Muito além da floresta


            Chico Mendes foi assassinado no dia 22 de dezembro de 1988. O presidente era José Sarney, a moeda era o Cruzado e o seringueiro Chico Mendes era um ilustre desconhecido para boa parte da população brasileira. Hoje, quase dez anos depois, o sociólogo Fernando Henrique é o presidente, a moeda é o Real e Chico Mendes está caindo no esquecimento.

            Mais do que ser lembrado, o que Chico Mendes provavelmente queria era que sua luta enquanto vivo não fosse encerrada quando morresse.

            Em muitos lugares deste país o que vale é a lei da bala, a lei dos mais fortes. Chico Mendes teve coragem de lutar contra isso, estava em busca de uma vida digna para seus companheiros seringueiros. Ele entendeu que a melhor forma para derrotar a miséria na floresta é simplesmente não derrubando-a. Parece um pensamento lógico mas infelizmente pela ganância de fazendeiros, madeireiros, garimpeiros, industriais e políticos isso quase nunca acontece.

Os Seringueiros e a Amazônia

            A história da Amazônia e especialmente do Acre começa com a borracha. No final do século XIX devido a grande demanda pela borracha por parte dos Estados Unidos e Europa, houve uma grande migração de nordestinos para a Amazônia. Várias aldeias indígenas foram destruídas na busca das seringueiras. O país estava avançando para o Norte

e esses novos "bandeirantes" infelizmente tinham uma visão predatória da floresta. Esses anos de riqueza terminaram quando a Inglaterra passou a competir com o Brasil, efetivamente em 1913, superando a produção brasileira. Os ingleses extraíam borracha na Malásia, graças a um contrabando de sementes de seringueiras brasileiras.

            Depois de anos de estagnação a Amazônia teve um novo surto da borracha na Segunda Guerra Mundial. Os japoneses ocuparam os seringais da Malásia e os países aliados não tinham outra fonte de borracha que não fosse o Brasil. Dessa vez a migração de nordestinos ocorreu por ordem do governo. Os que prestavam serviço militar tinham que escolher entre lutar na guerra ou ir para os seringais. Eram os "soldados da borracha".

            Terminou a guerra e a borracha brasileira entrou de novo em crise. Muitos migraram de volta para seus estados de origem. Os poucos que ficaram permaneceram na floresta vendendo a borracha a preços muito baixos ou foram formar as favelas nas grandes cidades da Amazônia, Manaus e Belém.

            Veio o governo militar e de novo a Amazônia foi vista como algo a ser dilapidado. Era a época do desenvolvimentismo, grandes obras foram feitas na Amazônia, obras que não respeitaram a população que vivia nela e tão pouco a fauna e a flora. Estradas, garimpos, madeireiras, transformaram a Amazônia num grande canteiro de obras. Diziam que era o progresso para a população amazônica. Só que havia um problema. A maioria dessas obras tinham como objetivo explorar os recursos da floresta. Quando esses recursos acabavam as cidades morriam e as pessoas ficavam em estado de miséria.

            Dois exemplos do progresso burro. A Usina Hidrelétrica de Balbina, próxima de Manaus, inundou uma área de floresta que poderia gerar 700 milhões de dólares com a venda da madeira, e seu custo de construção foi de 750 milhões de dólares.

            Na Amazônia existe a estação das chuvas. Com o grande desmatamento formaram-se imensas poças de água, o criadouro perfeito para o mosquito da malária. Assim a malária passou a matar mais pessoas do que antes dos desmatamentos.

            A exploração predatória, tendo como único alvo o lucro rápido matou milhares de índios, desmatou áreas imensas de floresta, poluiu vários rios com o mercúrio dos garimpos, causou vários conflitos de terra e levou a miséria para um lugar onde a fartura era imensa.

Chico Mendes

            Nessa situação de tantas injustiças surgiram pessoas como Francisco Alves Mendes Filho, um seringueiro da cidade de Xapuri no Acre, dispostas a exigir seus direitos como pessoa.

            Chico Mendes ajudou a formar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri a partir dos anos 70, no qual chegou a ser presidente. O sindicato foi formado para que as pessoas que viviam na floresta tivessem melhores condições de vida. Foi criado o conceito de Reserva Extrativista, ou seja, terras que seriam controladas pelos povos da floresta onde manteriam sua cultura e seus modos de vida  tirando o seu sustento da floresta, sem destruí-la.

            Visualizava-se um modo de vida em harmonia com a floresta. As pessoas teriam uma vida digna, com escolas e assistência médica na própria floresta. Quem melhor para decidir o futuro de uma comunidade do que ela própria?

            Mas é claro que Chico Mendes estava indo contra os interesses dos poderosos e sua luta foi extremamente difícil. Teve pouco apoio do governo para a construção das escolas e postos médicos e na oficialização das reservas extrativistas. Realizou várias manifestações na floresta com os seringueiros para deter os desmatamentos. Eram os chamados "empates".

            Antes de morrer, Chico Mendes alertou que estava sendo ameaçado de morte. Disse até quem seria. Mas não adiantou. Num lugar onde a lei vale para poucos ele viveu até que muito tempo. Morreu aos 44 anos de idade.

Valeu a pena?

            Muita coisa mudou no Brasil de 1988 a 1998. Nada mudou no Brasil de 1988 a 1998.

            A imprensa brasileira em 1988 falava quase que totalmente em crise econômica e na sucessão presidencial. Hoje de novo é um coro só: crise e eleição. Parece que o Brasil termina no Sudeste. O resto é uma grande ilha afastada e sem voz.

            Sarney lutava por uma emenda constitucional que lhe possibilitaria mais um ano de governo. Conseguiu. Fernando Henrique lutou pela emenda da reeleição. Também conseguiu. Todas as atenções ficaram voltadas para Brasília e nos dois casos ocorreram crimes no Norte do Brasil que poderiam ter sido evitados: o assassinato de Chico Mendes no Acre e o incêndio gigantesco em Roraima.

            Em Xapuri existe uma grande favela chamada Sibéria onde moram ex-seringueiros. Ela cresceu muito desde a morte de Chico Mendes. As Reservas Extrativistas desenvolveram novas atividades como a extração de castanha, guaraná, couro ecológico, etc., mas os incentivos do governo tem sido desviados para outros fins.

            A prisão dos assassinos de Chico Mendes levou anos, pela ineficiência da polícia e o péssimo estado dos presídios brasileiros. Sem contar que o mandante do crime era procurado por um assassinato no Paraná e quando estava foragido tirou documentos falsos e se estabeleceu como fazendeiro no Pará.

            Os absurdos de dez anos atrás continuam a acontecer. São sempre os mesmos crimes, as mesmas corrupções. São tantas feridas que dez anos é pouco tempo para cicatrizar tudo isso.

            Mas do que um exemplo de defesa do ambiente a vida de Chico Mendes é um exemplo de cidadania. Ele lutou pelos seus direitos e nós podemos fazer a luta dele valer a pena se nos inspirarmos nela e procurarmos construir um país mais justo.

Sobe

 

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COPYLEFT © 2003 Reinaldo Chaves da Silva
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