claro que paralelamente a isto ele tem de pagar as aulas de violino e também arcar com os custos de certos hábitos caros de sua esposa.
— Sem dúvida.
— Mas isto não é tão importante nesse contexto. O capitalista se moderniza, portanto; quer dizer, compra novas máquinas e por isso não precisa mais de tantos empregados. E o faz para aumentar sua competitividade em relação às outras empresas.
— Entendo.
— Mas ele não é o único que pensa assim. Isto significa que toda a produção de um setor vai sendo aos poucos racionalizada e se tornando mais efetiva. As fábricas ficam cada vez maiores e vão caindo nas mãos de uns poucos. E o que acontece depois, Sofia?
— Hum…
— Cada vez se precisa de menos mão de obra e cada vez mais trabalhadores ficam desempregados. Em decorrência disso agravam-se os problemas sociais. Tais crises, nos diz Marx, seriam o sinal de que o capitalismo estaria se aproximando de seu fim. Mas Marx vê ainda outros traços autodestrutivos no capitalismo. Para aumentar a margem de lucro ligada aos meios de produção, sem diminuir a mais-valia que garante a produção a preços competitivos… o que faz o capitalista, hein? Será que você sabe me dizer?
— Não, não sei.
— Imagine que você possui uma fábrica, as finanças não vão muito bem e você corre perigo de abrir falência. O que você pode fazer para economizar dinheiro?
— Posso baixar os salários, por exemplo.
— Muito inteligente! Isto seria realmente a coisa mais inteligente que você poderia fazer. Mas se todos os capitalistas forem tão espertos quanto você, e eles são, os trabalhadores vão ficar tão empobrecidos que não terão dinheiro para comprar mais nada. Falamos, neste caso, de uma queda do poder aquisitivo de uma sociedade. E então entramos num círculo vicioso. Marx achava que a propriedade privada capitalista estava com os dias contados e que a situação descrita acima estava bem próxima de uma situação revolucionária.
— Entendo.
— Para resumir: Marx acreditava que, no fim, os proletários iam acabar se rebelando para tomar o poder sobre os meios de produção.
— E depois?
— Segundo Marx, o resultado disso seria o surgimento de uma nova sociedade de classes, na qual o proletariado subjugaria à força a burguesia. Esta fase de transição Marx a chama de ditadura do proletariado. Depois disso, acreditava ele, a ditadura do proletariado daria lugar a uma sociedade sem classes, o comunismo. E esta seria uma sociedade na qual os meios de produção pertenceriam “a todos”, isto é, ao povo. Em tal sociedade, “cada um trabalharia de acordo com sua capacidade e ganharia de acordo com suas necessidades”. O trabalho pertenceria ao próprio povo e terminaria, assim, a alienação.
— Isto soa muito bonito. Mas foi mesmo o que aconteceu? Não houve uma revolução?
— Sim e não. Os cientistas econômicos de hoje provam que Marx estava enganado em vários pontos importantes, inclusive em suas análises das crises do capitalismo. Marx também não prestou a devida atenção à exploração da natureza, que para nós é cada vez mais ameaçadora. Apesar disso…
— Sim?
— Apesar disso, o marxismo provocou grandes transformações. Não há dúvida de que o socialismo, que se baseia em Marx em sua luta pela igualdade social, apesar de não concordar com tudo o que ele disse e apesar de rejeitar a ditadura do proletariado, por exemplo, conseguiu a muito custo chegar a uma sociedade mais humana. Na Europa, pelo menos, vivemos hoje numa sociedade mais justa e mais solidária do que viviam as pessoas na época de Marx. E não podemos negar que devemos isso ao movimento socialista como um todo.
— Dá para explicar um pouco melhor este movimento socialista?
— Depois de Marx, o movimento socialista dividiu-se em duas correntes principais: de um lado, a democracia social; de outro, o leninismo. A democracia social, cujo objetivo era encontrar um caminho paulatino e pacífico para uma ordem social mais justa, prevaleceu na Europa ocidental. Podemos chamar o caminho por ela percorrido de uma lenta revolução. O leninismo, por sua vez, que continuou a acreditar que só uma revolução seria capaz de combater a antiga sociedade de classes, ganhou importância na Europa oriental, na Ásia e na África. Cada uma dessas ramificações procura lutar a seu modo contra a penúria e a opressão.
— Mas o resultado disso não acabou sendo uma nova forma de opressão? Por exemplo, na União Soviética e no Leste europeu?
— Sem dúvida. E aqui temos mais uma vez a prova de que tudo o que o homem toca se transforma numa mistura de bem e de mal. Seria totalmente errôneo responsabilizar Marx pelos descaminhos e pelo lado negro dos chamados países socialistas cinqüenta ou cem anos depois de sua morte. O que podemos dizer é que ele poderia ter pensado que até mesmo o comunismo, se é que um dia existiria, não poderia ser administrado senão por pessoas. E as pessoas cometem erros. Não é possível querer ter o céu na terra. As pessoas sempre criarão novos problemas.
— Com toda a certeza.
— Bem, acho que podemos ir colocando um ponto final por aqui, Sofia.
— Espere um pouco! Você não disse alguma coisa parecida com “só existe justiça entre iguais”?
— Não. Foi Scrooge quem disse isto.
— Como é que você sabe que foi ele quem disse isto?
— Bem, nós dois somos frutos da imaginação do mesmo autor. Deste modo estamos muito mais ligados um ao outro do que pode parecer à primeira vista.
— Você e sua ironia incorrigível!
— Ironia em dose dupla, Sofia.
— Mas vamos voltar um pouquinho a esta questão da injustiça. Você disse que Marx considerava o capitalismo uma sociedade injusta. Como você definiria uma sociedade justa?
— John Rawls, um filósofo da moral de inspiração marxista, sugeriu uma interessante situação hipotética para ilustrar este problema: imagine que você fosse membro de um Alto Conselho, cuja tarefa fosse elaborar todas as leis de uma sociedade do futuro.
— Eu bem que gostaria de fazer parte deste Conselho.
— Os membros do Conselho teriam de pensar em absolutamente tudo, pois assim que estivessem de acordo sobre todas as questões e assinassem as leis, cairiam mortos.
— Deus meu!
— E alguns segundos depois voltariam à vida exatamente na sociedade cujas leis tinham elaborado. E agora vem o mais importante: nenhum deles saberia onde acordaria nesta sociedade, quer dizer, ninguém saberia qual seria a posição que iria ocupar dentro dela.
— Entendo.
— Tal sociedade seria uma sociedade justa, pois cada um estaria entre seus iguais.
— E cada uma entre suas iguais!
— Claro. Isto porque no jogo proposto por Rawls ninguém saberia se acordaria homem ou mulher nesta nova sociedade. E como as chances seriam de cinqüenta por cento para cada probabilidade, a sociedade seria igualmente atrativa tanto para homens quanto para mulheres.
— Isto me soa muito atraente.
— Agora, diga-me: a Europa era uma sociedade assim nos tempos de Marx?
— Não!
— Talvez você possa me dar um exemplo de uma sociedade assim em nossos dias…
— Bem… boa pergunta.
— Pense sobre o assunto. Por ora chega de Marx.
— O que você disse?
— Próximo capítulo!
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