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O
FUNERAL
Anderson
Alencar
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STORM
Ironicamente foi o “habitat” das
sereias onde eu mergulho que me
inspirou esse conto.
Sentindo a leveza do oceano
limpo como o céu, lembrei-me de
quando conheci esse ser
fascinante.
Um ser que me perseguiu como se
eu fosse também um mito, mas não
era, não sou e nunca fui e nem
quero ser porque mitos vivem
apenas na imaginação e eu quero
viver na emoção, no desejo, na
paixão de cada ser humano seja
por me amar ou por me odiar.
Quero viver no sexo das fêmeas e
na inveja e no temor dos machos
que me odeiam.
Mitos são eternos, mas não são
para seres humanos e por isso
não quero ser o mito que me
julgam ser.
Na turbulência do mar da minha
vida encontrei inúmeros seres
mitológicos, mas foi numa sereia
que me fascinei.
No meu mergulho verdadeiro,
mergulhei também na minha
imaginação e nesse oceano em
constante STORM vi nem diria com
tristeza, mas com certa
nostalgia um féretro.
Eram inúmeros seres do mar
alguns verdadeiros e outros
mitológicos num desfile em
lamento solfejando blues, não do
azul do mar, mas das lamentações
da perda.
Lamentável não pelo cerimonial,
nem mesmo pelos sons, mas porque
saiam de mim, de meu peito de
minha mente e de minha vida e o
mais triste ainda de meu desejo,
embora desse não tenha tanta
certeza.
O féretro ia a algum lugar que
não sei onde, mas, para longe de
mim e nem isso me entristeceu
apenas me deu uma enorme
sensação de vazio de ausência de
um verdadeiro abismo emocional,
um buraco negro no céu da minha
vida.
Aproximei-me como no sonho de
Lincoln e tentei ver quem era
que partia, já que saia de mim,
de quem era as exéquias.
Ao ver o ser, ai sim eu me dei
conta de algo que pareceu mais
um sonho, pois nem diria um
pesadelo, mas apenas um sonho
sem nexo e sem sentido e por
alguns momentos acompanhei a
todos que por ali desfilavam
conformados como se soubessem
desse final.
Quando reconheci quem era a
cortejada não como antes até por
mim, mas apenas como a ultima
homenagem, lembrei-me que um dia
esse ser me dissera: você é tão
corajoso e não tem coragem de
mergulhar atrás de mim venha e
serei toda tua , toda como você
deseja nos teu loucos e sexuais
sonhos e eu em resposta afirmei:
entenda-me, eu fiz isso há muito
tempo atrás e me machuquei e não
quero me ferir novamente, não
vou te seguir, mas no final eu
segui, segui sua teimosia, sua
oferta, sua entrega e
principalmente seu corpo que me
alucinava.
E enquanto durou ela cumpriu
tudo que prometera, foi toda
minha como ninguém, entregou-se
irrestritamente onde nem nos
meus mais insanos desejos eu
imaginara ser possível.
Por outro lado ninguém a desejou
tanto como eu e nem a possuiu
como eu a possui. Com a
delicadeza da borboleta e com a
violência dos STORMS.
Levei mais de trinta anos para
repetir o feito que um dia tanto
me magoara, tanto me afastara da
emoção e me deixara apenas o
sexo.
Achei que jamais seria possível
amar novamente, mas ela quase
conseguiu. Ninguém chegou tão
perto.
Felizmente apenas quase. Da
mesma forma hoje ninguém está
tão longe disso e agradeço por
isso, pois agora ela se foi eu
também fui e vamos viver em
planos diferentes.
Depois de ver quem estava sendo
levado e de onde saíra.
Compreendi que estava assistindo
a morte de um sonho, estava
assistindo ao funeral de um ser
mitológico, o FUNERAL DA SEREIA
Que ela tenha para onde for paz,
luz e felicidade.
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