Triste pescaria

   Anderson Alencar - STORM

 

Barra de São João, um dia lindo.
A bordo da Meritíssima, sim, esse era o nome da minha lancha de 22 pés aportada no Iate Clube de Barra de São João. Não, não é São João da Barra é mesmo Barra de São João onde o rio desemboca no oceano. Antes fosse São João da Barra , porque pelo menos eu teria tomado um porre de conhaque de alcatrão São João da Barra de velhas lembranças. Sim colega do óleo de fígado de bacalhau, irmão do Rum Creosotado o tal do veja ilustre passageiro que belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado, no entanto acredite, quase morreu de bronquite, salvou-o o Rum Creosotado.
Estou enrolando é?
Estou mesmo e nem sei se continuo essa narrativa, até porque, como dizia uma pessoa que gosto muito, em verdade se eu tivesse um pingo de respeito ao meu leitor eu nem contaria isso, mas fazer o quê?. Lá vai.
Bem, lá estava a Meritíssima, eu disse meritíssima e não
meritríssima , embora ela depois parecesse pior do que isso..rs
Tudo a bordo e fomos ao mar, navegar é preciso, eu acho isso uma bobagem mas como todo mundo fala e nem sabe porque eu vou escrever também, mas continuando, alto mar e o sempre surpreendente oceano começa a ficar encapelado.
Inicialmente marolinhas que pouco a pouco vão crescendo, e crescendo e já parecia a dívida externa brasileira quando resolvemos voltar porque estávamos em área de risco.
Girei a bombordo, tem gente que confunde estibordo com bombordo e até popa com proa e tem uma popa inconfundível...rs.
Acelerei o motor Mercedes OM 352 e o vento teimosíssimo insistia em me empurrar de volta ao alto mar. Nessa briga já decorria mais de uma hora quando um dos colegas a bordo começou a se sentir mal.
Ele me agarrou e disse: Anderson acho que vou desmaiar. Sua cor provava que ele falava a verdade, mas não toda a verdade.
Repentinamente mesmo preocupado com nossa situação, um odor de meter medo invadiu a embarcação apesar do vento forte que soprava.
Nuvens negras oclusavam o azul do céu e mais parecia noite. Tudo isso parecia nada diante do terrível mau cheiro porque a bordo a coisa estava mais preta do que no céu plúmbeo quase negro.
Raramente algo me atinge mas até eu me senti embriagado , não pelo mar mas sim pelo odor. E que odor.
Olhei e vi o colega que dissera que passava mal agarrado á lancha mas com o bumbum fora dela e para não esquecer, tendo a popa não da lancha, mas dele, lambida pelo mar que se soubesse o que viria nem isso lamberia.
E inesperadamente um jato de fezes liquidificadas e segundo o outro embarcado, quentes, febris e com o odor de matar, trazidas pelo vento esborracha-se no rosto desse companheiro de infortúnio que de tão atônito quanto eu, ficou inerte.
Minha inércia durou apenas o tempo necessário para me livrar de outro jato não menos fedido só que saído do lado oposto do responsável pelo tal jato. Do lado fisiológico porque esse vinha das entranhas mas pela contramão da comida rs
Eu mesmo correndo o risco de ser lançado ao mar, me atirei sobre a proa da lancha e por ali pilotava apenas para manter o barco contra o vento e sem permitir que o mar lhes batesse de través.
Mas não ficou por aí, porque o terceiro colega para fugir dos jatos dos outros dois ao correr, escorregou não sei bem em que, numa ou noutra coisa mas não importou. Por via das dúvidas ele escorregou num e caiu sobre o outro lembrando uma comédia pastelão, onde o pastel ou a torta era de matéria orgânica muito diferente das usadas nos filmes.
Quando entramos no rio eu já estava com uma máscara no rosto e não nos permitiram desembarcar no Iate clube e assim subimos o Rio São João para nos lavarmos e para nos livrarmos da galhofa dos outros sócios que nos aguardavam como se artistas fôssemos.
Esperamos a noite cair e depois de demorados banhos no rio, sorteamos quem chegaria com a embarcação e felizmente não me coube tal tarefa e eu saí a nado até a margem do rio e de lá fui sorrateiramente para casa, mas depois soube dos apelidos que deram aos caras bem como só perguntavam se tínhamos pescado muito peixe-porco. Quanto aos apelidos vou omitir nesse ridículo e fedorento conto.

Anderson Alencar – que desde esse dia adotou o sistema dos aviões com sacos a bordo para vômitos e como comandante de embarcação em caso de diarréia obrigar o atingido a andar na prancha como os piratas faziam, envolvidos em bóias e sacos plásticos de lixo e com repelente de tubarão apenas em respeito aos tubarões, mas mesmo assim andar na prancha de costa.
Em tempo: Esse conto não deve ser lido antes das refeições. E nem depois... rs

 

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