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O quilombo argentino

entrevista

por Claudia Antunes

e Fernanda da Escóssia

Folha de S. Paulo

13 de outubro de 2003

 

 

 

dossiê Antonio Negri



 Bush atacou Iraque para controlar UNIÃO EUROPÉIA, diz Negri

 

Soldados americanos tomam palácio

de Saddam Hussein em 8 de abril de 2003

 

 

Um dos gurus do movimento antiglobalização, o filósofo italiano Antonio (Toni) Negri diz não ver muita diferença entre o ator Arnold Schwarzenegger, eleito governador da Califórnia, o presidente russo, Vladimir Putin, o norte-americano, George W. Bush, ou o premiê italiano, Silvio Berlusconi. Para Negri, 70, Schwarzenegger não é "um escândalo em particular", mas resultado, como os demais, do monopólio da comunicação e da crise da representação política tradicional. Negri é autor, junto com o americano Michael Hardt, de "Império", que vê na resistência supranacional a única maneira de mudar as bases da globalização, e prepara "Império 2". Esta é a primeira viagem ao Brasil do filósofo, em liberdade depois de cumprir pena pelo sequestro e morte, em 1978, do líder democrata-cristão Aldo Moro. No livro "De Retour", ele afirma que nunca participou de atentados. O filósofo ficou quatro anos em prisão de alta segurança. Em 1983, fugiu para a França, onde se exilou até 1997. Voltou para a Itália, segundo diz, por causa de uma "desilusão amorosa". Foi preso novamente e agora está livre, com seu passaporte de volta. Negri faz hoje no Rio a conferência "As Multidões e o Império", em evento do Ministério da Cultura e pela Universidade Nômade, que reúne intelectuais do Rio e de São Paulo. No evento, será lançada a revista "Global". Ele fará também duas palestras em São Paulo nesta semana. Amante do futebol, torce para o Milan. "É o mesmo time de Berlusconi. Mas quando a gente é torcedor, suporta tudo", disse, em entrevista à Folha.

 

Folha - Qual é sua opinião sobre o governo Lula?

 

Antonio Negri - Não posso entrar no debate político interno do Brasil, não sou um conhecedor. Do ponto de vista internacional, Lula e a política externa brasileira tornaram-se muito importantes. É extremamente evidente a presença de Lula na crise do período pré-Iraque. Foi a primeira vez que um país do sul da América teve um papel importante na cena internacional.

Tropas americanas entram

na cidade de Najaf em 4 de abril de 2003

 

Folha - O senhor já disse que a guerra dos EUA contra o Iraque foi um pretexto para atacar a Europa. Por quê?

 

Negri - É uma longa história. Começa nos anos 70, quando a Europa, pela primeira vez, se aproxima no campo político de uma reorganização interna independente da Otan [a aliança militar com os EUA]. Isso coincide com a primeira crise do petróleo, em 1973. A Europa é dependente, em energia, do Oriente Médio. O que se passa lá é vital para a Europa. Desde que a União Européia progrediu, a luta americana contra a unidade européia tornou-se mais forte. A intervenção estratégica dos EUA no Oriente Médio tem como um de seus elementos fundamentais o controle da Europa e dos recursos energéticos.

 

Folha - O senhor mencionou a posição brasileira sobre o Iraque, próxima da de países europeus como França e Alemanha. Mas, na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Cancún, os EUA se aliaram à Europa em defesa do protecionismo agrícola. Como o senhor vê essa diferença?

 

Negri - A globalização é um processo que avança e deve avançar. Sou contrário à proteção européia ao mercado agrícola. Mas em Cancún passou-se algo mais importante, o bloqueio a novas privatizações e a novos processos neoliberais. A privatização dos bens comuns foi bloqueada [quando os países pobres rejeitaram a liberalização dos serviços, incluindo a educação, e as regras de investimentos propostas pelos ricos]. Isso, sim, é importante, muito mais do que a questão agrícola -que deverá ser resolvida mais cedo ou mais tarde.

 

Soldados americanos

comemoram no Iraque

 

Folha - O senhor vê, na invasão do Iraque -contra a opinião pública mundial e a ONU- o retrato de um poder sem igual na história?


Negri - É verdade que o poderio militar dos EUA é extraordinário, mas não creio que ele seja suficiente. Hoje os EUA não têm meios para manter a ocupação do Iraque nem, em geral, as políticas contra o terrorismo, entre aspas, tal como começaram. Esse poder militar monárquico é condicionado pelo poderio econômico.


Folha - O que acha das previsões de queda do império americano?


Negri - Não penso que exista uma queda do império americano, porque não penso que haja queda do império de ninguém. Talvez seja verdadeiro que o auge do poder americano já passou, foi a fase dos anos 30 aos 70. É evidente que os EUA participaram de maneira profunda da construção do que é a civilização hoje. Mas esse período talvez tenha terminado. O império, a constituição de uma ordem global, vai além dos EUA.

 

Folha - O senhor fala de império sem imperialismo, considerando ultrapassada a idéia de Estado-nação. Mas a globalização hoje beneficia alguns países, em detrimento de outros.


Negri - Estou completamente de acordo, posso dizer até pior: temos uma espécie de hierarquia rígida na constituição mundial. Os países do centro são países que vão ganhar nesse processo. Isso é evidente. Seria completamente idiota negar isso, mas é igualmente idiota pensar que as nações possam, um, quebrar esse processo de globalização, dois, ter uma função protagonista na repartição da riqueza mundial. Quem são as nações? São os patrões, os que aqui criaram as favelas, a mais forte divisão de classe, o racismo. São essas as pessoas que querem defender os princípios nacionais diante da América e da Europa. A globalização é um fato, mas é preciso organizá-la. A luta é sobre quem organizará a globalização. Se essa organização será democrática, é preciso definir o que é democracia, e não é nem a democracia americana nem a brasileira. A opinião pública, tanto na América quanto no Brasil, está dopada, falsificada. O problema é esse.

Berlim 2004: manifestação contra a invasão do Iraque


Folha - O que é hoje ser de direita ou de esquerda?


Negri - A Itália tem um governo de direita, mas sei que na direita italiana há um ministro fascista que propôs o direito de voto aos imigrantes. Isso sei que é algo da esquerda. Tenho alguns critérios, que são muito simples: preferir o comum ao privado, por exemplo. A esquerda prefere o que é comum. Não simplesmente o público, mas o que é comum, como a água, os recursos. Não privatizar isso é de esquerda. É de esquerda reapropriar os meios de produção, e é de direita privatizá-los. Resta a todo mundo decidir se é de direita ou de esquerda. Não há confusão de idéias, há confusão de práticas.


Folha - Como avalia a eleição de Arnold Schwarzenegger para o governo da Califórnia?


Negri - Tenho a impressão de que, fora dos movimentos democráticos, tudo pode acontecer: Schwarzenegger, [Jörg] Haider [na Áustria], ou Berlusconi, na Itália. Gostaria de saber por que [José Maria] Aznar [primeiro-ministro espanhol] ou Putin devem ser considerados muito diferentes de Schwarzenegger. Os meios para produzi-los são os mesmos, é o monopólio da comunicação. Com Bush é um pouco diferente, porque os dois são equivalentes. Não sei se Schwarzenegger é um escândalo em particular. É um escândalo, é evidente, que ele tenha se tornado chefe de um país de 35 milhões [a Califórnia], a sexta potência do mundo, do ponto de vista econômico, é uma loucura, dá medo.

Madri 2004: manifestação contra a invasão do Iraque

Folha - O senhor crê que há uma separação entre as representações dos países -Bush, Putin- e os países em si?


Negri - Creio que a representação política, tal como foi formada na modernidade, está em crise. Essa representação fundada nas regras da democracia formal está em crise. E em crise radical. Há poderes que apareceram, em particular o poder dos "media", que estão fora de controle. São eles que decidem, de maneira fundamental, sobre a representação. A criação do imaginário humano não é mais a que existia no começo da democracia. Todas as regras da representação são completamente transgredidas. Estão em crise. O problema não é Putin. É por isso que os movimentos sociais são tão importantes, porque são a construção do imaginário, a expressão da necessidade, do desejo. O problema é reinventar as formas de representação. É preciso colocar esse problema, tanto nos velhos espaços nacionais quanto nos espaços globais.

 

 

 


 


entrevista por 

Rachel Bertol 

11 de outubro de 2003

O Globo

A CONQUISTA DA LIBERDADE

Negri na Espanha em 2004

O italiano Antonio Negri, de 71 anos, que chega ao Brasil hoje (sábado, 11 de outubro), disse em entrevista exclusiva ao GLOBO que está realizando a sua primeira verdadeira viagem desde que conquistou a liberdade, em abril deste ano. O filósofo passou 25 anos preso e no exílio devido à sua militância na esquerda, na época em que o líder da democracia cristã italiana, Aldo Moro, foi seqüestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas. Co-autor com o americano Michael Hardt de Império, que foi lançado em 2000 e se tornou uma referência para a compreensão dos movimentos de resistência no pós-Guerra Fria, Negri fará uma série de palestras no Brasil. A primeira, nesta segunda-feira, no Palácio Capanema (Rua da Imprensa 16), às 17h, no lançamento do número 1 da revista Global, uma publicação da rede Universidade Nômade. O ministro Gilberto Gil deve estar presente. No dia 31 de outubro, Negri participará do encontro mundial dos Estados Gerais da Psicanálise, no Hotel Glória. Antes, passará quatro dias na Argentina, onde também é aguardado com ansiedade. O filósofo lançará pela DP&A Kayròs, Alma Venus, Multitudo — Nove lições ensinadas a mim mesmo e Guias: cinco lições sobre o Império. No momento, finaliza com Hardt o segundo volume de Império, a ser lançado em 2004. Nesta entrevista por telefone de Roma, quarta-feira, Negri analisou a guerra, Schwarzenegger, Lula e muitas outras questões.

 

O Globo - Como está a vida agora, depois de tanto tempo preso? O senhor se sente aliviado?

 

NEGRI: É evidente. É um desejo de liberdade que ainda está comprimido, tão forte que encontra dificuldades a ser dito. E fica-se assim meio tímido, ainda não livre completamente. A liberdade é algo difícil de gozar, de conquistar inteiramente. Comecei a viajar um pouco, estive na França, na Alemanha e na Eslovênia. Depois de 25 anos, é a primeira vez que tenho meus documentos. Mas é difícil dizer... É divertido (diz rindo) , é contraditório. Antes eu também podia encontrar as pessoas e vejo que a liberdade dos outros é tão importante quanto a minha. Algumas vezes me pergunto se não é muito cansativo ser livre. Porque é preciso viajar e eu sou agora um velho senhor. Vinte e cinco anos é muito tempo. Além do mais, nas viagens nunca sabemos o que vamos encontrar. E viajar é sempre insuficiente. Seria preciso residir, morar, ficar no lugar muito tempo para verdadeiramente viajar.

 

O Globo - Hoje as viagens que costumamos fazer seriam como olhar TV, ver um filme...

 

NEGRI: É preciso evitar a todo custo que viajar seja turismo. O turismo é uma grande doença. É mesmo como olhar a TV. Mas a viagem ao Brasil é a primeira verdadeira que farei. E eu não conheço o Brasil, um país formidável, onde se pode tentar novos sentimentos, novas experiências. Não farei turismo e acho que nem é uma viagem (ri muito) , é na verdade um deslocamento. Eu deveria ter ido ao Brasil em 1986, quando houve pela primeira vez a co-habitação no governo francês entre o presidente Mitterrand e a direita. Fiquei em situação difícil. Eu estava no exílio há três anos e foi um homem de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, quem cuidou da possibilidade de eu ir a Campinas, na universidade. Mas, finalmente, não foi necessário.

 

O Globo - O senhor chega no momento em que o governo Lula enfrenta muitos dilemas em seu próprio partido. Acredita que esses dilemas nascem de uma incompreensão da realidade?

 

NEGRI: Para mim é muito difícil responder a esta pergunta. Conheci Lula na França e sempre acompanhei seu trabalho com muita simpatia e fraternidade. Não sei bem o que acontece no Brasil, mas vejo a transformação da imagem de Lula no nível mundial. Tenho a impressão, de fora, que o governo Lula aceitou as condições da globalização. E percebo, pelo julgamento que se faz dele na Europa, mesmo na esquerda, que ele tenta a grande transformação hoje necessária entre a velha esquerda nacional e uma nova esquerda mundialista, global. O custo dessa transformação, dessa passagem, pode ser muito pesado, mas é preciso pagá-lo. Isso vale para a esquerda no mundo todo.

 

O Globo - Mas talvez o que esteja incomodando é que não se vê bem onde estão esquerda e direita...

 

NEGRI: Mas tenho certeza de que há diferença. Por exemplo, em Cancun sabia-se com clareza onde estavam, mas de fato há uma certa confusão, uma troca de papéis. Na Itália, hoje, é quase impossível saber onde estão esquerda e direita. Há gente de direita pedindo a permissão para os imigrantes votarem nas eleições locais e a esquerda nunca pediu isso.

 

O Globo - Hoje (quarta-feira), temos essa novidade nos EUA que é a eleição de Arnold Schwarzenegger na Califórnia...

 

NEGRI: É bom, não? (pergunta rindo muito) . Eu gosto muito de Schwarzenegger: é um violador de mulheres, um nazista... Parece que na juventude ele declarou sua admiração por Hitler. É uma verdadeira demonstração da democracia americana.

 

centro financeiro Manhattan, 11 de setembro de 2001

O Globo - Também é coisa de cinema, como o 11 de setembro...

 

NEGRI: Justamente, a representação, a democracia representativa, está em crise no mundo todo. De fato, não conseguimos mais compreender, do ponto de vista da comunicação, onde estão esquerda ou direita. A representação política está em crise sob esse ponto de vista. É preciso conseguir entender o que é a esquerda ou a direita, ou melhor, o que é o Império e a multidão, o que é biopoder, potência, resistência. É preciso mudar completamente nossas categorias de pensamento. Saímos de uma época na qual muitas coisas aconteceram, coisas demais, e as categorias que temos hoje na análise política se tornaram obsoletas, não correspondem mais à realidade. É preciso, portanto, com muita prudência e inteligência, procurar compreender o que significa hoje soberania, direita, esquerda, representação. A conclusão da nossa prudente pesquisa será mudar esses termos por outros e, sobretudo, evitar a manipulação sistemática e contínua. Este senhor, o Arnold, não é um escândalo — é lógico. E o terrível é isso: não é um escândalo. Ele foi eleito, é a lógica do sistema.

 

O Globo - É como se houvesse um vazio...

 

NEGRI: É totalmente vazio. Os grandes autores da ficção científica estão muito mais próximos da realidade do que nós. Estamos completamente dentro desse jogo perverso, pervertido. E talvez Arnold venha a ser um governador melhor que os políticos profissionais. Veremos. Não é melhor, nem pior.

 

O Globo - Estaria a cena política tradicional, que acompanhamos nos jornais, muito distante das forças que de fato mudam a realidade?

 

NEGRI: Sim, é uma cena política completamente vazia de significados. O que faz mudar as coisas é o trabalho dos homens, a fadiga de viver, o esforço cotidiano que as pessoas fazem para compreender a realidade, são as lutas... Veja o que aconteceu no Iraque. É algo inacreditável. Estávamos convencidos de que o poder americano era tão forte que tudo terminaria em semanas ou meses. Que as relações de força já estavam definidas. Mas tudo está ainda aberto. Não sei se ficou pior ou melhor, quero dizer simplesmente que está aberto. Não há absolutamente nenhum controle. Todas as informações, todas as imagens de que dispomos são imagens nas quais temos uma prefiguração do mundo que não corresponde à realidade. Não há possibilidade de fazer previsões. O adversário, ou melhor, o patrão, não tem consciência de si próprio. É um mundo à imagem de Arnold. Mas embaixo, em outro lugar, há coisas muito mais importantes acontecendo: a luta de classes, a luta pelo poder, as grandes tensões pela liberdade, pelo bem-estar, a busca da alegria. Tudo não se resume a essa espécie de delírio pós-moderno. Há novas relações de força, novas relações morais e éticas, principalmente, mas também políticas. Quer dizer, há resistência, indignação em relação a um poder idiota e vazio. Quando a resistência começa a se identificar com a liberdade então isso significa que algo deve mudar profundamente.

 

O Globo - Por que diz isso?

 

NEGRI: Porque tenho a impressão de que não podemos aceitar a forma com a qual o poder se faz representar. Arnold, por exemplo, há duas possibilidades de vê-lo: considerar tudo igual, então tanto faz que o governador seja ele ou o democrata Gray Davis; ou reconhecer que não há diferença, que a representação não tem significado, mas nós resistimos, queremos a liberdade, a representação. Queremos inventar a democracia de novo. Não podemos permitir que a democracia, um valor fundamental para os homens, seja reduzida a esse vazio de significação e sentido. E já existem caminhos. Por exemplo, os movimentos antiglobais que não são antiglobais, mas new-global , que levantam novos problemas. Devemos nos perguntar em que nível está se reconstruindo a democracia, o prazer de viver, de reproduzir liberdade. São problemas, talvez, aos quais Lula esteja respondendo, e talvez haja erros nessa resposta. É preciso rever muita coisa. Reexaminar, estudar novamente muita coisa. Muitas das dificuldades que existem hoje no Brasil são ligadas às dificuldades e à incapacidade de rever as coisas a partir dos novos terrenos em que elas se constituíram, em que se determinaram.

 

O Globo - O senhor se tornou mais pessimista depois do 11 de setembro?

 

NEGRI: (Ele ri) É impossível não ser um pouco pessimista. E, apesar da opinião que se tem a meu respeito, eu nunca fui um grande otimista. Em todo caso, o 11 de setembro abriu uma nova fase na constituição do Império. Os americanos deram uma espécie de golpe de Estado no Império e não foram bem-sucedidos — e isso já é alguma coisa. Não são apenas os iraquianos que resistem, são as Nações Unidas, são os outros elementos da aristocracia mundial que se recusam a pagar a guerra do Iraque. Isso me parece muito importante.

 

O Globo - Resistem à guerra como um novo fundamento...

 

NEGRI: Os americanos tentam fazer da guerra o fundamento do Império. Mas é preciso evitar que a guerra se torne o elemento de legitimação novo do Império.

 

O Globo - É o desafio do momento?

 

NEGRI: Talvez, e sob esse ponto de vista é preciso reavaliar a política de Lula e de todas as outras potências, de todos os movimentos. Estamos diante do problema da organização do mundo. Não podemos resolver os problemas falando de imperialismo, retomando antigas categorias da tradição socialista. É preciso realmente se confrontar ao novo. E o pós-moderno não é uma situação simplesmente literária, mas algo profundo e nossa análise deve ir além dos fenômenos mais superficiais, como Arnold. É um sinal, mas há sinais que criam caminhos perversos, sinais de morte. É preciso distinguir entre sinais positivos e sinais de degradação, de corrupção.

 

O Globo - O senhor fala de tudo isso em “Império II”?

 

NEGRI: Falamos sobretudo do sujeito, da multidão. Falamos do comum, portanto, do comunismo. Falamos da única esperança que temos que é a construção de bens comuns. É centrado na democracia e na multidão. A guerra é só o começo. O livro está mais ou menos pronto, terá cerca de 300 páginas. Sairá em 2004. O primeiro “Império” analisa a evolução das formas políticas e o segundo estuda o sujeito político.

 

O Globo - Desde o lançamento de “Império”, ganharam força os movimentos de protesto tipo Seattle, mas também se fortaleceu o terrorismo, que também se beneficia dessa realidade errática da globalização...

 

NEGRI: Não são dois lados, mas uma dialética necessária, um e outro. Há muitos terrorismos. O terrorismo de Estado, o terrorismo islâmico, há fenômenos terroristas difundidos um pouco por tudo, há a vontade dos governos de chamar de terrorismo tudo o que se move. Hoje todas as revoltas de pobres são chamadas de terrorismo. Mas atrás disso há os fenômenos terroristas verdadeiros. Só que eu não sei qual é a diferença entre Bin Laden e Ariel Sharon.

 

Tanque de Israel no Líbano [2006]

O Globo - Israel está tornando um Estado de terror?

 

NEGRI: Eu vivi a construção de Israel trabalhando num kibutz, eu era verdadeiramente ligado a esse país. Mas é terrível o que acontece lá hoje. Eu repito o que dizem muito israelenses: o sionismo terminou e encontramo-nos numa situação terrível. Eu esperava que a paz e os tratados de Oslo se tornassem definitivos, assim como muitos israelenses e palestinos. É a primeira vez que temo por Israel. É um país que amo muito. Eles estão numa situação desesperadora. A única possibilidade de sair dela é a busca da paz. Ela está longe, mas estamos numa situação em que o Império está aí. E o Império é um processo. O problema é como uma nova ordem vai determinar as regras do mercado mundial, não apenas do mercado das mercadorias, mas do mercado político, das relações entre países, das relações entre as multidões. Tudo isso é um processo que se abriu de uma maneira definitiva depois da queda da União Soviética. Estamos no meio dessa passagem, que é enorme e à qual devemos olhar com muita humildade, com muita inteligência. Devemos agir para construir a democracia e não o terror. E a democracia não é a democracia americana e o terror não é apenas o terror dos que resistem, dos pobres e de tudo isso. É preciso estar atento para mudar os termos, para compreender o que acontece.

 

O Globo - Que contribuições as diversas partes do mundo podem dar a esse processo?

 

NEGRI: Há papéis distintos e possibilidades diferentes. Por exemplo, a América Latina pode constituir um pólo importante. É a primeira vez — e tudo isso está muito a favor de Lula — que começamos a falar da América Latina como um sujeito na ordem internacional. Sempre se considerou a América Latina como o último efeito da Doutrina Monroe, e hoje começa-se a falar de uma realidade da América Latina e tudo isso está absolutamente ligado ao que acontece agora no Brasil. E podemos falar da Europa, onde também há uma grande luta democrática a se fazer. Todo o problema da constituição da Europa é um problema enorme, formidável, no qual a Europa pode dar muito ao mundo hoje. E há o problema da democracia no Islã, de uma democracia laica no Islã. Mas tudo isso não se resolverá com os aviões americanos ou através de ocupação militar.

 

O Globo - Há uma defasagem entre o poder militar e o poder político?

 

NEGRI: Há diferenças sobretudo entre o poder militar e o econômico. Hoje o poder 

econômico não está totalmente de acordo com o poder militar de Bush.

 

O Globo - Há alguma chance de otimismo?

 

NEGRI: Hoje temos a multidão e talvez a possibilidade de uma revolução, a multidão acelera o tempo da democracia. A democracia é muito mais avançada que as necessidades dos reis. Hoje as pessoas são inteligentes. Se eles votam em Arnold, eles são inteligentes: é um absoluto espetáculo de ironia histórica. Sei que é um paradoxo (ele ri muito) . Mas é assim.

 

O Globo - Tornou-se quase uma moda intelectual dizer que o poderio americano enfrenta uma decadência irremediável. O senhor concorda?

 

NEGRI: Os EUA são um grande país democrático e a única possibilidade de se pôr fim à arrogância imperial americana é com a democracia, com a vitória da esquerda. Sem a esquerda americana não se fará nada no mundo. E os EUA já demonstraram muitas vezes a capacidade de serem democráticos até o fundo.

 


entrevista por 

Roberto Dias

Folha de S. Paulo

30 de março de 2003

 

Livro explica política no mundo globalizado

 

Antonio Negri passou a ser um dos nomes mais populares entre os integrantes do movimento antiglobalização desde que lançou "Império" (editora Record) em 2000, livro escrito em parceria com o professor de literatura norte-americano Michael Hardt. Ele está preso desde 1997 em Roma, em regime semi-aberto, acusado de ser o mentor do grupo terrorista Brigadas Vermelhas e de ter planejado o assassinato do deputado Aldo Moro, em 1978. O filósofo italiano teve seu livro descrito pelo "New York Times" como "a primeira grande síntese teórica do novo milênio". "Império" trata da estrutura política que sustenta o mundo globalizado, numa organização que "eliminou conceitos de nação, raça, etnia e povo", como afirma Negri. Os Estados-nações não têm mais controle sobre movimentos de capital ou lutas sociais. A nova configuração política, o império, não tem limites nem está atrelada à busca pela expansão do Estado-nação. Ela regula trocas econômicas e culturais num sistema em que a soberania se baseia na construção de caminhos para novos fluxos mundiais, criadores da vida social, numa inter-relação entre o econômico, o político e o cultural. "Estamos numa situação paradoxal na qual o presidente dos EUA é eleito com financiamento do exterior: o capital dos senhores do petróleo sauditas está tão integrado à direção dos negócios americanos que não se pode mais afirmar que o Estado-nação ainda funciona", diz o escritor. Império, portanto, não trata de imperialismo -e aí reside o que Negri classifica de "confusão" em relação ao uso que tem sido feito de suas idéias para embasar alguns dos pilares do pensamento da esquerda mundial -como o antiamericanismo. "Ser antiamericano é uma idiotice total. O governo americano é o mais importante dos poderes a ser contestados, mas não é o único. Não existiria se as outras classes dirigentes do capitalismo mundial não lhe dessem apoio incondicional", afirma.

 

"EUA FOGEM DA LÓGICA DO IMPÉRIO"

 

A guerra não só não é legítima; ela também não é suficiente para erguer uma nova ordem mundial. Não há consenso sobre o conflito. Os EUA se movem fora da legitimidade imperial. Para Negri, autor de "Império", guerra foi golpe de Estado contra outros países dominantes. Ao atacar o Iraque, os EUA escaparam à lógica que deve nortear o império, diz o filósofo italiano Toni Negri, o mais debatido pensador da esquerda européia. Em entrevista à Folha, ele define como "golpe de Estado" a decisão de ir à guerra mesmo sem o aval da ONU. "O Iraque é um pretexto para confrontar a Europa", afirma Negri, 70, em entrevista por telefone de sua casa, em Roma. Sua teoria foi exposta no livro "Império", escrito em parceira com Michael Hardt. A obra se tornou uma espécie de "bíblia" para contestar a ordem mundial. Para Negri, que foi ligado ao grupo terrorista Brigadas Vermelhas nos anos 70, a idéia de império abarca, evidentemente, os EUA, mas é mais ampla que isso. "O conceito de império se caracteriza principalmente pela falta de fronteiras", diz no livro. Daí seu estranhamento pela posição americana, como explica a seguir.

 

Folha - Em "Império", o sr. diz que a legitimação da ordem imperial não se baseia apenas na força militar, mas também na produção de normas jurídicas internacionais duradouras. Com o que ocorreu na ONU, o que será dessa legitimação?

 

Toni Negri - Este foi evidentemente um golpe de Estado contra as outras forças que fazem parte, de forma multilateral, deste império. O poder monárquico dos EUA se opôs às posições dos outros países do mundo.

 

Folha - Seu livro é de 2000, e creio que o sr. já fez reflexões sobre como os atentados terroristas, a doutrina Bush e esta guerra no Iraque se encaixam em sua teoria. Como seria essa continuação?

 

Negri - O problema fundamental hoje é considerar que a guerra, como está estabelecida pela potência americana, não só não é legítima, mas também não é suficiente para erguer uma ordem mundial. Os EUA não podem pagar a guerra. Não há consenso internacional para ela. Os EUA estão se movendo fora da legitimidade imperial. E, com toda a probabilidade, movem-se também fora de sua Constituição.

 

Folha - O sr. também fala da importância da razão para o império. Os EUA a perderam?

 

Negri - Não creio que se possa dizer se os EUA têm ou não razão, porque não são um animal. O que se tem hoje é um grupo que não representa os Estados Unidos. Representa, sobretudo, os interesses de alguns setores poderosos. A questão fundamental não creio que seja americanismo ou antiamericanismo. O problema é que há um grupo nos EUA que talvez nem seja legal, por causa do que aconteceu nas eleições. Pode-se chamar esse grupo de usurpador.

George W. Bush joga cricket no Paquistão [2006]

 

Folha - Para o império, Bush está mais próximo de ser um Nero ou um Augusto?

 

Negri - Não sei dizer.

 

Folha - Mas qual será o posto de Bush na história americana, em que patamar ele estará em relação aos outros presidentes?

 

Negri - Há uma veia que o vê como um jacksoniano [a teoria jacksoniana diz que o objetivo principal da política externa de Washington deve ser a segurança dos americanos". Não creio que se trate disso. Penso que ele não está na linha de Jackson. Acho que ele será apenas uma exceção negativa.

 

Folha - Se a concepção imperial necessita de espaço, como o sr. diz, o que devemos esperar agora? Depois de Bagdá, viria Pyongyang?

 

Negri - Será o Irã, creio eu. Quer dizer, isso é o que vem dos Estados Unidos, eu vivo na província.

 

Folha - E a Coréia do Norte estaria a seguir?

 

Negri - Acho que será a China, mas daqui a algum tempo. Na verdade, a Coréia do Norte é um pretexto para a China, assim como o Iraque é um pretexto para confrontar a Europa. E o Irã será um pretexto para a Rússia. Esse é o jogo que está se fazendo agora.

 

Folha - Immanuel Wallerstein diz que o império americano é decadente, que a economia está fraca e que Washington está isolado. O que o sr. pensa?

 

Negri - Sou prudente em relação a isso. Talvez haja a decadência desse império de Bush, mas, para os EUA, acho que ainda é uma primavera.

 

Folha - O que será dos EUA e do Império daqui a dois anos?

 

Negri - Acho que será importante que a Europa e a América Latina sigam fortes contra a vontade de Bush. Espero que os EUA possam se livrar de Bush. É a esperança que eles podem dar ao mundo agora.

 


Iraque, 1 de março de 2006

 

entrevista por 

Francesca Angiolillo

14 de julho de 2001

Folha de S. Paulo

O FIM DA FRONTEIRA

Livro define forma política do Capital Global. 

 

O cientista político italiano Antonio Negri ocupou os jornais nos anos 80 por seu suposto envolvimento com o banho de sangue terrorista nos 70. Entre as acusações contra o professor da universidade de Pádua, estava o assassinato de Aldo Moro, líder do Partido Democrata Cristão. Absolvido do envolvimento concreto com os crimes, em 83, Negri foi acusado de incitar, com sua teoria, o terrorismo. Pediu asilo à França, onde foi professor universitário em Paris. Por 14 anos, viveu sem nenhum documento. No período, foi julgado à revelia e sentenciado a 30 anos. Não foi por ter sido privado dos direitos de cidadão, porém, que, ele se uniu ao norte-americano Michael Hardt para falar de uma nova cidadania em "Império". O livro, que chega ao Brasil até o fim do mês, pela Record, analisa a forma política que rege a economia globalizada. E, surpresa, a noção que usam para definir essa estrutura política é importada da Roma antiga. Para Negri e Hardt, vivemos sob o império. Eles alertam: não se trata do velho "imperialismo ianque". Este pressupõe fronteiras a serem expandidas _e a fronteira acabou. Parte do livro, concebido a partir de 1995, porém, foi escrita de dentro de um lugar com limites bem definidos. Em 97, Negri surpreendeu o mundo ao comunicar que voltaria a seu país. Esperava a anistia; foi levado do avião ao cárcere de Rebibbia, em Roma. De nada adiantou explicar que as perguntas sobre sua atual situação legal - a saber, Negri hoje cumpre prisão domiciliar, tendo de ficar em casa entre 19h e 7h - serviriam para traçar seu perfil sem incorrer em imprecisões. Ele foi irredutível. Prefiro que você erre do que falar sobre isso. Negri falou à Folha, sobre "Império", por telefone, de sua casa, em Roma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

 

Folha - Como podemos definir o império que dá título ao livro?

Antonio Negri - Quando se diz império, falamos da forma política do mercado global. Não é possível imaginar um mercado sem um poder político que o atravesse. O conceito de império se volta para evitar a confusão com imperialismo, que era uma simples expansão do Estado-nação, enquanto o império é uma forma política que não tem confins. E, sobretudo, não tem só forças localizadas, como o Estado-nação. O império tem uma grande vantagem teórica, que foi ter mandado pelos ares os conceitos de nação, raça, etnia. E até de povo.

Folha - O sr. acredita que as culturas locais possam ser aniquiladas pela erradicação das fronteiras?

Negri - Não. Acho que o império as está esmagando, mas tenho também a convicção de que essas culturas não possam se defender simplesmente insistindo sobre a sua individualidade. Precisamos de novas formas de solidariedade internacional, de culturas híbridas para abater o império.

Folha - Pelo que deve lutar, o que aspira o cidadão do império?

Negri - Capacidade de viver. As necessidades da vida cresceram muito. Entre o Negri do passado e o Negri que agora escreve "Império" com Michael Hardt existe uma diferença de gerações, em termos de necessidades, sensibilidades, capacidade de uso da linguagem. Quando entramos no poder do capital sobre o real, criamos situações de não-trabalho, de resistência, que possibilitam disparar contra o capital.

Folha - A greve ainda funciona?

Negri - Não falo de greve. Hoje seu cérebro é o instrumento da produção, não foi seu patrão que o forneceu. Foi você quem criou. Antes, você ia trabalhar numa fábrica e seu patrão antecipava o instrumento. Você não precisa mais disso: você transita nessa globalidade, é alguém capaz de conquistar sua própria liberdade.

Folha - As manifestações que, nos últimos anos, acompanham os encontros ligados ao capital global são sinais dessa liberdade?

Negri - Em parte. Principalmente quando pedem três coisas fundamentais: o direito de cidadania global; uma garantia de salário que possibilite viver (e, paralelamente, tudo o que está ligado à ecologia, à capacidade de respirar, comer bem); e, por fim, a possibilidade de se apropriar dos instrumentos de transformações técnicas e científicas mais altas.

2006: Manifestação em Caen, França, contra a Lei do Primeiro Emprego

Folha - Esses protestos são a semente de uma revolução global capaz de fazer frente ao império?

Negri - Não sou um profeta, mas sei que há condições enormes que se reabriram contra a globalização. A reorganização dos pobres e, acredito, até a luta de classes, que foi superada, serão retomados no bojo desse movimento. Isto posto, resta o problema fundamental que é aquele de como tudo isso poderá se constituir em um pólo de luta pela transformação radical do que existe. Acredito que os mecanismos de representação, aqueles da velha democracia burguesa (e também do socialismo), devem ser, de algum modo, superados. É preciso substitui-los pela expressão, vista como prática política contínua.

Folha - A ação do chamado terceiro setor e das organizações não-governamentais, que chegam a suprir responsabilidades do Estado, institucionalizam essa expressão?

Negri - Há nesses movimentos energias muito positivas, mas é preciso estar atento, porque são instrumentos que suprem o que seriam carências do capital. Em "Império", dizemos que muitas vezes essas organizações parecem as grandes ordens mendicantes da Idade Média (os dominicanos, os franciscanos), que, na prática, faziam caridade. Ninguém pode negar sua generosidade, mas essas ordens cobriram as necessidades imperiais. É mandatório retomar a riqueza coletiva e distribuí-la.

Folha - Uma das epígrafes do livro é uma frase da cantora Ani di Franco, que diz que, sabendo usá-la, toda ferramenta é uma arma. Qual é nossa arma ideal?

Negri -A inteligência, essa ferramenta que todos nós temos. Temos o martelo no cérebro. Temos uma arma que podemos utilizar.

 

 

texto originalmente 

publicado na coletânea

O trabalho da multidão.
Museu da República e 

Editora Gryphos, 2002

O QUILOMBO ARGENTINO E O TRABALHO DA MULTIDÃO

Antonio Negri e Giuseppe Cocco 



Argentina, dezembro de 2001

 

Quanto mais nos adentramos nessa primeira década do século XXI, mais firme é a
sensação de que o projeto neoliberal esgotou seu fôlego. O próprio processo de
globalização passa por uma fase de transição particularmente conturbada. A
crescente volatilidade dos mercados financeiros e a velocidade de propagação
mundial de seus impactos, que já caracterizou a segunda metade dos anos 90,
encontram hoje as ameaças de uma recessão mundial.

O unilateralismo da administração norte-americana parece sancionar, junto com
a volta de preocupações protecionistas das indústrias domésticas, a
reafirmação da soberania nacional como marco necessário de uma nova geração de
políticas industriais e econômicas. Corolário quase automático dessa guinada
das correlações de forças que atravessam a economia no mundo, antigas
clivagens parecem renovar-se, voltando a opor o "centro" hegemônico americano
às periferias.

Depois do 11 de setembro de 2001, a guerra global permanente confirma o
retorno de nítidos projetos de tipo imperialista por parte da administração
Bush. Novos e velhos fundamentalismos alimentam-se reciprocamente, como
sinistras máquinas mortíferas, para afirmar que a única saída do
neoliberalismo apenas pode acontecer de maneira reacionária e conservadora:
seja por meio de um renovado populismo nacionalista e imperialista ou de um
reanimado populismo do fundamentalismo religioso.

Nos dois casos, a reação aos mercados e à globalização nos faz pensar na
Europa dos anos 30, quando o fascismo e o nazismo, com o apoio das elites
industrial-militares nacionais, realizaram essas mesmas trágicas operações e
combateram o internacionalismo do movimento operário com a demagogia xenófoba
e anti-semita da luta contra o "capital cosmopolita". A guerra global
permanente reproduz a transcendência dos mercados e da soberania, mas desta
vez na maneira regressiva de um poder definitivamente insensato e paranóico
que encara a própria globalização como um problema.

Agora, ao passo que o unilateralismo de Bush pode ser interpretado como sendo
uma reação (da "velha economia" do petróleo!) em face do fato de que também os
Estados Unidos são sugados em um processo de globalização que não conseguem
dominar, uma nova geração de movimentos e conflitos sociais de bases globais
conseguiu afirmar as dimensões constituintes do Império. Desde Seattle até
Gênova, a globalização apareceu definitivamente como um espaço aberto a um
novo tipo de lutas.

Em Gênova, nas formas originais de organização em rede de redes do Genoa
Social Forum, o chamado "povo de Seattle" anunciou a transformação das
manifestações de Praga, Gothemburg e Quebec contra as cúpulas do FMI, da OMC e
do BM em um verdadeiro ciclo de lutas, cujo ator é um movimento múltiplo
(feito de muitos movimentos), globalizado (feito de fluxos de movimento
globalizados) e constituinte (embrião de novos modos de mobilização social, de
um novo modo de produção e subjetivação).

A "fenomenologia" do "movimento dos movimentos" (1) é capaz de colocar, na
sistemática deslegitimação de uma soberania imperial fundada em sua
efetividade, ou seja, na lei da força, a questão da determinação ontológica
dos processos contemporâneos de ruptura com a ordem capitalista do mundo.
Nesse novo cenário, o Fórum Social Mundial de 2002, em Porto Alegre, deu um
grande passo à frente, para além do mero contraponto "social" aos "donos" da
economia (o Fórum de Davos), abrindo brechas significativas para além do
discurso neo-soberanista (e antiglobalização) que tanto marcou sua primeira
edição (em 2000) e continuou marcando sua representação "formal" nas mídias
nacionais e internacionais (2) . E isso, graças ao fato de que o FSM de 2002
tinha duas novas pernas.

Uma delas estava em Gênova, a outra estava com certeza logo do outro lado da
fronteira gaúcha, em Buenos Aires. Em dezembro de 2001, a longa agonia da
nação argentina acabou explodindo quando as multidões arrastaram a pávida
política de De La Rua (sob os auspícios do FMI e do Banco Mundial) e ao mesmo
tempo negaram qualquer legitimidade ao nacionalismo peronista: "Que se vayan
todos, que no quede ni uno solo"!. É exatamente na tragédia argentina que
encontramos, de maneira ainda mais potente, as tramas do trabalho e de uma
possível política da multidão.

 

Na Argentina, a multidão apareceu como sendo o "conteúdo do qual o Império é o
contendor" (3) . As manifestações insurreicionais de 19 e 20 de dezembro de
2001 não derrubaram apenas o governo, mas sobretudo abriram um formidável
período de experimentação e inovação social, econômica e política. As
interrupções de estradas pelos "piqueteros", os "cacerolazos" das chamadas
classes médias urbanas, o assédio sistemático aos bancos pelos "ahorristas",
as assembléias "barriales y interbarriales", a autogestão de fábricas falidas
pelos trabalhadores demitidos e as redes de economia solidária ("red global
del trueque") constituíram uma nova configuração do "movimento dos
movimentos".

No "quilombo" argentino (4) , o êxodo das políticas neoliberais aparece como
êxodo constitutivo de uma possível política da multidão. Uma análise
tradicional de sua composição social esbarraria imediatamente em suas
dimensões fragmentárias e, por isso, inconciliáveis: classes médias urbanas,
por um lado, e proletários desempregados da periferia, pelo outro.
Como explicar a junção de figuras sociais tão diferentes no plano da
composição de interesses e sobretudo pelo tipo de inserção e posicionamento
que elas tinham no próprio período neoliberal? Como explicar a completa
derrocada de qualquer forma de representação e a deslegitimação de toda
instância de poder constituído?

Para além das dificuldades que o movimento argentino pode estar enfrentando e
enfrentará, seus elementos constituintes permanecem e permanecerão como um
patamar essencial para o "movimento dos movimentos", para se pensar o próprio
conceito de multidão e as possibilidades de juntar o desenvolvimento da
riqueza ontológica da multidão cooperante (o trabalho da multidão) com a
capacidade de opor-se de maneira eficaz ao poder capitalista (a política da
multidão). O movimento argentino constituiu-se num evento sem finalidade
definida, numa ruptura, numa mudança da percepção coletiva. Ou seja, com o
movimento argentino podemos pensar materialmente uma multidão capaz de decidir
e, pois, as possibilidades de realização da democracia.

Quais são os elementos constituintes do "quilombo" argentino?

O primeiro tem a ver com a desmentida cabal de que haja qualquer determinismo
entre a dissolução da relação salarial canónica e o inevitável enfraquecimento
dos movimentos sociais. Pelo contrário, o quase desaparecimento do operariado
sentado num contrato de trabalho a tempo indeterminado e garantido pela dupla
representação do sindicalismo peronista e do Estado, por um lado, não impediu
as recentes, maciças e radicais mobilizações sociais.

Por outro, constituiu-se numa de suas condições necessárias. Aliás, uma das
operações mais aventurosas, do próprio ponto de vista do poder, do
neoliberalismo à la Menem foi justamente a de ter destruído parte expressiva
da força de "los gordos" (5) , ou seja, da burocracia sindical peronista e,
com ela, parte da espessa malha corporativa de privilégios e redes
clientelistas e mafiosas que constituía o verdadeiro lastro de cumplicidades
sociais nas quais navegava o navio pirata da ditadura e do justicialismo.

Da mesma maneira como aconteceu nos países socialistas, a crise do
desenvolvimentismo na América Latina em geral e na Argentina em particular é
fortemente determinada pela falta daquelas características de liberdade que
são necessárias para ter acesso à pós-modernidade, ao pós-fordismo. Os regimes
de controle estatal do nacional-desenvolvimentismo eram incapazes de
introduzir aqueles elementos de liberdade e de inovação/invenção por parte do
trabalho vivo que são necessários para ser uma sociedade civil.

É claro, os neoliberais fizeram pagar o altíssimo preço dessa passagem
(baseado no desmonte do pacto corporativo-estatal) aos próprios operários e à
sociedade argentina como um todo. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que o
neoliberalismo, na América Latina da mesma maneira que nos Estados Unidos e na
Europa ocidental e, como dissemos, nos países do "socialismo real", afirmou
sua hegemonia também porque soube captar e inrivados e corporativos
incrustados na hegemonia, real ou tendencial, da relação salarial.

O desmonte de parte desses privilégios produziu privilégios e tragédias ainda
piores, mas acabou também deixando um espaço aberto para formas de
participação popular antes impensáveis. A potência do movimento argentino,
apesar da inexistência das tradicionais relações sociais baseadas no emprego
formal e sindicalizado, mostra quanta liberdade pode gerar a crise da relação
de servidão que é o trabalho assalariado. A multidão acabou se afirmando como
o conteúdo da globalização, ou seja, afirmando sua força produtiva enquanto
potência de ser comum, produção enquanto força habitada por uma teleologia
imanente à sua essência afirmativa (6) . Esses agenciamentos produtivos são a
realidade do Império: são as lutas da multidão que produziram o Império
enquanto inversão e sua própria imagem.

O segundo elemento nos introduz diretamente no cerne da composição técnica das
camadas sociais que constituíram o "quilombo de los pampas". Como foi possível
a recomposição política entre, por um lado, os "piqueteros" desempregados
excluídos pela reestruturação produtiva e as políticas neoliberais de corte da
despesa pública e, por outro lado, os incluídos, os "ahorristas", com suas
contas em dólares e os trabalhadores urbanos dos serviços (privatizados) que
desfrutaram por anos do poder de compra artificial proporcionado pela
irresponsável política monetária do "currency board"?

Isso foi possível porque essas duas figuras sociais tinham e têm muito mais
coisas em comum do que a tradicional teoria das classes pretende e o comando
tenta esconder. O neoliberalismo, ainda mais na América Latina do que na
Europa e nos Estados Unidos, representou também uma tentativa de implementar
novas condições de valorização procurando a nova potência ontológica do
trabalho. Diante disso, o que sobrava do movimento operário, traindo sua
tradicional vocação de antecipação do capital na dinâmica do desenvolvimento,
retirava-se, cada vez mais, dentro de fronteiras conservadoras e corporativas.

Para além das ilusórias metas de estabilização macroeconômica por meio das
manipulações das taxas de câmbio e juros, as políticas neoliberais visavam
propor, pelas privatizações e a lógica do mercado, um espaço público de
cooperação social sem o qual o novo regime de acumulação baseado no trabalho
imaterial não é minimamente viável. Mas esse espaço de mercado apenas é um
sucedâneo do espaço público incapaz de mobilizar os territórios produtivos das
redes.

Numa primeira fase, isso parecia até funcionar: não é por acaso nem por mera
manipulação da opinião pública que Menem (7) conseguiu se confirmar facilmente
no segundo pleito eleitoral. Naquele primeiro momento, embora de modo
completamente superficial e instável, a dinâmica de mercado conseguiu dissipar
os efeitos de distorção óptica da hiperinflação e tornar mais transparentes o
sistema dos preços relativos (e, pois, as condições reais de distribuição da
renda). Alcançaram-se também aumentos significativos de produtividade e
sobretudo níveis bem mais dinâmicos de universalização dos serviços do que
conseguia fazer o Estado autoritário e corporativo do
nacional-desenvolvimentismo.

Nesse deslocamento e num primeiro momento, as políticas neoliberais
conseguiram ler e interpretar a potência de um novo tipo de trabalho,
fundamentalmente baseado em suas dimensões imateriais, ou seja afetivas,
intelectuais, comunicacionais, lingüísticas. Um trabalho cuja socialização
tendencialmente independe da relação salarial e cuja produtividade está
atrelada, ao mesmo tempo, aos níveis de sua socialização e aos de sua
cidadania material, ou seja, à universalização dos serviços básicos e
avançados.

É claro, como dissemos, esse deslocamento foi superficial e parcial. Os
neoliberais não se apoiaram em nenhum pacto social, nem na única genealogia
possível desse deslocamento, aquela das lutas contra a sociedade disciplinar
do trabalho. O único recurso que podiam mobilizar era constituído apenas pelas
técnicas monetárias preconizadas pelo "Consenso de Washington".
Em vez de construir uma esfera pública de cidadania produtiva, foram
privatizando o que devia ser comum e construindo regimes cada vez mais
fragmentados e diversificados de acesso aos serviços pela dinâmica do poder de
compra, e acabaram amplificando loucamente os níveis de exclusão social. O
que, dessa maneira, os neoliberais fragmentavam era a própria possibilidade de
constituir a composição técnica de um novo tipo de trabalho socializado, cuja
produtividade dependia cada vez mais dos níveis de singularização e de
igualdade (de cidadania material) de uma multidão de trabalhadores.

Mas, aquilo que as políticas neoliberais fragmentavam e o corporativismo
sindical nem reconhecia, o trabalho da multidão foi capaz de juntar,
ontologicamente. No "quilombo" argentino, excluídos e incluídos não se
encontraram a partir de uma improvável aliança táctica entre as classes médias
e o proletariado das periferias, mas enquanto eles formavam as duas faces de
uma mesma composição técnica do trabalho: a do trabalho imaterial. Para o
capital, a reprodução do comando tem como condição necessária a de mobilizar
sem reconhecê-lo esse novo tipo de trabalho. Flexibilização e desemprego
aparecem como as duas faces de um modo de controle do trabalho que passa
essencialmente pelas técnicas administrativas de multiplicação dos estatutos
da "mão-de-obra" e, mais em geral, das condições nas quais "tem-se direito aos
direitos".


No "quilombo argentino" não houve nenhuma aliança, nem fragmentação social,
mas uma nova figura de classe protagonizou o movimento dos movimentos
argentino: a multidão. É nesse sentido que a multidão é um conceito de classe.
Ela é sempre produtiva e em movimento. Considerada de um ponto de vista
temporal, a multidão é explorada na produção; vista de um ponto de vista
espacial, ela é ainda explorada enquanto constitui sociedade produtiva,
cooperação social para a produção. O conceito de "classe de multidão" deve ser
considerado diferentemente do conceito de classe operária.

Com efeito, o conceito de classe operária é um conceito limitado, tanto do
ponto de vista da produção (inclui essencialmente os trabalhadores da
indústria) quanto do ponto de vista da cooperação social (envolve apenas uma
pequena quantidade dos trabalhadores que operam no conjunto da produção
social). Se colocamos a multidão como um conceito de classe, a noção de
exploração será definida como exploração da cooperação: cooperação não dos
indivíduos, mas das singularidades, exploração do conjunto das singularidades,
das redes que compõem o conjunto e do conjunto que envolve as redes etc.

O terceiro elemento constitutivo do "quilombo" argentino tem a ver com o fato
de que nas novas dimensões ontológicas da produção, o trabalho e a política da
multidão tendem a coincidir. Organizar a luta e organizar a produção,
fenomenologia das lutas e ontologia do trabalho tendem a ser exatamente a
mesma coisa: resistir e produzir.

É o que afirmam os jovens do Afro Reggae, tentando organizar a resistência dos
negros nas favelas do Rio de Janeiro por meio da produção de estilos e formas
de vida. A multidão aparece como conceito de uma potência: ela é a condição da
nova potência produtiva baseada na produção de "mais ser". Essa potência não
quer apenas se expandir, ela pretende sobretudo construir um corpo: o elemento
constitutivo da multidão é a carne no sentido de Merleau Ponty, ou seja, uma
coisa geral, um tipo de princípio encarnado que importa um estilo de ser em
cada lugar onde se encontra uma sua parcela.

A carne é nesse sentido "um elemento do ser" (8) , a substância viva e comum
na qual corpo e intelecto coincidem. A carne da multidão quer se transformar
em corpo do "General Intellect". As tentativas neoliberais de suscitar o
deslocamento ontológico do trabalho (do trabalho fordista e industrial para o
trabalho pós-fordista baseado na massificação da intelectualidade e na
centralidade do trabalho vivo) esbarraram inevitavelmente, por um lado, na
incapacidade de o mercado dar conta das dimensões cooperativas e lingüísticas
do trabalho imaterial e, por outro, na redução da singularidade do trabalho
vivo operada pelos próprios processos de fragmentação e exclusão do corpo
social, ou seja, pela reiterada tentativa de mensurar (unificar e homologar
dentro cada fragmento) o que é e deve ser incomensurável (a multiplicidade do
conjunto).

Mais uma vez, o conceito de multidão é incompatível com o de povo. A multidão
não pode ser apreendida nem explicada nos termos do contratualismo. Em seu
sentido mais geral, a multidão recusa-se à representação, pois ela é uma
multiplicidade incomensurável. O povo é sempre representado como uma unidade
ao passo que a multidão não é representável.

Em oposição ao conceito de povo, o conceito de multidão é o de uma
multiplicidade singular, de um universal concreto. O povo constituía um corpo
social; a multidão não, pois ela é a carne da vida. Se opomos a multidão ao
povo, temos também que opô-la às massas e à plebe. Massa e plebe foram muitas
vezes palavras usadas para nomear uma força social irracional e passiva,
perigosa e violenta, pelo fato preciso de ter sido facilmente manipulável. A
multidão é um ator social ativo, uma multiplicidade que age. Ela não é, como o
povo, uma unidade, mas nós podemos vê-la, em oposição a massa e plebe, como
algo organizado. Trata-se, com efeito, de um ator ativo de auto-organização.

Uma das grandes vantagens do conceito de multidão é, pois, o de neutralizar o
conjunto dos argumentos modernos baseados sobre o "medo das massas" ou sobre a
"tirania das maiorias", argumentos muitas vezes utilizados como uma forma de
chantagem para obrigar-nos a aceitar (inclusive a pedir) nossa própria
servidão.

A multidão não é, pois, representável, e sua política é constituinte de
democracia absoluta, ou seja, não limitada per nenhum princípio externo, por
nenhuma transcendência, por nenhuma soberania que não coincida com sua própria
ação. A opção pela multidão é escolha de um sujeito de ação política que não
seja marcado por nenhuma separação, um sujeito comunista, no sentido de que
recusa toda particularidade dos dispositivos e das esferas de subjetivação.
Comunista no se