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Complementando o trabalho
teórico que realizava na Universidade, Negri foi dirigente e
militante de diversos grupos políticos que pertenciam ao
movimento da nova esquerda italiana. Entre os 767 que foram
recenseados, ele pertenceu a uma linha política do marxismo
chamada operaismo, que se articulou historicamente como um
fenômeno de massas (calcula-se que cerca de três
milhões de militantes compuseram a 'arca dell'autonomia', na
época em que o PCI contava com um milhão de
filiados) através de diversas
organizações.
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OPERAISMO
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Do verbete "Operaisme"
extraído do Dictionnaire Critique du Marxisme
de Gérard
Bensussan e Georges Labica. Paris: PUF, 1982/1999.
tradução M. Rocha
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"Movimento teórico
e político italiano, o operaísmo é
essencialmente ativo nos anos 60 e no início dos anos 70.
Em
uma época onde o movimento operário, em crise,
é preso a debates extremamente 'ideológicos', o
operaísmo se caracteriza essencialmente por um 'retorno
à classe operária'. Dele se extrai:
1) Um método :
"Nós considerávamos, nós
também, de início o desenvolvimento do
capitalismo e somente depois as lutas operárias.
É um erro. É preciso reverter o problema, mudar
seu signo, e partir do começo: e o começo
é a luta da classe operária".(Mario Tronti,
Operai e capitale, 1966).
Portanto, não
apenas a luta de classes é o motor da história,
mas sobretudo a relação é
assimétrica. São os movimentos, nem sempre
visíveis, da classe operária que explicam os do
Capital e da sociedade capitalista, e não o inverso. Esta
idéia abstrata ganha sentido com a
introdução do conceito de
composição de classe. A classe
operária não é uma
noção mitológica, mas um conjunto
historicamente composto.
Composição
técnica: análise do processo de trabalho, da
tecnologia, não em termos sociológicos, mas como
sanção de uma relação de
força entre as classes. Exemplo: fordismo e taylorismo de
início têm por objetivo quebrar a
resistência dos operários de métier e
de seus sindicatos impondo a eles um novo tipo de processo de trabalho.
Convém analisar em detalhe o processo de trabalho, suas
mudanças, para compreender o que significa 'luta de
classes': o que não era mais uma 'evidência'
marxista.
Composição
política: no seio da classe operária, certas
frações desempenham um papel político
motor. A classe operária não se contenta em
reagir à dominação do Capital, ela
está em perpétua
recomposição política, e o Capital
é constrangido a reagir por uma
reestruturação contínua do processo de
trabalho. Convém portanto analisar esta
recomposição política, a
circulação das lutas.
2) Um ponto de vista global -
Desde os primeiros textos de Raniero Panzieri, a
atenção é dirigida à
planificação. O Capital não
é mais essencialmente propriedade privada; é de
início um poder social visando controlar os movimentos de
classe. Donde uma visão nova do Estado: não mais
simples garantia, mas organizador da exploração,
agindo diretamente na produção. A forma do Estado
é uma conseqüência da
composição de classe. Antonio Negri pode assim
mostrar que o Estado 'keynesiano' e, mais geralmente, o que ele nomeia
'Estado-plano', nada mais é senão a
inscrição, no coração do
desenvolvimento capitalista, da Revolução de
Outubro: o poder operário é reconhecido como
variável independente.
3) Um movimento
político - Se a classe operária é o
motor do desenvolvimento capitalista, ela pode igualmente ser, e ela
é, uma força de ruptura. Em um período
de refluxo aparente, onde se fala voluntariamente de
integração da classe operária, os
operaístas predizem, e buscam organizar a
emergência de novas lutas impulsionadas por uma figura nova:
o 'operário massa', operário não
qualificado das grandes fábricas. Lutas salariais
igualitaristas, não como reivindicação
corporativa, mas como força de ruptura política
suscetível de bloquear o sistema e de incrementar o poder
operário. O movimento de 1968 será percebido como
uma confirmação dessas teses. Há
possibilidade de ruptura, e portanto de
construção do comunismo (contra o socialismo,
forma nova de desenvolvimento); mas o Estado pode igualmente impor sua
reestruturação, as lutas operárias
tornando-se uma vez mais simples motor do desenvolvimento.
4) Um movimento na
História - A vontade de organizar movimentos muitas vezes em
conflito aberto com o movimento operário tradicional provoca
uma ruptura no seio da revista originária, Quaderni Rossi,
dirigida por Panzieri: em 1964, nasce o jornal Classe Operaia, animado
por Tronti, Romano Alquati e Negri, que entrará em ruptura
em 1966, com uma parte do grupo, Tronti à frente, acabando
por aderir mais tarde ao PCI. Após 68, o grupo Potere
Operaio será de algum modo o herdeiro da outra
tendência. Sua autodissolução em 1973
anunciará a hora da Autonomia operária. Negri
elaborará em particular a teoria do 'operário
social' como figura nova da classe operária, não
mais confinado nas grandes fábricas, mas difusa sobre o
conjunto do território, com o conceito de trabalho produtivo
ganhando uma extensão muito maior, e o Estado tornando-se
sempre mais o inimigo direto. Mas aí se trata de uma outra
história."
"Portanto, o operaismo não se limita a
uma escola de pensamento, uma vez que sempre contou com um importante
envolvimento social e político dos operaistas nos movimentos
dos anos 60 e 70 na Itália. Após mais de dez anos
de contribuições teóricas -
crítica à tradição do
movimento operário 'oficial', às
noções gramscianas de 'bloco
histórico' e de 'intelectual orgânico' - e de
com-ricerca, de pesquisas diretamente envolvidas com a
construção das instâncias
organizacionais dos novos sujeitos operários massificados
pelo taylorismo, os militantes e os intelectuais operaistas, no
início dos anos 70, dividiram-se quanto à
questão da 'nova organização' de
classe. Um grupo resolveu o problema com a
definição de uma clivagem que separaria a
'autonomia de classe' da 'autonomia do político'. Em sua
visão, as dinâmicas da
composição de classe não coincidiriam
com as do 'político' (posição do grupo
formado por Cacciari, Tronti, Asor Rosa e outros). Outro grupo,
recusando a volta das problemáticas da
representação, por meio da
concepção de uma 'autonomia do
político', aos poucos abre a questão da
organização, por um lado, às
transformações da própria
composição de classe e, por outro, à
definição de formas de
organização de classe
não-representativas (posição do grupo
de Negri, Bologna, Gambino, Ferrari-Bravo e outros). Os primeiros
vão construir o operaismo de sindicato, entrando no PCI, e
os segundos definirão, ao longo dos anos 70, uma
experiência político-organizacional original, a
Autonomia Operária.
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Giuseppe Cocco,
Introdução ao livro de Maurizio Lazzarato e
Antonio Negri
Trabalho Imaterial - formas
de vida e produção de subjetividade
Rio de Janeiro: Editora
DP&A, 2001.
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QUADERNI ROSSI
O grupo nasceu ao mesmo tempo
que a revista homônima, fundada por Rainiero Panzieri,
líder da corrente de esquerda do PSI e diretor do Mondo
Operaio. Com ele se criou um fórum de debates inovador com
grupos de diversas cidades italianas. O grupo se dedicou especialmente
à pesquisa, praticando uma sociologia militante, mediante a
renovada metodologia da 'inchiesta operaia', que implicava em uma
análise detalhada da organização do
trabalho e uma imediata intervenção
tático-política. A partir de um escrito
intitulado 'Agli operai della Fiat' em 1961, onde criticava os
sindicatos, a organização sofre a primeira
cisão com a saída do grupo dos 'sindicalistas'
(Foa, Garavini, Pugno). Depois, a partir dos eventos da Piazza Statuto
em Turim, em 1962, quando pela primeira vez os trabalhadores se
rebelaram contra os sindicatos destruindo a sede da UIL, o grupo
formado por Negri, Mario Tronti e Alberto Asor Rosa, que materializava
a aliança entre o grupo dos chamados 'políticos'
ou 'entristas' (provenientes do PCI, como Tronti), e o grupo dos
'sectários', ou 'selvagens' (provenientes do PSI, como
Negri), acredita que chegou o momento de intervir diretamente nas
lutas. Desta análise discrepará tanto Panzieri
como o grupo dos sociólogos (Lanzardo, Rieser, Sechi), para
os quais a intervenção era prematura.
CLASSE OPERAIA
É a primeira
revista de intervenção direta nas lutas
operárias das fábricas. Fazem parte Negri,
Tronti, Cacciari, Asor Rosa, Bologna, Alquati, Berti, Ferrari-Bravo,
entre outros. Constituem grupos de intervenção
nas zonas de Milão, Genova, Pádua, Bolonha e
Modena. Dentro do grupo imediatamente surgem diferenças. Por
um lado, a linha dos 'entristas', como Tronti, propunha o 'uso
operário do PCI', com a intenção de
modificar sua política em favor de comportamentos operaistas.
Por outro lado,
o grupo de Negri e os militantes do Veneto e Reggio Emilia sustentavam
que a intervenção direta na
organização do trabalho era diretamente
antagônica em relação às
instituições históricas do movimento
operário. A cisão se produziria em 1967: Tronti e
seu grupo fundaram a revista Contropiano, e os restantes se
dispersarão em diversas organizações
menores
CONTROPIANO
Revista puramente
teórica fundada por Tronti e Cacciari. Negri chegou a
colaborar nos primeiros números, mas depois rompeu com eles,
que começaram a trabalhar exclusivamente dentro do PCI
LA CLASSE
Foi uma revista de curta
duração, mas que realizou um excepcional e
potente trabalho de organização e
comunicação entre as lutas operárias e
os protestos estudantis.
POTERE OPERAIO
É a primeira
organização operaísta de massas que se
estrutura nacionalmente na Itália. Entre as
organizações anteriores e ela há um
enorme salto qualitativo, marcado por uma
orientação neoleninista. Desenvolveram a
experiência dos Comitês Unitários de
Base nas fábricas, os Comitês Políticos
operários e as Assembléias autônomas.
Teve certa projeção política na
França e Alemanha. Em 1972 as fortíssimas
contradições internas entre os diversos setores,
especialmente do Veneto, liderado por Negri, e o Romano, hegemonizado
por Piperno. Em 1973 ocorre a ruptura definitiva. Negri
fundará a Autonomia Operaia a partir de uma
opção de gestão da espontaneidade das
lutas sociais. Piperno, junto com Morucci, criará o FARO,
seguindo uma opção militarista que logo derivaria
em terrorismo.
AUTONOMIA OPERAIA
Fundada por Negri e pela
corrente 'paduana' do Potere Operaio, tinha em Rosso seu
órgão de expressão e
intervenção. Sua ação se
desenvolve não apenas no terreno produtivo mas
também no imediatamente não produtivo. O grupo
intenta organizar a figura política do operário
social, taticamente antecipada pelas lutas. Sem deixar de intervir nos
fortes conflitos da FIAT, promove a auto-redução
como forma imediata de comunismo, de apropriação
do valor de uso em uma prática de
auto-valorização de classe. Deste
modo trabalha em todos os aspectos sociais: moradia, lazer, desemprego,
serviços sociais, transporte público, hospitais e
escolas. As greves desses anos são menos danosas
economicamente, mas fatais socialmente, pois contam com a
máxima implicação de pessoas. A
organização da luta social envolveu uma
violência difusa no nível das massas, que o Estado
Italiano deterá com o processo político de 7 de
abril
"OS OPERÁRIOS
NÃO QUEREM MAIS TRABALHAR"
A máquina do poder
patronal está avariada, seu desenvolvimento, o
desenvolvimento de seu controle sobre a classe operária
enguiçou. Isto não é casual, mas o
resultado de um longo processo no qual os operários
italianos, americanos, ingleses, suecos e outros, de todas as
fortalezas do capital moderno, foram amadurecendo, durante os anos 60,
num auge de lutas salariais e de formas de revolta social que fizeram
explodir políticas salariais e governos social-democratas,
mergulharam a economia numa crise permanente e sucatearam a
programação tecnocrática, impedindo
que doravante a luta operária seja usada como fator de
desenvolvimento. A luta salarial rompeu esta barreira: tornou-se
concretamente luta contra o salário, contra a
obrigação do trabalho, pelo direito ao rendimento.
A produtividade é
um espinho atravessado nas relações entre
ministros, chefes de confederações industriais,
burocratas sindicais, PCI: os operários não
querem mais trabalhar.
O constante aumento de horas em greve, a crescente ausência
ao trabalho, o massivo uso do seguro previdenciário como
aposentadoria antecipada, os autolicenciamentos, o rechaço
das horas-extras mostram que - além dos limites da
sobrevivência física - a classe
operária se recusa a vender sua força de trabalho.
A luta não
funciona mais como motor do desenvolvimento econômico porque
vai além das reivindicações, torna-se
recusa imediata do trabalho: não trabalhar se torna o
objetivo, torna-se o poder de recusar o trabalho, o meio se torna fim e
vice-versa. A crise atual, vertiginosamente acelerada com a
sucessão dos dias, é uma crise de poder,
é a conclusão de um longo período
histórico no qual a correlação de
forças era favorável aos patrões.
Hoje, nenhum capitalista pensa seriamente em relançar o
desenvolvimento.
Pensa, isto sim, numa longa
medição de forças, em ganhar tempo
para fazer novas alianças internacionais com os capitalistas
do mundo inteiro, em inventar novos instrumentos de controle, em
reorganizar completamente o trabalho para desarticular, esmagar e
destruir a unidade e o antagonismo radical baseados na atual
organização do trabalho. Mas, para isso, faz-se
necessária a 'paz social' e que, nesse ínterim, a
correlação de forças
favorável à classe operária
não se transforme em organização
revolucionária.
Este é o
verdadeiro problema da atual fase do confronto: o prolongamento
forçado, subjetivo, da crise, no interior da qual faz
amadurecer o projeto de organização
revolucionária; ou a reorganização, a
longo prazo, do sistema acarretará a conquista de novos e
mais eficientes meios de domínio, de controle, significando
a abertura de um novo período histórico no qual
será necessário recomeçar, desde o
início, uma nova organização do
trabalho em que o atual referente organizativo, o operário
massa, o estudante e o técnico massa, será
totalmente destruído e substituído.
Para nós, o
projeto de organização, a partir da
Itália, elo frágil do capital europeu, situa-se
num rigoroso binário. Tem, como referência
objetiva, as indicações estratégicas
saídas das vanguardas de massa nesses anos, a
exigência de rendimento para todos, contra o trabalho, a
recusa do trabalho como recusa do domínio capitalista e da
gestão socialista do desenvolvimento; como
referência subjetiva, as vanguardas surgidas das lutas dos
últimos anos e a enorme força que PCI e
sindicatos perdem todo dia e se torna disponível para a
militância revolucionária, à medida que
seu projeto antioperário se faz concretamente
violência contra a necessidade operária de
organização. Deve constituir-se, a partir da
compreensão dos ritmos precisos da luta, sobre a capacidade
da vanguarda organizada de construir hoje uma resposta
política ao ataque do governo contra o salário
real, aos partidos da produtividade, à tramóia
das reformas.
Não pensamos que a
função das vanguardas seja a de esperar por
confrontos gerais, espontâneos, mas a de construir momentos
de confronto organizado, de saber indicar ao conjunto do movimento o
caminho de saída da espontaneidade, de construir momentos de
organização permanente. Há que
reconstruir, das luta operárias, uma
direção operária que saiba
relançar uma luta pela reapropriação
do que nos foi roubado, que anule definitivamente os
vínculos contratuais, que retome a ofensiva sobre o
salário e o horário de trabalho como ofensiva
política contra a tramóia das reformas, como
projeto anti-sindical, como alternativa política
à trégua da produtividade, ao partido da
produtividade.
Mas o importante nesta
ofensiva é que esteja inteiramente nas mãos dos
operários, que suas indicações de luta
superem todo resíduo para-sindical, toda
radicalização espontânea na qual grupos
exteriores à luta pretendam assumir sua
direção. Os pontos de referência
organizativa dentro das fábricas, escolas, centros de
pesquisa, bairros proletários deverão se tornar
orientações de comitês inteiramente
políticos, que saibam indicar ao conjunto do movimento os
ritmos, objetivos e formas de gestão da luta.
Não defendemos uma
estéril unificação de grupos
extra-parlamentares, mas um empenho de todas as vanguardas
revolucionárias na construção de
eficazes momentos de direção da luta, enfrentando
as ameaças de violência patronal juntamente com a
tramóia do projeto de reforma do governo, mobilizando
setores estudantis e proletários sob a
direção firme das vanguardas operárias
onde os níveis de organização
são mais fortes.
Sobre a capacidade, nesta
fase, de construir reais momentos de organização
operária e de gestão anti-sindical da luta em
nível social, verifica-se a possibilidade, a
médio prazo, de recomposição do
movimento revolucionário em sua totalidade, de
construção da organização
revolucionária que impeça os patrões
de reparar sua máquina de poder.
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O
thriller intelectual vivenciado por Feltrinelli.
LONDRES - Em janeiro de 1970,
o rico editor italiano e revolucionário clandestino
Giangiacomo Feltrinelli escreveu uma carta a seu filho, Carlo, no
oitavo aniversário de nascimento do menino. "Querido Carlino
- escreveu ele de seu esconderijo "impossível de encontrar"
-, em primeiro lugar que você tenha um aniversário
muito, muito feliz. Espero que mamãe tenha organizado uma
bela festa para você."
Continuou explicando, o
melhor que pôde, as causas de sua ausência: "O
mundo, e também a Itália, está
dividido em dois tipos de pessoas: as que têm dinheiro,
terra, fábricas e casas, e as que não
têm dinheiro e precisam trabalhar como bestas... E, como seu
papai está do lado dos trabalhadores, embora tenha dinheiro,
os chefões organizaram uma violenta campanha contra ele...
Eu e muitos outros amigos e camaradas estamos lutando contra os
chefões, contra o fascismo e contra a
injustiça."
Feltrinelli termina sua
carta com mais votos de feliz aniversário; acrescenta que,
se tiver tempo, planeja escrever uma história da
Itália para seu filho, pois "a história que eles
lhe ensinam na escola está toda errada e é feita
especialmente para confundir suas idéias". Então
ele se despede: "Um grande abraço e muito, muito amor, seu
papai." Pode-se dizer que um menino de 8 anos não achou
aquilo um presente de aniversário, mas foi o presente menos
perecível.
As palavras do pai foram um
manifesto e um legado; o que parece simplificação
em excesso era o autêntico princípio norteador de
uma vida que, mais de 30 anos depois, Carlo Feltrinelli acaba de
documentar com todos os seus detalhes multifacetados e extravagantes. A
biografia de Giangiacomo Feltrinelli parece um thriller intelectual em
que livros e explosões de bombas se chocam - uma vida
alimentada por dinheiro, emoção e
política, em que mansões e bibliotecas
são saqueadas em busca de rumos.
Sua vida terminou apenas dois
anos depois de escrita aquela carta, e se acabou num
mistério que até seu filho, após anos
de pesquisa, não conseguiu solucionar. História -
O início da vida de Feltrinelli foi muito conhecido. Nascido
em Milão, em 1926, ele era filho de um dos homens mais ricos
da Itália. Seu pai era financista e industrial, sua
mãe era filha de banqueiro e uma esnobe inveterada.
O casal percorria o mundo e
jantava com reis e nobres. ("Geralmente sento-me frente a frente com o
príncipe de Piemonte", escreveu a mãe,
desnecessariamente, falando de uma viagem ao Cairo.) O menino estudava
com preceptores em casa, tinha poucos amigos, mas se dava bem com
pessoas que trabalhavam para seus pais. Em 1944, leu por acaso o
Manifesto Comunista.
Daí a um ano
filiou-se ao Partido Comunista Italiano (PCI) e passou a fornecer-lhe
informações sigilosas sobre os monarquistas que
se reuniam na casa de seus pais. A mãe mandou
prendê-lo. Quando herdou o dinheiro do pai, Feltrinelli fez
vultosas contribuições ao PCI e embarcou num
grandioso projeto cultural, uma biblioteca que documentaria a
história do movimento operário. Mediante a
conquista das palavras, ele pretendia criar um novo Iluminismo,
antifascista. Poucos anos depois, ele fundou a editora com a qual iria
ter seu maior sucesso.
Mais tarde a Feltrinelli
Editore publicou obras de escritores como Lampedusa, Guevara, Bellow,
Borges, Lessing, Kerouac e García Márquez. Mas, a
princípio, o editor ganhou fama por ter sido a primeira
pessoa no mundo a publicar Doutor Jivago, de Boris Pasternak, e dessa
forma ter adquirido seus direitos autorais no mundo todo, exceto na
União Soviética, onde o romance só foi
lançado em 1989. Carlo Feltrinelli dedica um trecho
substancial do livro a essa história, grande parte da qual
é bem complicada. Pasternak e Feltrinelli trocaram cartas
que foram interceptadas pelo serviço secreto
soviético, a KGB, ou que no mínimo eram de seu
conhecimento.
Depois de muitas evasivas, o
livro tornou-se best seller, e Feltrinelli foi investigado pelo PCI.
Foi a história épica da família Jivago
que alterou suas opiniões, ou Feltrinelli já se
havia voltado antes contra o PCI, quando tanques soviéticos
invadiram Budapeste em 1956? Depois da segunda
intervenção soviética na Hungria, um
amigo chegou à biblioteca de Feltrinelli e encontrou o
próprio, insone e debruçado sobre um exemplar de
O Capital.
Feltrinelli ergueu os olhos
do livro e disse: "Nada faz sentido aqui. Estamos atolados na m...
até o pescoço." Em 1958, Feltrinelli estava
oficialmente desligado do PCI. Nesse mesmo ano, Pasternak ganhou o
Prêmio Nobel. Feltrinelli partiu para Cuba, onde passou anos
tentando convencer Fidel Castro a escrever suas memórias,
mas antes de tudo parecia só jogar basquete com ele ou
trocar receitas de espaguete.
Feltrinelli foi, segundo seu
filho, "um homem problemático entregue a certo tipo de
risco, aliado a uma surpreendente forma de irreverência que
as pessoas que falam iídiche descreveriam como chutzpah".
Isso tornava cada gesto seu inexplicavelmente carismático,
mesmo quando não era. Ele usava "gravatas espantosas",
fumava os cigarros que deram o título a este livro (Senior
Service) e, até no dizer de um inimigo americano
conservador, "condicionou a história de uma
década". Em 1970, Feltrinelli era um homem caçado.
Era para o serviço
de espionagem italiano - explica Carlo Feltrinelli - "o que Castro era
para a CIA (Agência Central de Inteligência)".
Passou para a clandestinidade quando foi erroneamente vinculado a um
ataque terrorista que, conforme se soube depois, fora praticado por
anarquistas. Claro que ele tinha ligações, mas
com outros grupos clandestinos de esquerda, e era conhecido por
improvisar artefatos explosivos com ingredientes que
incluíam açúcar e flocos de
sabão Marseille.
Foi com um explosivo menos
primitivo - 15 bananas de dinamite - que ele partiu para sabotar torres
de eletricidade num subúrbio de Milão e ali
encontrou a morte. Talvez a dinamite tenha explodido por acidente, ou
alguém havia mexido no temporizador, antecipando de
propósito a hora da explosão - Carlo Feltrinelli
nunca saberá. Menino de 10 anos, ele só descobriu
que o homem morto fora encontrado perto de um maço de
cigarros Senior Service e tinha em sua carteira a foto de um menino de
10 anos.
"Morrer por suas
idéias", conclui Carlo Feltrinelli, é "o mais
radical dos contos de fadas", como se esta fosse mais uma
história que o pai dele pudesse ter contado, mais uma
lição de aniversário com a qual
interpretava o mundo.
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