Você conhece o Antônio Torres? Não. É parente da Fernanda Torres? Não,
ele é baiano, nascido em 1940 na cidade de Junco (hoje Sátiro Dias).
Tá, nunca tinha ouvido falar nessa cidade, mas e daí, o que ele faz lá?
Na Bahia acho que nada, pois ele não mora mais lá, já aos 20 anos
mudou-se para São Paulo. Veio tentar a vida? É, trabalhou naquele
jornal do Samuel Wainer, o Última Hora. Então o cara é jornalista? Não,
hoje ele não é mais. Trabalhou com publicidade e depois inventou de
viver de escrever. Ah, ele é escritor? É, tem 13 livros lançados já.
Bastante, hein? E ele é bom? É sim, muito, apesar de, como você
comprovou agora, não ser tão conhecido no Brasil. Ih, mas isso é
normal, só uma panelinha de escritores que é bem conhecida. É verdade,
mas lá fora ele já foi publicado em Cuba, na Argentina, França,
Alemanha, Itália, Inglaterra, Estados Unidos, Israel e Holanda. Nossa!
Pois é, tem até prêmio do governo francês ("Chevalier des Arts et des
Lettres"). Puxa! Me fala mais dos livros do cara! Bom, eu conheço
quatro livros dele, "Essa Terra" (Ática, 1976), "Os homens dos pés
redondos" (Francisco Alves, 1973), "Meu querido Canibal" (Record,
2000), e o mais novo "O nobre seqüestrador" (Record, 2003). Do que
tratam? O "Essa Terra" é meio autobiográfico, fala do imigrante
nordestino buscando melhores condições na cidade grande e da triste
volta para a terra natal, é o livro mais famoso dele, já vendeu 150 mil
cópias. "Os homens dos pés redondos" é um livro muito louco, fala de um
país fictício chamado Ibéria, que na verdade são todos os países
ditatoriais daquela época. "Meu querido Canibal" é um
romance-histórico, conta a história de um índio devorador de
portugueses, acho que o nome é Cunhambebe, chefe dos tupinambá. E esse
último livro dele, "O nobre seqüestrador", também é um romance
histórico, fala do primeiro seqüestro do Rio de Janeiro, o da própria
cidade, feita por um corsário francês. Que interessante! Nesses livros
históricos ele tem escrito sobre a formação violenta que o Rio e o
Brasil tiveram. É verdade, e hoje é o Fernandinho Beira-Mar quem
seqüestra o Rio! A propósito, o Antônio Torres hoje mora lá no Rio de
Janeiro. Conhece de perto então essa loucura. Gostou então dele? É,
pelo que você me disse parece ser um grande escritor. É sim, e se você
quiser saber mais sobre ele é só ler minha entrevista aí embaixo. Fiz
quando ele veio na II Bienal do Livro de Bauru.
Pergunta -
Na II Bienal do Livro de Bauru o Sr. veio debater literatura e temas
relacionados a sua obra com o escritor Ignácio de Loyola Brandão. Nos
anos 70, vocês dois mais o João Antonio faziam o mesmo, viajando pelo
Brasil e discutindo literatura e política durante a ditadura. Que
recordações o Sr. tem desse período?
Antônio Torres - A primeira lembrança é justamente daqui de Bauru,
em 1975. Foi uma das primeiras cidades que visitamos, e nesta a
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, que hoje é a Universidade do
Sagrado Coração, foi um dos locais em que debatemos literatura e
política. Aqui descobrimos qual era o potencial de venda de cada um, de
cidade em cidade, mais ou menos vinte livros.
Por onde passávamos a
imprensa dava muita cobertura, íamos às rádios e os professores também
se encarregavam de divulgar muito. Aqui quem nos recebeu foi o
professor José Benedito Pinto, que agora tivemos o prazer de
reencontrar na Bienal de 2003.
Pergunta -
A obra do sr. é admirada internacionalmente, principalmente na Europa.
Nas viagens que o sr. faz pelo exterior quais as impressões das pessoas
sobre nossos livros? Como a literatura brasileira é vista?
Torres - Há um, digamos, pequeno clube de leitores da literatura
brasileira que realmente a adora. Adoram Machado de Assis, Graciliano
Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, poetas como Carlos Drummond
de Andrade, e muitos dos autores da minha geração têm tido uma boa
entrada na Europa, como é o caso do próprio Ignácio de Loyola Brandão,
do amazonense Márcio Souza, Moacyr Scliar, João Ubaldo Ribeiro, e eu
estou no time, também um pouco nos Estados Unidos e na América Latina.
Agora mesmo está para sair em Portugal o meu romance "Meu Querido
Canibal", que ganhou Prêmio Passo Fundo de Literatura de 2001, e esse
mesmo romance vai sair em fevereiro na Espanha. A publicação lá fora dá
uma satisfação muito grande.
Pergunta -
E quais as razões para revisitar, mais de 20 anos depois, o romance
"Essa Terra" com o livro "O Cachorro e o Lobo"?
Torres - Era um risco, eu sei que era, mas eu topei o desafio.
Tinha medo que dissessem que eu já não tenho mais café no bule, que
estava sem imaginação, mas ao contrário a resposta foi fantástica, não
só aqui como também na França. A crítica francesa, belga e suíça
aplaudiram o livro de pé.
Pergunta -
O sr. já abordou a história do Rio de Janeiro em seus livros mais de
uma vez ("O Centro das Nossas Desatenções" e "Meu Querido Canibal"), e
agora com "O Nobre Seqüestrador". Comente a força literária que o sr.
encontrou na história do Rio.
Torres - A história do Rio é fascinante, tanto que agora realmente
volto a ela com "O Nobre Seqüestrador", que é a história do corsário do
rei Luis XIV, René Duguay-Trouin, que em 1711 fez o primeiro seqüestro
do Rio de Janeiro, o da própria cidade que tomou como refém por 50 dias
enquanto aguardava o pagamento do resgate para devolve-la aos seus
habitantes. O Rio tem uma história surpreendente, de conflitos e
violências, e eu fui às origens dessa violência, em 1711, para escrever
meu romance atual porque o Rio vem sendo seqüestrado todos os dias.



