| FEVEREIRO 2.001 |
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Papéis Sexuais e a Homossexualidade
Certa noite, de maneira imprevista como sempre, fui à boate The Club em Campinas com alguns amigos meus. Encontramos alguns outros amigos por lá e a noite estava muito agradável. O salão da boate estava lotado, todos se perdendo um dos outros; decidi sair para a área externa para respirar um "arzinho". Assisti a realização de um casamento entre duas lésbicas e disseram-me que outro ainda estava para ser realizado naquela noite. Uma amiga minha então me questionou: "L., cá entre nós e com o maior respeito, mas você não acha estranho de se casarem desse jeito? Uma com vestido de noiva e outra de terno?" Parte da minha resposta: "sim, mesmo para nós que estamos acostumados a viver em meio a tanta diversidade e variedade de estilos, assistir a um episódio como esse nos faz pensar sobre o que realmente ocorre numa situação dessas. Não é meramente uma questão de respeito à diversidade, mas propõe um questionamento sobre o quanto as pessoas, mesmo sem perceber, podem refletir a cultura ou os valores socialmente mais fortes, no caso a heterossexual".
Citei um exemplo de um casamento entre lésbicas, mas tal situação pode ser semelhantemente constatada em outros casais gays. Geralmente se fazem brincadeiras do tipo: "ah, aquele lá é a passivona"; ou então: "aquele ali é a mulher do casal" ou, para as mulheres: "aquela ali é a parte macha do casal", e assim vai. São comentários normalmente inocentes que se fazem em relação aos papéis sexuais entre casais homossexuais, mas que na verdade, têm suas raízes em valores e questões bem mais complexos e discutíveis.
Observando-se as pessoas que iniciam sua vida no meio GLS, frequentando bares ou boates gays, percebe-se que algumas transformações ocorrem no comportamento, na personalidade e na maneira em que se expressa. Lógico que isso não é uma regra geral, mas percebi muitas vezes que algumas pessoas exteriorizavam e fortaleciam comportamentos e estereótipos do sexo oposto, ou seja, homens que se tornavam mais - vamos assim dizer - "afeminados" e, por outro lado, mulheres que se tornam mais "masculinizadas". Daí eu questiono: será que liberamos nossas fantasias e ficamos mais à vontade ao frequentar e estar em um meio no qual somos mais aceitos ou será que na verdade o próprio meio nos cobra um posicionamento de nossa sexualidade que está,por ela mesma, estruturada sobre fortes bases da cultura patriarcal heterossexual? Ou ambos?
No início do meu próprio processo de assumir-me como homossexual (no sentido de reconhecer minha sexualidade e do que eu esperava dela), percebi que no início eu exacerbava esses mesmos estereótipos aos quais estamos submetidos. Por exemplo, eu às vezes preferia andar com roupas mais masculinas, ficava encanada se meus gestos eram masculinos ou não e etc. E isso era tão mais forte entre pessoas que me eram significativas, como meus melhores amigos e minha própria família. Aos poucos, acho que fui me identificando mais com o que eu realmente queria ser, sem me importar muito com o que os outros poderiam pensar. Não vou me alongar muito sobre tais acontecimentos e como tudo isso ocorreu, mas acredito que será um processo constante por toda a vida, não apenas no que se refere à nossa identificação sexual, mas também em outras instâncias de nossas vidas - profissional, sentimental, etc.
Quem nunca se perguntou ou se questionou sobre o porquê de sermos homossexuais? Muitas vezes lembramos com os amigos sobre fatos que nos intrigam, como por exemplo, as nossas brincadeiras e amizades na infância, nossas amizades e relacionamentos na adolescência, nossa convivência e conflitos com os pais e etc. Muitas vezes encontramos diversas coincidências que deixam essa história ainda mais interessante. Muitas teorias psicológicas, sociais ou biológicas procuram explicar o fato da homossexualidade existir. Fato inegável é de que os homossexuais sempre estiveram presentes em qualquer época ou período da história da humanidade. Dessa constatação também poderemos chegar a outra ainda mais inegável: os homossexuais têm o seu papel dentro da sociedade e devem por isso ter seu espaço e o direito de viver assim como qualquer um.
Essa reflexão sobre a homossexualidade também se estende em relação ao o que eu citei como "definição de papéis sexuais". De onde então se produzem tais comportamentos ou papéis? Será que isso vem da convivência, da liberação de nossas fantasias, do cultural, do conflito com nossa identificação sexual? Na minha opinião pessoal, de algo tenho praticamente certeza: refletimos muito da cultura e valores sob os quais vivemos e a questão da sexualidade - assim como a do preconceito - não está de fora. O fato de existirem em alguns casais essa caracterização de papéis sexuais de "homem e mulher" é um reflexo de uma forte cultura heterossexual. Isso pode ainda sugerir o possível desenvolvimento de uma identificação e cultura diversificada para os homossexuais e papéis atribuídos aos casais, trazendo ainda uma nossa significação e simbolismo para o casamento entre gays e lésbicas.
Entretanto, a transmissão dos valores, do sistema social ou da herança cultural são necessários e inerentes ao desenvolvimento humano. Não há como vivermos sem isso. O nosso desafio é estar constantemente atentos e envolvidos na tarefa de selecionar e colocar em prática aquilo que nos será mais produtivo no sentido do bem estar pessoal e, de forma mais ampla, dentro da sociedade que vivemos. E isso é uma tarefa não apenas de intelectuais, personalidades da mídia, sindicalistas ou líderes; é uma tarefa de cada um, que deseja simplesmente viver bem e ser respeitado.
Parte final da minha resposta: "mas quer saber? Se elas estiverem felizes assim e forem felizes de agora em diante com isso, quem somos nós para criticar, né!"