A Pedra

Anderson Alencar  - STORM

 

Se você observar a pedra lançada no lago verá que surgirão ondas que atingirão tudo a seu redor.
O efeito causado no que se encontra no seu caminho será proporcional ao tamanho da onda e essa ao volume da pedra atirada
O tsunami que recentemente matou 300.000 pessoas certamente atingiu e prejudicou ou beneficiou a mais de 10.000.000 de seres racionais e irracionais até porque sempre alguém se beneficia com a desgraça alheia, como agentes funerários, organizações turísticas de outros locais, diplomatas, governos, etc etc etc.
O ser humano não é muito diferente e está sempre com a pedra na mão, sempre provocará uma onda suave que embala nossos sonos e sonhos ou um terrível maremoto que atinge impiedosamente a todos.
Um coisa porém que a primeira análise não nos damos conta é que quem atira a pedra acha que não é atingido e nisso reside seu maior engano.
Voltando ao tsunami é só entender que hoje todo o mundo se preveniu contra esse lamentável fenômeno com radares, sonares, sismógrafos e todo tipo de detector de movimentos estranhos da crosta terrestre.
Os tsunamis continuarão existindo, mas todo o universo hoje o fiscaliza o vigia e dele desconfia e quer distância e até a pequena e antes agradável onda que nos embalou um dia hoje é vista com desconfiança.
Em termos de seres humanos isso atinge de maneira holocáustica a pedra e quem a lançou.
Jamais esse ser será visto com amor, carinho, respeito ou algo bom.
Será aceito pelo seu dinheiro, pelo seu corpo enquanto servir, pelo seu trabalho ou “status” se tiver.
Viverá sempre á sombra da desconfiança, será o eterno bufão que exibimos num show ou numa festa infantil para alegrar nossos pirralhos.
Em seu nariz sempre haverá uma bola vermelha e ridícula pois assim será visto, seus sapatos com bicos curvos para cima farão barulho e provocarão risos onde chegar.
As crianças esfregarão doces em seus semblantes já consciente do mal que causou a si e buscando na maquiagem e na plástica ocultar a verdade e a vergonha que se avizinha.
Não tem mais expressão e nem rosto, só uma máscara mortuária moral.
Cada dia esse individuo terá que ceder mais e mais da sua dignidade e pautará sua vida em alegrar festas, quermesses, reuniões alheias e outras tolices de tantas da vida.
Viverá de lembranças nem sempre muito boas, viverá do oferecimento de si apenas materialmente e isso nem isso  é eterno.
Sorverá um elogio como se fosse um remédio que prolongasse sua agonia do fim que se aproxima, mas terá a consciência de não ser nada, salvo para um mero momento de sobrevivência.
Á noite em sua eterna solidão não mais entenderá o seu papel na vida.
Á noite mesmo no prazer sentirá que foi apenas um objeto não mais pra crianças e sim para adultos, homens e mulheres e no seu rosto não mais o doce, mas a descarga de um momento de necessidade de uma diarréia orgástica.
Á essas pessoas só resta a angústia, o sofrimento, a degradação, a humilhação, a esmola de um gozo, a piedade de um convite e a comiseração de muitos que antes a julgaram de valor e a usaram.
Será mera privada do prazer, das palavras, das gargalhadas e da escravidão na concessão de favores na vã tentativa de permanecer viva.
Para não contar o mal que causou pelo seu egoísmo e pela sua vontade de ser circense a tantas outras pessoas.
Concluímos que para o homem esse efeito que o atinge é muito pior do que o efeito contra o tsunami, pois afinal tsunamis, vulcões, avalanches, terremotos, e até STORMS, são fenômenos eternos e irracionais e não se preocupam, com quem ou o que atingem, mas com seres é diferente e todos são sem exceção em seu escopo e sua alma retratos de Doryan Gray e um dia toda sua estupidez surgirá diante de si mostrando o monstro que esse ser se tornou e fazendo em sua compreensão ver o que perdeu pela sua idiotice.
E aí será tarde demais
"Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida."

 

 

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