Programa "Noise", da rede 89 FM
 

Carisma do Zé do Caixão foi usado para maquiar programa mediano de rock pesado


O cineasta e ator José Mojica Marins, o "Zé do Caixão", que entre meados de 2000 a 2002 participou do programa "Noise", da rede 89 FM de rádio

Recentemente, a dita "rede rock" da 89 FM criou um programa chamado "Noise", teoricamente dedicado ao rock pesado. Como a 89 FM é uma rádio comercial, esse programa é um engodo barulhento no qual se sobressaem o thrash metal diluído de Limp Biskit e Korn e o "metal farofa" de Motley Crue, o próximo suposto "clássico do rock" a ser badalado depois da enganação dos Guns N'Roses. Às vezes o programa dá espaço a bandas de metal autêntico, tentando fazer média com a Rock Brigade e a Roadie Crew, revistas do gênero, e fugir dos constrangimentos diante do potente concorrente "Backstage", de Vitão Bonesso.

O "Noise", que já foi apresentado na rádio paulista pelo músico do Pitbulls on Crack (imitação de Red Hot Chili Peppers apadrinhada pela 89), Pastor Gonzalez, hoje é apresentado por André Góes. Há pouco tempo o programa ganhou a participação do cineasta e ator José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que conta pequenas histórias de terror.

Este programa já é apresentado por outras afiliadas, como a Rádio Cidade do Rio de Janeiro, onde o programa recebeu o nome de "Noise", inspirando a mudança de nome também na emissora paulista, de "Oitentenoise" para apenas "Noise".

Claro que José Mojica Marins é um grande talento. É uma figura de grande carisma e prestígio, é um dos poucos cineastas realmente independentes do país, que luta por conta própria para buscar recursos e já fez vários clássicos do cinema "trash" brasileiro. Foi elogiado até por Glauber Rocha, o cineasta mais ousado do Cinema Novo.

No entanto, o carisma do Zé do Caixão não pode ser creditado como prestígio à emissora paulista, que não contratou o cineasta com boas intenções. Claro que a 89 FM anda passando por um processo crescente de jovempanificação, com a atuação dos locutores mauricinhos e engraçadinhos dominando todos os horários e programas.

É bastante conhecida a atitude esquizofrênica da 89 FM e de suas similares, que sempre alternam momentos "mais pop" com momentos "mais rock". Essa atitude está irritando a maioria esmagadora dos roqueiros brasileiros, que estão cansados dessa domesticação travestida de radicalismo roqueiro, que diz abranger "todo o mundo do rock" mas não passa de um mero hit parade com som de guitarra e sabor artificial de rock'n'roll.

No caso do "Noise", a inclusão de Zé do Caixão foi um paliativo para disfarçar o perfil pasteurizado do programa. Claro que o apresentador André Góes nunca vai ser um Vitão Bonesso (um dos maiores conhecedores de rock do Brasil), daí que os contos de Zé do Caixão irão distrair os ouvintes enquanto ouvem uma média de um Motorhead para cada cinco Guns N'Roses, ou de um Stratovarius para cada vinte Motley Crue.

Será que a verdade dos fatos só virá quando a Jovem Pan 2 incluir um clone do Zé do Caixão para falar de assombros clubber, tipo a lenda das loiras sem cabeça ou a maldição das drag queens assassinas, no programa "Ritmo da Noite"? Realmente este "Noise" ou "Oitentenoise" não irá enobrecer a suposta atitude roqueira da "rede rock" da 89 FM. Só vai reafirmar cada vez mais a sua esquizofrenia de acender uma vela para os alternativos e outra para os popularescos.

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