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O Cão Chupando Manga, por Marcos Jardim Ele é tido como o pai de todas as maldades. Polêmico, atrai para si ódio e ao mesmo tempo admiração. Mas é também uma figura que está intimamente ligada à História do Mundo, seus destinos, sua glória e sua decadência. Atualíssimo, é presença constante no cinema, no teatro, nos desfiles de moda e nas páginas dos grandes jornais. Por outro lado, não gosta muito de aparecer, e só o faz em ocasiões especiais. Esta entrevista é uma delas. Realizada no bairro do Paraíso, em São Paulo, aqui ele nos revela um pouco mais do que já sabemos - e muito do que nem sequer imaginávamos.


PARREIRA — O que é o Mal?

DIABO O Mal, numa definição clássica, é simplesmente o contrário de Bem. Eu poderia falar outra coisa, dar outros exemplos, mas isso transformaria essa entrevista num tratado. Essa definição me basta.

PARREIRA — Eu queria mesmo perguntar se o senhor é o Mal...

CAPETAEntão por que é que não perguntou logo, não foi direto ao assunto? Acha que eu sou adivinho, é? Eu tenho alguns poderes, sim, mas esse não é um deles. E Senhor, ó, pro seu governo, é aquele outro lá de cima. Pode me chamar de você.

PARREIRA — Você é o Mal?

TINHOSOEu sou o Mal. Você é o Mal. Aquela tua vizinha fofoqueira é o Mal. Todos nós somos o Mal. Mas vocês aqui é que têm essa mania de atribuir tudo a mim. Apesar de ser Legião, eu sou um só — seria injusto carregar esse fardo sozinho.

PARREIRA — E o Inferno, o que é o Inferno?

CACHORRÃOJean-Paul Sartre definiu isso muito bem: o Inferno são os outros. Ele matou a charada.

PARREIRA — A mitologia descreve o Inferno como um lugar em constante ebulição, repleto de dor, fogo, angústia. Isso corresponde à verdade?

CAPETANão. Não totalmente, quero dizer. Existe, sim, tudo isso e muito mais. Aquilo ali não é nenhuma sacristia. Mas a terra de vocês não fica nem um pouco atrás. Qualquer livrinho de História mostra barbaridades que eu nunca imaginei fazer na minha vida.





Eu não manjo lhufas de economia,
globalização, esses papos. Nisso vocês já me superaram faz tempo.




PARREIRA — Por exemplo...

O CÃOAh!, tem muita coisa. A Igreja mesmo, muito do que ela fez em nome de Deus é difícil de acreditar. E eu vi!!! Foram séculos e séculos de absoluta hipocrisia religiosa. Quem levou a fama, quem pagou o pato? Eu. Vem daí uma série de mal-entendidos a respeito da minha pessoa.

PARREIRA — Você acabou de citar Deus. Esse nome não te incomoda?

CHIFRUDOAbsolutamente. Ele tá na dele, eu tô na minha. Ele faz a parte dele, eu a minha. Somos complementares. Eu não faria o menor sentido sem ele e vice-versa.

PARREIRA — Vocês mantêm um bom relacionamento.

LÚCIFERPode-se dizer que sim. Mas nossos papéis estão bem definidos: eu cá, ele lá. É isso que sustenta essa merda toda.

PARREIRA — Por falar em merda toda, como é que você, depois de ter visto tudo o que já viu, como é que você vê o mundo hoje?

ESCONJURADOPosso ser claro e objetivo?

PARREIRA — Pode.

BODÃOCom os olhos! Rárárá!!!

PARREIRA — Vou reformular a pergunta: qual a sua análise do mundo moderno?

BELZEBUPra começo de conversa, eu não sou analista de porra nenhuma. Isso aí é uma coisa que vocês inventaram. E eu vejo o mundo como qualquer um: com surpresa. Não pense que eu estou acima desse sentimento. Cada dia é um novo dia, não é assim que vocês dizem? Pois é...

PARREIRA — Muita gente diz que o neoliberalismo é uma invenção sua. O que é que você acha disso?

SATANÁSUm bruta engano, mais um. Eu não manjo lhufas de economia, globalização, esses papos. Nisso vocês me superaram faz tempo. Mas de certa forma eu fico orgulhoso quando ouço ou leio que o neoliberalismo é uma coisa do diabo. Isso dá uma medida de quanto o meu nome e influência ainda pesam neste mundo.

PARREIRA — A política brasileira, o que é que você acha?

GÊNIO DO MALUma das mais ricas do planeta, com certeza. Já vi muita coisa, inspirei até o Maquiavel, mas o que vocês fazem aqui hoje supera qualquer época passada. Ela é cheia de armadilhas, acordos, conchavos, tramóias, corrupção... É uma delícia de ver.

PARREIRA — O presidente Fernando Henrique te chama a atenção?

DEMÔNIONão muito. Ele pende pro lado do vento. Dizia que era ateu, agora vive rezando. Era de esquerda, agora combate a esquerda. Escreveu contra e pede pra esquecerem o que escreveu. Falta caráter nesse homem.

PARREIRA — Mas isso não é diabólico?

PÉ-DE-CABRAO resultado de suas ações, sim, isso é algo diabólico, de causar inveja. Mas o homem em si não me encanta muito. Ele cumpriu bem o seu papel, mas em diversos momentos faltou-lhe fibra.

PARREIRA — Tem lugar pra ele no Inferno?

MALIGNOTem sim. Já está reservado, aliás.

PARREIRA — qual o político brasileiro que nem no Inferno entraria?

CRUZ-CREDOAh!, muitos. Mas é preciso cuidado com os escolhidos, eles são muito perigosos. Alguns eu mando pro Céu, pra aporrinhar o Senhor. Só de onda.

PARREIRA — O Garotinho entraria?

ANJO TORTOTá louco!!?? Esse aí nem pensar. Ele ia botar o meu barraco de cabeça pra baixo, ia querer o meu trono, me dar chapéu. Aqui, ó!

PARREIRA — Mas ele é evangélico...

COISA-RUIMPor isso mesmo. Ia transformar o meu cafofo num inferno! Já imaginou esse cara gritando "Aleluia" pelo resto da eternidade?

PARREIRA — Mudando um pouco o foco: sexo é bom...

ESCURODe vez em sempre!

PARREIRA — Mulher ideal...

VADE-RETROA próxima.

PARREIRA — Um bom lugar pra viver...

O EXPULSOO inferno é um bom lugar pra viver. É sim.

PARREIRA — Uma última pergunta: o Diabo é o pai do rock?

SATÃNão. O Raul Seixas se enganou.





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