![]() |
| 1988-1994 - A diluição começa aos poucos |
89 FM flerta com o "paradão", mesmo dentro do rock
1987 é um ano muito estranho para o radialismo rock paulista. A ascensão da rádio 89 FM até rendeu comentários positivos na imprensa especializada em música. A reação do público em relação à 89 FM não era de muito entusiasmo, os roqueiros mais exigentes enxergavam a emissora como uma rádio como a 97 Rock, só que eficaz sem ser ousada. Mas, mesmo assim, até que a 89 FM era vista com simpatia por boa parte dos alternativos, em que pese uma desconfiança e um temor de que a rádio fosse diluir seu formato.
Mesmo com a relativa simpatia do público, o ano de 1987 começava a ser perigoso na medida em que a 89 FM pensava em se transformar numa rádio convencional, apenas mantendo o aparato roqueiro. A ameaça vinha da direção da rádio, estando praticamente sob conhecimento apenas interno, sem qualquer informação publicada na imprensa. A divulgação das bandas do selo Baratos Afins foi rompida naquele ano, o que rendeu queixa de um leitor em carta publicada numa edição da revista Bizz. Dizem boatos que a cúpula da 89 FM pediu um "jabá" (pagamento antecipado) ao empresário e produtor Luiz Carlos Calanca para colocar as bandas da sua Baratos Afins na programação da 89.
A "lógica" que os diretores dessas rádios apresentam à opinião pública é que a diluição do formato segue necessidades mercadológicas. Segundo eles, a adoção de locutores pop (como veremos a seguir), por exemplo, seria para atrair uma audiência fora do segmento roqueiro, embora o próprio marketing dessa rádio tente afirmar o contrário. A diluição atinge principalmente a chamada programação diária, que é formatada exatamente como os padrões linguísticos das rádios pop, e, neste caso de diluição branda, o espaço para uma programação autenticamente rock se restringe à madrugada e a programas específicos, onde coisas mais substanciais, ainda que um tanto manjadas, rolam no repertório.
O pior é que a 97 FM, então com a mais conceituada programação rock na Grande São Paulo, também reduziu a ousadia e o acesso dos independentes à programação, numa pequena mas preocupante queda de qualidade. A 97 era conhecida pela presença de musicólogos, profundos estudiosos de música alternativa e rock em geral, como Leopoldo Rey, Vitão Bonesso e Valdir Montanari, este último autor de um livro sobre rock progressivo lançado em 1985 e um outro pequeno livro sobre música em geral lançado pela série "Princípios" da Editora Ática.
A 89 FM, como vimos no capítulo anterior, era sectária da MTV norte-americana, uma postura contrária às rádios de rock originais que, sem hostilizarem a rede de TV musical, tinham a consciência de que a Music Television é uma rede de hit parade em geral e não de rock, como imaginava a 89.
A partir daí, a 89 FM, que naquele 1987 comprou os direitos de transmissão do programa "Novas Tendências" em São Paulo - o programa estava sendo produzido e transmitido no Rio de Janeiro pela Fluminense FM de Niterói - , iniciou sua então sutil jornada ao comercialismo.
A situação da 89 era uma decadência sutil, que a maioria esmagadora da opinião pública imaginava ser uma ascensão. Vale lembrar que, em abril de 1985, quando Luiz Antônio Mello, mentor da Fluminense, largou a rádio niteroiense para tentar outras experiências profissionais, acusou a rádio que criou de desviar o rumo original em prol do ecletismo. Na análise de Mello, a Fluminense decaiu a partir dos três anos e um mês de existência, embora os efeitos visíveis da crise viessem a partir de 1990.
A 89 FM, num aspecto pior, começou a decair em meados de 1987, num estágio mais precoce em relação à Fluminense FM, por várias razões. Primeiro, sua equipe original não era totalmente roqueira, apenas parte dela tinha tal competência. Segundo, a programação inicial da 89 já era equivalente à Fluminense pós-abril de 1985, que era alternativa, roqueira, mas com sutis concessões ao pop menos badalado mas ainda assim pop (Simply Red, A-ha, Eurythmics). E, em 1987, as poucas ousadias da 89 já estavam morrendo aos poucos, com a redução do espaço aos independentes e o "encarceramento" da música alternativa a programas específicos, como "Novas Tendências", "Comando Metal" e outros.
A partir de 1988, a coisa se complica, porque a presença do pop na programação normal da 89 FM - de Tina Turner a, pasmem, o cantor de miami bass Noel Pagan, de "Silent Morning" e "Like a Child'en Play" - , mesmo alternando-se com o rock, era mais acentuada.
Em 1989 a emissora passa a ser coordenada por Otávio Ceschi Jr., o "Tavinho" Ceschi, conhecido como apresentador das manhãs de segunda a sexta na Rede Bandeirantes de Televisão. Ceschi é um locutor talentoso, mas dentro do segmento pop ou no telejornalismo da TV Bandeirantes que ele domina com admirável competência e brilho. No rock, porém, seu desempenho foi lamentável, e Ceschi, que já trabalhou na então Rádio Bandeirantes FM (hoje conhecida como Band FM) e depois na Rádio Cidade paulista (atual Sucesso FM), chamou alguns locutores desta última, então dedicada ao pop juvenil internacional, para trabalharem na 89.
Aí foi um grande desastre. Locutores com aquele estilo "embalos de sábado à noite" ou então da linha "alô dona-de-casa" começavam a despejar suas vozes em cima de canções roqueiras das mais diversas, do Faith No More ao Alice Cooper, do Jethro Tull ao Billy Idol, do Ira! aos Engenheiros do Havaí.
Pior do que isso é que tal decadência não era percebida pelo mercado. Pelo contrário, a partir de 1990 a 89 FM inicia sua ascensão publicitária, fazendo muita gente acreditar que a emissora paulista estava fazendo crescer o segmento rock no rádio brasileiro. Passávamos a ter um tipo de rádio deturpado e domesticado, a serviço das mesmas paradas de sucesso que as rádios originais de rock tanto se esforçaram para fugir. E tudo isso temperado com a demagogia de diretores e coordenadores a restringir suas "sapiências" a cálculos de índices de audiência e metas de mercado.
Em 1992 a 89 FM cogita a compra da rádio Fluminense FM, segundo um discreto informe do jornalista Tom Leão, na coluna Rio Fanzine de O Globo. A compra não se realiza, mas a 89 com isso já mostra seu projeto de rede, que seria retomado oito anos depois. Nessa época o rock de Seattle atingia grande sucesso comercial em todo o mundo e uma série de rádios comerciais, inclusive da chamada "música brega", aparentemente se converteram ao rock visando o modismo. A diluição do perfil rock ganhava contornos mais claros, pois a mesma locução de estilo pop-dance era adotada pelas ditas "rádios rock", com suas gírias e seu besteirol.
Em 1991, o jornalista da BIZZ, Camilo Rocha - especializado em música eletrônica - anunciou que a 89 FM teria um programa de dance music. O próprio Tavinho Ceschi mandou uma carta desmentindo a notícia, alegando que "a 89 está mais rock". Suspeita-se que o boato tenha sido inventado pela própria 89 como uma estratégia de marketing: a rádio forjava um comunicado à imprensa sobre algo que ela mesma negava para se promover como FM "radicalmente rock" (sic).
Entre 1992 e 1994 há uma armação mercadológica, no Brasil, inspirada no hype de Seattle. O chamado grunge era o rock de Seattle que atingia as paradas de sucesso, de maneira repentina, no final de 91. O hype do grunge no Brasil influenciou na criação de uma caricatura grosseira de cultura alternativa, seja com zines, gravadoras, rádios e bandas. Era uma "cultura independente" de mentirinha, que dependia sempre das novas fórmulas de "sucesso" a explorarem o gosto cultural dos jovens brasileiros.
Graças à onda grunge, apareceram zines produzidos por pessoas ricas ou jornalistas de nome, que falavam apenas de coisas inócuas - a ênfase a coisas como tatuagem, quadrinhos e vôo livre era fora do normal, pois não é que esses assuntos não devam ser abordados, mas eles eram exageradamente enfocados, com textos mais marqueteiros do que jornalísticos - , quando não falavam de bobagens. Questionamentos relevantes, como os problemas do capitalismo, eram postos de lado.
As revistas de grande porte também partiram para uma linguagem esnobe, que expressava um "radicalismo roqueiro" burro, pedante e preconceituoso, que só valorizava aquilo que era barulhento e com menos acordes. Eram arremedos de fanzines ou então pastiches provincianos dos jornais ingleses Melody Maker e New Musical Express, que atacavam os veículos britânicos pela suposta procura incessante da "nova sensação do momento" (e os ingleses cultuavam grupos bacanas como Ride, Wonder Stuff e Wedding Present), mas os veículos brasileiros, na prática, ficavam catando a todo momento um "novo Raimundos", um "novo Nirvana", neste caso quando ficam xeretando as cenas musicais dos EUA e Reino Unido.
Surgiram também selos "independentes" que na verdade eram feitos por ex-diretores de multinacionais ou eram até sustentados pelas grandes gravadoras, representando mais "dependência" do que independência. O ridículo disso tudo é que quase toda a imprensa musical acreditou nesse blefe, graças ao estigma de que selo "indie" era todo aquele que tinha um crítico musical na direção, o que não é verdade. Aliás, o próprio fato da "parceria" com as grandes gravadoras, a pretexto de distribuição e divulgação melhores, era um fator contrário ao rótulo "independente", uma vez que tais selos eram claramente "dependentes", pois não conseguiam viver sem a estrutura de um "peixe grande". A prática de selos pequenos que viram subsidiárias - ainda que provisórias - de uma grande gravadora foi muito comum no exterior. Selos como Chrysalis e Island surgiram pequenos, sem ser "independentes", e passaram por algumas grandes gravadoras até se firmarem, nos últimos anos, nas respectivas companhias EMI e Universal Music.
No Brasil houve bandas alternativas que trocaram o rock melodioso da linha My Bloody Valentine pelo rock de Seattle. Havia grupos que nos primeiros ensaios e gravações demo faziam um som inspirado no Ride e nos Byrds, para em seguida passarem a fazer o som do Mudhoney. Houve também grupos de grande porte como RPM e Titãs, que perseguiam os "louros" obtidos por Nirvana e Pearl Jam. Jack Endino, produtor do Nirvana e Mudhoney, passou a produzir alguns discos dos Titãs. Enfim, era o mainstream criando uma divisão "alternativa" domesticada, alienada e superficial.
A inicial reação dos ouvintes de rock em todo o Brasil derrubou diversas rádios pretensamente roqueiras e a 89 FM, para sobreviver, virou arremedo de college radio em novembro de 1993, colocando para a coordenação o VJ da MTV Fábio Massari, apresentador do programa "Rock Report" na 89. Massari possui competência e credibilidade, mas peca por dar atenção extrema ao rock barulhento norte-americano e de ter deixado se levar pelas companhias de Tatola e Carlos Eduardo Miranda, que converteriam nessa época o rock brasileiro numa estética comercial "moderna", num falso rock alternativo comportado, conformista, alienado e muitas vezes imbecil.
Esse rock tinha uma estrutura profissional mais apurada, mas em compensação era dotado de humor exagerado e de um som sem imaginação, algo que reproduzisse o skate rock norte-americano de uma forma caricata, estereotipada.
O reduto desse "novo rock" era o programa "A Vez do Brasil", apresentado por Tatola. Era um programa que, segundo a gíria, misturava "alhos com bugalhos", indo desde ícones do chamado "rock engraçadinho" até mesmo bandas alternativas como Pin Ups e Garage Fuzz. O programa foi o carro-chefe da programação da 89 FM de 1993-1994, quando a emissora, virando um arremedo de college radio, antecipava o formato que a Brasil 2000 adotaria entre 1997 e 2000, quando foi coordenada pelo mesmo Tatola. Através dele, a Brasil 2000, antes uma college radio autêntica de São Paulo, se transformou numa paródia de si mesma onde uma nulidade como Muzzarelas (grupo que gravou uma versão "zoeira" de "Macho Man", do grupo disco Village People) tirava o lugar de muita boa banda em busca de um lugar ao sol.