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PENSANDO EM PARTIR[1] Everardo P. Guimarães Rocha Etnocentrismo é uma visão do mundo
onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são
pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas
definições do que é a existência. No plano intelectual, pode ser visto como a
dificuldade de pensarmos a diferença; no plano afetivo, como sentimentos de
estranheza, medo, hostilidade, etc. Perguntar sobre o que é
etnocentrismo é, pois, indagar sobre um fenômeno onde se misturam tanto
elementos intelectuais e racionais quanto elementos emocionais e afetivos. No
etnocentrismo, estes dois planos do espírito humano – sentimento e pensamento –
vão juntos compondo um fenômeno não apenas fortemente arraigado na história das
sociedades, como também facilmente encontrável no dia-a-dia das nossas vidas. Assim, a colocação central sobre o
etnocentrismo pode ser expressa como a procura de sabermos os mecanismos, as
formas, os caminhos e razões, enfim; pelos quais tantas e tão profundas distorções
se perpetuam nas emoções, pensamentos, imagens e representações que fazemos da
vida daqueles que são diferentes de nós. Este problema não é exclusivo de uma
determinada época nem de uma única sociedade. Talvez o etnocentrismo seja,
dentre os fatos humanos, um daqueles de mais unanimidade. Como uma espécie de pano de fundo da
questão etnocêntrica temos a experiência de um choque cultural. De um lado,
conhecemos um grupo do “eu”, o “nosso” grupo, que come igual, veste igual,
gosta de coisas parecidas, conhece problemas do mesmo tipo, acredita nos mesmos
deuses da mesma forma, empresta à vida significados em comum e procede, por
muitas maneiras, semelhantemente. Aí, então, de repente, nos deparamos com um
“outro”, o grupo do “diferente” que, às vezes, nem sequer faz coisas como as
nossas ou quando as faz é de forma tal que não reconhecemos como possíveis. E,
mais grave ainda, este “outro” também sobrevive à sua maneira, gosta dela,
também está no mundo e, ainda que diferente, também existe. Este choque gerador do etnocentrismo
nasce, talvez, na constatação das diferenças. Grosso modo, um
mal-entendido sociológico. A diferença é ameaçadora porque fere nossa própria
identidade cultural. O monólogo etnocêntrico pode, pois, seguir um caminho
lógico mais ou menos assim: Como aquele mundo de doidos pode funcionar?
Espanto! Como é que eles fazem? Curiosidade perplexa? Eles só podem estar
errados ou tudo o que eu sei está errado! Dúvida ameaçadora?! Não, a vida deles
não presta, é selvagem, bárbara, primitiva! Decisão hostil! O grupo do “eu” faz, então, da sua
visão a única possível ou, mais discretamente se for o caso, a melhor, a
natural, a superior, a certa. O grupo do “outro” fica, nessa lógica, como sendo
engraçado, absurdo, anormal ou ininteligível. Este processo resulta num
considerável reforço da identidade do “nosso” grupo. No limite, algumas
sociedades chama-se por nomes que querem dizer “perfeitos”, “excelentes” ou,
muito simplesmente, “ser humano” e ao “outro”, ao estrangeiro, chamam, por
vezes, de “macacos da terra” ou “ovos de piolho”. De qualquer forma, a
sociedade do “eu” é a melhor, a superior. É representada como o espaço da
cultura e da civilização por excelência. É o espaço da natureza. São os
selvagens, os bárbaros. São qualquer coisa menos humanos, pois, estes somos
nós. O barbarismo evoca a confusão, a desarticulação, a desordem. O selvagem é
o que vem da floresta, da selva que lembra, de alguma maneira, a vida animal. O
“outro” é o “aquém” ou o “além”, nunca o “igual” ao “eu”. O que importa realmente, neste
conjunto de idéias, é o fato de que, no etnocentrismo, uma mesma atitude
informa os diferentes grupos. O etnocentrismo não é propriedade, como já disse,
de uma única sociedade, apesar de que, na nossa, revestiu-se de um caráter
ativista e colonizador com ao mais diferentes empreendimentos de conquista e
destruição de outros povos. A atitude etnocêntrica tem, por
outro lado, um correlato bastante importante e que talvez seja elucidativo para
a compreensão destas maneiras exacerbadas e até cruéis de encarar o “outro”.
Existe realmente, paralelo à violência que a atitude etnocêntrica encerra, o
pressuposto de que o “outro” deva ser alguma coisa que não desfrute da palavra
para dizer algo de si mesmo. Creio que é necessário examinar isto
melhor e vou fazê-lo através de uma pequena estória que me parece exemplar. Ao receber a missão de ir pregar
junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e
iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso,
comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc.; modesto, comprou para
si mesmo apenas um moderníssimo relógio digita2 capaz de acender luzes,
alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a hora sempre
absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as burocracias inevitáveis e,
após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu
distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois, fez-se amigo de
um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e
mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente do barulhento, colorido e
estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava freqüentemente. Um
dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio
dando-o, meio sem jeito e a contragosto, ao jovem índio. A surpresa maior estava, porém, por
vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito
feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore
altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem
dificuldade, um belo ornamento de penas e conta multicores, e no centro o
relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza
transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase indistinguível em meio
às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários metros de altura, o
relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o sorriso
inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio. Passados mais alguns meses o pastor
também se foi de volta para casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos
superiores seus relatórios e, naquela manhã, dar uma ultima revisada na
comunicação que iria fazer em seguida a seus colegas em um congresso sobre
evangelização. Seu tema: “A catequese e os selvagens”. Levantou-se, deu uma
olhada no relógio novo, quinze para as dez. era hora de ir. Como que buscando
uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu
escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares, e até uma flauta
formavam uma bela decoração. Rústica e sóbria ao mesmo tempo, trazia-lhe
estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo.
Engraçado o que aquele índio fizera com o seu relógio. Esta estória, não necessariamente
verdadeira, porém, de toda a evidência, bastante plausível, demonstra alguns
dos importantes sentidos da questão do etnocentrismo. Em primeiro lugar, não é necessário
ser nenhum detetive ou especialista em Antropologia Social (ou ainda pastor)
para perceber que, neste choque de culturas, os personagens de cada uma delas
fizeram, obviamente, a mesma coisa. Privilegiaram ambos as funções estéticas,
ornamentais, decorativas de objetos que, na cultura do “outro”, desempenhavam
funções que seriam principalmente técnicas. Para o pastor, o uso inusitado do
seu relógio causou tanto espanto quanto causaria ao jovem índio conhecer o uso
que o pastor deu a seu arco e flecha. Cada um “traduziu” nos termos de sua
própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na
cultura do “outro”. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do valor
da cultura do “outro”. O etnocentrismo passa exatamente por um julgamento do
valor da cultura do “outro” nos termos da cultura do grupo do “eu”. Em segundo lugar, essa estória
representa o que se poderia chamar, se isso fosse possível, de um etnocentrismo
“cordial”, já que ambos – o índio e o pastor – tiveram atitudes concretas sem
maiores conseqüências. No mais das vezes, o etnocentrismo implica uma apreensão
do “outro” que se reveste de uma forma bastante violenta. Como já vimos, pode
colocá-lo como “primitivo”, como “algo a ser destruído”, como “atraso ao
desenvolvimento”, (fórmula, aliás, muito comum e de uso geral no etnocídio, na
matança dos índios). Assim, por exemplo, um famoso
cientista do início do século, Hermann von Ihering, diretor do Museu Paulista,
justificava o extermínio dos índios Caingangue por serem um empecilho ao
desenvolvimento e à colonização das regiões do sertão que eles habitavam. Tanto
no presente como no passado, tanto aqui como em vários outros lugares, a lógica
do extermínio regulou, infinitas vezes, as relações entre a chamada
(civilização ocidental”, tristemente exemplar, de uma criança, de um grande
centro urbano que, de tanto ouvir absurdos sobre o índio, seja em casa, seja
nos livros didáticos, seja na indústria cultural, acabou por defini-los
dizendo: “o índio é o maior amigo do homem”. Em terceiro lugar, a estória ainda
ensina que o “outro” e sua cultura, da qual falamos na nossa sociedade, são
apenas uma representação, uma imagem distorcida que é manipulada como bem
entendemos. Ao “outro” negamos aquele mínimo de autonomia necessária para falar
de si mesmo. Tudo se passa como se fôssemos autores de filmes e livros de
ficção científica onde podemos falar e pensar o quanto é cruel, grotesca e
monstruosa uma civilização de marcianos que capturou nosso foguete. Também,
porque somos os autores destes filmes e livros, nada nos impede de criarmos um
marciano simpático, inteligente e superpoderoso que com incrível perícia salva
a Terra de uma co1lisao fatal com um meteoro gigante. Claro, como o marciano
não diz nada, posso falar dele o que quiser. Assim, de um ponto de vista do grupo
do “eu”, os que estão de fora podem ser brabos e traiçoeiros bem como mansos e
bondosos. Aliás, “brabos” e “mansos” são dois termos que muitas vezes foram
empregados no Brasil para designar o “humor” de determinados animais e o
“estado” de varias tribos de índios ou de escravos negros. A figura do louco, por exemplo, na
nossa sociedade, é manipulada por uma série de representações que oscilam entre
estes dois pólos, sendo denegrida ou exaltada – como o marciano – ao sabor das
intenções que se tenha. Isto não só ao longo da história, mas também em
diferentes contextos no presente. A expressão “fulano é muito louco” pode ser
elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. Em alguns momentos da história
o louco foi acorrentado e torturado, em outros, foi portador de uma palavra
sagrada e respeitada. Aqueles que são diferentes do grupo
do eu – os diversos “outros” deste mundo – por não poderem dizer algo de si
mesmos, acabam representados pela ótica etnocêntrica e segundo as dinâmicas
ideológicas de determinados momentos. Na nossa chamada “civilização
ocidental”, nas sociedades complexas e industriais contemporâneas, existem
diversos mecanismos de reforço para o seu estilo de vida através de
representações negativas do “outro”. O caso dos índios brasileiros é bastante
ilustrativo, pois alguns antropólogos estudiosos do assunto já identificaram
determinadas visões básicas, determinados estereótipos, que são permanentemente
aplicados a estes índios. Eu mesmo realizai, há alguns anos,
um estudo sobre as imagens do índio nos livros didáticos de História do Brasil.
Estes livros têm importância fundamental na formação de uma imagem do índio,
pis são lidos e, mais ainda, estudados por m milhões de alunos
pré-universitários nos mais diversos recantos do país. Alguns destes livros
alcançam tiragens altíssimas e já tiveram mais de duzentas edições. Através
deles circula um “saber” altamente etnocêntrico – honrosas exceções – sobre os
índios. Os livros didáticos, em função mesmo
do seu destino e de sua natureza, carregam um valor de autoridade, ocupam um
lugar de supostos donos da verdade. Sua informação obtém este valor de verdade
pelo simples fato de que quem sabe seu conteúdo passa nas provas. Nesse
sentido, seu saber tende a ser visto como algo “rigoroso”, “sério” e
“científico”. Os estudantes são testados, via de regra, em face do seu
conteúdo, o que faz co que as informações neles contidas acabem se fixando no
fundo da memória de todos nós. Com ela se fixam também imagens extremamente
etnocêntricas. Alguns livros colocavam que os
índios eram incapazes de trabalhar nos engenhos de açúcar por serem indolentes
e preguiçosos. Ora, como aplicar adjetivos tais como “indolente” e “preguiçoso”
a alguém, um povo ou uma pessoa, que se recuse a trabalhar como escravo, numa
lavoura que não é a sua, para a riqueza de um colonizador que nem sequer é seu
amigo: antes, muito pelo contrário, esta recusa é, no mínimo, sinal de saúde
mental. Outro fato também interessante é que
um número significativo de livros didáticos começa com a seguinte informação:
os índios andavam nus. Este “escândalo” esconde, na verdade, a nossa noção
absolutizada do que deva ser uma roupa e o que, num corpo, ela deve mostrar e
esconder. A estória do nosso amigo missionário serviu para a constatação das
dificuldades de definir o sentido de um objeto – o relógio ou o arco – fora dos
seus contextos culturais. Da mesma maneira, nada garante que os índios andem
nus a não ser a concepção que eles mesmos teriam de nudez e vestimenta. Assim, como o “outro” é alguém
calado, a quem não é permitido dizer de si mesmo, mera imagem sem voz,
manipulado de acordo com desejos ideológicos, o índio é, para o livro didático,
apenas uma forma vazia que empresta sentido ao mundo dos brancos. Em outras
palavras, o índio é “alugado” na História do Brasil para aparecer por três
vezes m três papeis diferentes. O primeiro papel que o índio
representa é no capítulo do descobrimento. Ali, ele aparece como “selvagem”,
“primitivo”, “pré-histórico”, “antropófago”, etc. isto era para mostrar o
quanto os portugueses colonizadores eram “superiores” e “civilizados”. O segundo papel do índio é no
capítulo da catequese. Nele o papel do índio é o de “criança”, “inocente”,
“infantil”, “almas virgens”, etc., para fazer parecer que os índios é que
precisavam da “proteção” que a religião lhes queria impingir. O terceiro papel é muito engraçado.
É no capítulo “Etnia brasileira”. Se o índio já havia aparecido como “selvagem”
ou “criança”, como iriam falar de um povo – o nosso – formado por portugueses,
negros e “selvagens”? Então aparece um novo papel e o índio, num passe de
mágica etnocêntrica, vira “corajoso”, “altivo”, cheio de “amor à liberdade”. Assim são as sutilezas, violências,
persistências do que chamamos etnocentrismo. Os exemplos se multiplicam nos
nossos cotidianos. A “indústria cultural” – TV, jornais, revistas, publicidade,
certo tipo de cinema, rádio – está freqüentemente fornecendo exemplos de
etnocentrismo. No universo da indústria cultural é criado sistematicamente um
enorme conjunto de “outros” que servem para reafirmar, por oposição, um a serie
de valores de um grupo dominante que se autopromove a modelo de humanidade. Nossas próprias atitudes frente a
outros grupos sociais com os quais convivemos nas grandes cidades são, muitas
vezes, repletas de atitudes etnocêntricas. Rotulamos e aplicamos estereótipos
através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com a diferença. As
idéias etnocêntricas que temos sobre as “mulheres”, os “negros”, os
“empregados”, os “paraíbas de obra”, os “colunáveis”, os “doidões”, os “surfistas”,
as “dondocas”, os “velhos”, os “caretas”, os “vagabundos”, os gays e
todos os demais “outros” com os quais temos familiaridade, são uma espécie de
“conhecimento” um “saber” baseado em formulações ideológicas, que no fundo
transforma a diferença pura e simples num juízo de valor perigosamente
etnocêntrico. Mas, existem idéias que se
contrapõem ao etnocentrismo. Uma das mais importantes é a da relativização.
Quando vemos que as verdades da vida são menos uma questão de essência das
coisas e mais uma questão de posição: estamos relativizando. Quando
compreendemos o “outro” nos seus próprios valores e não nos nossos: estamos
relativizando. Enfim, relativizar é ver as coisas do mundo como uma relação
capaz de ter tido um nascimento, capaz de ter um fim ou uma transformação. Ver
as coisas do mundo como a relação entre elas. Ver que a verdade está mais no
olhar que naquilo que é olhado. Relativizar é não transformar a diferença em
hierarquia, em superiores e inferiores ou em bem e mal, mas vê-la na sua dimensão
de riqueza por ser diferença. A nossa sociedade já vem, há alguns
séculos, construindo um conhecimento ou, se quisermos, uma ciência sobre a
diferença entre os seres humanos. Esta ciência chama-se Antropologia Social.
Ela, como de resto quase todas as atitudes que temos frente ao “outro”, nasceu
marcada pelo etnocentrismo. Ela também possui o compromisso da procura de
superá-lo. Diferentemente do saber de “senso comum”, o movimento da
Antropologia é no sentido de ver a diferença como forma pela qual os seres
humanos deram soluções diversas a limites existenciais comuns. Assim, a
diferença não se equaciona com a ameaça, mas com a alternativa. Ela não é uma
hostilidade do “outro”, mas uma possibilidade que o “outro” pode abrir para o
“eu”. [1] Everardo P. Guimarães Rocha. O que é etnocentrismo. São Paulo: Brasiliense, 1999. Col. Primeiros Passos. Pp. 7-22. |