MARÇO 2.001
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Introdução: "Contar ou Negar"

        Conversar com os pais sobre questões íntimas como a nossa orientação sexual nunca foi algo fácil. Mesmo para aqueles que hoje vivem um relacionamento de compreensão e respeito em família mesmo após terem se revelado homossexuais, provavelmente existiram momentos de incertezas, inseguranças e apreensão. Muitas vezes, demora-se anos para isso acontecer, entretanto, ainda bem que existem esses casos felizes.

         Conheço várias pessoas e através do fortalecimento de algumas amizades tenho entrado em contato com diversas histórias sobre essa questão: contar ou negar sua orientação sexual aos pais. Minha conclusão até agora é talvez decepcionante e ao mesmo tempo a que me parece mais real: cada caso é um caso!

         Conheço alguns em que nem foi preciso existir aquele momento decisivo do "contar"; os pais foram normalmente dando dicas de que sabiam sobre o(a) filho(a), mas de maneira que transmitia a aceitação ou da forma que deveria ser normal em uma sociedade que considera-se a homossexualidade como mais uma orientação possível (assim como a heterossexual).

        Conheço outros casos, entretanto, em que a pressão ou a necessidade de contar era tamanha que isso teve que ser feito - assim relatam tais pessoas. Na maioria das vezes, existiu um grande conflito naquele momento, tendo-se que suportar alguns comentários e ardilosas palavras como: "preferia um ladrão em casa do que um gay", ou então: "não acredito! Como minha filhinha pode ser aquela coisa!", e etc... Outra convencional atitude dos pais, é restringir ou tornar rigorosas as saídas de casa. Todo esse processo pode demorar anos para passar. Mas na maioria dos casos em que o "contar" foi extremamente pensado e repensado, tais pessoas relatam de que passando o período mais crítico, a decisão compensava pois não precisariam ficar inventando histórias sobre sua vida pessoal ou então ficarem preocupados que pessoas más intencionadas revelassem sua orientação.

        Na maioria das vezes, encontramos aqueles casos em que os pais desconfiam mas não sabem ao certo o que ocorre com aquele tão misterioso filho. Ou então, casos em que os próprios filhos se ressentem de não contar ou então sentem-se perseguidos em qualquer lugar que estejam. Nessa situação, a questão do "contar ou negar", torna-se ainda mais decisiva.

        Através dessa constatação, gostaria de promover aqui um debate sobre tal questão. Vocês com certeza já passaram por algumas dessas situações; escreva um texto, envie algum artigo sobre, ou então façam um relato pessoal sobre as suas experiências. É uma forma de nos sentirmos também mais à vontade, uma chance de tirar para fora algo que nos toca e vivemos de alguma forma.

        Abaixo, você ainda encontrará a opinião de uma psicóloga publicado no artigo "O Auge do Preconceito: Carentes e Homossexuais" - da Veja; artigo completo está na seção News/Destaques.

        A seguir, leiam já algumas opiniões enviadas ao site sobre essa questão.

Abraços,
Made in Japan - WebMaster
madeinjapan75@aol.com


Como revelar?

        Assumir a homossexualidade para os pais nem sempre é uma boa idéia. "Não há fórmula de bolo para essa situação", explica a psicóloga Maria Cristina Antunes, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Prevenção da Aids da USP e professora da Unicastelo. "Existem pais extremamente rígidos, que não aceitam e vão criar um clima de perseguição em cima do jovem".

        Para ela, o primeiro passo é olhar para dentro de si mesmo e perguntar "por que eu quero contar?". "Tem que pensar no custo-benefício da situação, no que pode acontecer", diz. O melhor é sondar o território, tocar no assunto antes de falar. "Tem de sentir o clima, ver se há espaço."

        Ela lembra que não é o nível sócio-cultural dos pais que vai garantir a aceitação. "Conheço o caso de uma garota que é filha de uma juíza e de um pesquisador. Ela contou que era lésbica e, hoje, é vista por eles como uma doente", diz. "Às vezes, é melhor esperar quando tiver independência emocional, afetiva e financeira para contar aos pais".


Contar ou Negar?

        Quem já não passou pelo grande obstáculo, a família, ao viver sua orientação sexual ? Todos passam, não é fácil ocultar assuntos íntimos dos pais, mesmo que discretos, há sempre aquele suspense e questionamento: "Como é filho, já arrumou uma namorada ?" Ou então: "Filha, por que você não namora aquele rapaz, filho do Fulano, tão educado!"

        Vai se levando, com muita dificuldade, isso quando não pressionam contra a parede, fazendo perguntas diretas. Alguns homossexuais até preferem, pois admitem que há falta de coragem ao desabafar a sua vida sem que haja um começo para tal, como se a curiosidade dos pais ao indagar de forma clara e direta, já indicasse um apoio ou liberdade para contar sobre a sua sexualidade.

        Muitos contam e na pior das hipóteses acabam em clínicas de recuperação, como se a homossexualidade fosse uma doença, outros vão logo à um psicólogo, na expectativa de que tirem da cabeça o desejo homossexual. Precisa de muita força interior para honrar a sexualidade indo contra família, faze-la compreender, é um trabalho longo e exaustivo, nem sempre positivo.

        Há os que obtêm sucesso ao contar, a família simplesmente respeita e nada muda no relacionamento familiar. Aliás, esse é o sonho de todo homossexual, poder ter uma vida ao lado da família e do seu companheiro(a). Romper os laços familiares é o grande temor e motivo para que muitos passem uma vida inteira sem contar.

        Atualmente, os homossexuais estão assumindo mais cedo, o que faz com que os pais possam controlar os filhos financeiramente, e automaticamente, sua vida íntima. Claro que não mudarão a opção e vontade dos filhos, mas conseguirão isolá-lo de todo meio GLS. Quando isso acontece, os dois lados sofrem, os pais e o filho(a), numa atitude inútil.

        Não podemos rotular a atitude dos pais ao ter conhecimento da homossexualidade dos filhos, pois "cada casa é uma casa", tudo depende do relacionamento entre pai e filho ou mãe e filho, e vice versa. A educação, o convívio familiar, pode ser a resposta para o tipo de reação que cada pai tem. Entretanto, todo homossexual sabe no fundo, qual será a reação de seus familiares ao tomarem conhecimento de algo tão natural e ao mesmo tempo "surpreendente".

        Contar ou negar ? Se contar, mudará alguma coisa dentro de casa ? Sim, muita coisa poderá mudar, mas na maioria da vezes, para pior ! Claro, seria um alívio contar e parar de mentir, mas provocará o sofrimento de todos ! A maior vantagem em contar é que descobrirão o motivo de tanto mistério e muitas atitudes incompreensíveis ! Será que vale a pena ? Quem se importa ? O melhor é pensar em você, viver a sua vida e sua intimidade, ninguém viverá ela para você, diga o que os outros querem ouvir e o que farão felizes, pois o lema é ser feliz ! Negue !

Lucy in the Sky


REVELAR OU NÃO PARA OS PAIS???

        Esta é uma pergunta que todo homossexual mais dia ou menos dia, faz para si mesmo: eu devo ou não assumir para meus familiares a minha orientação sexual? Vou começar falando um pouco sobre como foi minha revelação para a família.

        Eu já frequentava as boates e os bares gays de Ribeirão há 5 anos, mas meus pais não me questionavam sobre minha orientação sexual e eu também não sentia vontade de dizer-lhes sobre isto Algum tempo depois, quando comecei a me envolver no movimento gay, fui percebendo que meus pais iriam saber mais dia ou menos dia sobre mim, então fiquei me questionando: E se eles souberem por outras pessoas, não será pior? Será que aí vão achar que eu estava "ocultando a verdade" por não ter revelado antes? Por outro lado, eu não aguentava mais ter que mentir dizendo ser o que eu não era, desmentir sobre meus namorados. É claro que neste momento eu já estava confiante em mim mesmo, sabia o que queria, não tinha incertezas com relação a minha sexualidade, ou seja, já havia assumido para mim mesmo e estava feliz por me amar dessa forma.

        Agora tinha o outro lado, meus pais como todos os outros foram educados em uma sociedade que está acostumada a deixar o homossexual de lado, ou pior, a menosprezar todos os homossexuais. Meu pai então, nem se fala, mineiro de origem e cheio de pré-conceitos em relação a homossexualidade, com certeza era o que daria mais trabalho, mas resolvi falar. Também procurei meus amigos e amigas, buscando opiniões sobre a minha futura atitude e consegui apoio de todos. Cheguei um dia, sentei minha mãe na mesa e comecei a falar. Disse que tinha uma coisa para lhe contar e que na minha opinião ela já sabia. Fui indo devagar até chegar: mamãe eu sou homossexual. A reação dela foi como a de outra pessoa que rejeita os homossexuais, mas agora era "pior" o filho dela era homossexual. Aí vem a grande dúvida: onde errei? É a pergunta que todos fazem, aliás acreditam que eles erraram em alguma coisa, como se a orientação sexual fosse um erro. Depois vêm sobre os amigos, aquele é, a outra também....quase todos, é lógico que homossexuais também têm amigos heterossexuais. Depois quer saber todos os lugares que você vai, como são os esses locais, eles imaginam mil e uma coisas na cabeça.

        Não posso negar que a atitude de assumir-se para a família gera sofrimento pois você ouvirá muitas coisas que você nunca esperaria de seus pais nem de seus irmãos e irmãs. Se alguém me perguntasse hoje se estou arrependido, diria que não, foi uma luta árdua, difícil, conflituosa, mas que venci, também tinha muito a meu favor: os amigos, uma independência financeira e uma grande auto-estima.

        Penso que assumir-se para os pais é diferente de assumir para si mesmo ou para os outros, é necessário que a pessoa esteja com a auto-estima legal, que tenha um bom relacionamento com os pais e que esteja de bem consigo mesmo, afinal de contas quem sofre mais do que os familiares somo nós mesmos, porque não conseguimos aceitar um tipo de pensamento como este que nos impede de sermos felizes. Ser rejeitado pela família não é algo fácil, é muito complicado, mas há um momento na vida em que as outras pessoas que vivem conosco, se realmente no amam tem que aprender a viver conosco dessa forma.

        Novamente reafirmo que tive o apoio de todos os meus amigos, aliás mais amigas naquele momento para que eu pudesse vencer tudo isso e hoje estou feliz, não me arrependo, acho que foi o melhor momento de tê-lo feito. Tive consequências? Claro, como tudo na vida, mas hoje acredito que tenha conseguido pelo menos o respeito dos meus familiares em relação a minha orientação sexual e me sinto de certa forma livre, não estou dizendo que eles aceitaram tudo, claro que não, mas isso é com o tempo e o diálogo. Acredito que cada um é quem deve decidir o melhor momento para assumir-se para os pais. Não fazê-lo em um momento de discussão ou revolta pois será pior.

        Ninguém melhor do que você para saber o momento ideal. Não sou eu nem mais ninguém para dizer que momento será este., somente VOCÊ. Enquanto este momento não chega viva plenamente sua sexualidade, SEM MEDO DE AMAR..

Marcos Lopes de Souza



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