![]() |
| Nos porões do rock |
89 FM denuncia
irregularidades da Kiss e tira concorrente
do ar; "classic rock" não tem licença para operar em
SP
Laura Mattos
- com a colaboração do colunista Daniel Castro
Extraído da Folha de São Paulo - caderno Ilustrada
São Paulo, 11 de fevereiro de 2002.
Ouvintes da Kiss FM (102,1 mhz) se irritaram na semana passada tentando sintonizar a emissora, que estava fora do ar desde terça-feira. Teriam ficado ainda mais irritados se soubessem o motivo: a "classic rock" é uma concessão do interior de São Paulo e não tem permissão do governo para se instalar na capital.
A FM foi lacrada na última terça-feira pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações). Segundo a assessoria de imprensa da agência, a Kiss é uma concessão de Arujá (a 38 km da capital) e não pode se instalar em São Paulo. Além da localização, a rádio estaria operando em condições técnicas ilegais, interferindo na frequência usada pela Aeronáutica.
A Kiss está instalada em um prédio da avenida Paulista. Em janeiro, houve inauguração de uma nova sede, que contou com a presença do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Na noite de sexta-feira, a FM conseguiu voltar ao ar por meio de uma liminar.
O fechamento da emissora tem um bastidor que envolve desentendimento entre sócios e disputa por audiência. A denúncia à Anatel foi feita por empresa proprietária da 89 FM, segundo o auto de infraçõa, obtido pela Folha. A chamada "rádio rock" tem perdido ouvintes para a "classic rock", que concentra a maior parte da audiência das classes A e B.
José Ernesto Camargo, proprietário da 89 FM, é sócio de Paulo de Abreu, dono da Kiss, em uma torre da avenida Paulista - onde estão instaladas antenas de transmissão - e na Alpha FM (101.7 mhz). Depois de um desentendimento, Camargo decidiu denunciar Abreu à Anatel.
A disputa entre as FMs do rock está prestes a envolver seus ouvintes. Na noite de sexta-feira, a direção da Kiss havia redigido um comunicado falando sobre a lacração da Anatel que enviaria a 30 mil fãs da emissora cadastrados pela Internet. Esperava apenas decisão judicial para voltar ao ar.
No texto acusa a 89 FM de não restringir a disputa por audiência à programação (leia texto abaixo). Alguns ouvintes da "classic rock" que ligram para a emissora e souberam da denúncia da 89 FM enviaram e-mails ameaçando fazer protesto na porta da "rádio rock", também a Paulista.
Camargo nega que a disputa seja por audiência. Diz que os públicos das FMs são diferentes e que a intenção da denúncia foi organizar o dial de São Paulo, "prejudicado por rádios irregulares".
A 89 FM também não é da capital. É uma concessão de Osasco (a 18 km de São Paulo), mas, segundo Camargo, tem autorização do Ministério das Comunicações para operar na capital. A Anatel, procurada pela Folha durante três dias, não deu informações sobre a situação de outras FMs.
A Kiss FM faz parte do grupo CBS (Comunicações Brasil Sat), que inclui várias emissoras de rádio, propriedade de Paulo de Abreu. A "classic rock" saiu do ar pela primeira vez em novembro de 1999 para dar espaço à Mundial, emissora esotérica do mesmo empresário. Voltou em julho do ano passado, reformulada e em outra frequência, a 102,1, antes usada pela Scalla, outra FM do grupo, que agora está fora do ar.
Disputa pop
As disputas entre Camargo e Abreu não ficaram apenas no "mundo rock". O dono da 89 é proprietário também da popular Nativa FM (95,3 mhz). Por meio dessa emissora, denunciou a Tupi FM (104,1 mhz), sua concorrente e outra propriedade de Abreu.
A sertaneja Tupi, de Guarulhos (a 15 km de São Paulo), foi lacrada também na terça-feira passada e ficou fora do ar. No púltimo relatório do Ibope, a Nativa estava em quinto lugar de audiência e a Tupi, em sexto.
Paulo de Abreu foi procurado pela Folha durante três dias. A reportagem também entrou em contato com o escritório do grupo CBS e solicitou entrevista com advogados da empresa. Nos dois casos, não houve resposta.
Rivais trocam acusações sobre irregularidade
Da reportagem local
Em texto enviado a 30 mil ouvintes por e-mail, Adhemar Altieri, diretor-geral da Kiss FM, acusa a 89 de ter passado "vários anos funcionando irregularmente".
No comunicado, informa que a denúncia da Anatel, que tirou a "classic rock" do ar, foi feita pela concorrente. "Estes acontecimentos representam uma ironia fantástica. A 89, cuja licença é de Osasco, foi uma das primeiras emissoras de São Paulo a transferir seu sistema de transmissão para o centro da capital (...). Agora, age como se não fosse admissível que a Kiss, cuja licença é de Arujá, persiga exatamente os mesmos objetivos", diz o texto.
E afirma que a mesma situação ocorreu com a Nativa, concessão de Diadema.
José Ernesto Camargo, proprietário da 89 e da Nativa, afirma que as duas emissoras não funcionaram "nenhum minuto" irregularmente. Segundo ele, apesar de a concessão não ser da capital, as rádios tinham autorização do Ministério das Comunicações para operar na cidade de São Paulo. Camargo diz que irá processar "quem disse essa mentira".
Usar concessão do interior para instalar emissoras na capital não é um "privilégio" da Kiss FM e da Tupi, que foram lacradas na semana passada por essa irregularidade.
Documento da Anatel obtido pela Folha relaciona outras cinco frequências de FM com concessão do interior que estão instaladas na cidade de São Paulo. Todas são do grupo CBS, o mesmo da Kiss e da Tupi. A Anatel não informou se essas rádios podem estar transmitindo na cidade de São Paulo. (LM)
Leia também: