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Encontro  com os Orixás através da Gravura

 

Em terras do Brasil, quando à flor da pele não temos a cor e a crença como heranças da África, temos em nós  à flor da pele  sensibilidade à imagística e aos ritmos africanos, caracterizando uma das nossas identidades, a pontuar um vínculo com a cultura da Terra dos Orixás: uma cultura tantas vezes inscrita na Arte, na Literatura e na Música, e muito disseminada na vastidão dos Brasis de Todos os Santos. Do mundo d'África herdamos ritmos, imagens, cultos, vocábulos, o despacho na esquina, e outros traços e complexos culturais, que, com freqüência, se reportam à vida da cidade.

Através da mitopoética, e favorecidos por Exu  o santo que nos dá passagem para realizar fazeres e quereres , dezenove gravadores tematizaram e interpretaram, através de sua arte, o mundo dos orixás. Reunidos, os artistas nos convidam para o Encontro com os Orixás através da Gravura, encontro abençoado nos efeitos de cada técnica escolhida  xilogravura, linoleogravura, fotogravura, gravação em metal  para trazer ao plano dos sentidos a simbologia dos santos. Utilizando-se de diversos procedimentos e matérias várias, os gravadores registraram  na sua visão artística de cada orixá  aspectos dos cultos, da mata, da aldeia, do Orun e do Aiê: localizações do Céu e da Terra, no Candomblé.

No universo presentificado nestas obras, cada cor é determinante e significativa de um santo  recebido de modo estético e alegórico. Cores da natureza, cores da festa, cores da mesa, da indumentária, do ornato e do altar dão colorido às forças dos elementos da poética do mundo, e se expressam em vermelho, negro, amarelo, azul, verde, lilás e outras tintas que tingem as cores do kósmos, separadas e matizadas por Oxumaré, a divindade do arco-íris.

Para este Encontro, aos gravadores os orixás emprestaram: roupas, metais, armas, e agora mostram seus atributos através da máscara, da dança e do movimento, evocando o universo ritmado nos rituais e bênçãos das festas do abassá, entre espirais, mandalas, instrumentos musicais, contas de colar, e outros símbolos. Em ambiência de festa, as deidades trazem espelhos, leques, mapas, folhas, serpentes, peixes, pedras e solo: seus pertences  coisas do reino vegetal, do reino animal e do mineral. Para a festa, os santos fizeram descer ao Aiê os astros, que nestes trabalhos repousam ritmados ao olhar de contemplador e/ou de praticante.

Ao integrar o conjunto de obras plástica e graficamente, a técnica da Gravura  em alguns momentos, quase abstração  se metamorfoseou em poética, desvelando sentidos no plano da visualidade. E, ainda que só dezenove entidades estejam figuradas, outras divindades do Candomblé se fazem, aqui, presentes de modo simbólico, entrelaçadas pelas sagas que se interligam na cultura afro-brasileira. 

Marcado o Encontro com os Orixás através da Gravura, a magia da arte de gravar consiste em fazer do múltiplo uma obra única.

Axé aos nossos olhos contempladores desta dádiva!

Muito Axé!

                                                                                                    

                                                                                                        Mirian de Carvalho

          Associação Brasileira de Críticos de Arte

                    Associação Internacional de Críticos de Arte

                                                                                                      Doutora em Filosofia

 

     

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