"Uma
forma de encarar a fala humana
é a de considerá-la como um constante
estratagema para cobrir nossa nudez."
(Harold Pinter)
Dois
homens presos num quarto de hotel. Os dois não são amigos, são
empregados de uma organização. Eles apenas aguardam o momento de
realizar seu serviço.
Enquanto esperam, convivem com o tédio, a tensão e a dúvida. Vão matar
alguma pessoa,
pois esse é o trabalho deles, são assassinos profissionais. Esta é a
trama de uma
comédia, mas uma comédia sinistra.
Nos
dias 15 e 16 de junho o Teatro Municipal de Bauru recebeu a peça
"O Monta Cargas" (The Dumb Waiter), do genial dramaturgo inglês Harold
Pinter.
Os dois "matadores" que visitaram a cidade foram os grandes atores
Rubens de
Falco e Kito Junqueira. A tradução e a direção ficaram a cargo de
Alexandre Tenório,
que há pelo menos 30 anos estuda e trabalha com o autor - já traduziu
oito peças de
Pinter.
Ben,
o matador mais velho, acostumado e resignado com seu serviço, é
interpretado por Rubens de Falco. Não poderia deixar de ser. São 51
anos de carreira no
teatro, cinema e televisão, sendo que nesta última ele foi Leôncio, o
maior
galã/vilão dos anos 70 na telenovela brasileira "Escrava Isaura",
depois um
sucesso no mundo inteiro. Nos anos 60, Falco já havia interpretado
Pinter na montagem de
"A Coleção" (The Collection), sob a direção de Flávio Rangel.
Gus,
o mais moço, sem tanta experiência, e que pergunta demais, é
feito por Kito Junqueira, que também é o produtor do espetáculo. A
carapuça de
questionador lhe serve. Seu trabalho mais famoso é polêmico e aclamado:
"Bent"
(1982), de Martin Sherman, conta a história de um homossexual num campo
de concentração
nazista. Lhe valeu os prêmios da Associação Paulista dos Críticos de
Artes de ator e
produtor, e a indicação para melhor ator no Molière. Fora da
dramaturgia, ele foi
deputado estadual pelo Partido Verde em São Paulo entre 1994 e 1998.
Esteve ainda em mais
de 15 telenovelas, entre elas "Por Amor", "Vereda Tropical" e
"Pantanal". Em 25 anos de carreira, esta é a primeira vez que
interpreta
Pinter.
O
Monta Cargas" (nome dado aos elevadores de cargas em
hotéis e restaurantes, e que faz parte do cenário e trama, daí o nome)
é uma peça
onde estão presentes várias das características do teatro de Pinter:
diálogos ágeis e
exatos; a precisão para detalhar os mais ridículos, irrelevantes e
superficiais aspectos
do cotidiano; o sentimento angustiante de que a vida é controla por
forças
incontroláveis e invisíveis; e perguntas, várias perguntas, a maioria
sem respostas.
Diferente
do teatro do absurdo, Pinter não cria situações
inusitadas, porém parte do mais absoluto realismo para atingir o
absurdo. Os dois
personagens que dividem um quarto de um hotel decadente em Birmingham,
Inglaterra, são
assassinos, porém retratados pelo autor de uma forma tão comum que
automaticamente nos
identificamos com eles. E rimos deles. Pinter mostra situações
engraçadas com um alto
teor de contra-senso, mas ao mesmo tempo hiper-reais, que poderiam se
encaixar em qualquer
relação humana. Ou seja, ele faz uma gozação de nós mesmos.
Uma
das disputas mais hilariantes entre Ben e Gus é para decidir qual
a pronúncia certa: acender uma chaleira, ou pôr a chaleira no fogo.
Algo banalíssimo,
mas que faz os dois quase trocarem socos.
Harold
Pinter nasceu em 10 de outubro de 1930 na zona mais pobre de
Londres: o East End. Era de uma família bastante modesta, seu pai era
alfaiate, e jamais
freqüentou uma universidade. Conviveu na infância e adolescência com
operários,
pequenos comerciantes, cozinheiros italianos, pequenos marginais,
enfim, toda uma gama de
gente que leva uma vida muito difícil e verdadeira, como os seus
personagens.
O
jovem Pinter era leitor de Joyce, Kafka, Dostoievski, Eliot e Pound,
além de um fã de filmes de gângsters. Com dezoito anos se negou a fazer
o serviço
militar. Nessa época já decidira torna-se ator. Viajou com algumas
companhias de teatro,
mas para conseguir sobreviver fazia alguns bicos paralelos: garçom,
porteiro em
night-clubs, lavador de pratos e vendedor de enciclopédias.
Em
1957, uma das suas amizades no meio teatral, Henry Woolf, diretor de
um grupo amador da Universidade de Bristol, pediu que ele escreve-se
uma peça, pois
Pinter já havia escrito anteriormente alguns esboços. Surgiu então "O
Quarto"
(The Room), sua primeira peça. No mesmo ano, foi a vez de "O Monta
Cargas". No
ano seguinte, "A Festa de Aniversário" (The Birthday Party), e no
posterior seu
primeiro trabalho para o rádio, "Um Ligeiro Mal-Estar" (A Slight Ache).
Em
1960, escreveu uma peça chamada "O Inoportuno" (The Caretaker), que
depois
seria adaptada por ele mesmo para a TV e o cinema. E continuou nesse
ritmo: até hoje,
Pinter escreveu 32 peças de teatro e 22 roteiros para o cinema, entre
eles o de "O
Último Magnata" (The Last Tycoon, 1977), e "A Mulher do Tenente
Francês"
(The French Lieutenant's Woman,1981).
Algo
que une os vários trabalhos Pinter é a linguagem: um diálogo
natural, muitas vezes cômico e irônico, cheio de expressões populares,
usado por seus
personagens não só para se comunicar, mas também para se atacar e se
defender, às
vezes até não realizando comunicação nenhuma. O que importa é lutar
contra a
realidade que massacra a todos, mesmo que ao mesmo tempo optemos também
por mascará-la
ou escondê-la.
Atualmente
Harold Pinter sofre de câncer de esôfago e vem passando
por sessões de quimioterapia.
Site
oficial do autor: http://www.haroldpinter.org/
O
Bazarcultura participou de uma entrevista coletiva com os atores
Rubens de Falco e Kito Junqueira. Eles falaram de suas carreiras, o
teatro de Harold
Pinter, e sobre o espetáculo "O Monta Cargas":
Bazarcultura - Os personagens
da peça estão isolados num lugar,
obedecendo ordens de um patrão sem rosto e esperando outras. Essa
situação de tensão e
rotina é muito comum nas relações humanas. Vários dramaturgos e
escritores tratam
desses pequenos absurdos cotidianos. Quais as particularidades do texto
de Pinter?
Rubens de Falco - Ele trata realmente dos absurdos cotidianos.
No caso
específico de "O Monta Cargas", são dois profissionais que não se
incomodam
com mais nada, a não ser com aquilo que têm de fazer. Esses dois
personagens não são
amigos, são companheiros de trabalho, eles não têm intimidade nenhuma,
e isso acontece
em toda relação profissional, em qualquer canto. O Pinter mostra isso
com um espírito
muito elevado, isto é, o Pinter está muito acima destes dois
personagens, então ele
pode comentá-los de uma forma muito livre. Na peça, o Ben é um homem
mais velho cuja
vidinha deve ser uma tristeza, ele já está no ocaso de sua carreira de
matador
profissional. Ele diz que trabalha com madeiras e deve ter em casa uma
mulherzinha muito
chata, dois, três filhos. E o Gus é mais instigante, é jovem ainda, ele
quer saber das
coisas, só que ele sabe demais. A relação dois não é fácil, mas eles
continuam, têm
que cumprir a ordem e mais nada.
Kito Junqueira - O que eu também acho muito
interessante é a relação
de muita clareza que o Pinter tem com a vida, da manipulação que o
sistema faz em
relação ao homem. Você o tempo todo obedece ordens, é altamente
manipulado, e quando
questiona alguma coisa tem que pagar um preço muito alto por esse
questionamento. Essa é
uma visão do Pinter absolutamente moderna, apesar de ele ter escrito a
peça nos anos 50.
Hoje nós estamos vendo que a mídia de uma certa forma manipula mesmo,
ela aliena, todo
um processo de banalização da vida. O Pinter de uma certa maneira
mostra isso através
desses dois personagens, dois assassinos profissionais que teoricamente
ou hipoteticamente
seriam personagens extremamente fortes, e na realidade ele mostra a
fragilidade dos dois,
que apesar de terem, digamos assim, a arrogância, o poder de decidir
sobre a vida e a
morte, o quanto eles também estão submissos a um poder maior, ao ponto
de talvez também
serem eliminados.
Pergunta - Dentro do cenário
existe a pontuação do pequeno elevador de
cargas, que dá nome ao espetáculo e é quase um terceiro personagem.
Gostaria que vocês
falassem desse artifício.
Junqueira - A única relação que eles têm com o mundo externo é
através desse elevador que chama monta cargas, que é aquele elevador em
que são
colocadas as comidas nos restaurantes e hotéis e que sobe de um andar
para outro.
Chama-se monta cargas mesmo, a gente até não sabia, descobrimos depois.
Então, eles
têm um contato com o mundo externo, nessa situação em que estão,
através do monta
cargas. É muito interessante, é um terceiro personagem em cena porque
ele tem uma
participação impressionante, até porque inicialmente o público fica
muito assustado.
Até na sua trilha sonora de entrada que é feita propositadamente para
isso. É uma
relação que se estabelece com um elemento inanimado mas ao mesmo tempo
de uma vida
enorme, principalmente para os dois.
Pergunta - Kito, quais são as
maiores dificuldades para um ator que
também atua como produtor no Brasil de hoje?
Junqueira - Nós ainda temos uma política cultural dentro desse
país
muito retrograda. Houve uma época em que era mais fácil produzir, mais
fácil atuar.
Acho que é um momento de uma grande turbulência, você precisa ser muito
corajoso, mas
não pode deixar de maneira alguma de investir na tua carreira e ter a
pretensão de ser
um ponto referencial, e mostrar para a população, para o público de uma
forma geral,
que a arte é dimensionada, não é apenas uma comédia, um drama ou uma
tragédia. É
fundamental, nesse momento que eu acho de turbulência, onde a
mediocridade campeia em
vários setores, é muito importante você trazer um espetáculo da mais
alta qualidade,
com profissionais de ponta, essa coisa toda.
Entretanto, é muito difícil.
A lei Roaunet, por exemplo, é uma boa lei mas ainda tem
muitos furos. Também a cultura do empresariado brasileiro,
diferentemente do que ele faz
na Europa ou nos EUA, que praticamente são as mesmas empresas, no
Brasil ainda existe uma
certa dificuldade em se investir em arte como um todo, ainda não se
conscientizaram que a
arte na realidade é o grande embaixador de um país. Então, a gente
encontra inúmeras
dificuldades, mas isso só serve de estímulo para que continuemos na
nossa estrada e
fazer alguma coisa bastante produtiva.
Pergunta - Kito, você fez uma
peça de bastante sucesso nos EUA chamada
"Bent" (de Martin Sherman), que é uma gíria inglesa que significa
veado, e
depois você dirigiu "Full House" (de Gordon Osmond). Gostaria que você
comentasse esses dois trabalhos fora do Brasil.
Junqueira - Na realidade, o "Bent" foi um sucesso não só nos
EUA mas em todo o mundo. Eu produzi a peça também. Quando nós trouxemos
o
"Bent" (1982) para o Brasil, ele estava proibido na América do Sul
inteira, era
uma época de ditadura militar em toda a região. Foi liberado no Brasil,
e trouxemos o
autor da peça para assistir, o Martin Sherman, que achou o meu trabalho
naquele momento o
melhor que ele tinha visto no mundo. Fui então convidado para fazer o
filme, isso que me
levou aos EUA, saí daqui contratado. "Bent" fala de um homossexual
preso num
campo de concentração nazista, e foi muito interessante porque esse
papel foi feito na
Broadway dois anos antes pelo Richard Gere, e na Inglaterra pelo Ian
McEwan, que foi até
indicado para os dois últimos Oscar, dois excepcionais atores. A peça
fez um grande
sucesso no mundo todo, e nos países que o papel principal foi feito por
heterossexuais é
que ela fez um grande sucesso. Foi muito interessante ter descoberto
isso porque
descobrimos que o homossexual critica o homossexual, e o hetero não
critica, ele faz. Foi
um espetáculo de muito sucesso, uma "mosca branca" dentro do teatro
brasileiro,
nós ganhamos naquele ano todos os prêmios, melhor ator, melhor
figurino, melhor
espetáculo, enfim, tudo o que a gente podia levar de prêmios, e isso me
levou aos EUA.
Quando eu estava estudando na
Universidade de Nova Iorque, e fui contrato pela Fox
Television, na época para ser diretor de programação de eventos
especiais da Fox, eu
recebi um convite do Gordon Osmond, que é um advogado, foi meu advogado
nos EUA, mas
também é um grande autor americano apaixonado por teatro, e ele me
convidou para dirigir
uma peça dele. Inicialmente, ele me convidou para ser um ator na peça,
eu não me achava
pronto ainda com meu inglês e fui dirigir o "Full House" e correr todo
o
circuito universitário dos EUA, costa à costa, que é um circuito muito
forte, descobri
isso, porque as apresentações teatrais nas universidades, nas suas
respectivas cidades e
estados, são muito freqüentadas tanto pelos seus alunos, como também
pelos seus
familiares. Você tem teatro lotado o tempo todo, não é cobrado o mesmo
preço da
Broadway, é uma média de 15, 20 dólares, você faz um espetáculo para
milhares de
pessoas, é muito forte.
Depois, assinei um contrato
com a Character, que é a maior home video do mundo, com sede
em Londres, e a Egonyan Productions, que é a sucursal deles em Nova
Iorque, para fazer
cinco filmes, um deles inclusive com o Anthony Quinn. Eu acabei não
podendo fazer, um
para a HBO, uma minissérie e mais outros três filmes. A propósito, um
filme que foi
feito com muito sucesso, o "House of Cards" (1993), que o Tommy Lee
Jones acabou
fazendo com a Kathleen Turner, eu faria o terceiro papel. Mas eu tive
alguns problemas no
Brasil, de ordem pessoal, e tive de retornar para o Brasil, onde estou
feliz. Foi uma
passagem muito forte, dois anos e meio, muito produtiva para minha
vida, com visibilidade,
com crescimento.
Bazarcultura - E a respeito
da sua passagem pela política (deputado
estadual/SP pelo PV entre 1994 e 1998), o que você tem a dizer?
Junqueira - Eu aprendi muito na política. A política te dá uma
visibilidade muito grande. Você, como em todas as profissões, tem o seu
lado altamente
enriquecedor e altamente frustrante. Claro que a política no Brasil
hoje é muito
frustrante, porque você ainda não consegue idealizar os seus projetos e
realizá-los,
depende de uma série de conjunturas, de um poder que está absolutamente
apodrecido, essa
política do "toma lá, dá cá". Isso foi o que me afastou da política,
mas é
uma grande escola de vida. Infelizmente, nesse momento essas práticas
não têm nenhum
resultado para a comunidade, eu acho que posso servi-la muito melhor
sendo ator e fazendo
meus trabalhos sociais, do que como político fazendo uma política
partidária, antiga,
rançosa, em que eu me sentia muito amarrado, porque sempre gostei muito
de ser
independente. Ir lá para agradar A ou B eu não sei, muito menos o
Executivo, e o
parlamentar hoje no Brasil nada mais é do que um despachante de luxo.
Você vota a favor
do presidente ou do governador, então você tem uma verba X de orçamento
para você
realizar suas obras. Se você votar contra é cortado. Não é a
comunidade, não é a
vida da população que importa hoje na política. Eu diria que 20%
trabalha e 80% é
corrupto, só corre atrás de dinheiro e não quer nem saber.
Bazarcultura - Bom, parece
que você nunca mais vai voltar para a
política...
Junqueira - Não, eu até posso voltar, mas eu sou muito
favorável, por
exemplo, a um regime parlamentarista, que é aonde você cria inclusive
uma dinâmica
muito maior, e não dá a estabilidade de um Executivo, o poder do
Presidente que sobe na
caneta. Você vê o caso da CPMF, por exemplo, foi aprovada no Congresso,
rasgaram a
Constituição em vez de cumprir o prazo normal que ela prevê de 90 dias,
entra em vigor
a partir de um decreto publicado no Diário Oficial. Quando você tem um
movimento
parlamentarista num país, se a comunidade aperta os seus parlamentares,
ela tem o poder
de tirar o Primeiro-ministro de lá e colocar outro. Então, eu acho que
essa turbulência
política, esse problema social, esse problema de violência que nós
estamos vivendo no
nosso país, é porque nós temos políticos altamente despreparados,
corruptos, muitos
comprometidos com o crime e que estão lá dentro sendo financiados e
tudo mais. Eu
voltaria para a política sim, mas de uma outra maneira, não da forma
corrupta que está
aí.
Bazarcultura - A propósito
desse assunto, o Pinter, a partir da década
de 80, tem abordado temas mais políticos em suas peças.
Junqueira - Eu li a última dele, "Celebration", que é muito
interessante. Mas na realidade o Pinter tem uma visão bem inglesa, ele
vive lá, então
tem uma visão de mundo ao lado da Rainha (risos), uma visão que para
nós têm uma certa
dificuldade, porque vivemos um problema social intenso, não que a
Inglaterra não tenha
os seus problemas, mas eles já adquiriram uma educação, uma cidadania,
que
lamentavelmente ainda não temos. Assim, ele pode se dar ao luxo de ter
uma visão até
mais sofisticada de todo um processo sócio-político-econômico.
Pergunta - Rubens de Falco, a
novela "Escrava Isaura" é uma
marca registrada na sua carreira, até internacionalmente...
Falco - É o meu carma (risos).
Pergunta - Fale um pouco disso, isso é bom, isso é mal? O
Leôncio te
escravizou também?
Falco - Eu acho que é muito bom, há um momento na sua carreira
em que
você atinge um ponto e você deve tentar conservá-lo até achar que pode
continuar ou
não. Me aconteceu isso, eu fiz muita novela, fiz muita coisa. O Leôncio
talvez não
tenha sido a melhor coisa que eu fiz, eu acho que fiz melhores papéis,
é que o Leôncio
tinha a marca do folhetim, do grande folhetim - o vermelho é vermelho,
o preto é preto,
o amarelo é amarelo, o azul é azul - quer dizer, não tem nuance
nenhuma. Ele virou o
grande vilão da história da televisão brasileira, porque ele era muito
mal, mas ao
mesmo tempo muito fascinante, e tinha aquela coisa do amor possessivo
por aquele menina,
que cativava muito, esse lado cativava as mulheres, e o lado mal
cativava os homens. Eu
acho que o sucesso da novela é uma coisa que para nós ainda não é
compreensível, para
todo o elenco, a gente não entende bem porque essa novela faz o sucesso
que faz no mundo
inteiro.
Claro, ela tem uma história
muito firme, tinha um elenco de novelas muito bom, a
adaptação do Gilberto Braga é perfeita, a direção do Evaldo dos Santos,
e depois do
Milton Gonçalves, também é perfeita. Tudo certo, e até hoje ela faz
muito sucesso, mas
principalmente no Leste Europeu, na China e em Cuba. Porque ela trata
de dois temas
fantásticos, o amor e a liberdade, e se você pensar um pouco, primeiro
no Leste Europeu
e na China, existe um comunismo que foi imposto, não foi expontâneo,
com exceção da
Rússia, já em Cuba o socialismo foi uma conquista, foi a única maneira
que o povo teve
para se libertar da escravidão americana, pois o país era um "cassino
dos
EUA", eram tratados como escravos. O sucesso da "Escrava Isaura" em
Cuba
foi isso, a liberdade, aquele tratamento dos escravos, eles se viram
retratados nisso.
E foi um sucesso na América
Latina inteira. Eu, por causa de "Escrava Isaura",
fiz uma novela em espanhol na Venezuela e mais três filmes. Hoje eu
vejo aquilo com um
olhar muito menos crítico, já fazem 26 anos. Eu olho e acho que é outra
pessoa, não
sou eu, já mudei muito. É engraçado, eu acho ótimo, pois na época nós
nem
entendíamos muito bem o sucesso que a gente fazia, não soubemos
aproveitar o sucesso da
novela, a não ser por coisas esporádicas, uma novela ali, um filme aqui
etc. A gente
não soube aproveitar no todo. Agora, tem uma coisa que eu acho
fantástica: todo o elenco
de "Escrava Isaura" foi cortado do vídeo. Por quê? É o sistema, não
interessa que o empregado seja mais importante que o patrão. E aí foi
uma queima de
arquivo também, e a gente volta no Pinter (risos).
Bazarcultura - Com isso,
agora você só pensa em trabalhar em teatro, ou
se surgir um projeto bom na TV você pode atuar?
Falco - Não, não. Eu fiz uma produção independente agora em
Brasília
sobre o centenário do Juscelino Kubitschek, interpretei um deputado
não-corrupto
(risos). Foi uma experiência interessante porque, além de estar
contracenando com alguns
atores conhecidos também convidados, conheci atores que eu nunca tinha
visto, lá de
Brasília, e ótimos atores, gente que não está na mídia mas que são
atores
fantásticos.
Pergunta - No cinema também
você participou do "Padre e a filha do
carrasco", não é?
Falco - Sim, mas aquilo eu quero esquecer (risos). Eu fiz
também uma
participação nesse filme que passou agora, "Sonhos Tropicais". No
cinema
também eu atingi um ponto com um filme fantástico chamado "Coronel
Delmiro
Gouveia" (1977), e depois uma participação no "Pixote" (1980). Enfim,
essas coisas me interessam fazer, as outras não porque o cinema te
deixa muito fora,
você não sabe o que está fazendo, a não ser que você faça um
protagonista e tenha
todo o filme na cabeça. Eu gosto de fazer, eu gosto muito de exercer a
profissão, gosto
muito de estar em atividade.
Ontem, inclusive, tinha um
senhor lá em Botucatu (a peça também esteve na cidade em 13
de junho) que absolutamente não entendeu a peça, aí quando eu expliquei
para ele
algumas coisas, ele disse, "ah é, é verdade..." (risos). E depois me
fez uma
pergunta que eu achei muito estranha, e até não respondi direito por
achar que não
valesse a pena, ele disse, "você com a experiência que você tem, por
que você
optou em fazer esse Pinter?". O que você vai responder?! Nada. Depois
eu disse para
ele, "você conhece Londres? Conheço. Você conhece o quê? O Big Ben? O
National
Gallery? E vá lá. Mas não conhece a periferia de Londres, não sabe como
é que vive
aquela gente." Se fizermos uma comparação com a periferia brasileira,
Londres é
muito pior porque é mais velha, tem muito mais tradição.
Pergunta - E você Kito, com
relação ao cinema, você fez
"Pagu", um filme bem emblemático. Você tem outros projetos nessa área?
Junqueira - Fiz "Pagu", fiz "La Lona" (1995), que
inclusive foi primeiro filme brasileiro a entrar na era da Internet. Eu
gosto muito de
fazer cinema, o problema do cinema brasileiro é que ele ainda não é uma
indústria, é
na realidade uma coisa muito artesanal. Você pega os EUA, é uma
indústria de bilhões,
não é nem mais milionária. É uma pena que no Brasil ainda não se tenha
descoberto
esse filão. Eu considero qualquer tipo de arte o embaixador de qualquer
país, não que
os americanos estejam fazendo arte, estão fazendo cinema e divulgando
uma cultura que
eles não têm, mas, enfim, divulgam seu país. Eu gostaria muito mais de
fazer cinema,
fui convidado várias vezes, mas os roteiros que chegaram na minha mão,
realmente... (faz
uma careta) naquela época, inclusive, em que se fazia muito
pornochanchada. Eu não tenho
nada contra, é só uma questão...
Falco - Eu fiz umas vinte (risos).
Junqueira - Eu não tenho nada contra, é só uma questão
de opção,
não me sentia à vontade para fazer. Achava muita besteira, muita
bobagem, não quis
fazer. Se estive muito duro, eu faria. Eu lamento, acho que o cinema
brasileiro deveria
entrar na era indústria, ele é muito artesanal, os produtores sofrem
muito. Aí têm os
pacotes que chegam do exterior e as salas são obrigadas a exibir. Você
poderia ficar com
um filme de grande sucesso por cinco, seis, dez meses, mas não, acaba
ficando 2, 3
semanas por causa de todo um dumping internacional.
Na realidade, como o Rubens
falou, é muito fascinante exercer a profissão, não importa
o veículo. Eu adoro fazer rádio, adoro fazer cinema, adoro fazer
televisão, adoro fazer
teatro. É claro que o teatro é a pátria do ator, é onde ele se
aprimora, porque você
pode fazer todos esses veículos sem ator, no teatro não, sem ator não
tem teatro.
Agora, é muito mais fascinante quando você propõe uma comédia de
qualidade, um drama
com qualidade, um suspense, enfim, e eu acho que isso a nossa peça tem.
Você tem humor,
suspense, o absurdo, a emoção, você tem o conflito humano, o Pinter
nesse aspecto é
muito sábio, e montá-lo hoje, que é considerado o maior dramaturgo vivo
do mundo, para
nós atores é um grande desafio, porque é um autor dificílimo para ser
representado,
ele é cronométrico, matemático. O nosso espetáculo, por exemplo, tem
uma hora de
duração e um dos grandes elogios que a gente sempre recebe das pessoas
é que parece ter
passado apenas quinze minutos, meia hora, fica o desejo de mais. Não
tem elogio melhor do
que as pessoas saírem do teatro querendo mais, porque de repente você
fica uma hora e
parece um século e meio sentado na cadeira, com o Pinter não. E no "O
Monta
Cargas" ele estabelece um jogo com a platéia, são várias pistas, com um
final
absolutamente surpreendente, que até hoje ninguém acertou. Por isso, é
um espetáculo
que você tem que estar atento.
A peça se passa nos anos 50 e
nós fizemos ela toda climatizada, tanto que o nosso
figurino são aqueles ternos de risca de giz, pois são gângsters, são
assassinos. Há
momentos de absurdos em que eles ficam abismados, emocionados, ao
saberem que uma
garotinha matou um gatinho, mas talvez tenha sido o irmão que tenha
jogado a culpa nela.
Eles acham isso um absurdo. Ou, o personagem também não tem nenhum
problema em dizer que
"pô, o nosso último serviço você viu? a mulher se esfacelou toda,
metade pra cada
lado." Então, o Pinter brinca muito com a sua imaginação, e lembra
aqueles filmes
noir, da época da espionagem, em que você tinha que prestar muita
atenção nos
detalhes, e que hoje nós estamos muito desacostumados. A televisão, o
cinema, vários
espetáculos, te dão tudo muito pronto, não exercitam o seu raciocínio,
a sua
imaginação, e fundamentalmente a sua atenção.

Bazarcultura - Você é fã de
filmes de gângsters?
Junqueira - Eu adoro. Não perco um filme de gângsters, de
máfia,
conheço todos.
Pergunta - Eu acho que um
grande trunfo de vocês também é a questão
do cenário, a própria ambientação, e o chão ser vermelho.
Junqueira - E a iluminação do espetáculo, ele tem um chão
vermelho e
a luz inicial é toda vermelha, começa a cena com os dois naquele
quarto. Outra coisa, ao
mesmo tempo que o personagem do Rubens, o Ben, é um cara mais centrado,
que está mais
tempo na organização, é um criminoso mais velho, ele que recebe a ordem
e transmite, o
meu personagem, o Gus, é mais inquieto, ele está questionando, está
sentindo que alguma
coisa não está rolando bem, ele questiona o último assassinato, e na
realidade todo
mundo sabe quando você questiona muito o sistema e tem muita
informação, você passa a
ser um arquivo muito perigoso. É este jogo que se estabelece com a
platéia. Eu
particularmente, e falando pelo Rubens também, acho muito fascinante. E
o Pinter brinca
com você, há momentos, por exemplo, em que nós paramos em cena, e são
pausas
homéricas, há um silêncio enorme, uma característica do Pinter. Isso,
para você estar
no palco, você tem que estar tão inteiro, porque você precisa segurar a
platéia, e ela
fica esperando acontecer, cria-se o suspense. E, de repente, cria-se
uma gargalhada, e no
meio dela, de repente, vem uma porrada, uma pancada. Esse jogo é que é
fascinante e
intrigante no Pinter. Claro, não é um espetáculo abstrato, não é um
teatro do
absurdo, não é nada disso, tem um começo, meio e fim, só que ele tem
pistas e um final
surpreendente.
Falco - A
gente percebe a compreensão da platéia quando tem um riso
baixo. Não é gargalhada, é um riso baixo que comunica a platéia com a
gente.
Junqueira - É um espetáculo que na década de 60, 70 ou
80, o público
estava muito mais preparado. Com esses adventos todos dos meios de
comunicação, com essa
lavagem cerebral toda, há pessoas que nós têm agradecido muito e isso
para nós é um
elogio. Montar um espetáculo com tanta dignidade e com tanto teor
dentro desse espaço
cultural ridículo que nós estamos vivendo hoje. Estamos sendo indicados
para o Prêmio
Shell, uma produção impecável, estreamos um espaço novo em São Paulo, e
agora quero
voltar para São Paulo e fazer um temporada popular também, porque
merece. Sobre isso,
dizem que o preço no teatro no Brasil é muito caro, na realidade não é
muito caro, o
teatro do Brasil é o mais barato do mundo, acontece que tudo é muito
caro para você
fazer teatro no Brasil, principalmente a mídia. Você vai colocar um
tijolinho num jornal
de grande circulação nacional, você paga mais do que o custo do
espetáculo. As pessoas
ainda têm uma mítica com o teatro em achá-lo muito caro, na verdade
hoje o teatro está
custando uma arquibancada ou uma cadeira numerada de futebol, é um
problema cultural
ainda.
E quando você faz um
espetáculo mais barato economicamente e dizem que as pessoas não
gostam, querem esse besteirol todo que está aí, não é verdade, tanto
que públicos de
um poder aquisitivo menor tiveram uma receptividade enorme com o nosso
espetáculo. Dizer
que o povo quer mediocridade, esses reality shows que estão aí, não é
verdade porque
você não veria 100 mil pessoas no Parque do Ibirapuera, em São Paulo,
para ouvir uma
orquestra filarmônica, ouvir o Zubin Mehta, clássicos. O que falta no
Brasil é
exatamente isso, você proporcionar às pessoas menos favorecidas uma
oportunidade.
O espetáculo preenche, é
muito prazeroso para nós fazermos, não parece uma hora para
nós, parecem cinco, porque como ele é muito matemático, não dá para a
gente vacilar
um minuto, inclusive porque ele tem um texto de cenas muito parecidas.
Você pula uma
deixa e acaba pulando a cena toda, e uma cena a menos pode representar
dez minutos a menos
no espetáculo. A linguagem é muito simples, agora a trama não. São
passadas dicas e se
você não prestar atenção você dança.
Durante muitos anos no
Brasil, se intelectualizou muito Shakespeare. "Porra, porque
Shakespeare, não sei o quê!" Aí descobriram que Shakespeare era o
teatro mais
popular que tinha. Ainda no Brasil, se tem uma mística em torno do
Pinter que ele é um
puta intelectual. O Pinter é um debochado, um grande gozador. Ele faz
você fazer uma
reflexão sobre os conflitos humanos com um puta de um humor. Não é um
espetáculo
intelectualizado, ele é difícil sim para os atores fazerem, por que ele
tem um requinte
de interpretação que exige muito. Porém, para o público é um mamão com
açúcar. Só
os grandes atores montam Pinter porque é um grande desafio. Eu demorei
trinta anos para
montar o Pinter na minha carreira, porque não me achava preparado para
isso. E quanto
mais eu faço o espetáculo, mais eu descubro a profunda gozação que ele
faz, ele tira
um grande sarro de uma relação conflituada.
Pergunta - Kito, eu vi um
bate-papo na Internet com você outro dia, no
qual você dizia que hoje achava como novos talentos a Cláudia Abreu e o
Murilo Benício.
Eu gostaria de saber por quê?
Junqueira - A Cláudia Abreu, dessas atrizes novas que eu pelo
menos tive
a oportunidade de acompanhar um trabalho, eu considero ela uma atriz
extremamente
talentosa. Claudinha Abreu, inclusive não conheço ela pessoalmente, mas
ela é muito
talentosa, desde o primeiro trabalho que eu vi dessa menina eu acho
isso, e foi na
televisão, não foi no teatro, depois que fui ver ela no cinema. Ela é
muito talentosa,
muito consciente daquilo que ela faz. E o Murilo, eu vi um trabalho
dele, a uns três,
quatro anos atrás, numa minissérie, na qual ele fazia um cara meio
louco. Você percebe
que ele é um menino, que se for muito bem direcionado, ele tem muito
para dar. Você nota
o talento dele, o interesse, a disciplina, o prazer que ele tem de
estudar e montar o seu
personagem.
Falco - E o Murilo tem uma coisa que é muito difícil
você encontrar em
atores latino-americanos, você encontra nos americanos muito, que é a
força para ser o
protagonista sempre, ele tem uma personalidade muito marcante. Ele tem
aquela coisa do
cinema dos anos 40, 50, aqueles atores Gary Cooper, Cary Grant, tinham.
Eles eram sempre
eles mesmos, mas tinham sempre a característica do personagem.
Junqueira - O ator latino, de uma maneira geral, é
muito passional.
Você pega, por exemplo, o Antonio Banderas, ele foi para Hollywood mas
continua aquilo
(faz gestos exagerados com as mãos). Eu acho que, independente de você
ser latino,
nórdico, anglo-saxão, seja o que você for, você tem que ter uma
linguagem universal da
sua arte. Isso sempre foi uma preocupação minha, por exemplo, desde
quando comecei a
estudar teatro na Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, eu não perdi
um filme do
Marlon Brando, que é o meu grande ídolo, aliás isso é unânime entre os
atores, porque
estamos falando de um gênio, é outra coisa. Eu assisto um filme do
Marlon Brando,
qualquer coisa que ele faça, pelo menos umas dez vezes, primeiro para
assistir o filme,
depois para estudar ele. Você descobre coisas do Marlon Brando e fica
se perguntando, de
onde ele foi tirar isso? Filmes, por exemplo, que ele brinca com o
gestual, em que
primeiro ele aponta e depois ele fala. Então, como eu estou conversando
com você, ele
já adianta o braço aqui porque imediatamente ele vai se referir a isso.
Essa linguagem
universal, acho que poucos atores no Brasil tem. O Rubens tem, ele tem
até uma vivência
internacional disso, mas são poucos os atores latinos com isso. Eu acho
que eu tenho, sem
nenhuma falsa modéstia, esse menino, o Murilo Benício, tem, a Claudinha
Abreu. São
pessoas que com o tempo também vão amadurecendo essa técnica, e é isso
que é legal,
você ter uma técnica universal, não ficar só naquela coisa de grande
rompantes
mexicanos.
Bazarcultura - Nessa
entrevista, foi interessante perceber que a
personalidade de vocês de certa forma bate também com a dos personagens
da peça. O
Rubens, é o gângster/ator veterano, calejado, e o Kito o inquieto, mais
jovem,
questionador.
Junqueira - Quando eu decidi fazer o Pinter, decidi produzir,
a primeira
pessoa que me veio na cabeça foi o Rubens. Não só porque somos amigos a
mais de vinte
anos, já trabalhamos em novelas, já dirigi ele em novelas, mas nós
nunca tínhamos
feito teatro. Mas ele me veio na cabeça por causa da química, o grande
segredo do
sucesso, tanto no teatro, televisão, ou cinema, é a escolha do elenco.
Claro, você
precisa ter um grande roteiro na mão, um grande texto, mas você tem que
encaixar as
peças certas. Evidentemente, se eu fizesse com outro ator, independente
da qualidade,
não estou julgando, talvez não desse tão certo esse casamento por uma
questão de
química. Então, eu precisava de um sujeito que tivesse uma ótima
química comigo, se
desse super-bem comigo, e ao mesmo tempo um grande ator com uma
característica mais
centrada. Eu tenho uma característica muito forte, sou muito inquieto.
O Rubens é mais
quieto. Assim, eu acho que o grande segredo é você pinçar o elenco.
(Matéria realizada para o site Bazarcultura)