O mundo de Sofia (Excertos)

 

PRÓXIMA PÁGINA

 

 

O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder
Cia. das Letras, São Paulo, 1998
Tradução de João Azenha Jr.

Capítulo 32 (Excerto)
Nosso próprio tempo

(Páginas 482-501.)

(…)

Na manhã seguinte, Sofia foi acordada por sua mãe, que queria lhe desejar um bom dia antes de ir para o trabalho. Ela entregou a Sofia uma pequena lista de coisas que deveriam ser compradas na cidade para a festa.

Nem bem ela tinha saído de casa, o telefone tocou. Era Alberto. Ele sabia muito bem quando Sofia estava sozinha em casa.

— Como vai o plano secreto?

— Psiu! Nenhuma palavra! Não podemos dar a ele a menor chance de pensar a respeito disso.

— Acho que consegui direitinho desviar a atenção dele ontem.

— Ótimo.

— E quanto à filosofia?

— É justamente por causa disso que estou ligando. Já chegamos ao nosso século [XX] e daqui para a frente você vai ter de se virar sozinha. As bases para isto você já tem, mas ainda vamos nos encontrar mais uma vez para falarmos um pouco sobre o nosso próprio tempo.

— Preciso ir até a cidade…

— Tanto melhor. Eu acabei de dizer que vamos conversar sobre o nosso tempo.

— E daí?

— Seria bom, portanto, estarmos bem no meio da agitação, por assim dizer.

— E vamos nos encontrar na sua casa?

— Não, aqui não. A casa está toda revirada porque estou procurando microfones escondidos.

— Ah…

— Na praça do mercado tem um café que foi inaugurado há pouco tempo. É o Café Pierre. Você conhece?

— Conheço. A que horas vamos nos encontrar?

— Ao meio-dia.

— Então até meio-dia, no Café Pierre.

— Até lá.

Dois minutos depois do meio-dia, Sofia entrou no Café Pierre. Era um desses cafés que estão na moda, com mesinhas redondas, cadeiras pretas e garrafas viradas de cabeça para baixo sobre dispositivos para dosagem automática de bebidas.

Não era um local muito grande e a primeira coisa que Sofia percebeu foi que Alberto ainda não tinha chegado. Quase todas as mesas estavam ocupadas, mas Sofia olhou cada um daqueles rostos e viu que nenhum deles era de Alberto.

Ela não estava acostumada a ir sozinha a esses lugares. Não seria melhor simplesmente dar meia-volta e voltar um pouco mais tarde para procurar Alberto?

Foi até ao balcão de mármore e pediu uma xícara de chá com limão. Depois pegou a xícara de chá e foi até uma mesa que estava desocupada. De lá ficou olhando a porta de entrada do café. As pessoas entravam e saíam, e tudo que Sofia via era que Alberto não chegava.

Se pelo menos ela tivesse trazido um jornal!

Finalmente, começou a olhar para os que estavam à sua volta. Por vezes seu olhar foi retribuído e por um instante ela se sentiu uma pessoa adulta. É certo que só tinha quinze anos, mas podia tranqüilamente passar por dezessete – ou pelo menos por dezesseis e meio.

O que será que aquelas pessoas sentadas no café pensavam sobre suas vidas? Sofia teve a impressão de que eles estavam ali por estar e que tinham ido ao café apenas para quebrar a rotina. Todos falavam muito e gesticulavam bastante, mas não parecia que estivessem falando sobre alguma coisa importante.

Sofia pensou em Kierkegaard, para quem o burburinho de vozes era o sinal mais evidente das multidões. Será que todas aquelas pessoas viviam no estágio estético? Ou será que havia alguma coisa que fosse existencialmente importante para elas?

Numa das primeiras cartas, Alberto escrevera que os filósofos se parecem com as crianças. E de novo Sofia teve medo de se transformar em adulto. E se ela também passasse a viver confortavelmente lá no fundo da pelagem do coelho que tinha sido tirado da cartola preta do universo?

Enquanto pensava sobre tudo isto, Sofia olhava de vez em quando para a porta do café. E de repente Alberto entrou apressado. Mesmo em pleno verão ele usava uma boina preta. Fora isto, usava também um casaco cinza “espinha de peixe” até a altura do quadril. Ele a viu imediatamente e veio até à mesa. Sofia pensou que se encontrar com ele em público era uma coisa absolutamente nova.

— Já é meio-dia e quinze! Você está atrasado!

— Isto se chama o quarto de hora acadêmico. Posso convidá-la para almoçar?

Sentou-se e olhou-a nos olhos. Sofia sacudiu os ombros, indiferente.

— Para mim, tanto faz. Um sanduíche, talvez.

Alberto foi até ao balcão. Pouco depois voltou com uma xícara de café e duas baguetes enormes recheadas de queijo e presunto.

— Foi caro?

— Não, Sofia.

— Será que você não tem pelo menos uma desculpa por ter se atrasado tanto?

— Não, não tenho, pois foi de propósito que me atrasei. Já vou explicar por quê.

Deu umas mordidas com vontade na sua baguete e depois disse:

— Vamos falar hoje sobre o nosso século [XX].

— Aconteceu alguma coisa de filosoficamente interessante nele?

— E como! Tanto que há correntes seguindo em todas as direções. Primeiro vou contar alguma coisa sobre o existencialismo. O termo designa um conceito “guarda-chuva”, sob o qual se acomodam diversas correntes filosóficas que têm como ponto de partida a situação existencial do homem. Costumamos falar também da filosofia existencialista do século XX. Alguns filósofos existencialistas seguiram a tradição de Kierkegaard; outros, a de Hegel e Marx.

— Certo.

— Um filósofo muito importante para o século XX foi o alemão Friedrich Nietzsche, que viveu de 1844 a 1900. Nietzsche também reagiu à filosofia de Hegel e ao “historicismo” alemão que dela resultou. Ele atribuía a Hegel e a seus sucessores um interesse anêmico pela história e confrontava este interesse com a própria vida. É muito conhecida a sua reivindicação por uma “revalorização de todos os valores”, sobretudo da moral cristã, que ele chamava de “moral escrava”, para que o curso da vida dos fortes não fosse mais obstruído pelos fracos. Para Nietzsche, o cristianismo e a tradição filosófica tinham se afastado do mundo e se voltado para o “céu” ou para o “mundo das idéias”. Esses dois últimos teriam se transformado no “verdadeiro mundo” e, na verdade, não passavam de aparência. “Sede fiéis à Terra”, ele dizia, “e não acrediteis naqueles que vos falam de esperanças além deste mundo!”

— Bem…

— Um filósofo que foi influenciado tanto por Kierkegaard quanto por Nietzsche foi o existencialista alemão Martin Heidegger, que não vamos abordar aqui, porque queremos nos concentrar no existencialista francês Jean-Paul Sartre. Sartre viveu de 1905 a 1980 e foi o filósofo existencialista por excelência, pelo menos para o grande público. Foi nos anos 40, logo depois da guerra, que ele desenvolveu a sua filosofia. Mais tarde aliou-se ao movimento marxista na França, mas nunca chegou a se filiar a um partido.

— Por isso é que estamos nos encontrando num café francês?

— De qualquer forma, não é por mero acaso que estamos aqui. Aliás, o próprio Sartre era um assíduo freqüentador de cafés. E foi num café como este que ele conheceu Simone de Beauvoir, companheira de toda a sua vida. Ela também era uma filósofa existencialista.

— Puxa! Até que enfim uma filósofa!

— Exatamente.

— Sinto um alívio ao ver que a humanidade finalmente começa a se civilizar.

— Mas nossa época também é uma época de muitas e novas preocupações.

— Você falava do existencialismo…

— Sartre disse: “O existencialismo é humanismo”. Com isto ele queria dizer que o existencialismo tem como ponto de partida única e exclusivamente o homem. Talvez possamos acrescentar que o humanismo de Sartre vê a situação do homem de uma maneira diferente e mais sombria do que o humanismo que conhecemos do Renascimento.

— E por quê?

— Kierkegaard e outros filósofos existencialistas de nosso século [XX] eram cristãos. Sartre, ao contrário, representava aquilo que podemos chamar de existencialismo ateu. Podemos considerar sua filosofia uma análise impiedosa da situação humana quando “Deus está morto”. A famosa expressão “Deus está morto” é de Nietzsche.

— Continue.

— Como em Kierkegaard, o conceito-chave por excelência na filosofia de Sartre é a palavra existência. Aqui, existência não significa simplesmente “estar vivo”. As plantas e os animais também “existem” no sentido de que estão vivos, mas são poupados da indagação sobre o que isto significa. O ser humano é o único ser vivo consciente de sua existência. Sartre diz que as coisas físicas só são “em si”, ao passo que o homem também é “para si”. Ser uma pessoa é, portanto, diferente de ser uma coisa.

— Concordo plenamente.

— Sartre afirma ainda que a existência do homem precede todo e qualquer sentido desta mesma existência. Em outras palavras, o fato de que sou é anterior à questão de saber o que sou. “A existência precede a essência”, ele dizia.

— Isto parece um tanto complicado.

— Entendemos por “essência” aquilo que uma coisa realmente é, a “natureza” dessa coisa. Para Sartre, porém, o homem não possui tal natureza. O homem precisa primeiro criar-se a si mesmo. Ele precisa criar sua própria natureza, sua própria essência, já que ela não lhe é dada de antemão.

— Acho que entendo o que você quer dizer.

— Por toda a história da filosofia, os filósofos tentaram responder à pergunta sobre o que o homem é, ou o que é a natureza humana. Sartre, ao contrário, acha que o homem não possui esta “natureza” eterna a que se apegar. Por isso é que, para Sartre, não faz sentido perguntar pelo sentido da vida em geral. Em outras palavras, estamos condenados à improvisação. Somos como atores que são colocados num palco sem termos decorado um papel, sem um roteiro definido e sem um “ponto” para nos sussurrar ao ouvido o que devemos dizer ou fazer. Nós mesmos temos de decidir como queremos viver.

— De alguma forma isto também está certo. Se folhearmos a Bíblia, ou um livro de filosofia, teríamos dificuldade em encontrar uma fórmula sobre como devemos viver.

— Pronto, você já entendeu. Mas Sartre diz que quando o homem percebe que existe e que um dia terá de morrer, e sobretudo quando não vê qualquer sentido nisto tudo, ele passa a experimentar o medo. Você deve se lembrar ainda de que o medo também era muito importante na descrição que Kierkegaard fez do homem numa situação existencial.

— Sim.

— Sartre também diz que o homem se sente alienado num mundo sem sentido. Quando descreve a “alienação” do homem, Sartre retoma os pontos centrais do pensamento de Hegel e de Marx. O sentimento do homem de ser um estranho no mundo, diz Sartre, leva a uma sensação de desespero, tédio, náusea e absurdidade.

— É muito comum a gente ouvir que fulano está “deprê”, ou então que acha tudo “um saco”.

— Sim. Sartre descreve o homem urbano do século XX. Você se recorda de que os humanistas do Renascimento tinham propagado em tom de triunfo a liberdade e a independência do homem. Para Sartre, a liberdade do homem era como uma maldição. “O homem está condenado à liberdade”, ele dizia. Condenado porque não se criou e, não obstante, é livre. E uma vez atirado ao mundo, passa a ser responsável por tudo o que faz.

— Sim. Afinal, não pedimos a ninguém para sermos criados como indivíduos livres.

— É exatamente este o ponto central em Sartre. Acontece que somos indivíduos livres e nossa liberdade nos condena a tomarmos decisões durante toda a nossa vida. Não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos nos guiar. E isto torna mais importantes nossas decisões, nossas escolhas. Sartre chama a atenção precisamente para o fato de o homem nunca poder negar sua responsabilidade pelo que faz. Por esta razão, não podemos simplesmente colocar de lado nossa responsabilidade e dizer que “temos” de ir trabalhar, ou então que “temos” de nos pautar por certas expectativas burguesas quanto ao modo como devemos viver. Aquele que assim procede mescla-se a uma massa anônima e se transforma em parte impessoal dela. Ele foge de si mesmo e se refugia na mentira. De outra parte, a liberdade do homem nos obriga a fazer de nós alguma coisa, a ter uma existência “autêntica” ou verdadeira.

— Entendo.

— O mesmo vale para as nossas decisões éticas. Nunca podemos responsabilizar a natureza e a fraqueza humanas, ou qualquer outra coisa, pelas decisões que tomamos. Muitas vezes acontece de homens já bem crescidinhos se comportarem como porcos e colocarem a culpa no “velho Adão” que pretensamente trazem dentro de si. Mas este “velho Adão” não existe. Ele não passa de uma figura de que nos valemos para fugir à responsabilidade por nossos próprios atos.

— Apesar disso, deve haver limites para toda essa culpa que recai sobre os ombros do homem.

— Embora Sartre afirme que a vida não possui um sentido inato, isto não significa que para ele nada importa. Sartre não é um niilista.

— O que é isto?

— Alguém que acha que nada tem um sentido e que tudo é permitido. Sartre diz que a vida deve ter um sentido. Isto é um imperativo. Só que nós mesmos é que temos de criar este sentido para a nossa própria vida. Existir significa criar a sua própria vida.

— Você poderia explicar isso um pouco mais?

— Sartre tentou mostrar que a consciência não é nada até que perceba alguma coisa. Pois a consciência é sempre consciência de alguma coisa. E depende de nós, e também de nosso meio, o que seja esta “alguma coisa”. Nós mesmos contribuímos para o que sentimos e percebemos, pois somos nós que escolhemos aquilo que nos é importante.

— Você teria um exemplo?

— Duas pessoas podem estar presentes num mesmo recinto e percebê-lo de maneira totalmente diversa. Isto porque deixamos nossa opinião ou nossos interesses agirem quando estamos percebendo o mundo à nossa volta. Uma mulher grávida, por exemplo, pode ter a sensação de ver mulheres grávidas por toda a parte. Isto não significa que antes não havia mulheres grávidas, mas a gravidez tem agora um novo sentido para ela. Pessoas doentes vêem ambulâncias por toda a parte…

— Entendo.

— Talvez a nossa própria vida influencie o modo como percebemos as coisas num recinto. Se uma coisa não me é importante, é provável que eu nem a perceba. E agora posso explicar por que cheguei tão atrasado.

— Você não disse que tinha sido de propósito?

— Primeiro me conte o que você viu quando entrou no café.

— A primeira coisa que eu vi foi que você não estava.

— Não é estranho que a primeira coisa que você viu neste local tenha sido justamente algo que não estava aqui?

— Pode ser, mas nós tínhamos combinado o encontro.

— Sartre usa justamente a ida a um café para explicar como nós “eliminamos” aquilo que não tem importância para nós.

— E você chegou atrasado só para me mostrar isto?

— Sim. Eu queria que você entendesse este ponto importante da filosofia de Sartre. Meu atraso pode ser considerado, portanto, parte de uma tarefa.

— Que loucura…

— Quando você está apaixonada e esperando o telefonema de seu namorado, pode ser que você “ouça” a noite inteira que ele não telefona para você. O fato de ele não telefonar é exatamente o que você registra o tempo todo. Se você vai buscar seu namorado na estação ferroviária e está numa plataforma tão cheia de gente que não consegue encontrá-lo, pode estar certa de que você não enxerga todas essas pessoas. Elas incomodam, mas são irrelevantes para você. Você pode achá-las antipáticas, ou mesmo repugnantes. Elas tomam tanto espaço… Mas a única coisa que você registra é que ele não está ali.

— Entendo.

— Simone de Beauvoir tentou aplicar o existencialismo à análise dos papéis sexuais. Sartre já havia dito que o homem não possui uma natureza eterna a que possa recorrer. Somos nós que criamos aquilo que somos.

— Sim?

— O mesmo vale para a questão dos papéis sexuais. Simone de Beauvoir mostrou que não existe uma “natureza feminina” ou uma “natureza masculina” eternas, ao contrário do que tradicionalmente rezava o senso comum. Sempre se afirmou, por exemplo, que a natureza do homem seria uma natureza “transcendente”, ou seja, algo que o leva a ultrapassar fronteiras. Isto explicaria por que o homem sempre se sentiu impelido a buscar um sentido e um objetivo fora de casa. Da mulher, por outro lado, sempre se disse que sua vida se orienta no sentido exatamente oposto. A natureza da mulher seria uma natureza “imanente”, o que significa que ela teria uma tendência a continuar no mesmo lugar em que já se encontra. Conseqüentemente, à mulher caberia cuidar da família, do meio ambiente e das coisas à sua volta. Hoje em dia costuma-se dizer que as mulheres estão mais aptas a lidar com os chamados “valores suaves” do que os homens.

— Simone de Beauvoir quis mesmo dizer isto?

— Não. Desta vez, excepcionalmente, você parece não ter ouvido direito o que eu disse. Simone de Beauvoir disse exatamente que não existe nem uma natureza feminina, nem uma natureza masculina. Ao contrário: ela acreditava que as mulheres e os homens tinham de se libertar impreterivelmente desses preconceitos e ideais fortemente arraigados.

— Concordo com ela de todo o coração.

— Seu livro mais importante foi publicado em 1949 e tinha o título de O segundo sexo.

— O que ela queria dizer com isto?

— Ela estava pensando na mulher. Na nossa cultura, a mulher tinha sido transformada num “segundo sexo”. Só o homem aparecia como sujeito desta cultura. A mulher, ao contrário, fora transformada em objeto do homem. Dessa forma, lhe haviam tirado a responsabilidade por sua própria vida.

— E então?

— Para Simone de Beauvoir, a mulher precisa reconquistar esta responsabilidade. Ela precisa se reencontrar consigo mesma e não pode simplesmente aliar sua identidade à de seu marido. Isto porque não é só o homem que reprime a mulher. A própria mulher se reprime quando não assume a responsabilidade por sua própria vida.

— Quer dizer que somos nós mesmas que decidimos até que ponto podemos ser livres e independentes?

— Isso mesmo. A partir dos anos 40, o existencialismo passou a influenciar a literatura européia, sobretudo o teatro. O próprio Sartre escreveu romances e peças de teatro. Outros autores importantes são o francês Albert Camus, o irlandês Samuel Beckett, o romeno Eugène Ionesco e o polonês Witold Gombrowicz. Um elemento característico de todos eles, e também de muitos outros autores modernos, é a representação do absurdo. Na certa você já ouviu falar no teatro do absurdo.

— Sim.

— E você entende o que a palavra “absurdo” significa?

— Significa alguma coisa sem sentido ou irracional, não é?

— Exatamente. O “teatro do absurdo” está preocupado em mostrar a falta de sentido da vida. O que se espera é que o público não apenas assista à peça, mas também reaja a ela. Não era objetivo deste teatro, portanto, fazer uma apologia da falta de sentido da vida. Ao contrário: por meio da representação e da exposição às claras do absurdo, em cenas do cotidiano, por exemplo, o público era levado a refletir sobre a possibilidade de uma vida mais verdadeira, mais essencial.

— Continue.

— Freqüentemente, o “teatro do absurdo” aborda situações absolutamente triviais. O homem é representado exatamente como é. Mas quando você leva para o palco de um teatro o que acontece, por exemplo, dentro do banheiro de uma casa como todas as outras, numa manhã como todas as outras, o público acaba rindo. Este riso pode ser entendido como um mecanismo de defesa contra o fato de as pessoas se verem representadas sem rodeios no palco.

— Entendo.

— Mas o “teatro do absurdo” também pode ter traços surrealistas. Freqüentemente, as personagens são enredadas em devaneios e em situações as mais improváveis. E quando elas aceitam essas situações sem o menor sinal de surpresa, quando as aceitam sem qualquer reação, então é a vez de o público reagir a esta falta de reação. A propósito, o mesmo vale para os filmes mudos de Charlie Chaplin. O elemento cômico nestes filmes geralmente é a falta de surpresa com que Carlitos encara o absurdo das situações que vive. O expectador ri do que vê, mas acaba cismado com sua própria capacidade de se surpreender com as coisas e de reagir a elas.

— Às vezes é constrangedor ver tudo o que as pessoas engolem sem reagir.

— Sim, e às vezes é certo pensar que se tem de sair de determinado lugar, mesmo que não se saiba para onde ir.

— Se a casa está pegando fogo, a gente tem de sair, mesmo que não tenha outro lugar para ficar.

— É verdade. Você quer outra xícara de chá? Ou talvez um refrigerante?

— Um refrigerante. Mas continuo achando você um chato por ter se atrasado.

— Posso perfeitamente conviver com isso.

Pouco depois, Alberto já estava de volta com uma xícara de café e o refrigerante. Nesse meio tempo, Sofia começou a achar agradável estar num café. Ela já não tinha tanta certeza de que eram totalmente vazias as conversas nas outras mesas.

Ao colocar a garrafa de refrigerante sobre a mesa, Alberto fez barulho. Algumas pessoas de outras mesas olharam.

— E com isto chegamos ao fim de nossa jornada — disse ele.

— A filosofia termina com Sartre e o existencialismo?

— Não, seria um exagero afirmar uma coisa dessas. A filosofia existencialista foi de grande importância para muitas pessoas no mundo inteiro. Como vimos, suas raízes remontam a Kierkegaard e até a Sócrates. Do mesmo modo, outras correntes filosóficas do passado experimentaram um novo apogeu e uma renovação em nosso século.

— Você pode me dar alguns exemplos?

— O neotomismo retoma pensamentos e idéias que se ligam à tradição de são Tomás de Aquino. A chamada filosofia analítica ou empirismo lógico retoma o pensamento de Hume e do empirismo britânico e também a lógica de Aristóteles. E é claro que o século XX também é marcado pelo chamado neomarxismo e todas as suas correntes. Já falamos também do neodarwinismo e já chamamos a atenção também para a importância da psicanálise.

— Entendo.

— Uma última corrente, que talvez devêssemos mencionar, é o materialismo, cujas raízes também estão num passado remoto da história. A ciência moderna em muito nos lembra os esforços dos pré-socráticos. Continua-se buscando, por exemplo, a “partícula elementar” indivisível, a partir da qual toda a matéria se constitui. E também ainda não apareceu ninguém que nos pudesse explicar exatamente o que é a “matéria”. As ciências naturais modernas, como a física nuclear e a bioquímica, são tão fascinantes, que se tornaram um componente essencial da cosmovisão de muitas pessoas.

— Novo e velho convivendo lado a lado, não é isto?

— Podemos dizer que sim. Pois as perguntas com as quais começamos este curso ainda não foram respondidas. Sartre fez uma observação importante quando disse que as questões existenciais não podem ser respondidas de uma vez e para todo o sempre. Uma questão filosófica é per definitionem uma questão que cada nova geração, que cada ser humano, tem de se colocar novamente.

— Este pensamento não é dos mais consoladores.

— Não sei se concordo plenamente com você. Não é justamente quando nos fazemos essas perguntas que nos sentimos vivos? Além do mais, não é na busca de respostas para as “grandes” perguntas que o homem tem encontrado respostas claras e definitivas para as “pequenas” perguntas? A ciência, a pesquisa, a tecnologia, todas elas surgiram em algum momento a partir da reflexão filosófica. Afinal, não foi a estupefação do próprio homem diante da vida que o acabou levando à Lua?

— Sim, é verdade.

— Quando o astronauta Armstrong pisou na Lua, ele disse: “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”. E com estas palavras incluiu na emoção de ser o primeiro homem a pisar na Lua todos os que já haviam vivido antes dele. Afinal, o fato de ele poder estar ali naquele momento não era mérito exclusivo seu, nem de seus contemporâneos.

— Claro que não.

— Mas a nossa época também teve de encarar muitos problemas novos. Os grandes problemas ambientais são um exemplo disso. Por esta razão, uma importante corrente filosófica do século XX é a ecofilosofia. Muitos ecofilósofos do Ocidente defendem o ponto de vista de que nossa civilização tomou o caminho errado e se encontra em rota de colisão com o que este planeta é capaz de agüentar. Esses filósofos tentaram pesquisar mais a fundo e não apenas discutir as conseqüências concretas da poluição e da destruição ambientais. Para eles, alguma coisa não está certa em todo o pensamento ocidental.

— Acho que eles têm razão.

— Os ecofilósofos questionaram, por exemplo, a noção de evolução, que se baseia na suposição de que o homem está “no topo” da natureza; ou seja, que somos os senhores da natureza. E é precisamente este pensamento que pode colocar em risco toda a vida do planeta.

— Fico furiosa quando penso nessas coisas.

— Em sua crítica a este ponto de vista, os ecofilósofos foram buscar apoio no pensamento e nas idéias de outras culturas, por exemplo na Índia. Eles também estudaram o pensamento e o modo de vida dos chamados “povos nativos”, ou “populações primitivas”, a fim de, quem sabe, encontrar algo que há muito tempo perdemos.

— Entendo.

— Nos últimos anos, muitos têm afirmado dentro de círculos científicos que todo o nosso pensamento científico está diante de uma mudança de paradigma, ou seja, de uma mudança radical. Em diversas áreas específicas, esta discussão já tem dado seus frutos. Não nos faltam exemplos dos chamados “movimentos alternativos”, que dão particular importância para um pensamento holístico e defendem um novo estilo de vida.

— Isso é muito bom.

— Ao mesmo tempo, como em tudo o que o homem faz, também aqui é preciso saber separar o joio do trigo. Muitos têm afirmado que nos aproximamos de uma nova era, a “New Age”. Só que nem tudo o que é novo é necessariamente bom, e nem tudo o que é velho deve ser descartado. Foi por isso que fizemos este curso de filosofia. Agora que você conhece o pano de fundo histórico de nosso pensamento, você terá mais facilidade para separar o joio do trigo. E quem é capaz de fazer isto também tem mais facilidade em se nortear na vida.

— Sou grata a você por tamanha consideração.

— Estou certo de que verá que muito do que se diz “New Age” não passa de mero disparate. Nas últimas décadas, a influência do que chamamos de “nova religiosidade”, “neo-ocultismo” ou “moderna superstição” sobre o mundo ocidental deu origem a uma verdadeira indústria. À medida que o cristianismo foi perdendo terreno, novas ofertas surgiram aos montes no mercado de visões de mundo.

— Você poderia me dar um exemplo?

— A lista é tão longa que não sei nem por onde começar. De qualquer forma, não é fácil descrever o próprio tempo. Sugiro que a gente dê uma volta pela cidade. Quero mostrar uma coisa a você.

Indiferente, Sofia sacudiu os ombros.

— Não tenho muito tempo. Você não se esqueceu da festa de amanhã, não é?

— Claro que não. Afinal, é nessa festa que vai acontecer uma coisa maravilhosa. Só precisamos terminar o curso de filosofia de Hilde. Sabe, o major não pensou numa continuação depois de concluído o curso. E é nesse ponto que ele perde parte de sua força.

Mais uma vez Alberto ergueu a garrafa de refrigerante, agora vazia, e bateu na mesa fazendo um ruído.

Saíram do café. As pessoas, apressadas, pareciam formigas correndo de lá para cá dentro de um formigueiro. Sofia se perguntava o que Alberto queria mostrar para ela.

Passaram, então, por uma grande loja de produtos eletroeletrônicos. Ali se vendia de tudo: de aparelhos de televisão, videocassetes e antenas parabólicas até telefones celulares, computadores e aparelhos de fax.

Alberto parou diante da vitrine e disse:

— Aqui está o século XX, Sofia. A partir do Renascimento, o mundo começou a explodir, por assim dizer. A começar pelos grandes descobrimentos, pelas grandes viagens dos europeus por todo o planeta. Em nossos dias, o que se verifica é uma explosão ao contrário.

— Como assim?

— Estou querendo dizer que o mundo inteiro está sendo ligado e se unindo numa única rede de comunicação. Há não muito tempo, os filósofos ainda levavam muitos dias no lombo de um cavalo ou no interior de um coche para observar o mundo, ou então para encontrar outro pensador. Hoje em dia, em qualquer parte deste planeta, podemos nos sentar diante de um computador e trazer até nós informações sobre toda a experiência humana.

— Isto é uma coisa fantástica e, ao mesmo tempo, um tanto amedrontadora.

— A questão é saber se a história se aproxima de seu fim, ou se estamos no limiar de um novo tempo. Não somos mais apenas habitantes de uma cidade ou de um país específico. Vivemos uma civilização planetária.

— É mesmo.

— Nos últimos trinta ou quarenta anos, a evolução tecnológica, sobretudo no que se refere aos meios de comunicação, foi mais dramática do que em toda a história até então. E o que estamos vivendo hoje pode ser apenas o começo…

— Era isto o que você queria me mostrar?

— Não. O que eu queria mostrar está ali atrás da igreja.

(…)

Atravessaram a praça da igreja e chegaram à nova rua principal. Alberto estava levemente irritado. Caminharam um pouco e ele parou diante de uma livraria chamada Libris, a maior da cidade.

— Você quer me mostrar alguma coisa aqui?

— Vamos entrar.

Dentro da livraria, Alberto apontou para a maior estante de livros. Ela estava subdividida em três partes, assim designadas: NEW AGE, MODOS DE VIDA e MISTICISMO.

Nas prateleiras havia livros com muitos títulos intrigantes: Existe vida após a morte?, Os segredos do espiritismo, Tarô, O fenômeno UFO, Curas, O retorno dos deuses, Você já passou por aqui…, O que é astrologia? e muitos, muitos outros. Na parte de baixo da estante havia pilhas de outros livros semelhantes.

— Isto é o século XX, Sofia. Este é o templo da nossa era.

— Você acredita nessas coisas?

— O que importa é que muitos desses livros não passam de bobagem. E ainda assim vendem tanto quanto livros pornográficos. Aliás, muitos deles poderiam ser chamados de pornografia. Aqui, a geração que está crescendo agora pode comprar os livros que mais lhe interessam. Só que a relação entre a verdadeira filosofia e esses livros é mais ou menos a mesma que existe entre o amor verdadeiro e a pornografia.

— A comparação não é um tanto grosseira?

— Bem, vamos nos sentar ali na praça.

E saíram da livraria. Na frente da igreja, encontraram um banco vazio. Debaixo das árvores, algumas pombas disputavam uns grãozinhos de alimento. E no meio delas havia um ou outro pardal muito entusiasmado.

Sentaram-se e Alberto começou:

— Parapsicologia, telepatia, clarividência, psicocinética, espiritismo, astrologia, ufologia. A criança tem muitos nomes.

— Mas, diga-me com franqueza: você acha que tudo não passa de besteira?

— Naturalmente, não seria de bom tom para um filósofo de verdade colocar tudo isso num mesmo saco. Mas não quero excluir a hipótese de que todas essas palavras que acabei de mencionar esboçam o mapa detalhado de uma paisagem que não existe. Seja como for, muitas dessas coisas não passam do que Hume chamou de “fantasmagoria e ilusão” e quis atirar ao fogo. Em muitos desses livros não encontramos uma única experiência verdadeira.

— Mas então por que se escrevem tantos livros sobre essas coisas?

— Porque isto é simplesmente o melhor negócio do mundo. Muitas pessoas querem ter essas coisas.

— E por que você acha que elas querem essas coisas?

— Porque anseiam por algo “místico”, por “outra” coisa que aponte para além da monotonia de sua vida cotidiana. Só que infelizmente acabam exagerando.

— Como assim?

— Aqui estamos nós no meio de uma aventura fantástica. O milagre da criação se desenrola diante de nossos olhos. E em plena luz do dia, Sofia! Não é incrível?

— Sem dúvida.

— Para que, então, procurar tendas ciganas ou os pátios das academias para experimentar algo de “excitante” ou “transcendente”?

— Você está querendo dizer que os autores desses livros são todos uns incompetentes e mentirosos?

— Não, eu não disse isto. Deixe-me explicar “darwinianamente” o que quero dizer.

— Estou ouvindo.

— Pense em tudo o que acontece no decorrer de um único dia. Concentre-se num único dia de sua própria vida e pense em tudo o que você vê e experimenta.

— Certo.

— Às vezes ocorrem coincidências estranhas. Por exemplo, você entra numa loja e compra uma coisa que custa vinte e oito coroas. Pouco depois chega Jorunn e traz a você as vinte e oito coroas que você emprestou para ela não sei quando. Daí você vai ao teatro e a sua poltrona é de número vinte e oito.

— Sem dúvida, seriam coincidências misteriosas.

— Mas não deixariam de ser coincidências. Acontece que muitas pessoas colecionam coincidências como essas. Elas colecionam experiências misteriosas ou inexplicáveis, extraídas da vida de alguns milhões de pessoas, que depois são reunidas num livro e apresentadas ao leitor como farto material de prova. E este material cresce a cada dia. Só que, mesmo neste caso, trata-se de uma loteria, da qual não passamos de números premiados.

— Quer dizer que não existem clarividentes ou “médiuns”?

— Existem sim, e se deixarmos de lado os embustes encontraremos outra explicação importante para as experiências supostamente místicas que eles vivem.

— E qual é esta explicação?

— Você ainda deve se lembrar do que falamos sobre a teoria do inconsciente de Freud.

— Quantas vezes eu vou ter de dizer que não sou do tipo de pessoa que se esquece facilmente das coisas?

— Freud já tinha chamado a atenção para o fato de nós sermos uma espécie de “médium” de nosso próprio inconsciente. De repente pode acontecer de nos flagrarmos fazendo ou pensando coisas sem entender bem o porquê. Isto se explica pelo fato de o número das nossas experiências, pensamentos e vivências ser muito maior do que o nosso consciente é capaz de armazenar.

— Continue.

— Algumas vezes as pessoas falam ou então andam enquanto dormem. Podemos chamar isto de um “automatismo mental”. Também sob hipnose as pessoas podem dizer coisas “sem querer”. E você se lembra dos surrealistas, que tentavam escrever e pintar “automaticamente”, transformando-se, assim, em “médiuns” de seus próprios inconscientes.

— Lembro-me disso também.

— Em nosso século [XX], e com alguma regularidade, temos notícias de pessoas, de “médiuns” que seriam capazes de entrar em contato com os mortos. Este “médium” receberia mensagens de pessoas que, por exemplo, viveram há muitos anos. E, então, ou o “médium” fala com a voz do morto, ou então escreve “automaticamente”, “psicografando”, como se costuma dizer, o que o morto tem a dizer. Para muitas pessoas, isto tem sido visto como prova da existência de uma vida após a morte, ou da existência de muitas vidas.

— Entendo.

— Não estou querendo dizer que todos estes “médiuns” sejam uns charlatões. Alguns deles, ao que parece, agem de boa-fé. Eles até podem ser “médiuns”, mas só de seu próprio inconsciente. Existem vários exemplos de experimentos envolvendo “médiuns” que, numa espécie de transe, mostraram conhecimentos e habilidades que nem eles, nem as outras pessoas podiam explicar de onde vinham. Uma mulher que não sabia hebraico, por exemplo, de repente começou a falar nesta língua. E nesse caso a explicação foi a seguinte: ou ela já tinha vivido uma vez, ou então realmente tinha entrado em contato com um espírito que falava hebraico. E então, Sofia?

— O que você acha?

— Descobriu-se, depois, que ela tivera uma babá judia quando criança.

— Ah…

— Você ficou desapontada, Sofia? Pois não deveria. Afinal, não é fantástico descobrir como uma só pessoa é capaz de armazenar em seu inconsciente tantas experiências já vividas?

— Entendo o que você quer dizer.

— Muitas das curiosidades de nossa vida cotidiana também podem ser explicadas pela teoria do inconsciente de Freud. Por exemplo, quando recebo o telefonema de um amigo que não vejo há muitos anos, justamente no momento em que estou procurando o telefone dele para ligar…

— Fico até arrepiada!

— O motivo desta aparente coincidência pode ser, por exemplo, o fato de nós dois termos ouvido no rádio uma velha canção; uma canção que ouvimos da última vez em que nos encontramos, por exemplo. Acontece que simplesmente não percebemos a ligação entre as coisas.

— Quer dizer que tudo isto não passa ou de charlatanismo, ou então do efeito “número premiado de loteria”, ou ainda de manobras do inconsciente?

— De qualquer forma, estou querendo dizer que é sempre mais saudável olhar com certo ceticismo para essas estantes de livros. E isto é importante também para um filósofo. Na Inglaterra, os céticos têm a sua própria associação. Há muitos anos eles ofereceram uma elevada soma em dinheiro ao primeiro que lhes trouxesse uma pequena prova que fosse de algum evento sobrenatural. E não precisava ser nada de espetacular; um simples caso de telepatia bastava. Até hoje ninguém se apresentou.

— Entendo.

— Outra coisa, completamente diferente, é o fato de existirem muitas coisas que nós, seres humanos, não entendemos. É possível até que não conheçamos ainda todas as leis da natureza. No século passado [XIX], muitos consideravam magia fenômenos como o magnetismo ou a eletricidade. Acho que minha bisavó ficaria de olhos arregalados se eu falasse com ela sobre televisão ou computadores.

— Mas você não acredita mesmo em nada de sobrenatural?

— Já falamos sobre isso. A simples palavra “sobrenatural” já me soa estranha. Não, não… acredito que existe apenas uma natureza. Mas que, em compensação, ela é absolutamente fabulosa.

— Isto significa que o sobrenatural só existe nos livros que você me mostrou?

— Todos os verdadeiros filósofos devem ter os olhos bem abertos. Mesmo que nós nunca tenhamos visto uma gralha branca, jamais podemos desistir de procurar por uma. E poderá chegar o dia em que até um cético como eu tenha de aceitar um fenômeno no qual não quis acreditar até então. Se eu não considerasse essa possibilidade, seria um dogmático. E não seria, portanto, um filósofo de verdade.

Durante algum tempo, Alberto e Sofia ficaram sentados no banco da praça sem dizer nada. Orgulhosas, as pombas arrulhavam e passavam por eles de pescoço empinado. De vez em quando algumas voavam, espantadas por um movimento brusco ou por uma bicicleta que passava.

— Preciso ir para casa preparar a festa — disse Sofia quebrando o silêncio.

— Só que antes de nos despedirmos quero lhe mostrar uma gralha branca. Ela está mais perto do que a gente pensa.

Alberto levantou-se e fez um sinal para que ela o acompanhasse de novo à livraria.

Desta vez deixaram de lado todos os livros sobre fenômenos sobrenaturais. Alberto parou diante de uma pequena estante que ficava no fundo da livraria. Sobre a estante havia uma pequena placa em que estava escrito: FILOSOFIA.

Alberto apontou para um dos livros e Sofia levou um tremendo susto quando leu o título: O MUNDO DE SOFIA.

— Posso comprá-lo para você?

— Não sei se ouso responder que sim.

Pouco depois, porém, ela já voltava para casa com o livro numa das mãos e a sacola de compras para a festa na outra.

 

CLIQUE AQUI PARA FAZER O DOWNLOAD DO ARQUIVO “DOC” QUE CONTÉM O TEXTO ACIMA.

 

1