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Cisticercose |
Cisticercose Humana
1. Aspectos Epidemiológicos
O complexo Teníase/Cisticercose constitui-se de duas
entidades mórbidas distintas, causadas pela mesma espécie de cestódio, em
fases diferentes do seu ciclo de vida. A teníase é provocada pela presença da
forma adulta da Taenia solium ou da Taenia saginata, no intestino
delgado do homem. A cisticercose é uma entidade clínica provocada pela presença
da forma larvária nos tecidos de suínos, bovinos ou do homem.
·
Agente Etiológico: Taenia solium e a Taenia saginata pertencem à classe Cestoidea,
ordem Cyclophillidea, família Taenidae e gênero Taenia.
Na forma larvária (Cysticercus cellulosae _ T. solium e Cysticercus
bovis _ T. saginata) causam a teníase. Na forma de ovo a Taenia
saginata desenvolve a cisticercose no bovino, e a Taenia solium no suíno
ou no homem.
·
Reservatório e Fonte de Infecção: o homem é o único hospedeiro definitivo da forma
adulta da Taenia solium e da Taenia saginata. O suíno ou o bovino
são os hospedeiros intermediários (por apresentarem a forma larvária nos seus
tecidos).
·
Período de Transmissibilidade: os ovos de Taenia solium e de Taenia
saginata podem permanecer viáveis por vários meses no meio ambiente,
principalmente em presença de umidade.
·
Distribuição, Morbidade , Mortalidade e Letalidade: a
América Latina tem sido apontada por vários autores como área de prevalência
elevada. Schenone et al (1982) relataram a existência de
neurocisticercose em 18 países latino-americanos, com uma estimativa de 350.000
pacientes. A situação da cisticercose suína nas Américas não está bem
documentada. O abate clandestino de suínos, sem inspeção e controle sanitário,
é muito elevado na maioria dos países da América Latina e Caribe, sendo a
causa fundamental a falta de notificação (OPS - 1994). No Brasil, a
cisticercose tem sido cada vez mais diagnosticada, principalmente nas regiões
Sul e Sudeste, tanto em serviços de neurologia e neurocirurgia quanto em
estudos anatomopatológicos (Pupo et al - 1945/46; Brotto - 1947; Spina-França
- 1956; Canelas - 1962; Lima - 1966; Takkayanagui - 1980, 1987; Vianna et al -
1986, 1990; Arruda et al - 1990; Silva - 1993; Silva et - 1994; Agapejev - 1994;
Tavares - 1994; Costa-Cruz et al - 1995). A baixa ocorrência de cisticercose em
algumas áreas do Brasil, como por exemplo nas regiões Norte e Nordeste, pode
ser explicada pela falta de notificação ou porque o tratamento realizado em
grandes centros, como São Paulo, Curitiba, Brasília e Rio de Janeiro,
dificultam a identificação da procedência do local da infecção. Segundo
dados da Fundação Nacional de Saúde/Centro Nacional de Epidemiologia (FNS/CENEPI
1993), o Brasil registrou um total de 937 óbitos por cisticercose no período
de 1980 a 1989. Até o momento não existem dados disponíveis para que se possa
definir a letalidade do agravo.
2. Aspectos Clínicos
·
Descrição: o complexo teníase/cisticercose é uma zoonose e manifesta-se no homem
sob duas formas clínicas:
Parasitose intestinal - Teníase: causa retardo no crescimento e no desenvolvimento
das crianças, e baixa produtividade no adulto. A sintomatologia mais freqüente
são dores abdominais, náuseas, debilidade, perda de peso, flatulência, diarréia
ou constipação. O prognóstico, é bom. Excepcionalmente é causa de complicações
cirúrgicas, resultantes do tamanho do parasita ou de sua penetração em
estruturas do aparelho digestivo tais como apêndice, colédoco e ducto pancreático.
Parasitose extra-intestinal - Cisticercose:
infecção causada pela forma larvária da Taenia solium cujas manifestações
clínicas estão na dependência da localização, tipo morfológico, número e
fase de desenvolvimento dos cisticercos e da resposta imunológica do
hospedeiro. Da conjunção destes fatores resulta um quadro pleomórfico, com
uma multiplicidade de sinais e sintomas neurológicos (Trelles & Lazarte -
1940; Pupo et al - 1945/46; Brotto - 1947; De la Riva - 1957; Canelas - 1962;
Lima - 1966; Takayanagui - 1980; 1987), inexistindo um quadro patognomônico. A
localização no sistema nervoso central é a forma mais grave desta zoonose,
podendo existir também nas formas oftálmica, subcutânea e muscular (como o
tecido cardíaco). As manifestações clínicas variam desde a simples presença
de cisticerco subcutâneo até graves distúrbios neuropsiquiátricos (convulsões
epileptiformes, hipertensão intracraniana, quadros psiquiátricos como demência
ou loucura), com seqüelas graves e óbito.
3. Diagnóstico Laboratorial
·
Teníase: geralmente tem ocorrência sub-clínica, sendo muitas vezes não
diagnosticada através de exames coprológicos, devido à forma de eliminação
deste helminto, é mais comumente realizado através da observação pessoal da
eliminação espontânea de proglótides. Os exames parasitológicos de fezes são
realizados pelos métodos de Hoffmann, fita gomada e tamização.
Cisticercose: o diagnóstico é realizado através de biópsia
tecidual, cirurgia cerebral, testes imunológicos no soro e líquido
cefalorraquiano ou exames de imagem (RX, tomografia computadorizada e ressonância
magnética).
Dentre os exames laboratoriais que permitem
diagnosticar a cisticercose no homem destacam-se:
- Exame
do líquido cefalorraquidiano, o qual fornece elementos consistentes para o
diagnóstico, pois o parasita determina alterações compatíveis com o processo
inflamatório crônico.
- Provas
sorológicas, com resultados limitados, pois não permitem localizar os
parasitas ou estimar a carga parasitária, além de que, a simples presença de
anticorpos não significa que a infecção seja atual. As provas mais utilizadas
são:
- ELISA,
com sensibilidade aproximada de 80%;
- Imunoeletroforese,
que embora não forneça resultados falso-positivos, revela apenas 54% a 87% dos
pacientes com cisticercose; e,
- Imunofluorescência
indireta, altamente específica, mas pouco sensível.
- Exame
radiológico, realizado mediante imagens dos cistos calcificados, cujo
aspecto é relativamente característico- a calcificação só ocorre após a
morte do parasita.
- Tomografia
computadorizada, que auxilia na localização das lesões, notadamente ao nível
do sistema nervoso central, tanto para os cistos viáveis, como para os
calcificados.
-
Exame anatomopatológico, realizado ante-mortem,
quando eventuais nódulos subcutâneos, permitem biópsia e a análise
histopatológica, ou post-mortem,
quando da realização de autópsia ou de necropsia.
4. Vigilância Epidemiológica
Notificação: a notificação da teníase/cisticercose poderá
fornecer dados epidemiológicos mais precisos sobre a prevalência populacional
e permitir o mapeamento geográfico das áreas mais afetadas para melhor
direcionamento das medidas de controle.
5. Medidas de Controle
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Trabalho Educativo da População: como uma das medidas mais eficazes no controle da teníase/cisticercose
deve ser promovido extenso e permanente trabalho educativo da população nas
escolas e nas comunidades. A aplicação prática dos princípios básicos de
higiene pessoal e o conhecimento dos principais meios de contaminação
constituem medidas importantes de profilaxia. O trabalho educativo da população
deve visar à conscientização, ou seja, ao corte dos hábitos e costumes
inadequados e à adoção de novos, mais saudáveis, por opção pessoal.
·
Bloqueio de Foco do Complexo Teníase/Cisticercose: o
foco do complexo teníase/cisticercose pode ser definido como sendo a unidade
habitacional com pelo menos:
a.
nos
indivíduos com sorologia positiva para cisticercose;
Serão
incluídos no mesmo foco outros núcleos familiares que tenham tido contato de
risco de contaminação. Uma vez identificado o foco, os indivíduos deverão
receber tratamento com medicamento específico.
·
Fiscalização da Carne: essa medida visa reduzir ao menor nível possível a
comercialização ou o consumo de carne contaminada por cisticercos e orientar o
produtor sobre medidas de aproveitamento da carcaça (salga, congelamento,
graxaria, conforme a intensidade da infecção) reduzindo a perda financeira,
com segurança para o consumidor.
·
Fiscalização de Produtos de Origem Vegetal: a
irrigação de hortas e pomares com água de rios e córregos que recebem esgoto
deve ser coibida através de rigorosa fiscalização, evitando a comercialização
ou o uso de vegetais contaminados por ovos de Taenia.
·
Cuidados na Suinocultura: o acesso do suíno às fezes humanas e à água e
alimentos contaminados com material fecal deve ser coibido: esta é a forma de
evitar a cisticercose suína.
·
Isolamento: para os indivíduos com cisticercose ou portadores de teníase,
não há necessidade de isolamento. Para os portadores de teníase, entretanto,
recomenda-se medidas para evitar a sua propagação: tratamento específico,
higiene adequada das mãos, deposição dos dejetos garantindo a não contaminação
do meio ambiente.
Desinfecção
Concorrente: é desnecessária, porém é importante, o controle ambiental através da
deposição correta dos dejetos (saneamento básico), e rigoroso hábito de
higiene (lavagem das mãos após evacuações, principalmente).