JUNHO 2.001 - Bissexualismo
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O Enigma Bissexual

(Fonte: ISTOÉ/1358 - 18/10/95)

        Amor. É a isso que diz respeito, em última instância, a bissexualidade. São pessoas que, como o escritor modernista Mário de Andrade afirmou com poesia e propriedade, um dia descobriram poder relacionar-se sexualmente com árvores e seres humanos de ambos os sexos. Gente que abre seus corações de urna maneira tão abrangente que dentro deles cabe qualquer sexo. A bissexualidade existe desde que o mundo é mundo. A história mostra passagens já na Grécia antiga. Personagens célebres, das mais variadas épocas, deixaram antever, ainda que discretamente, sua opção. Eleanor Roosevelt, mulher do presidente Franklin Delano Roosevelt, o criador do american way of life, viveu um caso de amor tórrido com sua secretária, em plena Casa Branca. Era proibido comentar, mas todo mundo sabia. Antes, nos loucos anos 20, a escritora Anaïs Nin, uma das amantes do escritor Henry Miller, já se relacionava com June, a mulher dele. No cinema, a atriz sueca Greta Garbo ficou conhecida por sua ambiguidade sexual, escondida com a mesma aura de mistério que trazia nos olhos. Ela jamais assumiria a postura da atriz inglesa Emma Thompson, que disse recentemente que adoraria beijar a boca de Michelle Pfeiffer. Manifestações corno essa, que no passado poderiam custar, no mínimo, uma carreira, hoje já não causam tanto espanto.

        É que aumenta o número de pessoas que descobrem essa flexibilidade afetiva e/ou sexual. Nos Estados Unidos, Os que assumem a sua bissexualidade se reúnem em movimentos com força e identidade próprias. Praticamente todas as escolas e universidades americanas possuem agremiações de bissexuais, e os grupos desta orientação já somam 1.400 no mundo todo. A cantora Madonna, musa de uma geração inteira de homens e mulheres, deixou bem clara sua postura no filme Na cama com Madonna (91) e no livro Sex, editado um ano depois. Se no filme as cenas são mais propriamente insinuadas, no livro ela aparece em fotos íntimas com a atriz Isabella Rossellini e várias modelos. Nos passos da rainha pop., a top-model americana Rachel Williams, os cantores Brett Anderson (do grupo de rock britânico Suede) e Michael Stipe (da banda americana R.E.M.) e a atriz Drew Barryrnore, a outrora angelical menina do filme E.T., já se declararam abertos as novas experiências que o contato com pessoas do mesmo sexo pode trazer. 0 verbo que eles usam para definir seu comportamento é transitar. Não se trata de uma opção sexual solidificada, mas de uma espécie de abertura aritmética: cortejar ambos os sexos amplia em 50% as possibilidades de encontrar um parceiro. "Se você consegue aceitar a idéia de que tem um lado feminino e outro masculino, fica mais fácil encontrar o outro", afirma a psicoterapeuta paulistana Lúcia Rosemberg, 38 anos. Separada e mãe de três filhos, ela viveu uma paixão por urna mulher e, no momento, namora um homem.

        "As pessoas estão procurando viver de acordo com a sua sexualidade, seja ela qual for. 0 que interessa é ser feliz, acredita a cantora e compositora gaúcha Laura Finocchiaro, 33 anos. Na sua juventude, ela descobriu-se atraída por urna mulher. Um sentimento capaz de provocar estranheza em quem afinal se considerava uma hetero padrão. "Achei muito legal ter aberto em mim a possibilidade da sexualidade estereofônica." Tal abertura no leque afetivo é capaz de gerar a princípio uma sensação de insegurança nos parceiros. Como se a bissexualidade significasse poligamia. Segundo o psiquiatra Ronaldo Pamplona, autor do livro Os onze sexos, lançado há um ano, a sociedade historicamente nunca viu com bons olhos nem compreendeu os homens bissexuais. "Até hoje eles são identificados com termos pejorativos e de péssimo gosto ou qualificados corno homossexuais não assumidos." Estes, por sua vez, os discriminam por considerá-los traidores da causa gay, enrustidos ou libertinos demais. Por causa disso, muitos bissexuais se sentem rejeitados em duas frentes. Pelos heterossexuais, por serem gays; pelos gays, por não serem gays o bastante. Um exemplo é o filme Go Fish, exibido em circuito comercial no ano passado. De temática lésbica, mostra cena onde um grupo de mulheres realiza verdadeira inquisição com uma amiga que havia transado com um homem.

        No final dos anos 80, a constatação de que mulheres casadas estavam contraindo o HIV de seus maridos bissexuais trouxe a esses homens mais um estigma. Já tinham um, o da promiscuidade, provocado pelo comportamento invisível de quem saía à noite à procura de rapazes ou de travestis. Segundo Olivan de Oliveira, terapeuta especializado em neurolingüística, a Aids incluiu o bissexual no grupo de risco. Com isso, eles ficaram ainda mais escondidos. Hoje, mesmo com o conhecimento de que a transmissão da doença independe da vocação sexual, o antigo preconceito persiste e talvez seja o responsável pela ausência, no Brasil de grupos assumidos. André Fisher, coordenador de um canal de discussão via informática, o BBS Mix Brasil, entende que este nível de organização, como ocorre em outros países, é absolutamente dispensável no Brasil. "Não adianta querer cobrar a postura das pessoas como se faz nos Estados Unidos. As coisas aqui, na terra do Carnaval, são mais liberadas e naturais."

        Depois da revolução sexual dos anos 70, quando Caetano Veloso propagava aos sete ventos que era bissexual, beijando seus músicos durante os shows, a década de 80 trouxe a homofobia provocada pela Aids. Por outro lado, a epidemia obrigou a discussão sobre a sexualidade. Falar de órgaos sexuais e preservativos em qualquer ambiente já não era mais tabu. A questão das opções sexuais tornou-se tão corrente que o diretor editorial de um dos mais influentes jornais brasileiros, Otávio Frias Fuho, da Folha de S.Paulo, escreveu um artigo intitulado "Lesbian Chic" e o publicou no dia 5 de outubro na página nobre do jornal, junto aos editoriais e aos artigos de fundo. Dublê de jornalista e teatrólogo, Otávio discorre com firmeza sobre a constatação de que a partir da Aids, apesar de urna sombria previsão de que a repressão sexual seria urna tônica, nunca o sexo foi um assunto tão livre e legítimo. "Não será surpresa se, dentro de duas ou três gerações, uma grande parte das pessoas, talvez a maioria, for constituída de bissexuais." É claro que tais afirmações provocaram uma considerável celeuma entre os leitores da Folha. 0 próprio Otávio contabilizou uma maioria contrária as idéias expostas por ele.

        Mesmo assim, a cantora Laura Finocchiaro acha que há uma abertura característica da época. "Nos anos 90, todas as verdades estão transbordando. Não há mais como esconder nada." A idéia que rege o novo comportamento sexual é a de que pouco importa orientação. As novas gerações estão ligadas em outros tipos de questões. "Os jovens já não tem mais a tarefa histórica de vencer, de ser heróis. Eles tem uma postura mais aberta e menos idealista", afirma a psicoterapeuta Lúcia Rosemberg. "0 mundo está tão carente de amor que não há sentido em departamentalizar o afeto." Para a escritora italo-americana Camille Paglia, 47 anos, entretanto, a bissexualidade nem sempre é positiva. Ela pode ser apenas um modismo e atingir pessoas mentalmente fracas e culturalmente débeis. "São órfãos de famílias desintegradas, são mais irmãos e irmãs do que amantes. Não se trata de uma sexualidade positiva, criativa, entre personalidades estruturadas. Neste caso, trata-se de uma regressão." Camille assume naturalmente sua bissexualidade e prevê para o próximo milênio esse comportamento como norma universal. Sua observação confirma que, no pantanoso terreno da sexualidade, os modismos tem às vezes bastante influência.

        Tendência, tesão, carinho, curiosidade, circunstância. Esses fatores, juntos ou separados, podem levar uma pessoa a "transitar". A escriturária brasiliense Rosana Figueiredo de Araújo, 24 anos, diz que sentir prazer com um homem é muito mais fácil. "Mas a relação com uma mulher é mais carinhosa e dócil." Como a maioria das suas amigas, ela não descarta a possibilidade de namorar garotos, e até acha que pode um dia se casar e ter filhos, seguindo o figurino da tradicional família brasileira.

        O estudante paulistano João Barreto, 22 anos, admite que pelas mulheres sente urna atração mais sexual. "Com homens, penso logo em carinho, afeto e relações duradouras." Ele acha que ainda não encontrou a pessoa certa. Mas acredita que pode ser tanto um homem como uma mulher. "Para mim, isso ainda é um enigma."

        O próprio termo bissexual e, de certa maneira, um enigma. Qual o limite a ser transposto para um heterossexual ou um homossexual se transformar em um bissexual? Muitos heterossexuais já gastaram neurônios, ansiosos com essa questão. Muitos gays também. Curiosamente, desde 1948, entretanto, o pesquisador americano Alfred Kinsey apresentou uma solução materializada em uma escala, formatada a partir de urna grande pesquisa, e que classificava a sexualidade de zero a seis. Os extremos seriam a heterossexualidade absoluta em zero e a homossexualidade absoluta em seis (veja a escala ao final do texto). Há mesmo muito mais entre os lençóis do que simples casais fazendo sexo. Renato Russo, que já assumiu em letra de música gostar de meninos e meninas, extrapola a escala Kinsey e se autodefine pansexual. 0 que isso quer dizer? Seria um comportamento múltiplo e irrestrito. Já o sexólogo Moacir Costa prefere usar a palavra ambissexual para descrever a mesma confusão. "Trata-se de uma ambivalência, já que o indivíduo nessa condição não está conseguindo se definir." Costa acredita que haverá um momento em que a pessoa necessariamente tomará um só caminho. A tese não é consensual. Para a maioria dos bissexuais, a escolha é mais circunstancial, sem ser promíscua. Depende do dia, da hora, da pessoa que se deseja. Uma questão de momento.

        O processo de descoberta da bissexualidade é diferente para os dois sexos. Camille Paglia observa que há uma maior número de mulheres bissexuais do que homens. "Para a mulher, a revelação dessa possibilidade não é uma passagem traumática." Moacir Costa chega a considerá-las privilegiadas, já que são naturalmente mais liberadas e conseguem fazer uma integração entre o sexo e o afeto de maneira mais harmoniosa.  Certamente   a  educação  diferenciada, que   permite   às   meninas  um comportamento    mais   carinhoso  entre elas

próprias, acaba resultando em maior aceitação do sexo com outra mulher. Os homens aplaudem esse contato que se traduz em sensuais idílios que povoam suas fantasias. Observar duas mulheres em um ato sexual excita a maioria dos voyeurs. Não faltam em filmes, revistas e na publicidade situações lésbicas. Apesar do prazer declarado pela degustação de uma cena dessas, a história é outra quando eles são os protagonistas. Poucas heterossexuais admitem a possibilidade de dividir lençóis com outro homem. O que mostra que, mais uma vez, uma revolução de costumes está sendo impulsionada pela mulher.

 



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