A Barca! A Barca! A Barca! Neste cais da morte aguardam-nos duas
barcas, a do Paraíso e a do Inferno. Os personagens de Gil Vicente
foram mais uma vez
julgados, dessa vez pelo ácido grupo Dragão 7, de São Paulo, em duas
apresentações (8
e 9 de março) no Teatro Municipal de Bauru.
Clássico
da literatura de 1517, o "Auto da Barca do Inferno"
continua (infelizmente?) atual em sua forte crítica social e religiosa.
Gil Vicente
(1465-1537) é considerado o fundador do teatro literário em língua
portuguesa. Como
afirmam seus biógrafos, foi ourives oficial da corte portuguesa até
1502, quando, a
serviço de D. Leonor, viúva do rei D. João II, foi encarregado de
organizar
espetáculos palacianos nas festas reais e datas comemorativas da
cristandade. Por sua
proximidade com a corte lusitana, o dramaturgo pôde satirizar os
costumes da nobreza e do
clero de sua época. Contudo, registra-se a mutilação de muitos de seus
textos pela
censura da Inquisição.
Sua
obra é composta de peças de caráter religioso (os
"autos"), comédias, farsas e tragicomédias. Os autos do autor são quase
sempre alegorias sobre o conflito entre a virtude a dissipação moral. O
"Auto da
Barca do Inferno" foi escrito em redondilha maior (verso de sete
sílabas), e fala do
julgamento feito por um Anjo e pelo Diabo de personagens que
representam tipos, as
características gerais de uma determinada classe social, e que são
designados pela
ocupação que exercem ou por algum outro traço social: sapateiro,
onzeneiro, fidalgo,
frade, alcoviteira, corregedor, parvo etc. Ou seja, simbolizam vários
comportamentos
humanos.

A
adaptação do grupo Dragão 7 utiliza o texto original em galego (o
português da época de Gil Vicente), mas também apresenta inserções de
temas atuais,
músicas de rock, brega, samba e erudita, além de muito escárnio e
erotismo. O
personagem do Onzeneiro, por exemplo, foi transformado num banqueiro do
FMI com sotaque
inglês, o Frade entra em cena dançando uma música pornô/axé com sua
amante, o Parvo
é uma criança de chupeta e frauda, e o Diabo e o Anjo são duas mulheres
usando
fio-dental. Todos os personagens brincam com a platéia e circulam pelo
teatro, como na
ocasião em que o Frade, interpretado pelo hilário ator bauruense
Emerson Caperbat, chama
uma moça do público para uma aula grátis de esgrima no palco.
É
um clima de muita folia mas que mantém o espírito crítico e
satírico de Gil Vicente, pois rimos da mesquinhez dos personagens e da
nossa própria
hipocrisia.
Entrevista
com o Diabo - Quem assistiu a peça do Dragão 7 certamente agora vai
pensar duas
vezes antes de dizer que o coisa-ruim é tão feio quanto um "cão
chupando
manga".
A
linda atriz Creusa Borges interpretou o Diabo como este mesmo gosta:
só de fio-dental e bem pertinho do público. Além de atuar, ela também é
a diretora do
espetáculo. O grupo foi fundado em 1988 com a peça "As desgraças de uma
criança", de Martins Pena, tendo a preocupação de buscar uma linguagem
adolescente
em suas apresentações. Em 1989, "O Noviço", também de Martins Pena. No
ano
de 1991, foi a vez de "Mais quero asno que me carregue, que cavalo que
me
derrube", de Carlos Soffredini, adaptada da "Farsa de Inês Pereira", de
Gil Vicente. Um ano mais tarde, o grupo realiza pela primeira vez o
"Auto da Barca do
Inferno", com enorme sucesso e sendo encenada até hoje, inclusive com
passagens em
Portugal e Espanha, além de alcançar um imenso público estudantil. Em
1999, estreava
"Brasil outros 500", de Ana Vitória, um passeio pelos 500 anos do
descobrimento
do país, seus povos, culturas, tristezas e alegrias.
Leia
a seguir a entrevista de Creusa Borges ao Bazarcultura:
Bazarcultura - Qual o motivo
do nome do grupo?
Creusa Borges - O "dragão" porque era o ano o dragão no
horóscopo chinês (1988, o ano de sua fundação), e "7" porque éramos em
seis
atores e o sétimo era o que estava para vir sempre. Hoje trabalhos com
14, mas o grupo
já contou com 21 atores, sempre múltiplos de sete, ou seja, acabou
sendo um número
cabalístico para nós.
Bazarcultura - Os autores que
vocês têm trabalhado (Martins Pena, Gil
Vicente) e seus temas (criança, jovem, mulher, críticas sociais e
religiosas, a
criação do Brasil), tentam explicar o que é o Brasil, suas
desigualdades e mazelas. Por
que essa preferência no grupo?
Borges - Eu sou brasileira e tenho dificuldade em me entender,
de que
raça eu sou, qual é minha verdadeira cor. Durante as comemorações dos
500 anos, essa
questão me pegou bastante, ficava me perguntado se era branca, negra,
índia. O povo
brasileiro é muito novo, formado socialmente a partir da chegada da
família real
portuguesa. Então por isto, não vejo razões ou contribuições para o
planeta ficar
montando e encenando Shakespeare, já têm muita gente que faz isto.
Então a
contribuição que posso dar é montar autores brasileiros.

Bazarcultura - Como é o
trabalho com o público estudantil?
Borges - Começamos com um grupo grande de atores, inviável
economicamente, então resolvemos trabalhar para esse público
adolescente. Já na
primeira peça, "As desgraças de uma criança", fizemos pensando no
Brasil novo
e em trabalhar com o jovem para acostumá-lo com o teatro, fazer com que
ele goste mesmo.
Desse modo, acontece uma troca: os jovens estudantes possibilitam nossa
profissão de
atores de teatro e nós encenamos para eles autores tão importantes como
Martins Pena e
Gil Vicente. No início, os atores se negavam a fazer espetáculos para
esse tipo de
público, pois tínhamos que parar as peças, pedir silêncio, essas
coisas. Com o tempo,
ao invés de nós ensinarmos o jovem a assistir teatro, acabamos
aprendendo a fazer teatro
para eles. Aprendemos a usar o bom humor e a energia bruta do
adolescente no próprio
espetáculo. Também divulgamos pessoalmente nossos espetáculos em
escolas, procurando
convencer o jovem a nos assistir e a adquirir o hábito de ir ao teatro.
Bazarcultura - Em 1992 vocês
estrearam o "Auto da Barca do
Inferno", com grande sucesso de público e crítica nacional e
internacional, durante
vários anos. Por que retornar mais uma vez à Barca?
Borges - Sempre estamos trabalhando com essa peça, mesmo
estando em
cartaz com outro espetáculo. Por exemplo, estou ensaiando "As Filhas da
Terra",
que é um espetáculo que fala do pós-patriarcado, da energia feminina do
planeta, da
mulher e seu papel, e o "Auto da Barca do Inferno" fala dessa sociedade
patriarcal, que já não estava a favor da vida em 1517, sendo que os
portugueses
trouxeram para nós tudo isto como receita social e somos sustentados
por essa moral até
hoje, portanto o texto com juiz corrupto, governantes incompetentes e
antiéticos, é
super atual. Então porque deixar de fazer essa peça? O "Auto da Barca
do
Inferno" nunca saiu de cartaz e acho difícil acontecer.
Bazarcultura - Como é a
montagem de Gil Vicente pelas companhias do
exterior e qual foi a recepção que a adaptação do Dragão 7 teve?
Borges - Em Portugal Gil Vicente é muito encenado. Durante a
Expo de
Portugal, fomos elogiados pela crítica, no sentido de aprenderem um
pouco conosco como é
encenar Gil Vicente. Lá, suas peças são muito acadêmicas e, ao
contrário, com a gente
deu samba, isto é, foi um encontro da nossa energia com o escárnio,
humor, a farra que
Gil Vicente propunha. Eles receberam muito bem. Acho que a gente têm o
que trocar, um
pouco da seriedade que o europeu têm, já que passaram por muitas
guerras, com o nosso
lado de exorcizar a desgraça, a nossa alegria tem um papel na vida. No
Carnaval, você
vê um continente inteiro balançando o planeta, e o outro lado
estourando bomba. Isso de
uma certa forma neutraliza a energia negativa.
(Matéria realizada para o site Bazarcultura)