A apresentação da peça "Fim do Jogo"
nos dias 26, 27 e 28 de abril no Teatro Municipal de Bauru, teve
significados e
importâncias muito grandes: foi a primeira apresentação profissional de
Edson Celulari
na sua terra natal; mostrou mais uma parceria bem-sucedida entre ele e
o ótimo ator Cacá
Carvalho; o público teve o privilégio de conhecer e se emocionar com um
dos melhores
textos do dramaturgo irlandês Samuel Beckett; as apresentações marcaram
também o final
da temporada da peça e o aniversário de dois anos do Teatro Municipal
"Celina
Lourdes Alves Neves".
Celulari, 43, bauruense, ator de televisão,
cinema e teatro, deixou a cidade para seguir sua carreira há 24 anos
atrás. Nesse meio
tempo, só vinha à Bauru para visitar sua mãe, irmão e tios que
permanecem morando na
cidade. São 23 anos atuando, trabalhando em peças como "Calígula"
(Albert
Camus), "Ela odeia mel" (Hamilton Vaz Pereira), "Capital estrangeiro"
(Silvio Abreu) e "Fedra" (Racine), os filmes "Asa Branca - um sonho
brasileiro" (1980), "Inocência" (1983) e "Ópera do Malandro"
(1985); e várias telenovelas: "Guerra dos Sexos", "Cambalacho",
"Que Rei Sou Eu?", "Fera Ferida" e "Vila Madalena".
O parceiro de Celulari em o "Fim do
Jogo", Carlos Augusto Carvalho, o Cacá, 48, só ficou mais conhecido do
grande
público em 1998 quando interpretou o personagem Jamanta na telenovela
"Torre de
Babel", apesar de ser há muito tempo um dos grandes atores do teatro
nacional. São
31 anos de palco deste paraense de Belém do Pará, marcados pela
excelente atuação na
primorosa montagem de "Macunaíma" feita por Antunes Filho em 1978,
sucesso no
Brasil e em mais de 20 países. Em meados dos anos 80, Carvalho iniciava
sua fase de
trabalhos na Itália, participando até hoje do Centro de Experimentação
e Pesquisa
Teatral de Pontedera, onde realizou com o diretor Roberto Bacci
elogiadas peças como
"O Céu por Terra" e "O Homem com a Flor na Boca".
O primeiro encontro no palco entre Celulari e
Carvalho aconteceu em 1985 quando atuaram em "Hamlet", de Shakespeare,
com
direção de Marcio Aurélio. Depois, voltariam a trabalhar juntos só em
1997 em
"Don Juan", de Molière, direção de Moacir Chaves. Para "Fim do
Jogo" os atores convidaram o diretor Francisco Medeiros, que em 2000
havia dirigido o
monólogo "A Última Gravação de Krapp", também de Beckett, interpretado
por
Antônio Petrin. A tradução do texto, escrito originalmente em francês,
"Fin de
partie", foi feita pelo escritor Millôr Fernandes. Completam o elenco
os atores Malu
Pessin e Lafayette Galvão.
O escritor dos duplos
Em 13 de abril de
1906, uma Sexta-feira Santa, nascia Samuel
Barclay Beckett, em Foxrock, perto de Dublin, a capital da Irlanda. Era
de uma família
burguesa e protestante.

Em 1928, Beckett muda-se para Paris afim de estudar e lecionar
literatura. Forma-se em
francês e italiano. Conhece o genial James Joyce ("Ulisses", "Finnegans
Wake"), do qual se torna amigo, assistente e secretário, inclusive no
período de
cegueira do escritor. A relação entre os dois, filhos da Irlanda que
optaram por morar
na França, no início era como pai-filho e mestre-aluno, mas depois se
transformaria numa
amizade em que cada um se completava, como escreveu um dos mais
importantes biógrafos de
Joyce, Richard Ellmann:
"Beckett era dado a uns
silêncios, e também Joyce; os dois
tinham conversas que consistiam muitas vezes de silêncios dirigidos um
ao outro, ambos
impregnados de tristeza, Beckett sobretudo pelo mundo, Joyce sobretudo
por si mesmo. Joyce
sentava-se em sua posição habitual, pernas cruzadas, o dedão da perna
de cima sob o
peito do pé da outra; Beckett, também alto e magro, caía no mesmo
gesto. Joyce de
repente fazia uma pergunta, tipo 'Como pôde o idealista Hume escrever
história?' Beckett
respondia: 'Uma história de representações.'"
Outra influência foi o
grande escritor francês Marcel Proust
("Em busca do tempo perdido"), ao qual Beckett dedicou uma monografia
em 1929.
Ainda nesse ano, vence seu primeiro prêmio literário com o poema
"Whoroscope".
Durante a II Guerra Mundial, ingressa na Resistência Francesa,
trabalhando como
intérprete num hospital militar. Foi quase pego pela Gestapo nazista.
Após o final da guerra, Beckett adota o francês
como seu principal idioma de criação literária, estabelecendo um estilo
seco e direto,
o mais simples possível. Seus temas, tragicomédias, instauram o riso a
partir de
situações engraçadas causadas por privações e sofrimentos. Como ele
próprio definiu,
"meu assunto é o fracasso".
Seus personagens são vagabundos, andarilhos,
moribundos, insistindo nos mesmos erros e palavras, como palhaços que
reencenam todo o
dia a mesma farsa. Só que as repetições de Beckett são analogias da
vida: os processos
históricos que se assemelham tanto nas suas mentiras, promessas e
dúvidas; e as
relações humanas, todas elas parecidas em seus momentos de dor, medo e
ingenuidade.
Seus principais romances, "Murphy",
"Watt", e a trilogia "Molloy", "Malone Morre" e "O
Inominável", apresentam a comédia da impotência e ignorância humanas.
No teatro a
perspectiva é a mesma, porém apresentando mudanças de estilo: através
de uma linguagem
o mais resumida possível, ele cria situações absurdas e põe em cheque o
sentido das
palavras e das ações humanas.
Em 1953 surge "Esperando Godot", com os
dois vagabundos Vladimir e Estragon. No ano de 1956, "Fim do Jogo", com
o
pai/patrão/mestre Hamm e o filho/empregado/aprendiz Clov. Seguem-se "A
Última
Gravação de Krapp", 1958, com o jovem e velho Krapp, e "Dias Felizes",
de
1961, com a personagem Winnie sendo enterrada à medida que relembra
seus momentos com o
marido.
São todas peças lúdicas no sentido de sempre
apresentarem pares e repetição de frases e gestos. É o viver todos os
dias a mesma
rotina e tendo a consciência disso, mas sem nenhuma força ou coragem
para mudar. Beckett
ironiza isso - a mãe de Hamm, Nell, fala em o "Fim do Jogo" que "Nada é
mais é engraçado que a infelicidade".
Nas falas de Hamm e Clov, não há um sentido, ou melhor, o autor põe em
dúvida a
existência numa proporção tamanha que faz sobrar apenas o ridículo:
Já me fez essa pergunta
milhões de vezes./ Gosto de velhas
perguntas. Ah, velhas perguntas, velhas respostas, não há nada como
elas".
(trecho retirado de "Fim de Partida", tradução e apresentação de Fábio
de
Souza Andrade, Cosac & Naify, 2002)
Seus textos trazem cenários
enclausuradores, com pouca luz ou
cinzenta, sem móveis. Não coincidentemente, Beckett era afeito ao
alcoolismo e vítima
de fortes depressões. Sua morte foi às vésperas do Natal de 1989, em 22
de dezembro.
Antes, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1969.
"Fim do jogo"
Num lugar
esquecido, vivem um cego paralítico numa cadeira de
rodas (Hamm), seu empregado manco, que enxerga mal e não consegue mais
se sentar (Clov,
ou Clóvis na tradução de Millôr Fernandes), e os pais do cego (Nagg e
Nell), com as
pernas amputadas e morando em latas de lixo.
Nesse lugar mórbido, todos justamente esperam a
morte, nutrindo entre si uma dependência psicológica - ambos se
ofendem, mas precisam
estar juntos. Na montagem que apresentada em Bauru, Edson Celulari e
Cacá Carvalho
revezam as interpretações dos personagens Hamm e Clóvis. O casal de
velhos é feito
pelos atores Lafaytte Galvão e Malu Pessin.
A proposta de trocar os papéis principais nas apresentações é bem interessante, pois a própria peça estabelece esse jogo - Hamm não é sempre o explorador que humilha seu empregado Clóvis, este também martiriza seu patrão.

Viu-se uma grande adaptação do texto de Beckett.
Merecem elogios Galvão e Pessin por suas comoventes e cruéis
representações dos
velhos. Celulari e Carvalho optaram por realizar seus papéis de forma
"clownesca", exagerando propositadamente nos trejeitos e falas. Essa
opção se
mostra um pouco perigosa, pois a peça apresenta variantes e sutilezas
trágicas. Talvez
essa forma de atuar fosse mais adequada para "Esperando Godot", por
exemplo, em
que os dois personagens principais agem como verdadeiros palhaços.
Todavia, só em alguns
momentos a representação de Hamm e Clóvis foi prejudicada, ocasiões em
que a voz
esganiçada ou gesto espalhafatoso dos atores se sobressaíram aos
absurdos retratados.
Beckett é muito complexo por isso, sua montagem exige um grande
equilíbrio entre o humor
no texto e o apresentado pela atuação do ator.
Muitas são as analogias de "Fim do Jogo": relação mestre e empregado,
pais e
filhos, o flagelo da guerra etc. Beckett dizia que pensou em movimentos
do jogo de xadrez
- Hamm, representando o rei no centro do palco, se movimenta movido
pelo peão Clóvis, ou
o rei ordenando o movimento do peão. Shakespeare também pode ser visto
na peça: sentado
em sua cadeira, cego e parado, Hamm remete ao Rei Lear ou a Hamlet em
seus tronos, todos
reis decadentes.
Uma alegoria final, essa construída, foi a
estréia do espetáculo na cidade natal de Cacá Carvalho, Belém do Pará,
e seu
encerramento na cidade onde Celulari nasceu, Bauru. Como diz Hamm na
peça, "O fim
está no começo e no entanto continua-se". O fim e o início são os
mesmos na
comédia da vida.
O Bazarcultura participou da entrevista coletiva
com os atores Edson Celulari e Cacá Carvalho, que você confere abaixo:
Pergunta - Como você está vendo Bauru hoje, depois de todo esse
tempo
fora?
Edson Celulari - Eu fico muito orgulhoso quando ouço
dos meus amigos que
já passaram por aqui, que a cidade tem um lindo teatro, uma platéia
inteligente,
interessada. Saber também que hoje existem 15 grupos de teatro
atuantes. Então você
nota a cidade modificada. Não sei se isto já está refletindo, mas acho
que o hábito de
ir no teatro cria uma onda de pensar, entender melhor as coisas. Acho
que sempre deve
haver uma preocupação para melhorar isso, porque o público que vai ao
teatro pensa e
sente tudo melhor. Uma cidade que cresce tem que se preocupar com a
cultura, não existe
uma cidade economicamente forte e culturalmente fraca. É importante
também a expressão
local, peças e autores da cidade falando de questões daqui.
Pergunta - Falem um pouco desse projeto "Fim do Jogo".
Celulari - É um projeto também afetivo nosso,
estreamos em Belém e
estamos finalizando aqui em Bauru. Tivemos o orgulho de começar na
cidade do Cacá e
terminar em Bauru, uma local bem mais jovem e iniciando sua vida com
esse novo espaço, o
Teatro e o Centro Cultural.
Cacá Carvalho - Mas é muito doida essa coisa de um
espetáculo que
cumpre o seu ciclo de apresentação, porque o teatro tem tantos
estágios. O estágio em
que você fica elaborando o projeto, você já está fazendo o espetáculo,
é uma fase
dele. E depois surgem diversas outras fases, e no nosso caso milhões
delas, porque além
de apresentar, nos desdobramos diariamente, então ele se multiplica. Ao
acabar a fase de
exposição, o espetáculo continua, ele vai passar a acontecer
internamente, na medida em
que a saudade se manifesta, e em que você vai refletir sobre ele,
principalmente quando
é um texto que tem um valor de analogia e metáfora tão grandes. Então,
na realidade
ele cumpre uma fase de exposição pública e aí passa a agir dentro de
cada um de nós,
como agiu em cada um espectador que passou por ele em Belém do Pará.
Por isso que o teatro não
morre. Pode ser que o nosso trabalho tenha provocado em alguém
o interesse em comprar o livro do Beckett, então nosso trabalho não
morreu, continua lá
na estante da pessoa, ou talvez alguém conte a história para outra
pessoa, continua
frutificando.
Sobre o espetáculo estar
encerrando a apresentação aqui, quando estreou em Belém
decidimos terminar aqui. Tem um sentido muito bom estar aqui, para mim
é muito
emocionante estar no lugar onde o Edson Celulari nasceu e começou fazer
sua história de
teatro, isso é muito bonito. Quando você volta à casa, por mais que
você diga que não
a reconhece direito, tem uma coisa que está debaixo de tanta camada de
progresso, de
tempo que passa, que você reconhece no cheiro, no calor dela, na cor da
terra dela. Têm
muitas cidades invisíveis atrás dessa cidade visível, que ele vê e eu
não vejo,
então é bonito ver através do modo que ele vê a cidade dele.
Pergunta - Qual é o jogo que termina na peça?
Carvalho - Por analogia se pode achar que é o fim do
jogo da vida, fim
do jogo das relações dentro da peça. Mas por uma analogia maior,
partindo de que um dos
personagens diz que não enxerga (Hamm), outro dizer que não pode se
sentar (Clóvis), e
dois que dizem que perderam as pernas e por isso estão em latas de lixo
(Nagg e Nell),
você passa a supor que a pessoa que detém o poder na encenação, que
está no centro, e
não enxerga e não caminha, representa que o poder está no centro, cego
e paralítico.
Este personagem é assessorado pelo que não senta, enxerga e anda mal,
ou seja, está no
caminho de também ficar cego e paralítico. Os pais do poder já estão no
lixo, como o
fim de todos nós. A partir desta situação, você pode fazer uma reflexão
maior sobre a
condição humana, isto é, uma "situação dramática" que tem uma leitura
pesada. Você pode lê-la assim, porém o Beckett coloca uma veste
"clownesca",
e nós assumimos isso. É como se essa comédia "clownesca" fosse uma
cortina
que te possibilita ver a realidade de um modo não simplesmente nu e
cru, porque isso
seria somente sublinhar o que já está vermelho em letras garrafais.
Assim, o fim do jogo
na realidade é mais uma charada que você decifra como ela te interessa:
você dizer que
não entendeu, dizer que é uma reflexão sobre o poder, ou dizer
simplesmente que é uma
situação dramática cômica que no final fica um pouquinho pesada.
Com relação ao projeto, ele
nasceu com a estréia em Belém do Pará e o fim do jogo da
vida dele é em Bauru, são duas pontas como se você caminhasse de um
lugar para outro.
Durante o nosso período de trabalho, o diretor sempre falava no
ensaios, "é o fim,
mas o fim é cheio de vida", e nós chegamos ao fim da vida desse
espetáculo cheios
de vida. Não é que ele morre, ele concluí uma fase que é a de
apresentação, mas eu
tenho certeza que o fim do jogo permanecerá dentro de todas as pessoas
que estiveram
envolvidas nesse trabalho, porque ele ecoa dentro de todos nós e vai
continuar.
Pergunta - Como é essa experiência de troca de personagens
entre vocês
dois?
Carvalho - Ele é quem gosta desse troca-troca (risos).
Celulari - É extremamente estimulante (mais risos).
Nós começamos a
ensaiar o espetáculo sem saber o que iríamos fazer, na verdade. Durante
dois meses nós
fizemos assim, até que o Chiquinho (o diretor Francisco Medeiros)
propôs que nós
fizéssemos isso também no palco. Está sendo muito interessante, mas deu
um medo danado
porque isso é muito difícil neste tipo de espetáculo, onde estes dois
personagens têm
uma espécie de código de dramaturgia muito rápido, ágil, em que às
vezes ficamos
atrapalhados com o próprio texto. Então, isso nós provoca risos
internos, que a
platéia não participa muito porque desconcentra, mas que é uma delícia.
Faz parte do
tal do jogo a troca, a exposição ao erro e brincar com isso, aonde fica
claro que a
camisa não importa, a ação do jogo é o que interessa. Numa partida de
futebol, por
exemplo, os centroavantes de equipes opostas trocam as camisas e o jogo
continua. É muito
estimulante, a gente se permite o assalto ao trabalho do outro, dos
gestos, e também
vários pontos escondidos, porque um personagem é cego e a gente o faz
de olho fechado,
então o personagem que está de pé e enxerga leva vantagem sobre o
outro.
E para o espectador, mesmo
para aquele que não possa assistir duas vezes o espetáculo e
não veja a alternância de atuações, mesmo assistindo uma das versões
ele imagina a
outra, o que também é muito estimulante. É a mesma coisa vista de outro
ângulo,
então, na verdade, é uma outra coisa.
Pergunta - Quando Beckett escreveu suas peças do teatro do
absurdo havia
um certo estranhamento de crítica e público quando o espetáculo era
encenado. Hoje,
seus textos são super aplaudidos pela crítica teatral e literária
mundial, mas você
acha que o público já recebe de uma forma melhor?
Celulari - Acho que Beckett nunca vai ser popular.
Bazarcultura - Mas no seu caso há um chamariz muito forte que
são os
trabalhos que você fez na TV. Como esse grande público que assiste você
nas novelas tem
recebido a peça?
Celulari - A primeira coisa é o seguinte, se o produto
não for bom,
pode ser Shakespeare, pode ser ator shakespeariano, global ou ator
internacional, se o
produto não for bom não adianta. Posso te dar quinhentos exemplos de
colegas no auge do
sucesso, em teatros com preços populares, que não tiveram bons
resultados finais e
fracassaram. Como eu já disse, o Beckett não vai ser popular nunca, mas
se tornou um
clássico, já sobrevive a mais de 50 anos, e hoje, para se ter uma
idéia, existem cerca
de 80 espetáculos dele sendo encenados pelo mundo. Há interesse pelo
Beckett então,
entretanto não é o mesmo interesse do público de televisão, mas seja
qual for o motivo
que leve o cidadão ao teatro, seja o nome de um ator ou ator conhecido,
seja porque
existe um filho ou primo seu representando, enfim, o mais importante é
ir, porque o que o
espectador vai ver será teatro, e se não for bem feito ele não vai
gostar. Então, o
melhor divulgador do espetáculo é o boca-a-boca, é quem vê. O Cacá tem
uma frase que
é ótima, que "teatro é um shopping", no qual você deve apresentar os
mais
diversos produtos.
Bazarcultura - Falando nisso, o espetáculo de vocês passou
mesmo por um
shopping em São Paulo (Teatro Folha no Shopping Pátio Higienópolis).
Celulari - É, por exemplo, era lá um produto (riso
amarelo). Também
nos fizemos juntos Molière, um outro tipo de público, agora, é um outro
produto, é o
Beckett. Tem que haver a comédia, tem que haver a tragédia, tem que
haver o teatro do
absurdo, experimental, baudeville, musical, tem que ter de tudo. Aí
você pode dizer
assim, "vamos fazer só o que o público quer", então o ator global só
vai
fazer isso. Isso não existe, eu não quero, paro minha carreira se tiver
que fazer só
aquilo que o público espera de mim. Mas acho que já aprenderam, com os
últimos anos,
que eu gosto de fazer umas coisas meio estranhas, então se é bem feito
o cara vai lá me
ver. Estar fazendo o Beckett é da maior importância para a gente, é por
que isso
fazemos. Agora, que isso seja tão simples quanto fazer uma comédia
popular, é claro que
não é. Mas há público, porque apresentamos o espetáculo de uma maneira
clownesca,
direta, não elaboramos dando esta suposta importância ao Beckett, a
gente não ficou
tentando dar a "pausa beckettiana", "o silêncio beckettiano", a gente
quer é comunicar porque esse texto é importante para as pessoas de
hoje, quem paga o
ingresso tem que entender alguma coisa. Seja o que for que a pessoa
entender, a
comunicação desse texto para nós só tem razão se for direta, sem
adaptação, é o
texto integral.
Carvalho - Acho que o teatro tem pensar a cultura
trazendo para a
população alimento de toda e qualquer natureza, por outro lado, essa
colocação de que
o Beckett é um autor denso, ou como o público vai reagir com isso, em
parte tem
fundamento mas é uma colocação perigosa também, vindo da imprensa e de
um determinado
tipo de intelectualidade que faz essa afirmativa porque pode estar
subestimando a
capacidade de inteligência e emoção daqueles que vão assistir o
espetáculo, é
reduzir a capacidade deles, e isso é péssimo.
Por outro lado, para o
espectador acostumado com a Tanajura na novela das oito, com a
cultura direta que invade as casas via TV, ou pode-se dizer uma
sub-cultura, enfim, se
você só dá esse tipo de opção, você continua alimentando o sono das
pessoas, e isso
é delicadíssimo. Então, é muito bonito quando você vê uma pessoa com
uma bagagem,
com uma capacidade de tocar um projeto muito mais de outra natureza,
optar por fazer o
Beckett, optar por fazer Don Juan do Molière. Através desse tipo de
ação, você lê um
tipo de coisa que não é o usar aquilo que se conquistou com uma
exposição do seu
trabalho, é levar outro tipo de alimento para as pessoas, nesse sentido
com uma função
importantíssima. Nesse caso, pode ser que esse tipo de atrativo, ou
seja, o histórico do
Edson, do Cacá, da Malu, do Lafayette, do Beckett, leve um outro tipo
de público que
possa beber de um outro tipo de espetáculo que normalmente não é
oferecido.
Celulari - Só queria fazer um aparte nisso. Muitas
vezes eu ouvi desse
público de televisão, após o espetáculo, coisas emocionantes, como "eu
nunca
tinha vindo ao teatro, eu acompanho seu trabalho na televisão, te
curto, peguei minha
esposa e vim ao teatro, e ela também pela primeira vez, mas se eu
soubesse que o teatro
era isso, eu teria vindo muito antes". Bacana, não?
Carvalho - E outros podem também não entender, mas não
importa, uma
parte repercute, ecoará numa próxima vez que voltarem ao teatro. Nós
vivemos dormindo,
estamos acostumados, todo dia tomamos Lexotan através da televisão, da
informação, ou
seja, vamos criando um mundo absurdo. É importante que de vez em quando
alguém diga
"ahnn" (faz um gesto de sacudir), aí você acorda no outro dia do mesmo
jeito e
recebe outro "ahnn" (o mesmo gesto), até que talvez chegue uma hora que
você
acorde mesmo. Essa é a tragédia do viver.

Pergunta
- Por que vocês escolheram esse texto?
Carvalho - Porque eu acredito ser importante que de
vez em quando alguém
diga "ahnn" para ver se alguém acorda (risos).
Celulari - Estreamos no dia 4, 5 de setembro o
espetáculo em Belém, e
dia 11 as torres caíram, foi um fim de um jogo. O ACM cai, sai do
Senado, o fim de outro
tipo de jogo. Você pode associar muito.
Carvalho - Sempre existe algum poder que está no
centro e seu jogo vai
terminando. É preciso renovar as cartas e o jogadores.
Celulari - Na Argentina agora, coitados, estão vivendo
isso.
Carvalho - Alguma coisa está acontecendo, alguma coisa
está seguindo
seu caminho. Inexoravelmente vai acabar. Você pode dizer, são só outros
jogadores,
porém terrivelmente talvez faça parte da condição humana subverter as
regras do jogo
para se levar vantagem, se criará um jogo viciado novamente. Talvez
faça parte desse
ciclo. Assim, que sentido tem isso tudo? No fim, talvez a gente olhe
para trás e diga:
talvez isso tudo tenha sido para nada. E será péssimo. Por isso, tenho
que valorizar
cada minuto, eu não posso estar dormindo, tenho que ficar acordado.
Bazarcultura - A partir de Hamm, a figura principal no texto,
podem ser
feitas duas associações com seu nome: o "ham actor", que em inglês
significa
canastrão, e uma referência a Hamlet, um dos personagens mais
importantes da história
do teatro. Esse jogo de palavras é intencional, pois o Hamm tem essas
duas facetas na
peça. Como é o desafio de interpretar Hamm, alguém que navega entre o
egocentrismo tolo
e a plena consciência da existência humana?
Celulari - Na verdade não existe um personagem
principal na peça,
existe aquele que está no centro no palco, e isto não quer dizer que
ele esteja mesmo,
pois ele é cego. Todo o tempo ele pergunta, "estou no centro?", e o
outro diz
que sim, mas como ele pode ter certeza que sim? E essa mutação faz
parte do
"clownesco". O centro é quem mais enxerga. Aquele que está
assistenciando, o
aprendiz, quer ir embora o tempo todo, repete "eu vou te deixar, eu vou
te
deixar", mas não consegue porque talvez exista um interesse dele estar
no centro.
Então, essas impossibilidades, essa aproximação do fim, essa
consciência, essa
crueldade desse tal destino de um nada para um nada, vai dando ao Hamm
uma plenitude que o
faz jogar tudo para o ar mesmo. Essas mutações são referentes a este
jogo que ele
mantém com o Clóvis, e ao contrário também, pois o Clóvis tem um
momento no qual toma
as rédeas do jogo. Procuramos, nessa versão mais "clownesca", acentuar
isso
como um jogo cênico, um jogo de pegada, estimulante também para o
espectador, e não
apenas intelectualmente. Só um se mexe, dois estão na lata de lixo sem
pernas, e outro
está cego e paralítico na cadeira de rodas. Então quando o Hamm pede,
"dá uma
voltinha comigo!", aquele bloco vai se mexer, o centro vai mudar de
lugar, e uma
volta, mesmo naquele espaço mínimo no palco, é uma volta ao mundo, ao
mundo deles. E
existem dois espaços, dois olhos, que são duas janelas, aonde se vê o
lá fora.
Carvalho - E lá fora está tudo chumbo, como Bauru
(risos).
Celulari - Uma janela você vê o mar, a outra a terra.
Toda a hora o
cego quer saber, "como é que está lá fora?" - "Zero, Zero e Zero".
Carvalho - "As ondas chumbo" (risos).
Celulari - Tá feia a coisa lá fora! "E no horizonte?
Nada no
horizonte?"
Carvalho - "O que poderia haver no horizonte para a
gente ver?"
Pergunta - Quais os projetos futuros de vocês, depois de
encerrar a
peça aqui em Bauru?
Celulari - Eu vou descansar algumas semanas e devo
estar fazendo uma
novela na Globo no segundo semestre. Gostaria de tocar um projeto de
cinema, tenho três
convites - no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais - um
deles vou tentar fazer
nesse intervalo. Fiz poucos mas bons filmes, e já faz algum tempo que
eu não participo.
Carvalho - Vou fazer agora o espetáculo "O Homem com a
Flor na
Boca", faço uma curta temporada em Ribeirão Preto, e vou dia 20 de maio
para a
Itália. Ao voltar, no fim de junho, vou direto para Belém dirigir uma
montagem de
Hamlet. Depois, em setembro, um espetáculo que eu fiz assistência de
direção na
Itália, vem para o Brasil abrindo o Festival de Teatro de Porto Alegre.
Pergunta - Vão voltar a encenar o Beckett?
Carvalho - Eu penso em trabalhar de novo com o
Beckett, penso muito
também trabalhar com Pirandello, que eu tenho grande paixão, esses
autores que tocam
alguma coisa que não seja simplesmente um discurso, Calvino, por
exemplo.
Pergunta - O que vocês acham que Beckett deixa ou ensina hoje?
Celulari - Para mim, eu acho que é ver as coisas, os
modos, enfim,
pensar sobre aquilo que você vive, faz, se relaciona. A peça, se você
ver
"Esperando Godot", "A Última Gravação", "Dias Felizes",
"Fim do Jogo", são sobre o mesmo tema, tudo a mesma coisa. Ele insiste,
insiste, e é como se focasse e focasse, e sobrasse o humano, cheio de
sujeiras e
besteiras, quantas vezes risíveis. É por isso que o espetáculo tem esse
filão do riso
presente. Quando o Beckett dirigia suas próprias peças, e passava por
países que não
conhecia a cultura ou que não havia morado, ele chamava um comediante
para assistir um
ensaio e saber se naquela tradução, ou na maneira como estava sendo
encenada uma cena em
particular que deveria resultar em humor, seria mesmo entendida como
humor, era importante
o humor. A exposição do humano risível. Então, eu acho que a
genialidade dele, que o
transformou já em um autor clássico em tão poucos anos, é o que ele
vale nessa
essência, com olhos tão agudos, tão cruéis, duros, verdadeiros, ele
conseguiu ver e
aprofundar coisas que muitos autores abordaram, mas ele fez de uma
maneira que o torna
único.
Carvalho - O Beckett é um grande cirurgião da cegueira
geral, ele nós
faz enxergar, rindo, refletindo, cheio de poesia, crueza, trapalhada.
Através de
situações absurdas, ele te contextualiza, te faz enxergar de um modo
cheio de
inteligência. Os grandes autores só se tornam grandes porque só colocam
a condição
humana.
(Matéria realizada para o site Bazarcultura)