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CLEIDE CANTON

        
         Meu nome é Cleide Maria Canton Garcia mas sou conhecida como Cleide Canton.

            Sou interiorana. Nasci em Assis, Estado de São Paulo. Vim muito cedo para a capital onde vivo até hoje. No entanto, cada vez que volto à minha cidade natal, sinto a cheiro da terra e parece que escuto o seu chamado. Acho que quem nasce caipira, morre caipira.

            Sou divorciada, mãe de três filhos e avó de três netos.

            Desde cedo escrevo versos. Nunca dei importância a eles.

            Fui durante muito tempo professorinha primária. Nessa época escrevi vários discursos, elaborei jograis, preparei muitas mensagens comemorando datas significativas. Para facilitar a fixação de minhas aulas , principalmente História do Brasil, contava-a em versos. Certa vez, examinando um livro, encontrei a história da Proclamação da República versificada. Comecei a ler e reconheci a minha linguagem. A mágoa veio quando percebi que constava como autoria desconhecida. Desde então, não leio nem repasso textos sem autoria.

            Cursei Direito, mudei de profissão e durante quinze anos trabalhei na auditoria do ISS.

            Conheci computação há quinze anos atrás mas o tempo que se perdia com conexão discada deixou-me longe da telinha por dez anos, até que me entusiasmei conhecendo alguns sites de poesia. Arrisquei enviar alguns versos meus que, de pronto, foram publicados. Desde então, não mais parei. Amo qualquer tipo de versos, dos antigos clássicos aos mais modernos, razão pela qual não arrisco dizer que tenho um autor preferido. Tenho preferências por alguns versos de cada autor. Gosto não devemos discutir.

            Dos meus pais herdei a franqueza, a humildade e a dignidade e não abro mão desses valores.

            Amo a vida e tudo o que ela me oferece. Se algo me deixa triste pela manhã, certamente estarei sorrindo à tarde. Morrerei assim.
 

*

Apenas alguém
Cleide Canton

 Jogou a echarpe sobre os ombros nus

num movimento rápido, seguro

e, sem muito esforço,

foi-se para não mais voltar...

Escandalizou a todos

com a segurança de suas decisões,

com a fé inabalável nas suas convicções.

Jogou, sem esperar vencer,

todas as cartas guardadas.

Não blefou.

E o pequeno mundo não compreendeu

o brilho do seu olhar.

Vitoriosa,

mesmo sem precisar lutar,

 seus adversários seriam sempre

o tempo e a distância

contra os quais lutou

apenas com a constância.

Levava na bagagem

um coração repleto de certezas,

uma vontade de simplesmente ser,

sorrindo dos tropeços,

desviando-se dos espinhos,

distribuindo carinhos,

arrancando as vendas

que tentavam desviá-la dos seus intentos.

As lágrimas, os desencantamentos

eram desafios a serem vencidos

na solidão de todos os seus momentos.

O tempo desvendou-lhe os mistérios

e a distância  ensinou-lhe a andar ligeiro.

Nunca mais encontrou

a porta de entrada

como jamais retrocedeu na jornada.

Despediu-se da vida

num vacilar da madrugada.

Dizem que a viram sorrir

e num elegante gesto

atirar sua echarpe ao nada...


&
 

Céu das minhas luas

Cleide Canton

 

Chegue a ti,

sincero, este meu carinho

tão suavemente como a mim chegou.

Em pequenas doses,

bem de mansinho,

mostrando a marca que em mim deixou.

 

Que chegue a ti

meu abraço mais terno

e o beijo de amor que há tanto esperas.

Nem mais frio sinto

neste longo inverno.

Bailam, no peito, as minhas primaveras.

 

Não te busquei

no céu das minhas luas

nem te achei como se acha um qualquer.

Não te vi livre

e solto pelas ruas.

Encontrei-te nos meus sonhos de mulher.

 

Se hoje sou a causa

do teu sorriso,

se dizes que te domina o meu olhar,

para mim

a porta abriste do paraíso

onde hospedo, vaidosa, o meu cantar.


&
 

Até amanhã, amor!

Cleide Canton

 

Não me preocupa

a lágrima que verto,

saudosa pela distância.

Não me preocupa

o calor do teu carinho

que já não tenho

nem os olhares perdidos,

incompreendidos,

que se detém na obscuridade

de mil palavras soltas,

frases mal definidas

ilações desmedidas.

Não me preocupam

os momentos que vivo

tentando imaginar

como poderiam ser belos

os sorrisos pelos mesmos motivos,

a sintonia nas mesmas canções,

os abraços inflamados

pelas mesmas emoções.

Não me preocupam

as notícias imprecisas

que vão e voltam,

as eternas interrogações,

as deduções infundadas,

tramas arquitetadas.

Não me preocupam

os desvios da nossa história

e os desajustes da nossa memória.

O que realmente persiste

é o amor que ainda existe

e que me obriga, todos os dias,

a dizer-te  com o mesmo calor:

Até amanhã, amor!

 

SP, 21/11/2004

*

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