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| Hovoruski admite que rede 89 não é segmentada |

O coordenador da rede 89 FM, Alexandre Hovoruski, diante da mesa de som da afiliada carioca, a Rádio Cidade. Nos anos 90, ele produziu coletâneas de dance music da rede Jovem Pan Sat.
Em muitas reportagens sobre rádio, a 89 FM sempre aparecia como uma rádio “segmentada”, “diferenciada”, mesmo com caraterísticas claramente semelhantes à da Jovem Pan Sat.
Uma mensagem extraída da coluna "Rádio Mania" do site do jornalista Thiago Gardinalli, feita pelo colaborador Marco Ribeiro, responsável pelo site Rádio Base, mostra que a rede 89 FM, do contrário que muitos de seus defensores exaltam, também existe a intenção em não produzir uma programação de rádio alternativa
Aqui está um trecho de uma mensagem publicada na coluna, enviada por Rodney Brocanelli, que mostra o trecho de uma reportagem da revista Frente sobre a música independente.
Não se surpreendam com os argumentos elegantes que o coordenador de rede da paulista 89 FM (da qual a Rádio Cidade faz parte), Alexandre Hovoruski (o sobrenome apresenta variações como Howorusky, Hovoruski, Howoruski e Hovorusky; preferimos colocar Hovoruski, mas a reportagem de Frente mostra Hovorusky, e resolvemos respeitar esta grafia, usando a outra nos nossos comentários ou citações), a respeito da não divulgação de um repertório mais ousado. Sabemos que de um lado está a incompetência de sua equipe em geral e nas limitações de seus produtores e, de outro, a vontade de obter, de forma lícita ou ilícita (neste caso o "jabá"), grande faturamento imediato. Aqui está o texto e, em seguida, a análise correspondente.
Radialistas X artistas X gravadoras
"Nos EUA, uma rádio que está em 17º lugar de audiência pode se segmentar e viver de uma publicidade segmentada. Uma rádio cara como a 89 tem de buscar sua subsistência no mercado".
Alexandre Hovoruski
Olá Marcos e amigos da Rádio Base
Vou transcrever aqui um trecho de uma reportagem bem interessante publicada na revista musical Frente cujo mote é "Em um mercado fonográfico cada vez menor, grandes artistas partem para a independência, enquanto a mídia espera das multinacionais as novidades que nunca chegam". 99% do texto fala sobre artistas de talento que, sem espaço nas grandes gravadoras, são obrigados a lançar seus trabalhos de forma independente. Entre eles, Lobão, Ritchie, Leoni (hitmaker do Kid Abelha) e até, quem diria, Maria Bethânia. A reportagem traz também a visão das grandes gravadoras, mas há um espaço especial ao papel do rádio nessa engrenagem toda. Tudo começa com uma declaração de André Midani, ex-executivo da Warner: "Praticamente tudo o que hoje se faz de interessante na música brasileira vem de selos independentes", diz. Segue-se o trecho transcrito:
"Mas é aí que o suíno torce o rabo de vez. Na principal rádio rock de São Paulo, a 89FM, há somente o Angra representando os grupos brasileiros (?) independentes em seu Top 10. Na Mix FM, somente o Planta & Raiz. Na Brasil 2000 e na Cidade FM do Rio, nenhum...Se o que se faz de interessante no Brasil vem de pequenos selos, o que será que a mídia está veiculando: música ou mercado? 'A gente tem de acompanhar o mercado, senão não sobrevive', explica o diretor-artístico da 89 FM, Alexandre Hovorusky. 'Nos Estados Unidos, uma rádio que está em 17º lugar de audiência pode se segmentar e viver de uma publicidade segmentada. Uma rádio cara como a 89, que investe, que cria programas, tem de buscar sua subsistência no mercado'.
A programação de uma rádio rock como a 89 é frequentemente considerada pouco ousada e muito velha. De fato, a cada uma hora e quarenta minutos surge uma canção da Legião Urbana e somente cinco músicas nacionais lançadas em 2002 estavam na programação da emissora na época do fechamento deste edição - duas delas eram covers ou regravações de sucessos antigos. Segundo Alexandre (Hovoruski), a culpa é da falta de qualidade dos novos artistas.
"Vejo muita idéia bacana, mas sem qualidade. A verdade é que faltam produtos bacanas para a gente tocar. Já colocamos alguns independentes em salas-de-teste com ouvintes e não houve receptividade. Não adianta eu sonhar em fazer como a Fluminense de 1983 e botar uma fita-cassete no ar, porque a concorrente vem com um Creed com um som deste tamanho e me esmaga. Sempre que a gente passa a lançar muito, a audiência começa a cair'. Para solucionar seu problema, a rádio planeja, para o início do ano que vem, lançar um álbum com grupos novos pródigos em 'idéias bacanas', e patrociná-los em sessões de gravação sob condições técnicas adequadas.
Mas lembra que essa não é a função da rádio: 'As gravadoras é que deveriam buscar os artistas e oferecer para que as rádios pudessem tocar'. Em um mercado em que cada elo cordialmente deixa a seu vizinho a função de renovar o cenário, em que até grandes nomes vêm-se obrigados a trilhar o circuito independente e as grandes corporações ainda buscam seu novo papel na história, uma coisa é certa: o tiroteio está apenas começando. Sem trilha sonora".
A reportagem é
assinada pelo jornalista Ricardo Alexandre e a edição 3 da revista Frente ainda pode ser encontrada em algumas bancas do país. Eu, particularmente, não sabia da existência dessas "salas-de-teste". Gostaria muito de saber mais a fundo como funciona isso. Taí uma ótima sugestão de pauta para que algum coleguinha da imprensa corra atrás.
Abraços
Rodney Brocanelli
Por que a 89 FM, na prática, já não é "A Rádio Rock" há muito tempo
A imprensa musical costuma classificar o perfil de uma rádio FM pela aparência de fachada. Se a programação é tipo "rádio AM", ou seja, jornalismo prolongado e esportes, todos fazem vista grossa e se limitam a dizer que é uma "FM informativa", isso quando não apelam pelas piegas evocações à "cidadania" e "utilidade pública". Se a rádio tem todo aquele perfil poperó, com locutores, vinhetas e até mesmo a estrutura da programação e o humor besteirol dignos de uma rádio dance mas seu "vitrolão" é de rock ou coisa parecida, então a imprensa classifica como "rádio rock". Para muitos incautos, qualquer sósia vocal, mental e intelectual de um Iraí Campos, para não dizer de um Celso Portiolli etc. que pronuncie palavras como punk hardcore e Iron Maiden é visto como se fosse um "locutor rock", o que é um absurdo.
A declaração de Alexandre Hovoruski reflete uma situação recente das supostas rádios rock brasileiras. Sem a utopia de criar um clima de faz-de-conta, em que uma programação meramente de hits de rock ou coisa parecida era vista como "alternativa e libertária", Hovoruski chega a desmentir o que ele próprio disse na festa da Rádio Cidade em novembro de 2002, quando ainda afirmava que a emissora era segmentada, embora tenha citado a Billboard, revista de parada de sucessos que é considerada medium non grata pelos roqueiros mais autênticos
A situação, no entanto, só faz apresentar os problemas gravíssimos que atingem o radialismo rock no Brasil, que vive uma decadência absurda e incompreensível, pois o Brasil está mais democrático do que há vinte anos atrás (1983), quando as rádios de rock eram melhores e mais autênticas que as de hoje. Além disso, a Internet poderia muito bem ajudar na ousadia das rádios de rock, mas elas, estranhamente, não se mexem. Por que será?
O principal aspecto, que a opinião pública se recusa a questionar, salvo algumas exceções, é a estrutura das rádios, principalmente sua equipe. Vale lembrar que um dos aspectos mais lamentáveis da programação das ditas "rádios rock" atuais é o fato de não tocarem as músicas na íntegra e permitirem a interferência de locutores em cima das músicas e as vinhetas da emissora em questão entre uma canção e outra.
Enquanto a opinião pública ingenuamente acredita que todos os locutores e produtores das supostas rádios rock sejam "roqueirões da pesada" ou, quando são um pouco (mas um pouquinho só) realistas, acham viável um locutor pop trabalhar em rádio de rock, a presença desses sujeitos contribui diretamente no prejuízo que o radialismo rock está vivendo. Se até o Alexandre Hovoruski não é um conhecedor de rock - ele não sabia sequer da existência do clássico disco do grupo canadense Rush, Fly by night (1975) - que foi contratado apenas porque é um grande montador de rede (já montou as redes Transamérica e Jovem Pan 2), imagine então os locutores que falam como se fossem clubbers aloprados que, para terror dos ouvintes "radicais" dessas "rádios rock", que odeiam mortalmente a Jovem Pan 2, têm o mesmo estilo e a mesma linguagem da emissora que furiosamente abominam.
Quem gosta de rock arrisca. Quem entende de rock tem coragem e segurança para colocar coisas mais difíceis na programação. Se um Vitão Bonesso e um Leopoldo Rey dirigem uma rádio de rock, fariam questão de inserir coisas complicadas. Qual sujeito que conhece coisas mais obscuras do rock, canções e bandas menos badaladas, não luta para inseri-las na programação normal, para o público comum conhecer? Aqui devemos reconhecer um fato indiscutível: o problema do radialismo rock de hoje é a incompetência de sua equipe.
As pessoas acham lindo um sujeito como o Zé Luís da 89 FM falando de cidadania, de menores de rua precisando de escola etc.. As garotas acham bacana um sujeito, que odeia rock, como o Rhoodes da Rádio Cidade carioca, ser a estrela dessa suposta rádio rock apenas porque é "gostosão". Aliás são um retrato explícito de hipocrisia e cara-de-pau de parte da juventude rica brasileira essas garotas que se gabam em, aparentemente, preferir o Angra, o Shaman e até mesmo o Manowar (?!?!) e o Cannibal Corpse (?!?!?!) e odiar os Backstreet Boys, exercer uma tietagem digna de menudetes a locutores mauriçolas dessas falsas rádios de rock. Aliás, um Rhoodes da vida deveria ser demitido por justa causa de qualquer emissora que queira ser uma "rádio de rock" no mínimo decente.
A 89 FM já não é uma rádio de rock decente há mais de dez anos. Desde o começo a equipe original da 89, nos bastidores, sentia que a rádio seria corrompida em alguma época, e ela foi em meados de 1988, quando os donos da rádio quiseram colocar uma linguagem mais pop e inserir nomes pop na programação, alguns bem duvidosos. O radialismo rock havia caído um pouco deixando de tocar discos independentes e importados na programação diária, e depois caiu tanto que até muita coisa manjada do mainstream como o cantor Beck Hansen dificilmente tocam nessas rádios.
Mesmo numa época em que os roqueiros mais jovens, nascidos depois de 1974, julgam "genial", como a 89 FM de 1990-1992, apenas porque tocava um Suicidal Tendences para cada cinco Guns N'Roses e um Sepultura para cada vinte Engenheiros do Hawaii, a decadência da 89 não só era visível como era explícita. Nessa época foram contratados locutores popularescos e a 89 FM, apesar de tentar fazer média com as revistas musicais, tocando um Ira! aqui, um King Crimson ali e um Jesus & Mary Chain acolá, adequava seu perfil de programação musical ao nível médio da MTV Brasil, que não é uma TV do rock mas surgiu sob a ilusória imagem de "edifício garagem", por causa da ênfase exagerada nos vídeos-demo. E à cada queda de qualidade da MTV, houve a queda de qualidade da 89 FM. A programação atual (2003) da MTV, na prática, é quase toda feita para menores de 16 anos.
As recentes "preocupações" com a "cidadania" da 89 FM - reflexo do que acontece na MTV - não a fazem ficar "mais rock". Seria hipócrita considerar o Zé Luís como um "locutor de rock" só porque ele dá dicas sobre como votar ou sobre como preservar a natureza, porque ele só está falando de cidadania, e não de rock. Uma coisa é o sujeito entender de rock e falar de cidadania. Outra é o sujeito ser pop, trabalhar numa rádio que se diz "rock" e falar de cidadania.
Outro aspecto é o problema do jabaculê, que ninguém quer assumir e o pessoal do rádio argumenta que ele acabou e foi substituído por uma mal-explicada "comissão de marketing". Há também a grave crise da indústria fonográfica e seus CDs caríssimos, e há quem suspeite que, além da obsessão do faturamento das matrizes das multinacionais, o "jabá" nas rádios está influindo seriamente nos preços dos CDs, que sobem na proporção oposta da venda de exemplares.
Concluindo, só num país marcado pela corrupção e hipocrisia para uma rádio que queria ser alternativa continuar se auto-denominando "A Rádio Rock" e desmoralizando o segmento com sucessivas diluições do formato, que viciam os ouvidos de nossos jovens. A coisa chegou ao ponto que está, com o diretor de rede admitindo, só agora, que a rádio que ele trabalha não é segmentada. Mentira tem perna curta.