|
retorna · publicado na revista Trópico por Afonso Luz, critico de arte e estudante de filosofia na USP
Paulo Arantes e Peter Pál Pelbart discutem "Império", de Negri e Hardt O encontro "Trópico na Pinacoteca" do mês de abril tratou de uma das mais polêmicas reflexões sócio-políticas da atualidade, o livro "Império", de Michael Hardt e Antonio Negri, publicado em 2000 nos Estados Unidos e traduzido para o português no ano seguinte pela Editora Record. Em quase 500 páginas de uma prosa heterodoxa e contagiante este longo ensaio, ou manifesto, incita-nos a refletir sobre as articulações entre fenômenos contemporâneos diversos. As novas tecnologias de informação, o esquadrinhamento genético da vida, a crise dos estados nacionais, a organização social em redes, os erosivos fluxos financeiros, os conflitos ecológicos, as formas avançadas de controle psicossociais são abordados no livro como nexos de uma nova forma de poder conceituada como "Império". Mas esse "Império" pode ser visto também como campo simbólico e material no interior do qual se travam novas lutas sociais, ou "biopolíticas", por emancipação e reconhecimento. A mesa reuniu, na Pinacoteca do Estado, o filósofo Paulo Arantes, professor da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), autor de "A Ordem do Tempo em Hegel" (Hucitec) e "Sentimento da Dialética" (Paz e Terra), e o professor Peter Pál Pelbart, do programa de Pós-Graduação de Filosofia e Psicologia Clínica da PUC-SP e autor de "O Tempo Não-reconciliado" (Perspectiva) e "Vida Capital: Ensaios de Biopolítica" (no prelo). Pelbart coordena também a Cia. Teatral Ueinzz. O debate, promovido pela Pinacoteca e por esta revista eletrônica, foi coordenado por Lisette Lagnado, crítica de arte e co-editora de "Trópico". Leia trechos do debate
Paulo Arantes: a tensão entre liberdade republicana e expansão imperial
Paulo Arantes iniciou sua intervenção sugerindo que os autores de "Império", oriundos, um da esquerda acadêmica norte-americana e outro de movimento libertário italiano, estranhamente concordam com o atual presidente americano, George W. Bush. Para fundamentar sua tese, Arantes comparou duas citações, uma do livro de Hardt e Negri (págs. 198-200) e outra de um pronunciamento recente de George W. Bush.
Os autores do livro afirmam que o "Império" inventado pelos americanos atende a "demanda" do restante do mundo que veria os EUA como a única potência global capaz de impor ordem e segurança. O presidente americano, por sua vez, alega que esse "poder de polícia" internacional seria missão indeclinável. As raízes dessa estranha coincidência estariam, para o filósofo, nas crenças históricas e morais que constituem a nação americana. Para Arantes, "Império" se destaca da média publicada sobre globalização -à esquerda ou à direita- justamente por não ser antiamericano.
"Quando Bush diz: 'Os EUA aceitam de bom grado a sua responsabilidade de liderar esta grande missão em prol da humanidade no combate de seus adversários', ele está encarnando aquilo que há de mais profundo e que poderíamos definir como -o que já seria um juízo de valor- 'mitologia americana', 'ideologia americana' ou coisa que o valha. O presidente diz, e os americanos entendem, sejam de esquerda ou de direita. É um automatismo de linguagem."
Para Arantes essa "linguagem política tem a idade do país. Está lá no testamento de George Washington, no de Jefferson, na doutrina Monroe". Na sua opinião, "a idéia de que o povo americano é especialmente dotado e que aceita, com relutância, a responsabilidade da guerra, existe desde os puritanos. Por isso, quando Bush fala, os americanos compreendem."
Para o filósofo, o que causa estranhamento é que "dois autores gauchistas tenham chegado à mesma conclusão". Caberia então indagar "como um autonomismo italiano entronca na tradição que remonta aos formuladores da Constituição americana, que de certa forma rege até hoje o imaginário daquele país, que pode ser visto como exótico ou excêntrico".
Arantes seguiu enfatizando o paradoxo representado pela convergência entre Bush e os autores do livro. " 'Nós', dizem os americanos desde que chegaram lá, 'não somos iguais ao resto da humanidade. A colonização clássica européia entendia que o direito canônico justificava a intervenção bélica atribuindo caráter sagrado à guerra colonial. Os puritanos estenderam esse caráter sacro à terra em que aportaram -uma noção que sobrevive no reconhecimento da excepcionalidade do território norte-americano".
O filósofo notou que, por oposição à soberania européia do Antigo Regime, a sociedade americana seria organizada em torno da idéia do contrato entre iguais, do autogoverno e da democracia direta. Só que, contraditoriamente, é também uma sociedade violenta, xenófoba, destruidora e predadora.
Para Arantes essa contradição se expressa em um dilema original no pensamento americano entre ser república ou ser império. Hardt e Negri não teriam levado esse dilema em consideração. Ao desconhecer a tensão entre os dois princípios, o livro embarcaria "no discurso oficial americano". "O livro inteiro provoca e é alimentado pelo disparate monumental que consiste em entender a história do mundo contemporâneo como um prolongamento da história constitucional americana," disse o filósofo.
Para Arantes, "os pensadores constitucionalistas americanos resolveram o dilema combinando república e império. Para evitar a decadência e corrupção advinda da expansão imperial, como mostra a experiência do Antigo Regime, os americanos organizaram-se em pequenas repúblicas. Em cada uma haveria homogeneidade racial, religiosa e política. Cada um dos estados aderiu à União, na condição de quase autônomo". Estaríamos assistindo a mais um episódio de compatibilização da tensão entre império e república.
Segundo Arantes, "na metade do século 19, esta mitologia de base adquiriu uma outra expressão, quando os Estados Unidos fizeram aquilo que os americanos nunca admitiram ter feito: a expansão territorial imperial. Em meio século, atravessaram o continente até o Pacífico, adquiriram terras, massacraram índios, se envolveram em guerras com o México. Na virada para o século 20, através de uma guerra com a Espanha, entraram na corrida imperialista da Europa, já enquanto país continental".
"Os americanos não foram colonialistas ou imperialistas nos termos
europeus.
Não os interessava ser porque a economia americana de então já era a
mais
avançada do mundo, o que dispensava a ocupação e a subordinação
colonial
clássica. Interessava, sim, implantar as enormes corporações
americanas nas
Os Estados Unidos teriam negado o colonialismo clássico também por razões racistas. "Eles não podiam incorporar populações racialmente inferiores aos anglo-saxões eleitos e investidos de um destino bíblico."
O filósofo comentou que há em "Império" um capítulo sobre a Constituição americana onde aparece uma nova forma de soberania, imanente, produzida de baixo para cima. "É o pensamento de Jefferson sobre a pequena propriedade, do governo barato, do presidente que voltava de bonde para casa e não admitia que ninguém lhe pagasse a passagem.
"É a tendência do governo popular de pequenos proprietários, que se perdeu na passagem da declaração de Independência para a Constituição, episódio que os autores sintomaticamente caracterizam como um golpe dado pelos Federalistas", disse Arantes.
E continuou: "Essa América representava um sonho europeu de liberdade. Para Jefferson, a polícia deveria ser mínima, não haveria exército permanente, ou fiscalidade. Os gastos da administração seriam restritos ao trivial. 'Nós nos autogovernamos'. Trata-se de uma tradição de esquerda que não conhecemos."
Arantes enfatizou a contradição nesse ideário: "Havia escravidão, pena de morte e tudo mais, elementos que Negri e Hardt mencionam só de passagem. E contra o ideário de Jefferson havia Hamilton. O primeiro secretário de fazenda de Washington defendia a expansão do território, a intervenção na política internacional, Banco Central e União fortes. Quando os americanos se viram suficientemente fortalecidos, eles saíram a campo.
A entrada na Primeira Guerra significou assumir pela primeira vez o destino manifesto que é a expansão moral e espacial da excepcionalidade da democracia americana". O filósofo vê aí o surgimento do fundamentalismo contemporâneo: "Como quem leva a salvação, a verdade, e prepara, a batalha final entre o Bem e o Mal, o Armagedom. Desde os puritanos os americanos se preparam para esta 'batalha'. Não foi uma invenção de Hollywood, isto já estava lá na cabeça deles."
Arantes apontou que os Estados Unidos projetaram planetariamente a expansão territorial contínua, o imaginário do "espaço americano". "Não há europeu que tenha visitado os Estados Unidos, desde o século 19 até o fim do 20, que não tenha se referido a essa espacialidade extraordinária. Ela está amplamente tratada em livros que falam da pintura de Pollock, ou no trabalho de Baudrillard que descreve o deserto hiperreal dos Estados Unidos."
Os americanos transformam isto numa espécie de grande matriz capaz de abarcar a humanidade porque vai se expandindo, agregando Estados democratizados, racialmente homogêneos e partilhando as mesmas crenças constitucionais, políticas e religiosas, segundo Arantes. "Hoje eles estão de boa fé acreditando que incorporam a este espaço imaginário da sua República imperial outros países por justaposição de territórios descontínuos, como protetorados militares, alargando fronteiras inteligentes, imaginárias, jurídicas ou culturais."
Negri e Hardt, para Arantes, imaginam estar escrevendo um novo Manifesto Comunista. "Eles dizem: 'Companheirinhos, nós temos que tomar ao pé da letra este imaginário americano, enraizado em processos sociais reais que, trazem em si mesmos os germes de sua superação. Este nosso discurso é um discurso de fim da história, como o de Fukuyama, só que com os sinais trocados. Ele termina numa paz da pós-história, para nós 'Império', que na acepção americana é Pax, termina numa espécie de pacificação pura.
Daí a função policial
das guerras
americanas, daí a verdade deles, que a nós parece uma abominação, o
fato de
que os Estados Unidos relutam, mas aceitam desempenhar este papel."
Arantes terminou sua fala advertindo que é necessário cautela quando
se fala
em incorporação, pois "o mundo está se desintegrando e todos
querem se
integrar a este espaço de ordem, conforto, bem-estar e civilização
que se
chama Império Americano". Para o filósofo, Negri e Hardt fazem a
teoria dessa
incorporação e a apresentam de maneira revolucionária.
Peter Pál Pelbart: A "multidão" como princípio de resistência ao "Império"
O professor Peter Pál Pelbart apresentou uma leitura diversa do livro. Para ele, a obra é "a primeira grande cartografia do terceiro milênio", capaz de pensar o presente com um recorte ao mesmo tempo histórico e filosófico, cultural e econômico, político e antropológico. "Com clareza perturbadora aparecem os processos de dominação e assujeitamento que se instalaram nos últimos anos, bem como algumas indicações, ainda embrionárias, sobre possibilidades de reversão", disse.
Para Pelbart, o Império, tal como definido no livro, "é uma nova estrutura de comando, em tudo pós-moderna, descentralizada e desterritorializada". Sem fronteiras, engloba a totalidade do espaço do mundo, apresenta-se como fim dos tempos, ordem a-histórica, eterna, definitiva.
"Penetra fundo na vida das populações, nos seus corpos, mentes, inteligência, desejo, afetividade. Esse poder já não se exerce verticalmente. Sua lógica, em parte, sim, inspirada no projeto constitucional americano, é mais democrática, horizontal, fluida, entrelaçada à heterogeneidade do tecido social, articulando em rede singularidades étnicas, religiosas, minoritárias".
Em substituição aos dispositivos disciplinares que antes formatavam a subjetividade, surgem, conforme o livro, novas modalidades de controle que atuam por meio de mecanismos de monitoramento mais difusos, "imanentes", incidindo diretamente sobre os corpos e as mentes, prescindindo das mediações institucionais antes necessárias, que, de qualquer forma entraram aos poucos em colapso. "O novo regime de controle em espaço liso e aberto se exerce através de sistemas de comunicação, redes de informação, atividades de enquadramento, e é como que interiorizado e reativado pelos próprios sujeitos, no que os autores chamam de um estado de alienação autônoma."
O professor afirmou que nessa nova configuração, "biopolítica designa a entrada do corpo e da vida no domínio dos cálculos explícitos do poder. Vida agora inclui a sinergia coletiva, a cooperação social e subjetiva no contexto de produção material e imaterial contemporânea -o intelecto geral- e significa inteligência, afeto, cooperação, desejo". Ao descolar-se de sua acepção predominantemente biológica, "a vida ganha uma amplitude inesperada".
É o que explica, segundo Pelbart, a inversão do sentido do termo cunhado por Foucault: "Biopolítica não mais como o poder sobre a vida, mas como a potência da vida". Definir o Império como regime biopolítico implica em duas coisas: "Reconhecer que nele o poder sobre a vida atinge uma dimensão nunca vista, mas por isso mesmo nele a potência da vida se revela de maneira inédita."
Pelbart desenvolveu essa noção de "vida" tomando o "exemplo do trabalho contemporâneo, pós-fordista. Baseado na informação, na ciência, na comunicação, nos serviços, o trabalho contemporâneo, dito "imaterial", já não produz só sapatos, mas principalmente informação, conhecimento e imagens. Ele confunde tempo de produção e de reprodução, depende da criatividade coletiva, tende a funcionar em rede e se realizar por meio da cooperação intelectual.
"Mais e mais o trabalho contemporâneo aparece como atividade produtiva da multidão (e não do capital), de sua vitalidade. Nem por isso o trabalho deixa de ser explorado. Pelo contrário, o capital encontra nessa força-invenção disseminada, na potência de vida da multidão, a fonte primordial de riqueza do próprio capitalismo. É a Multidão, e não o Império, em última instância, que cria, gera e produz novas fontes de energia e de valor que o Império tenta modular, controlar, capitalizar. O poder do Império é apenas organizativo, não constituinte, ele parasita e vampiriza a riqueza virtual da multidão. 'O próprio Império não é uma realidade positiva', dizem os autores, numa inversão que abre uma poderosa linha de escape para pensar a resistência constituinte."
Pelbart observou que tradicionalmente o termo "multidão" é
usado de maneira
pejorativa, indicando um agregado disforme que cabe ao governante domar
e
dominar. "Povo", por outro lado, é concebido como um corpo público
animado por
uma vontade única. Segundo ele, Negri e Hardt, contudo, tomam outra
Para Pelbart, "ao recensear as formas de resistência atuais, desde certos modos de deserção e defecção, de evacuação dos lugares de poder, até a explosão de revoltas virulentas, ora incomunicáveis entre si, ora 'globalizadas', os autores de 'Império' insistem em que se trata de lutas a um só tempo econômicas, políticas, culturais, 'biopolíticas' -pois são lutas que têm por objeto a forma de vida, já que o Império é acima de tudo controle de forma de vida". "No entanto, apesar de sua intensidade, e por mais que criem novos espaços e novas formas de comunidade, e pensemos na linhagem que vai de Seattle a Gênova, passando por Chiapas, ou mesmo a mobilização planetária contra a guerra do Iraque, essas revoltas ainda parecem obsoletas", disse o professor.
"É que uma exigência maior se impõe a cada dia: a de ir além da recusa, transpôr o Império para 'sair do outro lado'. Trata-se de construir, no não-lugar que as desconstruções das últimas décadas deixaram e no vazio que o Império produziu, um lugar novo, a partir da sinergia da multidão, tecendo ontologicamente novas determinações do humano, de vida. A utopia que se entrevê nesse tom a um só tempo cáustico e terno não configura um contorno acabado com cores de um outro mundo, mas apenas prolonga as linhas de força já presentes neste mundo, num telos coletivo e experimental da multidão. Ao invés de utopia, seria mais conveniente falar em desutopia."
Pelbart vê no livro um variada inspiração conceitual que vai de
Maquiavel a
Guy Debord, Foucault, Deleuze-Guattari passando por Espinosa e Marx e
pela
experiência da autonomia italiana. Os autores conjugam desconstrução
e
afirmação num novo estatuto para filosofia, que deixaria "de ser
a coruja que
"Muitas perguntas ficam em aberto ao final da leitura desse livro, e algumas delas são irrespondíveis teoricamente, como se a resposta só pudesse vir precisamente da multidão, na sua heterogeneidade, no seu hibridismo, no seu nomadismo forçado ou voluntário, no sofrimento e miséria que as novas segmentações do Império produzem a cada dia, naquele ponto em que o poder sobre a vida se revela tão total que faz aparecer, afinal, o seu avesso, um meio de pluralidade poderoso em que o Império soa apenas como um espectro, como a organização do medo, como superstição."
Pelbart finalizou assim sua análise: "Num conto conhecido, Kafka relata que o imperador da China manda construir uma muralha para se proteger dos bárbaros, mas essa muralha é feita de blocos esparsos, com lacunas quilométricas entre um bloco e outro, que não protegem de nada nem de ninguém. Em todo caso, de nada adiantaria, visto que os bárbaros já estão acampados a céu aberto no coração da capital, diante do palácio do Imperador.
O Império contemporâneo não é feito de trincheiras e muralhas para se proteger dos nômades. O próprio império já é nômade, ou melhor, ele é a resposta política e jurídica à nomadização generalizada, de fluxos de toda ordem. Há algo no funcionamento do Império que é puro disfuncionamento. Como diz Kafka num outro contexto: 'Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado. Tudo racha e estala como no equipamento de um veleiro destroçado.
Talvez seja esta rachadura, que um livro como Império pode nos ajudar a pensar, com todas as reservas que se possa ter a várias das categorias por ele propostas. Ele pode ser útil para pensar a lógica imanente do poder contemporâneo, e nesse contexto concreto, biopolítico, para repensar a relação entre capital e vida, controle e desejo, política e subjetividade, e mais amplamente, a relação sempreproblemática e explosiva entre o poder e a potência, entre o constituído e o constituinte, entre a soberania e a imanência.
Foi isso que nele me interessou, e por isso deixei de lado, aqui, todas as possíveis divergências ou reticências, analíticas, doutrinárias ou estilísticas, minhas ou de seus inúmeros críticos, bem como outras vias interessantes nele presentes para pensar a guerra, o estado de excessão, a polícia global, a militarização atual do psiquismo mundial. Parafraseando Benjamin, é como se a partir de uma redescrição de nosso presente pós-moderno, esse livro tentasse escová-lo a contrapelo, e examinasse as novas possibilidades de reversão vital que se anunciam.
Pois no interior dessa megamáquina de produção de subjetividade e de terror a que se chama Império, o livro prospecta a positividade constituinte e antagônica da multidão, que anuncia novas modalidades, talvez pós-humanas, de se agregar, de combater, de trabalhar, de criar sentido, de inventar dispositivos de valorização e de autovalorização capazes de nos fazer 'sair do outro lado' do Império. Negri e Hardt flertam com o demônio, mas para transpô-lo".
Leia trechos do debate
Marcos Müller: Paulo Arantes, você fez uma gênese ideológica implacável das raízes americanas da tese dos dois autores. Mas, do ponto de vista de um aspecto mais positivo do livro, como é que você se posiciona em relação à analise que eles fazem da diferença, que me parece muito importante para a esquerda, entre este novo regime imperial e a noção clássica de imperialismo? Por outro lado, gostaria que Pelbart comentasse a posição extremamente otimista dos autores no que diz respeito à superação do conceito de propriedade privada. Em certo momento eles dizem que este conceito hoje não tem mais sentido, embora ressalvem que há regimes políticos e jurídicos nos quais a propriedade privada está presente, acentuam a dimensão comunitarista e coletiva da produção.
Paulo Arantes: Claro que não sou um nostálgico da idéia de imperialismo, ela teve seu tempo, hoje não cabe mais. Eu prefiro particularmente a noção de hegemonia na acepção gramsciana que os italianos deram a este termo. Um foco de poder mundial só é hegemônico na medida em que pode alegar, de modo plausível, que com o atendimento de seus interesses nacionais atende o conjunto da organização e da acumulação dos demais membros do sistema mundial. Ele deve reivindicar o consentimento dos hegemonizados, mas tem que haver coerção, um poder de polícia mundial. Toda vez que uma potência hegemônica tenta englobar toda economia mundial num poder imperial único há uma guerra mundial. A primeira que assistimos nesta acepção foi a da potência que estava consolidando o seu poder organizativo e impedindo o caos. A novidade que vemos agora é que os Estados Unidos está caotizando o mundo e deste modo sua hegemonia passa a ser diferente, temos que examinar isto. Há contribuições no livro que os autores não exploram por estarem obnubilados por uma fraseologia de segunda mão sobre globalização, estado nacional, transnacionalização produtiva. Tanto que eles não tem nada a dizer sobre o que está acontecendo agora no mundo. Para responder ao Marcos, acho que é uma coisa positiva do livro e que não tem mais a ver com imperialismo. Ele retoma o tema da hegemonia e repensa a Nova Ordem Mundial como um estado de exceção generalizado, o que significa uma crise terminal e, aí sim, faz sentido essa multidão para qual eles apelam. Um outro filosofo italiano Giorgio Agamben tem muito a dizer neste sentido.
Peter Pál Pelbart: Acho que há uma questão no livro e nestes autores italianos Agamben, Lazaratto, Virno e outros sobre o estatuto do comum, ou sobre uma certa crise do comum por razões complexas. Por um lado eles reconhecem que houve e vivemos um seqüestro do comum, como se ele tivesse sido transcendentalizado em formas midiáticas e outras mais. O comum é a linguagem, o conhecimento, o intelecto geral -ou poderíamos pensá-lo amplamente como esta vida a-orgânica, a virtualidade da multidão. Haveria uma crescente expropriação do comum, sob formas mais ou menos espetacularizadas, então esta sensação de que nos roubaram o comum e que ele pretende representar-nos. Me parece que nesta reflexão há uma constatação de que esta crise vai de par com outra coisa que tem a ver com a mutação pós-fordista, ou seja, que o trabalho depende absolutamente de um comum que é a inteligência coletiva, a imaginação, a cooperação num campo que se tornou o miolo da produção contemporânea sem o qual ela seria impensável desta maneira e que é um campo de batalha, pois a todo tempo se tenta privatizar este comum. A internet é um bom exemplo, uma espécie de comum rizomático que não pertence a ninguém, todos estão ao mesmo tempo nele, mas que cotidianamente se tenta privatizar e canalizar sua direção e controlá-lo. No livro aparece esta tensão e ao mesmo tempo uma reivindicação que é a de pôr para circular em comum o comum e de inventar mecanismos mais concretos, jurídicos e políticos, de mobilização social para se reapropriar do comum. Os movimentos de contestação italianos são bom exemplo disto, através de um outro modo de produção de mídia, de circulação de informação e reapropriação da linguagem, e que é uma idéia forte em Negri e se encontra embrionariamente aqui no livro. Logo depois de sua publicação foi, por ele e por outras pessoas, organizado na Itália um seminário para pensar o que seria nos dias de hoje uma linguagem comum, num esforço político de reacessar o comum.
Luiz Renato Martins: Fiquei perplexo com a descrição que Paulo fez do ponto de vista de Negri. Nos anos 70 na Itália o debate político era muito vivo e quando estive lá cheguei a acompanhar as intervenções de Negri e participar de reuniões da Autonomia Operária. Sua grande questão naquele momento era, a partir de uma leitura marxista da sociedade, extravasar os quadros institucionais em que o PCI tentava conduzir os movimentos sociais, recorrendo a elementos do anarquismo e outras formas de luta. Propunha formas novas de mobilização que no fundo, como diz você, se aproximavam do liberalismo americano, neste sentido constitucionalista, jeffersoniano ou neo-kantiano. Não acompanhei a história toda de Negri, mas me parece que ele virou o fio. Não entendo como incorporou este discurso. Esse outro Negri que Pelbart descreveu me parece estar mais próximo de um certo tipo de visionarismo cristão. Também não vejo aí possíveis passagens. Queria que Paulo fizesse uma síntese da trajetória intelectual de Negri dos 70 para cá, que talvez tenha algo a ver com a trajetória da esquerda mundial.
Arantes: Negri, num certo sentido, continua a ser um "autonomista" italiano, só que ele expandiu o horizonte deste autonomismo, que está também nos filmes do Godard dos anos 70. Ele continua nesta tradição quando diz que a soberania do Império deriva exclusivamente do poder constituinte da multidão. Ele escreveu um enorme livro sobre este conceito fundamental de poder constituinte, em que opõe dois tipos de Constituição em toda a história da filosofia política moderna. Começa lá na Renascença e vai até o ponto culminante que é a novidade da Constituição americana. Ele encontra aí o mesmo poder da massa proletária. De modo que não há nenhuma ruptura nesta trajetória, ele só reformula esta questão. Nos lembremos que ele era professor de filosofia do direito e foi um dos primeiros marxistas a escrever uma teoria da Constituição.
|