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A curimba

Anderson Alencar

( STORM )

 

Luzes bruxuleantes davam ao ambiente um estranho visual.
Ao fundo diversos santos ou sei lá o que enfeitavam o altar adornado de palhas colares e flores.
Efêmeras como a vida, tênues e inseguras parecendo apagar á mais leve brisa, velas mil iluminavam a noite lembrando as estrelas de pequena grandeza que despontavam na noite do universo.
O universo é como a alma humana, é sempre o mesmo, sem dia nem noite, ora negro ora aceso o que varia é a estrela que desponta nele.
O amor é um só, mas é como o sol uma única estrela que ofusca todas as outras porque está perto de nós, está conosco.
Alguém me olhava insistentemente.
Era uma mulher, bonita, discretamente sensual, toda de branco.
Lembrei-me que estava numa macumba.
Ali buscara entender o que fanatiza pessoas muitas vezes inteligentes, cultas, conscientes.
Buscava alcançar como podiam pessoas muitas incultas, sem sequer o primeiro grau, induzirem tanta gente a crer em suas palavras.
Padres, monges e pastores estudam a técnica do convencimento, macumbeiros não. Tem o dom.
Ela me chamou.
Olhei para trás embora soubesse que era eu o objeto de sua atenção.
Apontei-me e ela sorriu.
Aproximei-me. sem esperar confirmação.
Ela pegou minha mão e disse: sente falta dela?
Eu ri e perguntei? De quem
Ela dando uma gargalhada disse: você sabe.
Sei? Ironizei.
Ela continuou: teu exu gamou na pomba gira dela
Eu sorri e ela prosseguiu.
Perna de calça está perturbado
Eu tentando esconder algo que nem sabia antes dela falar. Ou sabia e não queria aceitar.
Um leve arrepio percorreu meu corpo e prossegui.
Estou?
Por quê?
Ela rindo.
Coração de macho sofre mais do que quem não é tão macho assim: ela falou
Deixa de ser fingido seu puto.
Mas fica tranqüilo, ela é tua.
Nasceu para você.
Ela pensa tanto em você quanto você nela.
Vem cá. Beberica mais comigo e acende esse toco (vela).
Faça um agrado para mim.
Para você?
E um nome surgiu na minha mente
Sim para mim.
Estou longe de você, mas estou aqui.
Sempre estou.
A entidade já falou que você esta gamado em mim
Você não entende. Não acredita
Mas onde você estiver sempre estarei perto
Você é esperto e é burro
Não compreende que a carne só existe para ser ocupada por nós
Não é a carne que ama que sofre é a entidade
Todo ser tem meia alma.
Todo mundo busca sua outra metade
Eu sou a metade da tua metade
Custei a te encontrar, mas te encontrei.
Mesmo depois que partirmos ainda estarei com você e então seremos uma só entidade
Eu então inteiramente perturbado e excitado, não sexualmente, mas emocionalmente levantei os olhos e ela chorava.
Nunca entendi o que me aconteceu
Perguntei como se não soubesse.
Como você sabe disso tudo? O que nos unirá depois que partirmos
Ela riu e se afastando gritou: Você um dia entenderá que eu sou você, a tua metade em outro corpo. Um macho e uma fêmea.
E se você ainda não entendeu o que nos une ainda não está preparado para nossa união.
E com um grito e um sacolejo caiu ao chão quedando muda e inerte.
Depois de assistida por outros colegas ela se refez e desapareceu de minha frente sem ao menos me olhar.
De volta para casa eu me questionava e entendia o porquê do fanatismo.
Ali estava eu um ateu, uma pessoa que só acredita na materialidade com uma palavra a martelar a cabeça.
Em verdade ela nada me disse mas ao mesmo tempo disse-me tudo.
Eu perguntava.
O que nos une?
Acho que você que me lê, sabe a resposta porque afinal crê mais do que eu.
E se não sabe, não está preparada para o meu amor.
Mas sei que está.
                                   AXE!  SARAVÁ!

 

Juliana® Poesias

 

 
 

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