| MAIO 2.001 - Os Onze Sexos |
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Os Onze Sexos - As Múltiplas Faces da Sexualidade Humana Ronaldo Pamplona da Costa |
Publicamos abaixo a introdução desse livro muito especial, escrito pelo psiquiatra e psicodramatista Ronaldo Pamplona da Costa. Especial, pois apresenta uma reflexão sobre a sexualidade humana de maneira ímpar, quase científica, entretanto de forma que todos possam compreender e sentirem-se estimulados a refletir em conjunto.
Sexualidade é o termo que se refere ao conjunto de fenômenos da vida sexual. Ela é o aspecto central de nossa personalidade, por meio da qual nos relacionamos com os outros, conseguimos amar, Ter prazer e procriar.
Entendemos o ser humano como um todo, indivisível. Nossas partes podem e devem ser estudadas em separado, mas não confundidas ou tomadas pelo todo. Quando se implanta uma ponte safena, não se faz isso apenas num coração, um órgão que pulsa e faz circular o sangue pelo corpo.
Na verdade, opera-se um coração que está no corpo vivo de um ser humano, que tem nome, profissão, família, medo inquietudes, dúvidas, necessidades. Não é só o coração que precisa ficar bom, sarar, mas sim o ser humano ao qual essa pequena parte pertence.
Este livro pretende abordar a sexualidade como parte integrante dos seres humanos, som suas sensações, conflitos e relacionamentos sociais. O presente trabalho exclui distúrbios sexuais que aparecem como secundários de doenças mentais.
(...)
Ainda não completamos nossos estudos a respeito da função dos hormônios e das complexas redes do sistema nervoso sobre a sexualidade. Esses aspectos estão inseridos neste trabalho apenas a título de informação geral.
Neste livro estamos apresentando uma visão de sexualidade que não se atém especificamente à vida sexual, propriamente dita, e sim a uma visão mais ampla do ser humano. O papel de gênero, masculino ou feminino, é a base para o desenvolvimento de todos os demais papéis sociais. Portanto, é impossível dissociar esse primeiro papel de gênero da sexualidade, à qual está diretamente vinculado.
A sexualidade é o ponto mais conflituoso, controverso e desconhecido do ser humano. A nossa cultura lida mal com esse importante aspecto da vida e, para agravar, cria modelos estanques nos quais pretende encaixar e classificar as pessoas. Esses moldes, muito dos quais baseados apenas no preconceito e na falta de informação, não nos permitem que sejamos exatamente aquilo que somos ou que poderíamos ser.
A dimensão total do ser humano tem três bordagens básicas que são biológica, a psicológica e a social. Essas tr6es bases são inter-relacionadas e inseparáveis. A abordagem psicológica nos remete à nossa mente, nosso psiquismo, às nossas emoções mais primárias, aos nossos afetos, aos nossos desejos, às nossas fantasias, aos nossos sonhos. O mundo social é um mundo que nos rodeia, povoado de outros seres, inseridos na natureza ou naquilo que o homem a transformou, como as cidades.
O nosso corpo "contém" o psicológico e está no mundo em relação com as outras pessoas. É impossível pensarmos em um desses três compartimentos de forma estanque. O ser humano não pode ser visto só pelo seu corpo, porque sem psiquismo ele está morto.
Um homem apenas "psicológico" também não existe, porque ele se expressa por meio da fala, da postura e do corpo. Além disso, um ser humano, com corpo e mentes perfeitos, não sobrevive se não estiver EM RELAÇÃO com outras pessoas.
Todos, quando nascemos, trazemos dentro de nós três potencialidades a serem desenvolvidas. A espontaneidade é a capacidade de responder adequadamente a uma situação nova ou dar uma resposta diferente a uma situação antiga.
Essa adequação se refere, antes de mais nada, a nós mesmo. Nesse sentido, ser espontâneo é estar presente "de corpo e alma" nas relações existentes a nossa volta. A espontaneidade, por outro lado, é o fator que nos permite ser criativos, ou seja, cria algo novo.
A criança, ao nascer, traz consigo o chamado fator tele em seu psiquismo, que em grego quer dizer à distância, e significa que todos nós, já nos primeiros anos de vida, somos capazes de, aos poucos, ir percebendo as outras pessoas com quem nos relacionamos, da forma mais aproximada possível de como elas são, na mesma medida em que também nos sentimos, e somos, percebidos.
Esse movimento afetivo e emocional de mão dupla é responsável pela dinâmica do funcionamento das pessoas, a dois, a três ou em grupo. Quando essas capacidades inatas não são bem desenvolvidas, em função do ambiente em que crescemos, pode acabar se distorcendo. Essas três potencialidade são "motores" para o desenvolvimento da identidade sexual. Segundo pensamos, esta pode ser dividida em três aspectos: identidade genital, identidade de gênero e orientação afetivo-sexual.
O corpo e o psiquismo precisam do social para se completar. E no social nos expressamos e nos relacionamos através de papéis. Estamos também fazendo uma distinção entre papéis sociais de gênero e o papel afetivo-sexual. Para que possamos exercer a nossa sexualidade em toda a sua plenitude é indispensável que o corpo seja provido das necessidades básicas e o psiquismo tenha os três fatores inatos desenvolvidos. Isso, no entanto, só é possível a partir da convivência com outros seres.
Um ser humano completo só pode ser entendido dessa forma se, além de satisfeitas suas necessidades físicas e psicológicas, tiver garantidos os seus direitos humanos e sua cidadania no exercício de seus papéis.
Precisa fazer valer a sua cidadania numa sociedade democrática e ter direitos e deveres garantidos por leis. Precisa Ter direito ao trabalho, à moradia, à educação, à saúde, ao voto, à participação nos governos e, no tema que estamos tratando, o direito de exercer a sua sexualidade independente da forma como ela se exterioriza.
Isso significa respeito ao corpo e as seus sentimentos, bem como aos das outras pessoas. Se houver um mínimo dessas condições, poderá se desenvolver saudavelmente e assumir papéis por meio dos quais vai se relacionar com os seus semelhantes.
(...)
A cada capítulo você vai se deparar com "fragmentos" que compõem um "calendoscópio". A reunião das escalas que estamos propondo permitirá que você, quando chegar à Conclusão, gire esse "calendoscópio", fazendo surgir as mais diversas "imagens" da sexualidade humana.
Não estamos afirmando que essas "imagens" são definitivas.
Mas são como nós as vemos. HOJE.
O Autor
São Paulo, Setembro de 1994.