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| O confuso dial paulista |
O rádio paulista é tido como o "modelo nacional" de radiodifusão para o país. Sendo São Paulo a maior cidade da América Latina, além de ser a capital financeira do Brasil, é de se esperar que o sistema de rádio da capital paulista seja um dos melhores do país e um dos mais completos, justos e organizados. Verdade?
A resposta é, radicalmente, não. São Paulo nem chega a ser, na prática, a "meca" da segmentação radiofônica no país e seus piores aspectos são os que mais propagam por todo o país.
A questão das outorgas de concessão de muitas emissoras ser de outras cidades que não a capital paulista - que inclui as rádios do grupo Comunicações Brasil Sat e a "afiliada" da Rádio Bandeirantes AM nos 90,9 da FM, esta última uma rádio registrada em Santos, que nem sequer é da Grande São Paulo - é apenas um detalhe do bagunçado rádio paulista que nem de longe deveria ser considerado exemplo para o país, forçado a "engolir" a fórceps redes via-satélite de FMs comerciais paulistanas que vendem uma pseudo-modernidade que apenas deslumbra os novos ricos que saíram da matutagem brega rural-suburbana direto para as Ilhas Caras.
Recentemente, o rádio paulistano vive a praga das FMs com programação tipo rádio AM. Os últimos trinta anos comprovaram, no Brasil, que a maioria esmagadora das FMs que adotam uma programação tipo rádio AM - jornalismo prolongado e esportes - o fazem por interesses econômicos ou políticos, usando como falso pretexto a "mesmice do vitrolão", ou seja, a hegemonia da programação musical em FM, tentando enganar a opinião pública de que com futebol nas FMs os pagodeiros e as duplas breganejas ficam banidas da Frequência Modulada. A prática mostrou que isso nem de longe chega a ser uma possibilidade.
Em compensação, a ganância das FMs principalmente na programação esportiva atrapalha a audiência das AMs e consiste numa pirataria bem mais séria do que aquela atribuída às rádios comunitárias. Afinal, quando as FMs usurpam o mesmo tipo de programação das AMs, não é por caridade, prestação de serviço nem mesmo por uma utópica e ilógica "revolução de esquerda" que acreditam certos ouvintes de pouca instrução escolar mas iludidos com uma falsa intelectualidade que eles obtiveram às custas das CBN e Rádio Bandeirantes da vida.
O fenômeno das FMs com "roupagem" de rádio AM foi fortalecida pelo governo Fernando Henrique Cardoso. A lógica das rádios e do presidente é similar. Assim como o presidente se tornou eleito duas vezes evocando a "inteligência", a "técnica" e a "boa administração" em prol da "democracia", as FMs do gênero encamparam o discurso da "prestação de serviço", da "interatividade", além da "técnica" (jornalística e radiofônica) e da "inteligência", discurso este cujo conteúdo ideológico não é mais avançado do que aquele evocado por Fernando Henrique, José Serra, Pedro Malan e congêneres.
Com um quadro ético comparável ao plano econômico de FHC, a desperdiçante prática da dupla transmissão AM/FM numa mesma região foi estimulada pelo mesmo Governo Federal ancorado pelo Plano Real, a partir de Brasília, reduto da politicagem nacional, através da CBN da capital federal (propriedade dos filhos de Roberto Marinho).
Além das FMs com "roupagem" de AM, temos também rádios classe A com repertório classe Z, em que disco music recebe tratamento de jazz e qualquer canção melosa dos EUA e Europa é vendida como se fosse "biscoito fino". claro que existem rádios de MPB, instrumental e música clássica na Frequência Modulada, e em AM existe uma rádio para imigrantes nordestinos, a Atual.
Há ainda as célebres emissoras que se intitulam "rádios rock", que de rock só tem o repertório musical, ainda assim de forma caricata. É porque, na prática, essas emissoras se aproximam mais, em perfil, de uma rádio como a Jovem Pan (ícone do radialismo pop comercial) do que do radialismo rock que tais emissoras dizem seguir.
Dessas rádios, a 89 FM foi a primeira a diluir, aproveitando a então parceria que tinha com a Rádio Cidade local, nos anos 80, contratando locutores não-roqueiros para comandar a programação. Quando a rede da 89 fez mudar a orientação oficial da Rádio Cidade matriz, no Rio de Janeiro (que fez a pioneira no radialismo pop se converter em afiliada da suposta "rádio rock"), a Rádio Cidade paulista, há muito rompida com o Sistema JB, dono do nome "Cidade", foi obrigada por este grupo empresarial a mudar de nome, através de um processo judicial.
Com a 89 FM, o radialismo rock deturpou de forma tão grosseira que hoje, para reforçar as semelhanças, existe até rodízio de profissionais por mão dupla entre a 89 FM e sua suposta rival, a Jovem Pan. Só para citar os transeuntes entre as duas rádios, houve desde dois ex-membros dos Sobrinhos do Ataíde e da equipe da Trip 89 até o médico Jairo Bouer e o locutor Luís Augusto Alper.
Com o modelo da 89 FM se expandindo, as rádios Mix FM e Brasil 2000 sucumbiram à diluição, que era disfarçada pela idéia teórica que três rádios rock existem na capital paulista. Na prática, porém, o rock, que em São Paulo chega a ter um edifício comercial especializado no gênero - a Galeria do Rock na rua 24 de Maio - , anda sendo duramente maltratado pelas ondas do rádio. A Kiss Fm, se não é ainda a salvação do planeta, pelo menos tem a grande virtude de resgatar canções e bandas esquecidas do rock antigo mundial.