O funk de bamba
Dez super músicos
rolando o melhor do funk, soul, hip hop, rumba, salsa, samba, e no
final uma super diva enfeitiçando a platéia. Assim foi o show do Funk
Como Le Gusta (FCLG) no último dia 27 de fevereiro no SESC de Bauru.
Um ginásio quase lotado viu a banda tocar temas instrumentais dos anos
70, como a música da série "S.W.A.T.", e as ótimas composições
soul/funk da banda como "Zambação" e "Motéis". A convidada Sandra de Sá
cantou o sucesso "Olhos coloridos" e duas do grande Tim Maia, "Sossego"
e a ótima e esquecida "You don't know what I know", do disco "Tim Maia
Racional", 1974 (detalhe para a hilária versão que a banda fez em
português: "Dizem que o bagulho é bom, muito bom, muito bom/ Então me
dá um quilo!").
O
show do FCLG é muito legal porque é 100% feito para dançar, black music
brazuca com uma pitada latina e afro, além de músicos fantásticos que
executam ótimas improvisações e arranjos. O guitarrista Emerson
Villani, da banda Mamute e do projeto solo do titã Paulo Miklos, mandou
muito bem seus solos, assim como todo o resto da banda, tanto que é
difícil citar só um.
Dois ícones da
música instrumental brasileira estavam no show: François de Lima,
trombone, e Nahor Gomes, trompete, da excelente Banda Mantiqueira.
Estavam substituindo dois integrantes do grupo que não puderam vir - o
grande maestro, arranjador, que toca com Jorge Ben Jor, e bauruense,
Tiquinho, e Reginaldo Gomes, do Coral Sinfônico do Estado e da
Mattoli's Band.
O público adorou,
pois o bis foi duplo e bastante aplaudido. Villani até brincou com a
platéia: "Puxa, desse jeito a gente vai ter de vir para Bauru toda a
semana". Tomará.
Das jams ao CD
Os
músicos que formam o FCLG, todos com os outros projetos, têm em comum,
além do talento, o amor pelo funk. Em 1998, esses amigos começaram a
fazer jams regadas a muito funk em bares e festas de São Paulo. Tinham
nessa época o nome de "Mira la chiquitita como le gusta", uma expressão
popular em Cuba. Mais tarde adotaram o nome que davam aos seus shows,
"Funk Como Le Gusta".

A banda se firmou
no Espaço Anexo, uma escola de música com um galpão no fundo. Já eram
apresentações com muito improviso, grooves latinos, temas de filmes dos
anos 70 e música black brasileira. Dois trompetes, 2 saxofonistas e
flautistas, 1 trombone, 2 guitarras, baixo, bateria, 1
tecladista, dois percussionistas e um DJ. No ambiente, projeções de
Super-8 com imagens cult dos anos 70 e filmagens caseiras produzidas
pela equipe FCLG. No final, convidados especiais executavam versões
inusitadas e imaginativas de suas músicas. Um DJ encerrava a noite com
um som relaxante, depois da somzera dançante.
"A nossa proposta foi sempre achar um lugar alternativo para tocar",
diz Sérgio Bártolo, baixista também do Karnak, conversando com
Bazarcultura pouco antes do show em Bauru. "Até hoje tem poucos
lugares, o SESC é um desses poucos privilegiados no Brasil. Tocamos no
SESC Pompéia com regularidade já fazem dois anos", completa.
O resultado destas
jams e shows virou o CD "Roda de Funk" (lançado em 1999 pela ST2
Records com distribuição da Trama Music). Ele foi gravado ao vivo e com
muitas participações especiais: Sandra de Sá, Fernanda Abreu, os
rappers Black Alien (Planet Hemp), Nitro, Speed, Max (Academia
Brasileira de Rima), a metaleira da Banda Mantiqueira, os chilenos do
Chancho en Piedra e a MC Anita do grupo de hip hop Makiza.
Aliás, a banda sempre esteve muito bem acompanhada em seus shows por
convidados como Marcelo D2, Gerson King Combo, DJ Marky, Siba e Éder
(Mestre Ambrósio), DJ Soul Singer, Bocato, Luís Wagner, Daúde, Thaíde e
DJ Hum, Suba, Otto, João Parahyba, Skowa, Rogério (JotaQuest), Rossi e
12 (Pavilhão 9), Jorge Ben Jor, entre muitos outros.
"Quando começamos com essa idéia dos convidados, ninguém fazia isso.
Hoje está mais comum, o que é muito legal. Sempre tivemos a intenção de
homenagear artistas consagrados que estavam meio escondidos e gente
nova", fala Kuki Stolarski, bateria do Karnak e também do duo
eletrônico Bojo.
Hoje, o FCLG tem
os seguintes integrantes: Simone Soul - percussão (Chico César e Basi
Assad); Tiquinho - trombone; Sérgio Bártolo - contra baixo e voz;
Reginaldo Gomes - trompete, frugel e voz; Marcelo Cotarelli - trompete,
flugel (Combo); Kuki Stolarski - bateria; Kito Siqueira - sax alto e
barítono (produtor e arranjador); James Müller - percussão, bateria e
voz (Jorge Ben Jor e Havana Brasil); Emerson Villani - guitarra e voz;
Bid - guitarra, teclado, percussão e voz (produção de discos, como
"Afrociberdelia" do Chico Science & Nação Zumbi, e DJ); Hugo Hori -
sax e flauta (Karnak e Nasi & Os Irmãos do Blues); e Juliano "Papi"
Beccari - teclado e voz (trabalho solo e produção musical).
A cantora Paula
Lima não está mais acompanhando a banda, partiu para a carreira solo e
lançou o CD "É isso Aí" (Regata Música, 2001). "A Paula é uma
improvisadora nata, a proposta de trabalho solo acabou sendo
inevitável, merecido. Ela fez um disco demais, mas a gente vai se
encontrar de novo com certeza", conta Simone Soul.
Paula Lima entrou na banda numa das várias jams que o grupo fez. Ela
foi uma "agregada", nas palavras do grupo, assim como vários outros
músicos e cantores que compõem a família FCLG. "Temos a cara de uma
família, uma banda grande, mas com prioridades na agenda (Tiquinho
estava no Hawai tocando com Jorge Ben Jor). Quando não dá para alguém
estar presente, chamamos alguns dos nossos amigos, e é uma honra ter
com a gente pessoas como François de Lima e o Nahor Gomes, verdadeiros
mestres, que adoram tocar com a gente, e têm o tesão da balada, da
viagem, contar histórias", diz Kuki Stolarski.
O disco novo,
segundo o tecladista Juliano "Papi" Beccari, vai estar mais
instrumental, como as músicas novas que o FCLG está compondo agora.
Lógico, um reflexo da saída de Paula Lima.
Hoje, pode-se
dizer que o Funk Como Le Gusta reúne boa parte da melhor música
brasileira. Eles são grandes músicos com trabalhos individuais e em
grupo muito interessantes, e que trazem para junto de si o melhor da
velha guarda (Jorge Ben Jor, Elza Soares) e do novo som do Brasil
(Mestre Ambrósio, Nação Zumbi).
Para Kuki Stolarski, uma das coisas que permitiu essas experimentações
e o surgimento de sua big band, foi o aumento da cena jam de São Paulo.
"A música ao vivo em São Paulo mudou com as jams. Antes era muito
cover, o que dava dinheiro, sem espaço para criatividade. É importante
dizer que as big bands têm uma cultura, uma coisa forte no Brasil,
vinda das gafieiras dos anos 50, grandes bandas, com grandes
instrumentistas. É muito bom ver hoje gente jovem dançando e
cantarolando tema instrumental, curtindo", diz Stolarski.
Depois de ouvir o
CD do FCLG e assistir a um show deles, você pode voltar a dizer com
orgulho, "eu sou funkeiro!".
O site da
banda é http://www.funkcomolegusta.com/
E Kuki
Stolarski recomenda http://www.jambands.com/
(Matéria
realizada para o site Bazarcultura)

COPYLEFT © 2003
Reinaldo Chaves da Silva