Estação

Anderson Alencar - STORM

 

O trem resfolegando como um dragão medieval pára na estação.
Uma estação que muito lembrava uma cidade do interior onde ainda existia a pureza e a alegria mas cuja placa apagada não me permitia ler seu nome o que para mim era o de sois menos importância porque eu não tinha rumo mesmo e o que buscava podia encontrar em qualquer lugar ou não encontrar em lugar nenhum.
Era uma estação típica das cidades das igrejas ainda puras e onde se deus existisse a freqüentaria sem constrangimento.
Uma cidade das quermesses, das festas juninas com meninas de sardas boquinhas de batom, olhares marotos e sorrisos mais marotos ainda. Balões e fogueiras acesas com batatas doce, pipoca, quindim, cocada e outros pratos típicos.
Onde o ciúme dos namorados não era uma infelicidade e sim um adendo a essa beleza que é o namoro.
Confesso que me senti envolto em alegria e tristeza.
Ali estava buscando algo que deixara para trás sem chance de retorno.
Buscava algo que nunca encontrei e que nem sei se encontrarei algum dia.
Ali estava mais uma vez desembarcando do meu trem da vida.
Aproxima-se de mim um menino sorridente, gordinho e diz: moço posso levar sua bagagem?
Eu sorrindo ainda tímido respondo: você não a suportaria, ela é muito pesada, mas pode me ajudar.
Ele retribuindo meu sorriso, também sorri e diz: moço eu sou forte e carrego a bagagem de todo mundo que desembarca aqui e além do mais a sua não parece tão pesada assim.
Eu alargando o sorriso quase digo: menino a mala mais pesada daqui sou eu, mas poupo o jovem desse comentário e aceito sua oferta.
Sem saber onde me levava permiti que além de carregador ele fosse meu guia.
Paramos diante de um hotel, simples mas simpático que me lembrava algo que eu vivera.
Os hotéis sempre me trazem recordações de certa forma tristes, mas é neles que durmo quando viajo e em muitos deles amei com tudo que tenho.
Um dama que ali estava, me sorriu e disse bem-vindo e eu agradeci seguindo para minhas acomodações sempre com o menino á frente.
Dei ao jovem uma gorjeta e ele disse : obrigado, não quero, apenas quero que o senhor tenha uma boa estada aqui.
Por mais que eu insistisse ele recusava e se foi.
Naquela noite estava inquieto e desci ao saguão onde diversas pessoas conversavam quando de mim se acerca um linda mulher.
Era morena, pequena mas sensual e sorrindo disse: eu soube que o senhor toca piano muito bem.
Eu sem querer gargalhei e vaidosamente respondi: bem tocar eu toco mas muito bem é por conta da sua gentileza.
Não seja modesto moço. Não seja modesto. A modéstia não lhe cai bem.
E soltou um sorriso que iluminou a noite e prosseguindo disse: vamos jantar e depois toque um pouco para nós.
O jantar era simples mas farto e delicioso preparado com o carinho da comidinha do interior.
Todos se esmeravam em me agradar como se eu fosse um visitante importante.
Após a refeição e o costumeiro café, fui quase arrastado para o piano.
Era um piano antigo de meia cauda porem muito bem conservado, de onde arranquei alguns acordes, logo sendo cercado pelos presentes.
Algumas mulheres lindas e outras nem tanto porém a simpatia e a sensualidade exalava de seus rostos e corpos.
Aplausos são a minha busca depois do sexo.
Lá pela meia -noite despedi-me e fui para meu quarto.
Decorrido alguns minutos batem á porta.
Era a dama que me abordara e ao abri-la deparei-me com uma mulher espetáculo envolta numa sensual camisola preta, curta protegida pelo "pegnoir" que se abriu discretamente permitindo deslumbrar um par de coxas alucinantes que logo me excitaram.
Perturbado sem saber como agir ela perguntou: posso entrar e quando percebi já estava a lá dentro.
Sem que eu nada dissesse ela continuou: estava a tua espera e como demoraste.
Permaneci calado.
Sempre soube que estavas na estação errada e com um suspiro quase mudo me beijou a boca.
Foi uma noite louca.
Sonhos e pesadelos.
Pela manhã acordei e ela tinha ido.
Procurei em todos os locais e ela não apareceu.
E cada vez mais inquieto sem dormir sem comer direito sem poder ao menos pensar resolvi partir.
E mal tomei a decisão eis que surge novamente o menino carregador e guia.
Olhando-me perguntou: sua mala está pronta? Vim buscá-la.
Para minha surpresa ela estava pronta sim e o jovem pegando-a disse: é bom se apressar, seu trem sai em minutos.
Sem entender mas num misto de emoção profunda lembrei-me que chegara e ia partir sem ao mesmo saber onde estava e para onde ia.
E sorrindo perguntei: menino onde estou e esse trem vai para onde?
E ele me olhando intensamente disse: moço o senhor que anda pelas linhas da emoção e no trem da vida ainda não sabe onde está?
Não , eu sou como Sócrates de nada sei.
É disse o menino , ele não sabia mesmo porque era um idiota por mais sábio que fosse, ele declinou de algo que você assumiu sem medo, sem vergonha e isso, só idiotas fazem.
Ainda surpreso e com o trem soltando um terrível gemido e começando a andar tendo o jovem seguro no balaústre do velho vagão perguntei alto.
Menino que cidade é essa que hotel era aquele que mesmo tendo sido amado não encontrei paz nem fui feliz ali.
Para onde vou e quem é você qual a próxima estação...fale por favor...
E o trem já acelerando percebi ao longe a bela mulher que havia me encantado numa madrugada com seu desejo e seu corpo e finalizando disse: quem é ela?
E então ele respondeu: essa estação teve vários nomes antigamente era a ESPERANÇA, hoje a DECEPÇÃO, você vai ainda ver várias estações porque junto com você, nesse mesmo trem segue a EMOÇÃO, você tem o que Sócrates nunca teve que é a PAIXÃO.
Essa mulher que você teve nos braços era o DESEJO que para você é importante mas não a tua busca e ela já teve vários nomes.
Márcia, Cristina, Moon, Branca, Claudia e Gisela e até Célia que tem algo em comum com você. Fora as que você nem lembra.
O hotel que você estava se chama CONSCIÊNCIA, e sempre que se hospedar nele não estará á vontade, será incômodo por menos que você ache isso.
Eu sou cupido ou psique como queiras e sempre carregarei tuas malas porque só cupido pode carregar as malas de um cara que vive pela paixão.
E a estação? Gritei quase sem ser ouvido. Onde devo desembarcar..como se chama ela...???
E ao longe...bem longe ainda ouvi: a estação que você busca é a estação AMOR. Fique atento porque muitas vezes você passa por ela e nem a percebe.
E a estaçãozinha desaparecendo na curva ainda ouve o apito do trem. Um apito nostálgico como a minha busca

 

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