visite: www.jeangenet.org ou www.ifrance.com/jeangenet
|
Nossa Senhora das Flores |
| Livros de/sobre Jean Genet |
GENET, Jean. Nossa Senhora das Flores. Apresentação de Jean-Paul Sartre, tradução de Newton Goldman. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. 3ª edição. 331 p.
Livro escrito na Prisão de Fresnes em 1942, antes de Genet ser descoberto por Sartre.
Abaixo, trechos da apresentação de Jean-Paul Sartre, extraída da obra "Saint Genet, comédien et martyr", Paris, Gallimard, p 497-535.
Sartre divide sua apresentação da obra de Jean Genet em 3 tópicos: I. As Criaturas; II. As Palavras; III. As Imagens. Destaco o tópico II. As Palavras (p 20-31):
II. AS PALAVRAS
Porém, pelo mesmo movimento q o aprisiona em seu trabalho a estas criaturas flutuantes e desgovernadas, ele se liberta, afasta a fantasia e transforma a si mesmo em um criador. Nossa Senhora é um sonho q contém seu próprio despertar.
A questão é que a imaginação depende das palavras: as palavras completam nossas fantasias, preenchem as lacunas destas, apoiam as suas inconsistências, prolongando-as, enriquecendo-as com o que não pode ser visto ou tocado. (sublinhado meu) Há muito tempo já foi dito q nenhuma imagem pode exprimir uma frase tão simples quanto: "Amanhã vou para o campo". Isso talvez não seja inteiramente bem assim, mas é verdade q as conexões abstratas são mais freqüentemente expressas pelos nossos monólogos internos do q pelo jogo da nossa imaginação. "Marchetti permanecerá entre quatro paredes brancas até o fim dos fins." Podemos ter certeza de q esta frase ocorreu a Genet espontaneamente e q ela substituiu imagens q deveriam ser por demais vagas ou esquemáticas. A razão é q existem relacionamentos abstratos q podem ser eróticos. A idéia de q Marchetti permanecerá para sempre um prisioneiro é seguramente muito mais excitante para este sádico ressentido do q sua imagem sendo humilhado pelos guardas.Existe alguma coisa de final e de inexorável nesta frase q só as palavras poderiam exprimir. As imagens são fugazes, embaçadas, individuais; refletem nossa particularidade. As palavras porém são sociais e universalizam. Não há dúvida de q a linguagem de Genet sofre lesões profundas; é roubada, falseada e poetizada. Não importa: com as palavras o Outro reaparece.
Já vimos q dois elementos contraditórios de Genet (quietismo-passividade-masoquismo e ativismo-ferocidade-existência) se unem por um momento na masturbação para se desligarem após o orgasmo. Onanista, Genet tentou fazer de si mesmo objeto de um sujeito q, sob o disfarce de Mignon ou de Gorgui, não era outro senão ele mesmo, ou melhor, sujeito ele perseguia Divina, objeto imaginário e ainda ele-mesmo. Mas a palavra expressa a relação de Narciso consigo mesmo, está com o sujeito e com o objeto.
Não é por acaso q a palavra acompanha o ato masturbatório, q Gide mostra Boris murmurando sua fórmula evocadora como um "Abre-te Sésamo": o onanista quer reter a palavra como um objeto. Qdo repetida em voz alta ou num murmúrio, imediatamente adquire uma objetividade e uma presença q falavam ao objeto. A imagem permanece um tanto ausente; na realidade não a vejo, nem a ouço bem. Sou eu quem me canso tentando retê-la. Mas, se murmuro a palavra, posso ouvi-la, e se consigo me esquecer de mim mesmo qdo a palavra sai da minha boca, se consigo esquecer q fui eu quem a pronunciou, posso ouvi-la como se ela tivesse emanado de outra pessoa e na verdade como se elas estivessem soando por si próprias. Eis uma frase q ainda vibra nos ouvidos de Genet, e qual é esta frase? "até o fim dos fins". Até o fim dos fins Marchetti permanecerá na prisão. Parece q uma frase absoluta foi murmurada na cela e q as imagens tomaram corpo. Até o fim dos fins, mas é verdade? Mas este objeto q emergiu no mundo real tem uma forma, um rosto. Genet pode arrancar da sua fisionomia visual ou da sua sólida estrutura o objeto erótico q lhe falta. Qdo ele fala do "traseiro aveludado" de Mignon podemos ter certeza de q ele não acopla estas palavras pela verdade ou pela beleza de sua união, e sim pelo seu poder de sugestão. Ele se encanta com o final feminino do substantivo masculino derrière [traseiro]. Falsa feminilidade? Falsa masculinidade? O traseiro é a feminilidade secreta dos homens, sua passividade. E douillet [macio]? Onde começa o seu significado? Onde termina? O carnudo desabrochar do ditongo sugere uma espécie de flor grande, pesada, molhada e sedosa; o rápido final flexionado palatal evoca a elegância de um janota. Mignon se envolve no seu traseiro como numa manta [douillette]. A palavra evoca a coisa: é a própria coisa. Estamos tão distantes da poesia? Será possível q a poesia seja apenas o lado oposto da masturbação?
Genet não seria verdadeiro consigo mesmo se não estivesse fascinado com o sacrilégio a ser cometido. Vimos há pouco q ele ouvia as palavras. Ele agora vai dirigir sua atenção ao ato verbal, percebendo-se no processo de falar. A enunciação dos prazeres proibidos é uma blasfêmia. O homem q se masturba humildemente, sem emitir uma palavra ou q está por demais preocupado com o q sua mão está fazendo, está perdoado em parte; seu gesto se dissolve na escuridão. Porém, se for enunciado, torna-se o gesto do masturbador uma ameaça à memória de todos. A fim de aumentar seu prazer, Genet os enuncia. Para quem? Para ninguém e para Deus. Para ele, como para os primitivos, a palavra possui virtudes metafísicas. É perverso, é delicioso q uma palavra obscena ressoe na semi-obscuridade da cela, q surja do buraco negro das suas cobertas. A ordem do universo é desta forma desbaratada. Uma palavra dita é palavra como sujeito: ouvida, é objeto. Quem ler Nossa Senhora das Flores verá a frase manifestando uma ou outra dessas funções verbais, de acordo com o humor do poeta. Leia-se por exemplo a descrição da cena de amor entre Mignon e Divina, ou a primeira noite q Divina passou com Gabriel, ou o jogo sexual de Gorgui com Divina e Nossa Senhora. Aconselho mesmo a leitura dessas passagens, pois não me atrevo a transcrevê-las ou mesmo comentar sobre elas muito profundamente. O leitor se espantará, na maioria dos casos, com o emprego evocatório do tempo presente q é usado para atrair a cena para dentro da cela, para seu corpo, fazendo-a contemporânea às carícias q ele dispensa sobre si mesmo. É tb uma precisão maníaca um tanto afetada, ansiosa por encontrar o detalhe q perturba: aqui a palavra é um quase-objeto. Mas esta voz rouca, fugaz, escrupulosamente cuidadosa q arfa com o incipiente prazer, num momento, se quebra. A mão de Genet abandona a caneta, uma das cenas é rapidamente terminada: "... e assim por diante...", ou com uma série de reticências. No momento seguinte, Genet, ainda num desmaio, geme de gratidão: "Ah, como gosto de falar sobre eles!... Todo o mundo está morrendo de medo-pânico. Cinco milhões de homens (...) morrerão (...) mas de onde estou posso meditar confortavelmente sobre os adoráveis mortos de ontem, hoje e amanhã. Sonho com a água-furtada dos amantes." Desta vez a palavra é sujeito; Genet quer ser ouvido, criar um escândalo. Este abandonado: "de onde estou posso meditar confortavelmente" é o riso abafado de uma mulher em quem se faz cócegas. É um desafio.
No princípio, Genet diz as palavras ou sonha com elas; não as escreve no papel. Mas logo estes murmúrios deixam de satisfazê-lo. Qdo se ouve a si mesmo, não pode ignorar o fato de q é ele q está falando. É na ansiedade pelo prazer q ele fala, e o faz para poder se excitar ainda mais, e assim q se surpreende a si mesmo no ato de falar, seu prazer sacrílego se esvai. Tem conhecimento de q só ele ouve a si mesmo e q um gemido de prazer não impedirá a terra de prosseguir em sua volta. Aí está a armadilha: ele as escreverá. Scripta manent: amanhã, em três dias, quando encontrar o pequeno esboço inerte, confrontando-o com toda a sua inércia, ele vai encarar a frase como um objeto erótico e escandaloso. Uma frase flutuante, sem autoria, navegará em sua direção. Ele a lerá pela primeira vez. Uma frase? E por q não uma história inteira? Por q não perpetuar a memória dos seus últimos prazeres? Amanhã uma voz morta os relatará a ele. Escreve palavras obscenas e apaixonadas, como escreveu seus poemas, a fim de relê-las para si mesmo.
Isso é apenas um expediente: mesmo qdo Genet lê a frase, ele sabe quem a escreveu. Vai portanto recorrer, mais uma vez, ao Outro, pois é o Outro quem confere sobre a palavra a verdadeira objetividade - ouvindo-a. Desta forma, os poetas de mictório gravam seus sonhos sobre as paredes, outros os lerão, como por exemplo o senhor de bigodes q se alivia apressado num mictório público. Imediatamente, as palavras tornam-se enormes, gritam, incham com a indignação alheia. Sem poder ler o q escreve, Genet encarrega os Outros de fazê-lo. Como poderia ser de outra forma? Eles sempre estiveram presentes no coração da palavra, ouvintes e faladores, aguardando sua vez. Foi Outro quem falou estas palavras q foram ditas ao Absoluto. Que outros? Certamente não os prisioneiros das celas vizinhas q estão cantando e sonhando e se acariciando na sua melancólica solidão? Como poderia ele pretender, por um minuto sequer, escandalizar estes irmãos na miséria? Mas na sua infância ele já tinha sido surpreendido e escolhido pelos homens. Mais tarde, qdo se tornou ladrão, costumava dançar diante de olhos invisíveis nos apartamentos desertos. Não é para este mesmo onipresente e fictício público a quem ele vai dedicar seus prazeres solitários? Os Justos: eles são seu público. É a eles q Genet está atormentando e é por eles q quer ser condenado. Incita os mirones ultrajados a fim de gozar num estado de vergonha e desafio. Até o momento, não existe Arte. Escrever é um meio erótico. O olhar imaginário do gentil leitor não possui outra função senão dar à palavra uma nova e estranha consistência. O leitor não é um fim, é um meio, um instrumento q duplica o prazer, em suma, um mirone apesar de si mesmo. Genet não está falando para nós, está falando para si mesmo embora querendo ser ouvido. Obcecado com seu prazer, mal se preocupa conosco, e embora o monólogo seja secretamente dedicado a nós, o é para nós como testemunhas, e não como participantes. Teremos a estranha sensação de sermos intrusos e no entanto nosso olhar esperado, correndo sobre as palavras nas páginas, estará acariciando Genet fisicamente.(sublinhado meu) Acabou de descobrir seu público e veremos q se manterá fiel a ele. Um público real? Um público imaginário? Será q Genet escreve sem esperança de ser lido? Será q já está pensando em ser publicado? Na minha opinião, acho q ele próprio não sabe. Como ladrão, ele jorrava luz, queria ser apanhado, morrer num fulgor de glória e ao mesmo tempo, apavorado com a morte, fazia o possível para escapar da polícia? É no mesmo estado de espírito q ele começa a escrever.
Público sonhado, orgias sonhadas, discursos sonhados. Mas quando a palavra-sonho é escrita ela se torna uma palavra verdadeira. Divina, escreve Genet, "sentou-se e pediu chá". É tudo q é necessário para gerar um acontecimento no mundo. (sublinhado meu) E esse acontecimento não é a materialização de Divina, q permanece onde está, na cabeça ou por volta do corpo de Genet, mas muito simplesmente o aparecimento de letras num papel, um resultado geral e objetivo de uma atividade. Genet quis dar aos seus personagens-sonhos uma forma de presença. Falhou, mas o próprio sonho, como significado, está presente na página "em pessoa", a frase está impregnada com um acontecimento do pensamento e o reflete. Rapidamente, Genet deixa de sentir, sabe q já sentiu. Recordemos as fantasias do pequeno Culafroy, q foram condensadas numa simples palavra: "sóis", q ele murmurou na presença de um ouvinte verdadeiro. Genet observa imediatamente: "Foi a palavra-poema q tombou da visão e começou a petrificá-la." Ele tb diz de Divina q "era necessário q ela nunca formulasse seus pensamentos em voz alta, para si mesma. Sem dúvida houve vezes em q ela disse, alto, para si mesma: 'Eu sou apenas uma pobre menina!' Mas tendo sentido isto, ela não o sentia mais, e tendo dito, já não mais o pensava". Qdo confrontada com as palavras ditas, ela pensa q as pensou. Reflete sobre si mesma e ela q reflete não é mais ela q vivencia: uma Divina pura olha para si mesma no espelho da linguagem. Da mesma forma com Genet: enquanto escreve, só tem olhos para Divina, mas assim q a tinta seca e deixa de vê-la, só vê a si mesmo pensando q Divina está se sentando. Esta transformação mistificadora é a exata contrapartida daquilo q o conduziu à sua semiloucura. No começo ele quis representar, e todos os seus atos se tornaram gestos. Atualmente, quer fazer um gesto, arrostar um público imaginário, e os sinais q traçou lhe refletem um ato: "Escrevi isto". Terá ele por fim despertado? Num certo sentido sim, mas em outro não, pois ele ainda está sonhando, imbuído da sua excitação, emaranhado em suas imagens. Um tipo muito curioso de pensamento, é verdade, um pensamento q se torna alucinado, reflete sobre suas alucinações, reconhece-as como tal, e liberta-se delas, apenas o tempo de cair novamente na armadilha de um delírio q se estende até à sua reflexão, envolvendo sua loucura num olhar lúcido q a desarma, enquanto sua lucidez é envolvida e desarmada pela loucura. O sonho está no âmago do despertar e o despertar está confortavelmente acamado no sonho. Vejamos, por exemplo, esta passagem colhida a esmo de Nossa Senhora das Flores:
"Mignon ama Divina mais e mais profundamente, isto é, mais e mais sem sabê-lo. Palavra por palavra, ele se liga mais. Mas cada vez mais ele a negligencia. Ela permanece sozinha na água-furtada. (...) Divina está consumida pelo fogo. Eu poderia, como ela mesma admitiu para mim, confessar q este desprezo q agüento sorrindo ou rindo às gargalhadas ainda não é - e o será algum dia? - por desprezo do desprezo, mas é para não ser ridicularizado, para não ser aviltado, por nada ou por ninguém, q eu mesmo me coloquei mais baixo do q a terra. Eu não poderia agir de outra forma. Se anuncio q sou uma velha puta, ninguém pode dobrar esta parada, e desencorajo o insulto. Não podem mais sequer me cuspir na cara. E Mingon-Pé-Pequeno é parecido com vocês; tudo q ele pode fazer é me desprezar. (sublinhado meu) (...) Na verdade, um grande amor terrestre destruiria essa infelicidade, mas Mignon ainda não é o Eleito. Mais tarde, virá um soldado, para q Divina tenha uma certa trégua no curso dessa calamidade q é sua existência. Mignon nada mais é q um impostor (adorável impostor, lhe chama Divina) e assim ele deve permanecer para conservar aquela aparência de uma rocha andando cegamente através da minha história (deixei de fora o 'g' em cegamente, escrevi ceamente). (As palavras em grifo não fazem parte da edição revista da obra. N.T.) Só nesta condição posso gostar dele. Falo dele como de todos os meus amantes, contra os quais esbarro e me pulverizo: 'Q ele seja petrificado de indiferença, q ele seja petrificado de cega indiferença'. Divina retomará esta frase para empregá-la em relação a Nossa Senhora das Flores."
Uma história no começo até o ponto em q "Divina está consumada pelo fogo". Genet deixa-se levar por isto, se excita: isto é o sonho. De repente, o despertar: ciumento da emoção q as desventuras de Divina despertaram nele e q poderiam despertar num leitor imaginário, ele clama zangado: "Eu tb poderia tornar-me interessante se eu quisesse", o q quer dizer: "Mas tenho muito orgulho." Agora fale dele mesmo, não sobre um herói inventado; mas isto é um verdadeiro despertar? Não, uma vez q ele continua a afirmar a existência real de Divina: "Eu poderia, como ela acabou de contar para mim...", porém na manhã seguinte Divina é ele mesmo: "Tudo q (Mignon) pode fazer é me desprezar." Um despertar no tempo? Sim e não. Genet reabsorveu Divina em si mesmo, mas Mignon continua a viver sua vida independentemente. Em diversos lugares deparamos com frases q parecem ter sido escritas sem pausa e q dão a impressão de q Genet, completamente imerso em tranqüilizar seu sonho, não releu o q havia escrito. Algumas sentenças claudicam pq ele não exerceu controle sobre as mesmas; são crianças q foram forçadas a andar muito cedo: "Eu poderia, como ela mesma admitiu para mim, confessar q este desprezo q agüento sorrindo ou rindo às gargalhadas ainda não é - e será um dia? - de desprezo pelo desprezo, e sim para não ser ridicularizado, para não ser aviltado, por nada ou por ninguém, q eu mesmo me coloquei mais baixo do q a terra." (sublinhado meu) Duas orações se chocam: "Este desprezo q agüento sorrindo ou rindo às gargalhadas (...) não é de desprezo pelo desprezo, e sim para não ser ridicularizado (o q infere: que eu gosto disso)" e "não é de desprezo pelo desprezo, e sim para não ser ridicularizado q me coloquei mais baixo do q a terra". Em resumo, neste nível as palavras são indutoras na sua relação uma com as outras; elas se atraem e se reproduzem de acordo com os hábitos gramaticais, dentro de uma descuidada consciência q só deseja derramar lágrimas sobre si mesma. Mas logo em seguida, Genet escreve entre parênteses: "Deixei de fora o 'g' em cegamente, escrevi ceamente". Desta feita ele reflete sobre a sentença, portanto em sua atividade como escritor. Não é mais o amor de Divina e Mignon q é objeto de reflexão, mas o lapso na sua sentença e na sua mão. Esse erro de grafia centra sua atenção para o significado da sentença. Ele a contempla, a descobre e resolve: "Divina tomará esta frase e a aplicará a Nossa Senhora das Flores." Agora, parece q estamos lendo uma passagem do Diário de Crime e Castigo ou o Diário dos Moedeiros Falsos. Um escritor totalmente lúcido nos informa sobre seus projetos e entra em detalhes sobre suas atividades criativas. Genet desperta: Mignon ao contrário, torna-se um objeto puro e imaginário. Será Mignon o Eleito? Não. "Mignon é simplesmente um impostor... e deverá permanecer etc". Mas então quem acabou de despertar? O escritor ou o onanista? Ambos. Pois nos dão duas razões, explicando por q Mignon não pode mudar: "a fim de preservar minha história" e "é só sob esta condição q posso gostar dele". A primeira explicação é de um criador q quer manter a severidade do tema, mas a Segunda é a de um masturbador q quer prolongar sua excitação. No fim ele parece amalgamar-se consigo mesmo, enquanto a vontade pura mantém um freio sobre as fantasias, pois escreve com estranha tranqülidade: "é Mignon quem eu mais amo, pois vocês percebem q em última análise é meu próprio destino, seja ele verdadeiro ou falso, q estou envolvendo (às vezes com farrapos, às vezes com togas de juiz) sobre os ombros de Divina. Vagarosa mas seguramente quero despi-la de qq vestígio de felicidade para transformá-la numa santa... Uma moralidade está nascendo q certamente não é a moral cotidiana... E eu, mais gentil do que um anjo mau, a conduzo pela mão." Mas o próprio distanciamento parece suspeito. Por q se adornar com ela, por q trazê-la ao nosso conhecimento? É pq ele quer nos chocar? Onde reside a verdade? Em parte alguma. Este sonhador lúcido, este "anjo mau", guarda dentro de si mesmo, numa espécie de estado indiferenciado, o masturbador, o criador, o masoquista q se tortura por procuração, o deus sereno e impiedoso q engendra o destino das suas criaturas e o sádico q se tornou escritor a fim de ser capaz de torturar mais seus personagens e cuja indiferença é uma farsa. Nossa Senhora é o q alguns psiquiatras chamam de "sonho desperto controlado", q vivem em constante perigo de se partir ao divergir sob a pressão das necessidades emocionais e na qual uma inteligência reflexiva do artista constantemente impele de volta à linha, governando-o e dirigindo-o de acordo com os princípios da lógica e dos padrões de beleza. Por si só, a história se torna estimulante, tende em direção aos estereótipos, é interrompida qdo deixa de excitar o autor, contradiz-se vez por outra, é enriquecida com estranhos detalhes, serpenteia, vagueia, de repente reaparece, demora-se em cenas banais, omite dados essenciais, volta ao passado, corre anos à frente, espalha-se uma hora em cem páginas, condensa um mês em dez linhas e de improviso, num assomo de atividade, junta vários elementos, alinha-os e explica os símbolos. Qdo pensamos estar sob as cobertas, aninhados no corpo quente do masturbador, nos descobrimos na rua outra vez, participando do poder pétreo do demiurgo. Este desenvolvimento dos temas onanísticos se torna gradualmente uma exploração introspectiva. O padrão emocional gera a imagem, e na imagem Genet, como uma analista, descobre o padrão emocional. Seu pensamento se cristaliza diante de seus olhos; ele o lê, para em seguida contemplá-lo e esclarecê-lo, de onde se obtém a reflexão, em sua pureza translúcida, como conhecimento e como atividade.
Um estudo rápido sobre o "jogo livre" da sua imaginação nos fará compreendê-lo melhor. Veremos Genet inflar seu sonho até o ponto de estourar, até o ponto de ele se tornar Deus, e então, qdo a bolha arrebenta, descobrimos que ele é um autor.
Destaco tb um trecho do tópicos III. As Imagens - p 43, q me remete aos estudos históricos q tenho realizado:
(...) A estrutura lógica do mundo social q ele (Genet) inventa para atender suas necessidades éticas é a hierarquia militar dos conceitos. Mas ele acredita nela? Claro q não, pois é inteligente demais para isso. Ele não pode ignorar totalmente as descobertas da ciência, nem este mundo operário q o fascina, o aterroriza e o enoja ao mesmo tempo. Mas, exatamente pq não acredita nele é que ele precisa se convencer dele. Uma das maiores exigências q impõe à sua imaginação é q ela lhe apresente o mundo cotidiano - o nosso mundo - de tal forma q certifique seu conceitualismo. Do universo q ele recria com o propósito de oferecê-lo a si mesmo como um objeto de experiência imaginária, poderia se deduzir os princípios de uma filosofia escolástica: o conceito é a forma q é imposta sobre toda a matéria (em outras palavras, é a iniciação ou o nascimento q cria os indivíduos); ao mudar de forma, a mesma matéria muda de ser (em outras palavras, os indivíduos mudam de uma casta para outra como resultado da enunciação); qq realidade q, em qq aspecto da sua natureza, pertença a um conceito, imediatamente se torna a expressão singular do conceito total; assim, cada objeto pode simultaneamente ou sucessivamente expressar Idéias imutáveis e conflitantes; e estas Idéias são totalidades concretas, princípios reais de individuação (em outras palavras, uma vez q o grupo está eminentemente presente em cada um dos seus membros, conferindo a cada um sua realidade sagrada, um indivíduo q pertence a diversos grupos simultaneamente é ao mesmo tempo e totalmente cada um destes grupos). Será uma nova espécie de aristotelismo? É o q se pode concluir, às vezes, pois parece - esta foi a teoria do gesto q descrevemos precedentemente - q os homens e os objetos são visitados por essências q se instalam neles por um instante para em seguida desaparecerem: se fazem um movimento ou assumem outra atitude ou se ocorre somente uma mudança de ambiente à sua volta, eles imediatamente recebem um novo nome, um novo ser. Basta os policiais serem atenciosos para com Divina q imediatamente se transformam em Mulheres Santas. E para q Divina seja uma infanta, tudo q é preciso é um carro de quatro rodas e um portão de ferro. A força animante de todas estas metamorfoses é, como para o funcionário medieval, a analogia: cada aparente analogia é um sinal de profunda identidade.
Agora, alguns trechos desta obra de Jean Genet q me tocaram:
(p213) A nobreza é sedutora. O mais igualitário dos homens, embora não admita, experimenta esta sedução e a ela se submete. Diante dela só duas atitudes são possíveis: a humildade ou a arrogância, pois tanto uma quanto a outra são o reconhecimento explícito do seu poder.
(p234) (...) O que vem a seguir é mentira e ninguém é obrigado a aceitar como verdade evangélica. A verdade não é meu forte. "Porém é preciso mentir para ser verdadeiro." E mesmo ir mais longe. De q verdade quero falar? Se é bem verdade q sou um prisioneiro q representa (e se faz representar) cenas da vida interior, vocês não devem exigir outra coisa senão uma representação.
(p237) Os três estão para sair da água-furtada. Estão prontos. Gorgui segura a chave. Um cigarro na boca de cada um. Divina risca um fósforo de cozinha (ela cada vez mais toca fogo na própria fogueira), acende seu cigarro, o de Nossa Senhora e estende a chama até Gorgui.
– Não – diz ele –, não três ao mesmo tempo, dá azar.
Divina:
– Não brinque com estas coisas, a gente nunca sabe onde vai parar.
Parece cansada e larga o fósforo agora todo negro e fino como uma cigarra e acrescenta:
– A gente começa com uma pequena superstição e acaba caindo nos braços de Deus.
Finalmente, o trecho que considero mais importante nesta obra de Jean Genet, da página 282 à 314. Muito me admira Sartre não tê-lo citado em sua apresentação. O q me desperta neste trecho é a realidade distante de mim, q me transcende e q, ao mesmo tempo está tão presente e q me/nos afeta diariamente:
– Polícia.
Eles entram no vestíbulo. Todo o assoalho está coberto por um tapete. Qq pessoa q está disposta a misturar aventuras detetivescas no cotidiano diário – uma vida de amarrar sapatos, costurar botões, espremer cravos do rosto – tem q possuir uma alma um tanto encantada. Os policiais caminham com uma das mãos sobre o revólver armado no bolso do casaco. No fundo do pequeno apartamento do menino, havia em cima da ladeira um enorme espelho emoldurado de pedras de cristal, de complicadas facetas, e poltronas acolchoadas de seda amarela esparramadas pela sala. As cortinas estavam fechadas. A luz artificial vinha de um pequeno lustre: era meio-dia. Os policiais farejavam o crime e estavam certos, pois o estúdio reproduzia a atmosfera sufocante do quarto no qual Nossa Senhora arfando, os gestos presos numa forma rígida de cortesia e pavor, estrangulara o velho. Diante deles, rosas e carvão na lareira. Como no apartamento do velho, os móveis envernizados só apresentavam curvas de onde a luz parecia saltar em vez de baixar como nos cachos de uvas. Os policiais avançavam e Nossa Senhora os observava avançar num silêncio apavorante como o silêncio eterno dos espaços desconhecidos. Eles avançavam, como ele naquele momento, na eternidade.
Eles chegaram no momento exato. No meio do estúdio, sobre uma enorme mesa, um corpanzil nu estava estendido sobre um tapete de veludo vermelho. Nossa Senhora das Flores, ao lado da mesa, de pé, atento, observava a aproximação dos policiais. Ao mesmo tempo em q a pesada idéia da morte lhes ocorria, a idéia de q este assassinato fosse mentira destruía o assassinato; o aborrecimento de tal proposição, o aborrecimento de ser ao mesmo tempo absurdo e possível, de ser um assassinato postiço, embaraçou os policiais. Era bastante óbvio q não se podia estar na presença de um desmembramento em pedaços de um homem ou de uma mulher assassinada. Os policiais usavam anéis de ouro verdadeiros e nós de gravata autênticos. Assim q – e antes de – chegaram à ponta da mesa perceberam que o cadáver era um manequim de cera usado pelos alfaiates. Mesmo assim, a idéia de um crime nublava os simples dados do problema. "Você não me engana com esta cara de santo." Disse o policial mais velho a Nossa Senhora, pq o rosto de Nossa Senhora das Flores é um rosto tão radiosamente puro q logo, e seja lá quem for, vinha a idéia de q era falso, q este anjo devia ter duas caras, de fogo e fumaça, pois sempre alguém já tivera oportunidade de lhe dizer pelo menos uma vez na vida: "Em vc se pode confiar de olhos fechados", querendo a qq preço ser mais esperto do q o destino.
Portanto um falso assassinato dominava a cena. Os dois detetives estavam só à procura de cocaína q um dos seus alcagüetes havia informado estar na casa.
– Passa a coca, rápido.
– Estamos limpeza, chefe.
– Vamos, depressa. Senão vamos ter q revistar a casa e levar vocês dois. E aí vai complicar mais.
O menino hesitou um segundo, três segundos. Conhecia os métodos dos policiais e sabia q estava perdido. Decidiu-se.
– Toma aí, só tem isso.
Estendeu um papelote, dobrado como um saquinho de pó de farmácia, q tirou do fundo do relógio de pulso. O detetive meteu no bolso do colete.
– E ele?
– Ele não tem nada. Pode revistar.
– E isso aí, de onde vem?
O manequim. Precisamos reconhecer aqui a influência talvez de Divina. Ela está em toda parte sempre q surge o inexplicável. Ela semeia, a louca, atrás dela armadilhas, alçapões sorrateiros, profundas celas em masmorras, mesmo com o risco de ser apanhada numa delas, caso volte de repente, e por causa dela o espírito de Mignon, de Nossa Senhora e de seus companheiros é embaraçado de gestos absurdos. Com as cabeças erguidas, eles se atiram em precipícios, sendo arrastados aos piores destinos. O jovem amigo de Nossa Senhora tb era um marginal, e de noite ele e Nossa Senhora roubaram a caixa de papelão de um carro estacionado e ao desembrulhá-la encontraram vários horríveis pedaços de um manequim de cera desmontado.
Os tiras colocavam os sobretudos. Não responderam. As rosas sobre a lareira eram bonitas, pesadas e perfumadas em excesso, o q desconcertou ainda mais os policiais. O assassinato era falso ou macabro. Eles tinham vindo à procura da droga. A droga... laboratórios instalados em sótãos... e q explodem... destroços... Então a cocaína é perigosa? Conduzem os dois jovens à delegacia, e naquela noite, com o delegado, voltam para fazer uma busca q lhes rende trezentos gramas de cocaína. O q não significa q deixaram o menino ou Nossa Senhora em paz. Os policiais fizeram o possível para arrancar deles o máximo de informações. Foram pressionados, revistados aquela noite para desnovelar qq fio q pudesse conduzir a outras capturas. Foram submetidos a tortura moderna: pontapés na barriga, tapas, réguas nas costelas e várias outras brincadeiras, primeiro com um, depois com outro.
– Confessa – gritavam eles.
Por fim, Nossa Senhora rolou sobre uma mesa. Louco de raiva, um policial se jogou sobre ele, mas um outro o reteve pelo braço, murmurando alguma coisa e dizendo em seguida em voz alta:
– Deixa, Gaubert. Afinal ele não cometeu nenhum crime.
– Ele, com essa carinha de anjo? Este tipo é capaz de tudo.
Tremendo de medo, Nossa Senhora desceu da mesa. Fizeram-no sentar numa cadeira. Afinal, só se tratava de cocaína, e na sala ao lado, o outro menino não tinha sido tão maltratado. O detetive q tinha cessado o brinquedo de massacrar ficou só com Nossa Senhora. Sentou-se e lhe estendeu um cigarro.
– Conte o q sabe. Não tem tanta importância. Por um pouco de cocaína ninguém vai parar na guilhotina.
Vai ser muito difícil para mim explicar com precisão e descrever com minúcia o q se passou em Nossa Senhora. Nesse caso, quase não é possível falar em gratidão no q diz respeito ao policial de voz mais doce. O relaxamento da tensão q Nossa Senhora sentiu como resultado da frase: "Não tem tanta importância", não foi ainda por isso. O policial disse:
– O q o deixou louco foi o manequim.
Ele riu e aspirou uma baforada de fumaça. Gargarejou. Nossa Senhora temeria uma pena menor? Primeiro, veio do fígado, até chegar aos dentes, a confissão do assassinato do velho. Não fez a confissão. No entanto, a confissão subia, subia. Se abre a boca, vai contar tudo. Sentiu-se perdido. De repente foi tomado por uma vertigem. Viu-se diante de um frontão de um templo não muito alto. "Tenho dezoito anos. Posso ser condenado à morte," pensa rapidamente. Se afrouxar os dedos vai cair. Vamos, ele se controla. Não, não vai dizer coisa alguma. Seria magnífico dizer, seria glorioso. Não, não, não! Senhor, não!
Ah! Ele está salvo. A confissão se recolhe, se recolhe sem ter ultrapassado.
– Matei um velho.
Nossa Senhora caiu do frontão do templo, e instantaneamente o desespero relaxado lhe dá sono. O detetive se mexeu.
– Quem, que velho?
Nossa Senhora volta à vida. Ri.
– Não, estou brincando, é bobagem minha.
Com uma velocidade estonteante engendra o seguinte álibi: um assassino confessa espontaneamente e de uma maneira idiota, acrescido de detalhes impossíveis, um assassinato, para q o tomem por louco e parem de suspeitar dele. Trabalho perdido. Levam Nossa Senhora novamente para a tortura. Não adianta gritar q estava brincando, os policiais querem saber. Nossa Senhora sabe q eles saberão, e pq é jovem se debate. É um homem afogado q luta contra seus gestos e sobre quem entretanto a paz – vocês conhecem a paz dos afogados – desce lentamente. Os policiais dizem agora o nome de todos os assassinados de cinco ou dez anos atrás cujo assassino não foi apanhado. A lista cresce; Nossa Senhora tem a inútil revelação da extraordinária ignorância da polícia. As mortes violentas desfilam diante de seus olhos. Os policiais citam nomes, mais nomes, e o espancam. Finalmente chegam ao ponto de dizer a Nossa Senhora: "Talvez vc não saiba o nome?" Ainda não. Citam os nomes e encaram o rosto vermelho da criança. É um jogo. O jogo das adivinhações. Está quente? Ragon? ... o rosto está por demais transtornado para poder exprimir qq coisa compreensível. Tudo está em desordem. Nossa Senhora grita:
– Sim, sim, é ele. Me deixem em paz.
Os cabelos nos olhos são empurrados para trás num golpe de cabeça, e este simples gesto, q era sua mais rara galanteria, significa para ele a vaidade do mundo. Mal consegue enxugar a baba q lhe corre da boca. Tudo se torna tão calmo q ninguém sabe mais o q fazer.
Do dia para a noite, o nome de Nossa Senhora das Flores ficou conhecido em toda a França, e a França está acostumada com as confusões. Os q não fazem outra coisa senão folhear os jornais não se detiveram com Nossa Senhora das Flores. Os que lêem todos os artigos de ponta a ponta, farejando o insólito e o despistando de um só golpe, trouxeram à luz uma pesca milagrosa: estes leitores eram os escolares e as velhinhas q permaneceram nas províncias, como Ernestine, nascida velha, como as crianças judias q com quatro anos já possuem o rosto e os gestos q terão aos cinqüenta. Na realidade foi para ela, para encantar seu crepúsculo, q Nossa Senhora matou o velho. Desde q ela começou a inventar contos fatais ou histórias q pareciam sem graça e banais, mas onde certas palavras explosivas rasgavam a tela, e através destes furos, mostravam se se pode dizer assim, um pouco os bastidores, se compreendia com espanto por q ela havia falado desta maneira. Ela tinha a boca cheia de histórias, e as pessoas se perguntavam como tais histórias poderiam ter nascido dela, q apenas lia todas as tardes um jornal insosso; os contos nascem do jornal como os meus dos folhetins. Ela costumava ficar atrás da janela, esperando o carteiro. Uma angústia mais e mais perturbadora a sacudia à medida q se aproximava a hora do carteiro, e qdo, enfim, tocava nas páginas cinzentas, porosas, destilando o sangue dos dramas (o sangue, cujo cheiro ela confundia com tinta e papel), qdo o desdobrava sobre os joelhos como um guardanapo, ela se afundava, exausta, extenuada no fundo de uma velha poltrona vermelha.
O pároco da aldeia, ouvindo o nome de Nossa Senhora das Flores boiando ao seu redor, sem ter recebido uma carta pastoral da diocese, num domingo no púlpito ordena rezas e recomenda este novo culto à devoção particular dos fiéis. Os fiéis, nos seus bancos, espantados, não disseram uma palavra, não pensaram um pensamento.
Numa casinhola o nome da flor q chamamos "rainha-dos-prados" fez uma menina q pensava em Nossa Senhora das Flores perguntar:
– Mamãe, ela é milagrosa?
Houve outros milagres q não tenho tempo para relatar.
O viajante taciturno e febril q chega a uma cidade não deixa de ir direto para as espeluncas, a zona, os bordéis. É guiado por um instinto misterioso q o adverte sobre o chamado amor secreto; ou talvez, pela configuração, pelo caminho q tomam certos freqüentadores q reconhece por sinais familiares, por senhas trocadas pelo subconsciente e q ele segue confiante. Assim, Ernestine se dirigia diretamente às minúsculas linhas sobre os crimes, tais como – os assassinatos, os roubos, os estupros, as agressões à mão armada – o Bairro Chinês dos jornais. Ela sonhava sobre eles. Suas violências concisas, sua precisão não deixavam ao sonho tempo nem espaço para se infiltrar: elas a aterrorizavam. Apareciam para ela brutais, em cores vivas, sonoras: mãos vermelhas colocadas sobre o rosto de uma bailarina, rostos verdes, pálpebras azuis. Qdo esta onda se acalmava, ela lia todos os títulos das seleções musicais da coluna radiofônica, apesar de nunca permitir q uma ária de música penetrasse no seu quarto, pois as melodias ligeiras corroem a poesia. Desta forma, os jornais eram perturbadores, como se só estivessem cheios de notícias criminais, colunas sangrentas e mutiladas como postes de tortura. E, embora o processo q leremos amanhã não tenha merecido da imprensa mais do q dez linhas, bastante espaçadas para permitir q o ar circule entre as palavras mais violentas, estas dez linhas – mais hipnóticas q a braguilha de um enforcado, q as palavras "corda de enforcado", q a palavra "Zuavo" – estas dez linhas fizeram bater os corações de todas as velhinhas e das crianças invejosas. Paris não dormiu pois esperava q, no dia seguinte, Nossa Senhora fosse condenado à morte; desejava q isto acontecesse.
De manhã, os varredores, indiferentes às ausências doces e tristes dos condenados à morte, mortos ou não, a quem a Câmara dos Tribunais dá asilo, levantavam poeiras acres, lavavam o soalho, cuspiam, xingavam riam com os escrivães q arrumavam os autos. A audiência estava marcada para as doze horas e quarenta e cinco minutos em ponto, e, ao meio-dia, o porteiro abriu as portas.
A sala não é majestosa, mas é muito alta, de forma q as linhas verticais dominam como as linhas das chuvas calmas. Ao se entrar, vê-se na parede um enorme quadro com uma justiça q é uma mulher, vestida de gdes drapeados vermelhos. Ela se apóia com todo o seu peso sobre uma espada aqui chamada de "gládio", q não enverga. Abaixo ficam a plataforma e a mesa onde os jurados e o Presidente do Tribunal, de arminho e toga vermelha, virão se sentar para julgar a criança. O Presidente se chama "Senhor Presidente Vaso de Santa-Maria". Mais uma vez para atingir seus fins, o destino emprega um golpe baixo. Os doze jurados são doze valorosos homens, de repente transformados em juízes soberanos. Portanto, a sala, desde meio-dia, vinha se enchendo. Um salão de festas. A mesa estava posta. Gostaria de falar com simpatia sobre esta multidão de jurados, não pq ela não fosse hostil a Nossa Senhora – isto para mim pouco importa – mas por q cintila em mil gestos poéticos. É tão arrepiante qto o tafetá. Nossa Senhora dança, na ponta de um golfo guarnecido de baionetas, uma dança perigosa. A multidão não é alegre; sua alma é triste até a morte. Ela se amontoa nos bancos, fecha os joelhos e as nádegas, assoa o nariz, executa enfim as centenas de necessidades de uma multidão de jurados q vai se curvar diante de tanta majestade. O público só vem aqui na medida em q uma palavra pode provocar uma decapitação e poderá voltar, como São Denis, carregando uma cabeça cortada em suas mãos. Dizem às vezes q a morte paira sobre um povo. Vocês se lembram daquela italiana magra e tuberculosa q foi para Culafroy o q ela seria mais tarde para Divina? Aqui, a morte nada mais é q uma asa negra sem corpo, uma asa feita de retalhos de estamenha preta sustentada por uma fina armação de varetas de guarda-chuva, um estandarte de piratas sem haste. A asa de estamenha flutuava sobre o Palácio q vocês não devem confundir com qq outro, pois é o Palácio da Justiça. Ela o envolvia com suas pregas e, na sala, havia destacado para presenteá-la, uma gravata verde de crepe da China. Sobre a mesa do Presidente, era a única peça de acusação. A morte, visível aqui, era uma gravata, e me agrada q assim seja: era uma Morte leve.
A multidão estava envergonhada de não ser o assassino. Os advogados negros carregavam os autos debaixo do braço e se cumprimentavam sorrindo. Às vezes chegavam bem perto e com muita arrogância da Pequena Morte. Os advogados eram mulheres. Os jornalistas estavam junto com os advogados. Os representantes dos Patronatos para Adolescentes falavam baixo, entre si. Disputavam uma alma. Seria preciso tirar a sorte nos dados para atirá-lo do Vosges? Os advogados, q não possuem, apesar da comprida vestimenta de seda, a presença tão doce e precipitada em relação à Morte dos eclesiastas, se formavam e se desfaziam em grupos. Estavam bem perto do estrado e a multidão os ouvia afinando seus instrumentos, para a marcha fúnebre. A multidão estava envergonhada de não morrer. A última palavra em religião era esperar e invejar um jovem assassino. O assassino entrou. Só se viam maciços guardas republicanos. A criança se destacou dos lados de um deles, enquanto outro lhe tirava as algemas dos pulsos. Os jornalistas já descreveram os movimentos da multidão à entrada de um assassino célebre; é portanto a estes artigos q remeto os leitores, se estiverem dispostos, pois meu papel e minha arte não consistem em descrever gdes movimentos de uma multidão. Mesmo assim, ousarei dizer q todos os olhos puderam ler, gravadas na aura de Nossa Senhora das Flores, as palavras: "Eu sou a Imaculada Conceição". A falta de luz e de ar na prisão não o tornou pálido demais nem muito inchado; o desenho dos lábios cerrados era o desenho de um sorriso grave; os olhos claros ignoravam o Inferno; todo seu rosto (mas talvez ele estivesse diante de vocês como a prisão q, a passagem daquela mulher cantando na noite, permaneceu para ela um muro mau, enquanto todas as celas secretamente alçavam vôo, guiadas pelas mãos q batiam como as asas dos detentos perturbados pelo canto), sua imagem e seus gestos liberavam os demônios cativos ou encerravam com várias voltas da chave os anjos da luz. Vestia um terno de flanela cinza bastante juvenil, e o colarinho da camisa azul estava aberto. Os cabelos louros teimavam em cair novamente sobre os olhos e vc se lembra do jeito q ele tinha de colocá-los de volta. Qdo finalmente tinha todo mundo diante dele, Nossa Senhora, o assassino, q logo será morto, assassinado, por sua vez, fez, piscando os olhos, um ligeiro meneio com a cabeça q fez voltar sobre ela mesma a mecha encaracolada q caía perto do nariz. Esta simples cena nos transporta, ou melhor, suspende o momento como o desligamento do mundo transporta o faquir e o mantém suspenso. O momento não era mais da terra, mas do céu. Tudo conduzia ao medo de q a audiência não seria picotada por aqueles instantes cruéis q puxariam alçapões debaixo dos pés dos juízes, dos advogados, de Nossa Senhora, dos guardas e durante uma eternidade os deixariam suspensos como faquires, até o momento em q uma respiração um pouco mais profunda os devolveria à vida suspensa.
O pelotão de honra (soldados da Colônia) entra com gde alarido, com botas tachadas e o barulho das baionetas. Nossa Senhora pensou q fosse o pelotão de execução.
Já falei? O público era sobretudo composto de homens; mas todos estes homens, de trajes escuros, com guarda-chuvas nos braços ou jornais nos bolsos, estavam mais tr6emulos q um caramanchão de glicínias, q o cortinado de rendas de um berço. Nossa Senhora das Flores era a razão pela qual o tribunal, totalmente invadido por uma multidão endomingada e grotesca, parecia uma cerca-viva de Maio. O assassino estava sentado no banco dos réus. A retirada das correntes permitia que ele pusesse as mãos no fundo dos bolsos; deste jeito, parecia estar em qq lugar, isto é, talvez numa sala de espera de uma agência de empregos, num bando de jardim público, olhando de longe, num quiosque, um teatro de fantoches, ou talvez ainda numa igreja, no catecismo das quintas-feiras. Juro q ele esperava qq coisa. Num determinado momento, tirou um maço do bolso e, como há pouco, rechaçou, ao mesmo tempo em q dava uma sacudida em sua bela cabeça, a mecha loura e encaracolada. A multidão parou de respirar. Ele completa o gesto alisando a cabeleira para trás, até a nuca, e por isto me recordo de uma estranha impressão: qdo, num personagem desumanizado pela glória, observamos um gesto familiar, um traço vulgar (note bem: empurrar num brusco golpe de cabeça uma mecha de cabelos) q quebra a crosta petrificada, através da fenda, q é tão adorável qto um sorriso ou um erro, percebemos um pedaço de céu. Já havia notado isso em relação a um dos milagres de precursores de Nossa Senhora, anjo anunciador desta Virgem, um jovem rapaz louro ("Moças louras como rapazes"... nunca vou me cansar desta frase q possui o encanto da expressão: "Um dragão da Independência") q eu observava nos conjuntos de ginástica. Ele dependia das figuras q ajudava a formar e, assim, nada mais era q um sinal. Mas cada vez q precisava colocar um joelho no chão e, como um cavaleiro na sagração, estender o braço atendendo a voz de comando, os cabelos caíam sobre os olhos, quebrava a harmonia da figura de ginasta empurrando-os para trás, contra as têmporas, em seguida para trás das orelhas, pequenas, num gesto q desenhava uma curva com as duas mãos, q, num instante, fechavam e apertavam como um diadema o crânio oblongo. Seria o gesto de uma freira tirando o véu se ele não tivesse ao mesmo tempo sacudido a cabeça como um pássaro q depois de beber se alisa com o bico.
Foi tb assim a descoberta do homem no deus q fez um dia Culafroy amar Alberto por sua covardia. O olho esquerdo de Alberto foi arrancado fora. Numa aldeia, tal acontecimento assume gdes proporções; enfim, por causa do poema (ou da fábula) q nasceu deste fato (milagre renovado de Ana Bolena: do sangue escaldante brotou um ramo de rosas q poderiam ser brancas, ms eram certamente perfumadas), fizemos a triagem, para desentulhar a verdade espalhada sob o mármore. Soube-se então q Alberto não pôde escapar de uma briga com seu rival por causa de uma mina. Ele foi covarde, como sempre, como era conhecido por todos, e isto deu a pronta vitória a seu adversário. Num golpe de faca, vazou o olho de Alberto. Todo o amor de Culafroy inchou, se podemos nos expressar assim, qdo soube do acidente. Ele se inchou de dor, de heroísmo e de ternura maternal. Ama Alberto por sua covardia. Comparado a este vício monstruoso, os outros se fizeram pálidos e inofensivos, e poderiam ser contrabalançados por qq outra virtude, sobretudo pela mais bela. (Emprego a palavra comum no sentido comum q lhe vai tão bem e q implica o maior reconhecimento dos poderes carnais: a coragem.) Podemos dizer q um homem está corroído pelos vícios, mas nem tudo estará perdido se ele não possuir "aquele ali". Ora, Alberto possuía "aquele ali". Portanto não fazia diferença q ele possuísse todos os outros; a infâmia não teria sido maior. Tudo não está perdido enquanto houver caráter, e era caráter o q faltava em Alberto. Abolir este vício – por exemplo, pela sua negação pura e simples – não era possível, mas era fácil destruir seu efeito pejorativo, amando Alberto pela sua covardia. A derrocada de Alberto era certa, e se não o embelezava, pelo menos o poetizava. Talvez Culafroy se aproximasse dele por causa dela. A coragem de Alberto não o surpreenderia, nem o deixaria indiferente, mas eis q em seu lugar ele descobria um outro Alberto, mais homem do q deus. Descobria a carne. A estátua chorava. Aqui a palavra "covardia" não pode ter o sentido moral – ou imoral – q lhe emprestamos habitualmente, e a inclinação de Culafroy por um jovem bonito, forte e covarde não constitui um impecilho, uma aberração. Culafroy via agora Alberto prostrado, com um punhal cravado dentro do olho. Será q vai morrer? Esta idéia lhe fez sonhar com o papel decorativo das viúvas, q arrastam longos véus e enxugam os olhos com lencinhos brancos enrolados, fechados, petrificados como bolas de neve. Não pensou em nada a não ser observar os sinais exteriores da dor, mas como não podia torná-la sensível aos olhos das pessoas, teve q transportá-la para si mesmo, como Santa Catarina de Siena transportava sua cela. Os camponeses foram confrontados com o espetáculo de uma criança q arrastava consigo um luto cerimonial, não o reconhecendo mais. Eles não compreendiam o sentido da lentidão do andar, da inclinação da testa, nem o vazio do olhar. Para eles, tudo isto nada mais era q atitudes ditadas pelo orgulho de ser o filho da casa de ardósia. Levaram Alberto para o hospital, onde morreu: a aldeiazinha foi exorcizada.
Nossa Senhora das Flores. A boca ligeiramente entreaberta. Às vezes os olhos baixavam até os pés q a multidão esperava q estivessem calçados de alpargatas de pano. Por dá cá aquela palha, se esperava vê-lo fazer um gesto de dançarino. Os escrivães não terminavam de desarrumar os autos. Sobre a mesa, a magra pequena Morte restava inerte e parecia bem morta. As baionetas e os calcanhares cintilavam:
– A corte!
A corte entrou por uma porta recortada na parede de papel, atrás da mesa dos jurados. Mas Nossa Senhora, na prisão, havia ouvido falar dos fautos da corte, imaginando q hoje, por uma espécie de erro grandioso, a corte entraria pela grande porta do público, com os dois batentes abertos, igual como, no dia de Ramos, o clero, q de hábito sai da sacristia por uma porta lateral perto do coro, surpreende os fiéis, aparecendo por detrás deles. A corte entrava, com a familiaridade majestosa dos príncipes, pela porta de serviço. Nossa Senhora pressentiu q toda a audiência seria falsa e q no final da representação sua cabeça seria cortada ao meio por um jogo de espelhos. Um dos guardas lhe sacudiu o braço e disse:
– Levante-se.
Ele queria dizer: "Por favor, levante-se", mas não ousou. A sala estava de pé, silenciosa. Fez barulho ao se sentar. O Sr. Vaso de Santa-Maria usava um monóculo. Escorregou um olhar soturno para a gravata e, ajudando com as duas mãos, folheou os autos. O auto estava empanturrado de detalhes como o gabinete do juiz instrutor estava empanturrado de autos. Diante de Nossa senhora, o promotor público não abriu a boca. Achava q se dissesse uma palavra, fizesse um gesto por demais cotidiano, isto o transformaria em advogado do diabo e justificaria a canonização do assassino. Era um momento difícil de tolerar; ele arriscava a sua reputação. Nossa Senhora estava sentado. Um ligeiro movimento do Sr. Vaso de Santa-Maria o fez se levantar.
Começa o interrogatório.
– O senhor se chama Adrien Baillon?
– Sim, senhor.
– Nasceu em 19 de dezembro de 1920?
– Sim, senhor.
– Em... ?
– Paris.
– Sim. Que circunscrição?
– Décima oitava, senhor.
– Sim. Os ... seus colegas lhe deram um apelido ... (Ele hesitou e em seguida:)
– Quer repeti-lo para a Corte.
O assassino não respondeu, mas o nome, sem ser pronunciado, saiu alado do cérebro da multidão. Flutuou sobre a sala, invisível, perfumado, secreto, misterioso.
O Presidente respondeu alto:
– Muito bem, é isso mesmo. E o senhor é filho de ...?
– Lucie Baillon.
– E de pai desconhecido. Sim. A acusação ... (Neste momento, os jurados – eram doze – assumiram uma atitude confortável, q, embora lhes conviesse por favorecer uma determinada propensão, mantinha cada um deles na sua dignidade individual. Nossa Senhora continuava de pé, os braços balançando ao longo do corpo, como um reizinho entediado e maravilhado q, dos degraus da escada do palácio real, assiste a uma parada militar.)
O Presidente continuava:
– ... na noite de 7 para 8 de julho de 1937, penetrou, sem q haja marcas de arrombamento, no apartamento situado no quarto andar do prédio localizado no número 12 da Rua de Vaugirard e ocupado pelo senhor Ragon, Paul, de sessenta e sete anos de idade.
Levantou a cabeça e olhou para Nossa Senhora:
– Admite os fatos?
– Sim, senhor.
– A investigação especifica q foi o dito senhor Ragon quem abriu a porta para o senhor. Pelo menos foi o q o senhor declarou sem poder provar. O senhor ainda mantém esta versão?
– Sim, senhor.
– Em seguida, o senhor Ragon, q o conhecia, pareceu se alegrar com sua visita e lhe teria oferecido um licor. Então, inesperadamente, com a ajuda ... (ele hesita) ... desta gravata o senhor o estrangulou.
O Presidente apanhou a gravata.
– O senhor reconhece esta gravata como de sua propriedade e como sendo a arma do crime?
– Sim, senhor.
O Presidente segurava a gravata macia entre os dedos, uma gravata como um ectoplasma, uma gravata q precisava ser vista enquanto havia tempo, pois poderia desaparecer de um momento para outro ou endurecer na mão seca do Presidente, q sabia q, caso ocorresse a ereção ou o desaparecimento, ele estaria coberto de ridículo. Apressou-se portanto em passar a arma do crime ao primeiro jurado, q a entregou ao vizinho e assim por diante, sem que nenhum deles ousasse demorar em reconhecê-la, pois cada um deles parecia estar correndo o risco de se metamorfosear diante dos próprios olhos numa dançarina espanhola. Mas estas precauções foram inúteis, pois, embora não se apercebessem, já estavam totalmente modificados. Os gestos culposos dos jurados, parecendo de conivência com o destino q governou o assassinato do velho, e o assassino, tão imóvel qto o médium a quem se interroga e q graças a essa imobilidade está ausente, e no lugar dessa ausência, mergulham a sala nas trevas, justamente onde a multidão gostaria de ver claramente. O Presidente falava, falava. Tinha chegado a um determinado ponto:
– E quem lhe deu a idéia de empregar semelhante método para assassinar?
– Ele.
O mundo inteiro compreendeu que Ele era o velho morto, q desempenhava agora seu papel novamente, ele, enterrado, devorado pelos vermes e pelas larvas.
– O assassinado!
O juiz começou a gritar furiosamente:
– Foi a própria vítima quem lhe indicou a maneira de matá-la? Que é isso, explique-se melhor.
Nossa Senhora parecia sem graça. Um pudor terno o impedia de falar. Tb a timidez.
– Sim. Foi... – disse ele – O Sr. Ragon usava uma gravata muito apertada no pescoço. Estava todo vermelho. Então ele tirou a gravata.
E o assassino, muito gentilmente, como se consentisse numa negociação infame ou numa ação caridosa, confessou:
– Então pensei q se eu apertasse seria pior ...
E num tom mais baixo q só deu para os guardas e o Presidente ouvirem (mas inaudível para a multidão):
– Pq tenho braços fortes.
O Presidente baixa a cabeça, vencido:
– Desgraçado! – disse ele – E por quê?
– Eu estava numa dureza fabulosa.
Uma vez q se emprega a palavra "fabulosa" para qualificar uma fortuna, não parecia impossível aplicá-la à miséria. Essa dureza fabulosa fez para Nossa Senhora um pedestal de nuvens: Tornou-se tão prodigiosamente glorioso qto o corpo de Cristo se elevando para permanecer só, fixo, no céu ensolarado do meio-dia. O Presidente torcia as belas mãos. A multidão torcia os rostos. Os escrivães amarrotavam as folhas de papel carbono. Os advogados ficaram de repente com os olhos de galinhas extralúcidas. Os guardas oficiavam. A poesia trabalhava sua matéria. Só, Nossa Senhora estava só, e mantinha sua dignidade, ou seja, ainda pertencia a uma mitologia primitiva e ignorava sua divindade e sua divinação. O resto do mundo não sabia o q pensar, e fazia esforços sobre-humanos para não ser arrastado fora da costa. As mãos, de unhas arrancadas, agarravam-se em qq tábua de segurança: cruzar ou descruzar as pernas, examinar uma mancha no casaco, pensar na família do homem estrangulado, palitar os dentes.
– Então, explique à corte como agiu.
Foi horrível. Era preciso q Nossa Senhora explicasse. Os policiais tinham exigido detalhes, o juiz de instrução tb, agora era a vez da Corte. Nossa Senhora teve vergonha, não do ato (isto seria impossível), mas de repetir sempre a mesma história. Teve a audaciosa idéia de dar uma nova versão, tão cansado estava de terminar sua narrativa com as palavras: "Até q ele não suportou mais." Decidiu relatar outra coisa. No entanto, ao mesmo tempo, contou exatamente a história q havia relatado com as mesmas palavras aos policiais, ao juiz, ao advogado, aos psiquiatras. Pois, para Nossa Senhora, um gesto é um poema e só pode ser expresso com o auxílio de um símbolo, sempre, sempre igual. E, daquela ação de dois anos atrás, só restava a expressão despojada. Relia o crime como quem relê uma crônica, mas na realidade não era do crime q estava falando. Enquanto isso, o relógio pendurado na parede diante dele trabalhava com método, embora o tempo estivesse fora de ordem, de modo q o relógio marcava em cada segundo períodos longos e breves.
Dos doze velhos de bem q compunham o júri, quatro usavam óculos. Estes quatro estavam isolados da comunhão com a sala por este vidro, q é um mau condutor, isolante, seguiam à parte outras aventuras. Na realidade, nenhum deles parecia interessado neste assassinato. Um dos velhos alisava constantemente a barba; era o único q parecia interessado; porém; observando-o melhor, vemos q seus olhos são ocos como os olhos das estátuas. Outro era feito de pano. Um outro desenhava, sobre o pano verde da mesa, círculos e estrelas; na sua vida diária era um pintor, e por brincadeira era levado às vezes a colorir pardais maliciosos empoleirados num espantalho de um jardim. Outro escarrava com vontade num lenço azul-claro – azul-França. Levantaram-se e seguiram o juiz através da pequena porta disfarçada. A deliberação é tão secreta qto a eleição de um traidor dentro de uma confraria. A multidão se relaxava, bocejando, se coçando, anotando. O advogado de Nossa Senhora sai do banco e se aproxima do cliente.
– Coragem, meu filho, coragem! – disse ele, apertando-lhe as mãos. – Você respondeu muito bem, foi sincero, e acho q o júri está do nosso lado.
Enquanto falava, apertava as mãos de Nossa Senhora, apoiando-o ou se apoiando nele. Nossa Senhora deu um sorriso capaz de amaldiçoar seus juízes. Um sorriso tão azulado q os próprios guardas tiveram a intuição da existência de Deus e dos gdes princípios da geometria. Pensem no coaxar enluarado do sapo; é tão puro, à noite, q o vagabundo na estrada para e não prossegue o caminho até tê-lo ouvido novamente.
– Estão brigando? – perguntou ele, piscando.
– É isso mesmo – disse o advogado.
O guarda de honra apresenta armas e a corte descarapuçada emerge da parede. O Sr. Vaso de Santa-Maria se senta em silêncio, seguido de todo mundo, q se abanca ruidosamente. O Presidente coloca a cabeça entre as belas mãos brancas e diz:
– Vamos ouvir as testemunhas. Ah! Primeiro vamos ver o relatório policial. Os inspetores estão aqui?
É extraordinário q um Presidente da Corte seja tão distraído a ponto de esquecer um detalhe tão importante. Este erro chocou Nossa Senhora como o chocaria um erro de ortografia (se ele soubesse soletrar) escrito nos regulamentos da prisão. Um escrivão fez entrar os dois inspetores q prenderam Nossa Senhora. O q tinha feito antes a investigação de dois anos atrás tinha morrido. Fizeram no entanto um relatório sucinto dos fatos: uma espantosa história na qual um crime postiço levou a um crime verdadeiro. Essa descoberta é impossível, eu sonho. "Por um nada!" Mas, apesar de tudo, já me conformo mais com essa divertida descoberta q conduz à morte, depois q o vigia apanhou meu manuscrito q eu levava comigo na hora do passeio diário. Tenho o sentimento da catástrofe, mas não me atrevo a acreditar q uma tal catástrofe possa ser a conseqüência lógica de uma imprudência tão pequena. Porém acho q o fato de os criminosos perderem a cabeça por causa de uma imprudência tão pequena, tão pequena, q a gente deveria ter o direito de repará-la voltando de marcha à ré, e se falássemos com o juiz ele acederia, mas isso não se pode fazer. Apesar da sua formação, q dizem cartesiana, os membros do júri serão incapazes, qdo, algumas horas depois, condenarão à morte Nossa Senhora, não terão certeza se foi pq ele estrangulou um boneco ou se pq cortou em pedaços um velhinho. Os policiais, instigadores do anarquismo, se retiraram fazendo ao Presidente uma bela reverência. Fora, caía a neve. Isso se pressentia pelo movimento das mãos na sala, levantando o colarinho dos sobretudos. O tempo estava nublado. A morte avançava silenciosamente sobre a neve. Um escrivão chama as testemunhas q aguardavam numa pequena sala ao lado, e uma por uma, gota por gota, eram entornadas no processo. Caminhavam até a barra, onde levantavam a mão direita e respondiam: "Juro" a uma pergunta q ninguém fizera. Nossa Senhora viu Mimosa II entrar. No entanto o escrivão tinha gritado: "Hirsch, René", em seguida à chamada de "Berthollet, Antoine" apareceu Primeira Comunhão, à chamada de "Marceau, Eugène" apareceu Maçã Deliciosa. Dessa maneira, aos olhos espantados de Nossa Senhora, as bichinhas de Pigalle até Place Blanche perdiam seus melhores adornos: os nomes delas perdiam sua corola, como a flor de papel q o bailarino segura na ponta dos dedos e q, qdo acaba o balé, nada mais é do q uma haste de arame. Não valeria mais a pena se ele tivesse dançado todo o balé com um simples fio de ferro? Essa pergunta merece um estudo mais aprofundado. As bichas mostravam o esqueleto q Mignon distinguia sobre a seda e o veludo de cada poltrona. Estavam reduzidas a zero e era a melhor coisa q tinha sido feita até agora. Chegavam, provocantes ou tímidas, perfumadas, maquiladas, se exprimindo com afetação. Não eram mais o arvoredo de papelotes florescendo nos terraços dos cafés. Eram a miséria multicolorida. (De onde vêm os nomes de guerra das bichas? Mas antes deve ser notado q nenhum deles foi escolhido por quem lhes deu a luz. Isso no entanto não acontece comigo. Não posso precisar exatamente por q escolhi este ou aquele nome: Divina, Primeira Comunhão, Mimosa, Nossa Senhora das Flores, Príncipe-Monsenhor não ocorreram por acaso. Existe um parentesco entre eles, um aroma de incenso e de círio q fazem, e tenho às vezes a impressão de tê-los recolhido entre as flores artificiais ou naturais na capela da Virgem Maria, no mês de maio, debaixo e em volta daquela estátua de gesso voraz por q Alberto estava apaixonado e detrás da qual, qdo criança, eu escondia a garrafinha contendo a minha porra.) Algumas delas pronunciavam algumas palavras espantosas de exatidão como: "Ele morava na Rua Berthe, 8" ou "Foi no dia 17 de outubro q o encontrei pela última vez. Foi no Café Graff." Um dedo mínimo erguido, como se o polegar e o indicador segurassem uma xícara de chá, perturbava a gravidade da sessão e, através desta folha seca, se distinguia o trágico da sua massa. O escrivão gritou: "Senhor Culafroy, Louis." Apoiada por Ernestine, ereta e vestida de preto, a única mulher de verdade presente no Tribunal, entrou Divina. O q restava da sua beleza tinha fugido em debandada. As sombras e as linhas tinham desatado dos seus postos: era a ruína. O belo rosto gritava apelos dilacerantes, clamores trágicos como o grito de uma morta. Divina trajava um enorme e sedoso sobretudo de pêlo de camelo marrom. Ela disse também:
– Juro.
– Que sabe sobre o réu? – disse o Presidente.
– Eu o conheço há muitos anos, senhor Presidente, e no entanto só posso dizer q o acho muito ingênuo, muito infantil. Só tive gentilezas da sua parte. Ele poderia ser meu filho.
Falou ainda, com muito tato, como tinham muito tempo vivido juntos. Não se falou em Mignon. Divina foi enfim a pessoa adulta q não lhe deixaram ser em qq outro lugar. Céus! aí está ele novamente, como testemunha, emergindo por fim do menino Culafroy q nunca deixou de ser. Se nunca realizou algo de simples é pq apenas alguns velhos podem ser simples, isto é, puros, purgados, simplificados como um desenho em tamanho natural, q é talvez o estado de ser sobre o qual Jesus falou: "... semelhantes às criancinhas", embora criança alguma seja assim, pois um trabalho enfadonho, de toda uma vida, nem sempre se conquista. Nada dele era simples, nem mesmo o sorriso que ele gostava de esgueirar com o canto direito da boca, ou espalhar por todo o rosto, com os dentes cerrados.
A grandeza de um homem não é somente uma função das suas faculdades, de sua inteligência, dos seus dons, sejam eles quais forem: é feita tb das circunstâncias q o elegeram para lhes servir de apoio. Um homem é gde se possui um gde destino; mas essa grandeza é da ordem das grandezas visíveis, mensuráveis. É a magnificência vista de fora. Miserável talvez, vista por dentro, ela é nesse caso poética, se vocês convirem q a poesia é a ruptura (ou melhor, o encontro no ponto de ruptura) do visível e do invisível. Culafroy teve um destino miserável e é por causa disso q sua vida foi formada por atos secretos, cada um deles constituindo um poema em essência, como o ínfimo movimento do dedo de uma dançarina de Bali é um sinal q pode pôr em movimento um mundo, pq advém de um mundo cujo sentido melodioso é inconfessável. Culafroy se tornou Divina; foi assim um poema escrito somente para ele mesmo, hermético a quem quer q não tenha a sua chave. Em resumo, essa é sua glória secreta, semelhante àquela q decretei sobre mim mesmo a fim de obter finalmente a paz. E eu a possuo, pois uma quiromante, numa barraca de feira, me afirmou q um dia eu seria célebre. Mas q espécie de celebridade? Tremo em pensar. Mas essa profecia foi o bastante para acalmar minha antiga necessidade de me achar um gênio. Trago comigo, preciosamente, a frase do augúrio: "Você um dia será célebre." Vivo com ela em segredo, como as famílias, à noite, sob a luz, e sempre, se elas o possuem, com a lembrança cintilante do seu condenado à morte. Ela me ilumina e me aterroriza. Essa celebridade tão virtual me enobrece, como um pergaminho q ninguém saberia decifrar, um nascimento ilustre conservado em segredo, uma faixa de bastardia real, uma máscara ou talvez uma filiação divina, talvez algo como deve ter sentido Joséphine, ela q se tornaria a mulher mais linda da aldeia, Marie, mãe de Solange – a deusa nascida na choupana com mais brasões em seu corpo do q Mimosa em suas nádegas e em seus gestos, com mais nobreza q um Chambrure. Essa espécie de sagração manteve as outras mulheres de sua idade (as outras, mães dos homens) longe de Joséphine. Na pequena aldeia sua situação era semelhante à da mãe de Jesus entre as mulheres da Galiléia. A beleza de Marie tornava a aldeia ilustre. Ser a mãe humana de uma divindade é um estado mais perturbador q o da divindade. A mãe de Jesus deve ter tido emoções incomparáveis enquanto carregava o filho, e mais tarde vivendo e dormindo lado a lado com um filho q era Deus – isto é, tudo e ela mesma tb – q podia fazer com q o mundo não fosse, q sua mãe, q ele mesmo não fossem um Deus a quem ela tinha q preparar, como Joséphine preparou para Marie, a canja de galinha amarelada.
Além do mais não era bem pq Culafroy, menino e Divina, possuísse uma finura excepcional; mas circunstâncias de uma excepcional estranheza o haviam escolhido como lugar de eleição, sem informá-lo, o enfeitando com um texto misterioso. Ele servia um poema segundo os caprichos de uma rima sem rima ou lógica. Foi mais tarde, na hora da morte, que num só golpe de vista maravilhado, pôde reler a vida q ele havia escrito sobre a própria carne, com os olhos fechados. E agora, Divina emerge do seu drama interior, do nó trágico q carrega consigo, e, pela primeira vez na vida, é levada a sério no desfile dos seres humanos. O promotor faz cessar o desfile. As testemunhas tinham se retirado pela porta entreaberta. Como cada um deles havia aparecido apenas por um segundo, eles ardiam em sua passagem: eram reprimidos pelo desconhecido. Os verdadeiros centros da vida estavam na sala das testemunhas – Pátio dos milagres – e na câmara das deliberações. Era ali q se reconstruía com todos os acessórios o quarto do crime escabroso. O extraordinário é q a gravata ainda estava lá, emboscada sobre a mesa verde, mais pálida do q de costume, macia mas pronta para saltar como um vagabundo exausto saltaria de um banco de uma delegacia. A multidão irrequieta como um cachorro. Anunciava-se q um descarrilamento tinha atrasado a Morte. De um golpe tudo ficou escuro. Finalmente, o Presidente designou o perito em psiquiatria. Foi ele, verdadeiramente, q surgiu de um alçapão invisível dentro de uma caixa invisível. Ele tinha estado sentado no meio do público sem q alguém tivesse suspeitado dele; levantou-se e foi até a barra. Leu aos jurados seu relatório. Desse relatório alado caíam no chão palavras como: "Desequilíbrio... psicopatia... fabulação... sistema esplâncnico... esquizofrenia... desequilíbrio, desequilíbrio, desequilíbrio, desequilíbrio... equilibrista..." e de repente, pungente, sangrento: "O nervo simpático..." Sem pausar: "Desequilíbrio... semi-responsável... secreção... Freud... Jung... Adler... secreção..." Mas a voz pérfida acariciava certas sílabas, e os gestos do homem lutavam contra inimigos: "Pai, cuidado à esquerda, à direita"; certas palavras finalmente recocheteavam na voz pérfida (como na língua do "pê" onde no meio das sílabas é preciso misturar palavras q são primárias ou banais: bapabapa, côpocôpo). O q se entendeu foi o seguinte: "O q é um malfeitor? Uma gravata q dança ao luar, um tapete epiléptico, uma escada q sobe de bruços, um punhal em marcha desde o começo do mundo, um vidro de veneno enlouquecido, mãos enluvadas na noite, o colarinho azul de um marinheiro, uma sucessão aberta, um conjunto de gestos benignos e simples, um trinco silencioso." O gde psiquiatra leu por fim suas conclusões: "Que ele (Nossa Senhora das Flores) é um desequilibrado psíquico, sem afeto, amoral. Porém, como em todo ato criminoso, como em todo ato, existe um elemento volitivo q não é conseqüência da cumplicidade irritante das coisas. Em resumo, Baillon é parcialmente responsável pelo crime."
A neve caía. Tudo, em volta da sala, era silêncio. A Câmara dos Tribunais estava abandonada no espaço, isolada. Ela já não obedecia mais às leis da terra. Voava livre por entre estrelas e planetas. Era, no ar, a casa de pedra da Virgem Santíssima. Os passageiros não esperavam mais ajuda alguma do exterior. As amarras tinham sido cortadas. Era nesse momento q a parcela apavorada do tribunal (a multidão, os jurados, os advogados, os guardas) deveria se prostrar de joelhos e entoar cânticos, enquanto a outra parcela (Nossa Senhora), liberada do peso dos trabalhos carnais (a condenação à morte é um trabalho carnal) teria se organizado em um dueto para cantar: "A vida é um sonho... um sonho encantador..." Mas a multidão não tem o sentido da grandeza. Ela não obedece a esta injunção dramática, e nada poderia ser menos sério do q o q se seguiu. O próprio Nossa Senhora sentiu seu orgulho fraquejar. Olha pela primeira vez com olhos de homem para o Presidente Vaso de Santa-Maria. É tão doce amar q não pôde deixar de se dissolver numa ternura doce e confiante pelo Presidente. "Talvez ele não seja um rato", pensou. Imediatamente sua doce insensibilidade desmoronou e o alívio causado por isso foi semelhante ao da urina liberada pelo pau depois de uma noite de continência. Lembrem-se q Mignon, ao acordar, se descobriu no chão qdo havia mijado. Nossa Senhora amou seu carrasco, seu primeiro carrasco. Era já uma espécie de perdão flutuante, prematuro, q ele concedia ao monóculo gelado, ao cabelo metálico, à boca terrestre, ao julgamento futuro, enunciado segundo pavorosas Escrituras. O q é exatamente um carrasco? Uma criança vestida de Parca, um inocente isolado pelo esplendor dos trapos de púrpura, um pobre, um humilde. Alguém acendeu os lustres e as luzes laterais. O Ministério Público toma a palavra. Contra o adolescente assassino recortado de um bloco de água pura, ele só falou coisas muito justas de acordo com o juiz e os jurados. Ou melhor, q é preciso proteger os q vivem de rendas, q às vezes vivem em andares altos, quase nos telhados, e mandar matar as crianças q os estrangulam... Tudo muito sensato, dito num tom inteligente e às vezes bastante nobre. Balançando a cabeça:
– ... É uma pena (num tom menor, em seguida num tom maior) ...
O braço apontando para o assassino era obsceno.
– Bata forte – gritava ele –, bata forte.
Falando dele, os presos diziam: "O Escavador". Nesta sessão solene, ele ilustrava acuradamente um cartaz pregado numa porta maciça. Perdida no negrume da multidão, uma velha marquesa pensa: "A República já guilhotinou para nós cinco deles...", mas seu pensamento não foi mais aprofundado. A gravata continuava sobre a mesa. Os jurados ainda não tinham conseguido liberar seu pavor. Foi nesse momento q o pêndulo marcou cinco horas. Durante o requisitório, Nossa Senhora ficou sentado. O Palácio da Justiça lhe parecia situado entre prédios de apartamentos, ao fundo de uma destas áreas internas em forma de poço para onde dão todas as janelas das cozinhas e dos banheiros, onde empregadas descabeladas se penduram e, com as mãos em concha sobre as orelhas, ouvem e procuram não perder coisa alguma do q está acontecendo. Cinco andares sobre quatro rostos. As criadas são desdentadas e se espionam entre si, atrás deles; atravessando a escuridão da cozinha, pode-se avistar algumas lantejoulas douradas ou de pelúcia no mistério dos apartamentos faustosos, onde velhos de cabeça de marfim observam com olhos tranqüilos a aproximação de assassinos de chinelos. Para Nossa Senhora, o Palácio da Justiça fica no fundo deste poço. É pequeno e leve como o templo grego q Minerva traz sobre sua mão aberta. O guarda, à esquerda, mandou-o levantar-se, pois o juiz o interrogava: "O q tem a dizer em sua defesa?" O velho mendigo, companheiro de cela na Prisão da Saúde, havia preparado algumas palavras convenientes para dizer à corte. Ele as procurou sem as encontrar. A frase: "Não foi por querer", formou-se em seus lábios. Se a tivesse dito, não teria espantado ninguém. Esperava-se pelo pior. Todas as respostas q lhe vinham à cabeça eram em gíria, e um sentimento de propriedade lhe insinuava para falar em francês, mas todos sabemos q nos momentos graves é a língua materna q prevalece. Ele tinha q ser natural. Ser natural, naquele momento, era ser teatral, mas seu acanhamento o salvou do ridículo e lhe custou a cabeça. Ele foi verdadeiramente gde. Disse:
– O coroa tava ferrado. Nem o pau ficava duro!
A última palavra não passou pelos lábios garbosos; contudo, os doze velhos, juntos, rapidamente colocaram as duas mãos sobre as orelhas para impedir a entrada de uma palavra tão gde qto um órgão, q, não encontrando outro orifício, entrou dura e quente nas bocas abertas dos jurados. A virilidade dos doze velhos e a do Presidente foram achincalhadas pelo glorioso descaramento do adolescente. Tudo mudou. Os q eram dançarinas espanholas, com castanholas nos dedos, se tornaram jurados, o pintor sensível se tornou um jurado, o velho urso tb, o q era papa e um sujeito chamado Vestris. Vocês não acreditam? A sala emitiu um suspiro de raiva. O Presidente fez com as belas mãos o mesmo gesto q as atrizes de tragédias fazem com seus belos braços. Três arrepios sutis percorreram sua toga vermelha, como uma cortina de teatro, como se na bainha, na altura do tornozelo, estivessem cravadas as garras desesperadas de um gatinho agonizante, cujos músculos da pata tivessem sido crispados por três abalos mortais. Nervosamente, ordenou respeito a Nossa Senhora, e o advogado de defesa tomou a palavra. Dando passos miúdos (como se estivesse soltando peidos curtos) sob a toga ele se aproximou da barra e falou à corte. A corte sorriu, com um sorriso q empresta ao rosto a escolha austera, já determinada, entre o justo e o injusto, o cenho real da testa q conhece os limites – q tem visto claro e julgado – e q condena. A corte sorria. Os rostos relaxavam a tensão, as carnes readquiriam sua maciez; esboçavam-se pequenos muxoxos q prontamente assustados voltavam para suas tocas. A corte estava satisfeita, bem satisfeita. O advogado se esmerava. Um falatório sem fim cheio de sentenças intermináveis. Pressentia-se q, nascidas de um clarão, elas deveriam se diluir em caudas e cometas, misturando o q ele dizia ser suas recordações infantis (da sua própria infância qdo ele próprio tinha sido tentado pelo Diabo) com noções de direito puro. Apesar de tal contato, o direito puro permaneceu puro e, na baba cinza, mantinha o seu brilho de duro cristal. O advogado falava primeiro q tinha sido criado na sarjeta, citava o exemplo da rua, da fome, da sede (será, meu Deus, q ele queria fazer do menino um Pai Foucauld, um Michel Vieuchange?), falava ainda da tentação quase carnal do pescoço, q é feito desta forma para poder ser estrangulado. Em resumo, divagava. Nossa Senhora apreciava essa eloqüência. Não acreditava ainda no q o advogado dizia, mas estava pronto a aceitar tudo, assumir tudo. No entanto, uma sensação de mal-estar, cujo sentido só veio compreender mais tarde, lhe participava, por meios obscuros, q o advogado o prejudicava. A corte maldizia um advogado tão medíocre, q não lhe dava oportunidade sequer de sobrepujar a piedade q normalmente ela deveria sentir após a defesa. Qual era o jogo deste advogado imbecil? Se ele dissesse uma palavra, uma palavra pequena ou grosseira, pelo menos durante o espaço e o tempo de uma olhada criminosa, os jurados se enamorariam de um cadáver adolescente e, vingando tb o velho estrangulado, se sentiriam por sua vez uma alma de assassino, tranqüilos, sentados, aquecidos, sem riscos a não ser pela pequena Danação Eterna. A satisfação estava desaparecendo. Será q teriam q absolver pq o advogado era incompetente? Mas será q alguém não pensou q talvez fosse a suprema astúcia de um advogado-poeta? Dizem q Napoleão perdeu em Waterloo pq Wellington cometeu um erro. A corte sentia q precisava santificar este jovem. O advogado babava. Falava nesse momento sobre uma possível reeducação – enquanto nas cadeiras reservadas os quatro representantes dos patronatos para a Infância e para a Adolescência jogavam pôquer de dados para decidir a sorte da alma de Nossa Senhora das Flores. O advogado pedia a absolvição. Implorava. Ninguém o compreendia mais. Finalmente, com a presteza de sentir o momento entre mil para dizer a palavra crucial, Nossa Senhora, delicadamente como sempre, fez um muxoxo de desgosto e disse sem pensar:
– Ah! A Corrida não, não vale a pena, prefiro ser despachado logo.
O advogado ficou boquiaberto, em seguida com vivacidade, num estalar da língua, reuniu seus sentimentos confusos e gaguejou:
– Meu filho, que é isso, meu filho. Deixe comigo a defesa. Senhores – disse ele para a corte (poderia sem qq mal, como a uma rainha, dizer à corte: Senhora) –, trata-se de uma criança.
Ao mesmo tempo em q o Presidente perguntava a Nossa Senhora:
– Mas o q é isso? Q está dizendo? Não antecipe as coisas.
A crueza da palavra desnudou os juizes e os deixou sem outra roupa a não ser o esplendor. A multidão pigarreou. O Presidente não sabia q em gíria Corrida queria dizer casa de correção. Sentado, calado, forte, imóvel sobre um banco de madeira entre os guardas com correias de couro amarelo, botas e elmos, Nossa Senhora se sentia como q dançando uma jiga. O desespero o havia trespassado como uma flecha, como um palhaço pelo papel de seda de um aro; o desespero tinha-o ultrapassado e tudo q lhe restava era o rasgão q o deixava ali, vestido de trapos brancos. Embora não estivesse intacto, ainda mantinha sua posição. O mundo já não estava mais naquela sala. Era como tinha q ser. Tudo precisa acabar. A corte voltava. A batida dos cabos de fuzis da guarda de honra deu o alarme. De pé, a cabeça descoberta, o monóculo leu o veredito. Pronunciou pela primeira vez, em seguida do nome Baillon: "Vulgo Nossa Senhora das Flores". Nossa Senhora foi condenado à pena capital. Os jurados estavam de pé. Foi a apoteose. Tudo acabado. Nossa Senhora das Flores, qdo foi devolvido para as mãos dos guardas, lhes pareceu revestido de um caráter sagrado, parecido com aquele q antigamente as vítimas expiatórias possuíam, fossem elas cabras, bois ou crianças, e q os reis e os judeus possuem até hoje. Os guardas falavam com ele e o atendiam, como se, sabendo-o carregado do peso do pecado, quisessem ser agraciados pelas bênçãos do Redentor. Quarenta dias depois, numa noite de primavera, a máquina foi montada no pátio da prisão. De madrugada estava pronta para cortar. Nossa Senhora das Flores teve sua cabeça decepada por uma verdadeira faca. E nada aconteceu. E para quê? Não há necessidade de rasgar de alto a baixo o véu do templo só pq um deus entrega sua alma. Isso só vem provar a má qualidade do tecido e sua vetustez. Embora a indiferença tenha sido a atitude certa, eu ainda aceitaria q um moleque irreverente o chutasse com um pontapé e saísse gritando: Um milagre! É um falso brilhante e muito adequado para servir de moldura para uma lenda.
|
Pompas Fúnebres |
GENET, Jean. Pompas Fúnebres. Tradução de Ronaldo Lima Lins e Irène M. Cubric. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 320pp.
Livro onde Jean Genet se mostra o grande poeta do crime e da homossexualidade e revela uma face escura ...
(p198) Minha arte consiste em explorar o mal, já que sou poeta; ninguém pode ficar surpreso pelo fato de eu tratar dessas coisas, desses conflitos que caracterizam o mais patético dos períodos. O poeta trata do mal. É seu papel ver a beleza, extraí-la (ou colocar a beleza que ele quiser, por orgulho?) e utilizá-la. O erro interessa ao poeta, pois somente o erro ensina a verdade. Repito aqui que o poeta é associal (aparentemente), ele canta os erros, encanta-os depois para que sejam úteis à beleza do dia seguinte. A definição habitual do mal me faz pensar que ele é apenas o resíduo de Deus. A poesia ou a arte de utilizar os restos. Utilizar a merda e obrigar as pessoas a comê-la. Com o mal, quero dizer o pecado, contra as leis sociais ou religiosas (da religião de Estado), quando o Mal só existe realmente no fato de dar a morte, ou de impedir a vida. Não devemos aceitar essa definição rápida para condenar os crimes. Matar significa freqüentemente dar a vida. Matar pode ser um ato bom. Isso se verifica pela exaltação alegre do assassino. É a alegria do selvagem que mata para sua tribo. Riton mata por matar, mas não importa. O pecado não é esse. Ele mata para viver, pois esses crimes são o pretexto e o meio para uma vida superior. O único crime seria destruir-se a si próprio, matar a única vida que conta, a vida espiritual. Conheço mal os teólogos, mas desconfio que são da mesma opinião quanto a este assunto. Riton não se matará... a menos que... Veremos. Até a última fração de segundo, eu preciso que ele continue, pela destruição, pelo assassínio em suma, o mal, segundo vocês - a esgotar, para e numa exaltação - que quer dizer elevação - sempre e cada vez maior, o ser social ou a ganga, de onde surgirá o mais deslumbrante diamante; a solidão, ou santidade, isto é, ainda o jogo incontrolável, cintilante, insuportável de sua liberdade. A quem argumenta que Riton não está só, uma vez que ama, quero responder que, sem esse amor, ele não teria ido livremente até o mais alto grau. Foi a própria necessidade que obrigou os milicianos - sobretudo o nosso - a atirarem contra os franceses, mas só conta este fato: dada a solidão, a sua aceitação. Quando é inevitável, sua recusa significa o desespero, pecado que se opôe, eu creio, à segunda virtude teológica. Enfim, escrevo o presente livro e proponho todas essas coisas, e subo claudicando e muitas vezes escorregando até minha rocha de solidão, porque, com meu erotismo, minha amizade pelo mais duro e o mais reto dos adolescentes, santo, segundo os homens, suscito a imagem de um traidor aureolado. É sob o império da morte ainda jovem de Jean, vermelho desta morte e do emblema de seu partido, que escrevo. As flores que desejei em profusão sobre seu pequeno túmulo perdido na névoa talvez não estejam murchas e já reconheço que o personagem mais importante, que exalta a narrativa de minha dor e de meu amor por ele, será esse monstro luminoso, exposto à mais esplêndida solidão, aquele diante de quem experimento uma espécie de êxtase, porque ele descarregou no seu corpo uma rajada de metralhadora.
(p258) (...) Parecia realizar o que cada ladrão deseja: aquela organização, aquela sociedade livre, poderosa, que só era ideal na prisão, onde cada ladrão e mesmo cada assassino seriam apreciados abertamente e por nenhuma outra razão além de seu valor como ladrões ou assassinos. A polícia torna impossível as associações de malfeitores, e logo os grandes bandos são destruídos, quando não se limitam apenas à imaginação de jornalistas ou de policiais. O ladrão e o assassino só conhecem a camaradagem no fundo das prisões, onde seu valor, enfim, é reconhecido, aceito, recompensado, honrado. Já não existe essa "máfia", salvo a dos cafetões que são dedos-duros. O assaltante e o matador estão sozinhos, às vezes com alguns amigos. Se eles se freqüentam como colegas, convém sempre ficar de olho, responder de maneira vaga às perguntas: "Oh! eu me viro", só dar publicidade aos fatos no dia em que se é apanhado. Mas a grande felicidade de ver seu nome sob uma foto, pensar que os colegas estão com inveja dessa glória, paga-se com a liberdade e muitas vezes com a vida, de maneira que cada serviço, assalto ou assassinato será uma maravilha de arte, pois daquele, do último que seja, virão a morte e a glória. (...)
(p277) De súbito, fico só, porque o céu está azul, as árvores verdes, a rua calma, e porque um cão anda, tão só quanto eu, à minha frente. Avanço lentamente, mas com decisão. Creio que é noite. As paisagens que descubro, as casas com suas propagandas, os cartazes, as vitrinas em meio das quais passo como soberano, são da mesma substância que os personagens deste livro, que as visões que descubro, quando minha boca e minha língua estão ocupadas nos pêlos de um anel de couro onde creio reconhecer uma lembrança dos gostos de minha infância pelos túneis. Eu enrabo o mundo.