O Quilombola nº 02
Nº 02 - Julho/Agosto 1999

Quando nos propusemos a montar um espaço cultural libertário, tínhamos em mente podermos levar para tod@s, aquilo que através dos anos fomos acumulando de conhecimento e de material relativos às tentativas de emancipação humana. A proposta de um centro cultural autogestionário que tivesse como fim ser um ponto de popularização e de produção cultural, além de servir como local de encontro entre pessoas ligadas às idéias libertárias, para ali compartilhar informações, pensamentos e diversão, desde muito tempo vem rondando nossas cabeças com uma força insinuante.

Pois bem, faz três meses que o Centro Cultural Quilombo Cecília (o nome é uma dupla homenagem ao Quilombo dos Palmares e à Colônia Cecília), vem lentamente atuando, resistindo e progredindo (exceto financeiramente), sendo um centro criador e produtor de cultural libertária. Aqui nós mantemos cursos de inglês, francês, teatro, capoeira, alimentação natural, massagem, desenho, violão e barbearia, todos os cursos administrados por pessoas que com muita boa vontade vem oferecendo um pouco do seu tempo em prol do sucesso dessa proposta emancipatória. Para cada curso nós cobramos d@s alun@s uma taxa de manutenção mensal de R$ 10,00, o que nos ajuda no pagamento do aluguel. Por enquanto temos uma média de 15 alun@s, o que ainda é muito pouco, mas esperamos que com uma maior divulgação, nossos cursos sejam mais procurados. Temos também uma biblioteca que conta com diversos livros. Livros muito importantes sobre literatura, teatro, poesia, política, história, anarquismo, alimentação natural, línguas, entre outros, que estão abertos diariamente à consulta. Além da publicação desse nosso jornal, realizamos eventos e palestras: no dia 28/05/99 apresentamos o recital "Os Malditos", onde foram recitados além de poemas próprios, poesias de Rimbaud, Allen Ginsberg, Artaud, José Duro, Augusto dos Anjos, Baudelaire e outros. Logo após o recital, foi apresentado pelo grupo quilombola Xurume Teatral, a peça "De negão para negão - 500 anos de exploração". Nessa noite de sexta-feira, uma média de 50 pessoas compareceram no Quilombo. Abrimos o mês de junho com o Primeiro Ciclo de Palestras Anarquistas no Quilombo Cecília, no dia 13/06/99, com uma palestra sobre história do anarquismo, colocada pelo companheiro Carlos Baqueiro. A palestra se completou com slides, uma exposição de material anarquista e com a mostra do filme "O ódio". Mais ou menos 40 pessoas se aquilombaram nesse dia. No dia 20/06/99, Everaldo Tavares realizou a palestra sobre teoria anarquista, contando com um aparte da companheira Karina sobre o individualismo de Max Stirner; novamente 40 fugitivos assistiram a palestra e participaram do debate. Ronaldo Oliveira falou falou no dia 27/06/99 sobre o anarquismo na atualidade. Entrando no mês de julho, o Quilombo contou com @s companheir@s do Movimento Libertário de Pau da Lima, para apresentar no dia 04/07/99 uma palestra sobre autogestão, para os quase 40 aquilombados daquela tarde, sempre com exposições e slides. Realizamos no sábado, 10/07/99, um dia de cultura punk, com exposição de fotos, fanzines de todo o mundo, discos e demos, sessão nostalgia, um almoço vegetariano, mostra de vídeos de bandas punks, um debate sobre o futuro do movimento punk e fechamos a noite com um recital de poesias, puxado pelo poeta Edgar Velame, que despejou nas mesas seus poemas viscerais. Ufa! No domingo, dia 11/07/99, os companheiros Marcos (Grito) e Robson nos apresentaram uma palestra / debate sobre a revolução zapatista, dando uma visão geral sobre a situação em Chiapas e mostrando um vídeo sobre os zapatistas. Nosso ciclo de palestras continua nos dias 18 e 25 com os temas religião e homofobia, sempre às três da tarde, com exposição e mostra de vídeo. No sábado 17, foi encaminhada a propsota do comitê de apoio às comunidades zapatistas com a participação de vários grupos que se propõem a trabalhar em favor da libertação humana.

Por essa razão tão nossa conhecida, lançamos às pessoas que tem interesse na permanência do Quilombo Cecília, um apelo para que colaborem, nos enviando materiais que possam ser transformados em dinheiro, como camisas, demos, discos, livros, etc. ou nos ajudando financeiramente, através de nossa caixa postal. Além desse motivo fatídico, aguardamos ansiosos um grande intercâmbio de idéias e prática entre nosso quilombo libertário e os demais mocambos culturais-libertários espalhados pelo planeta. Um beijo libertário, até a próxima.


"Obs.: Esse texto não busca reatar uma temática para análise de ólogos, nem tão pouco se constrói de conceitos demagógicos. Tudo que aqui se manifesta, tem como base a realidade vivida por uma pessoa preta / pobre, que sente na pele a dor da escravidão capitalista. As reflexões aqui propostas, são excitadas pela situação caótica do povo negro, e procura desenvolver nos demais irmãos uma consciência maior sobre o combate anti-racista, para que assim, procuremos agilizar soluções práticas e emergentes para transformação dessa nossa cotidiana fudição. Desculpem a desordenação das idéias, pois é com ódio que me expresso.

Malungo x Malungo - Lamentável confronto

 

Barracos amontoados em morros, pivetes fumando pedra, corpos estirados em desovas, cheiro de merda saindo das valas descobertas, mãe lavando roupa para sustentar sua cria, menina que espicha seu cabelo dito "ruim"... O que será tudo isso? Será a maldição contra os filhos de Cã se fazendo cumprir? Serão consequencias da seleção natural de humanos geneticamente superiores?

Vemos que instituição sistemática do racismo, atua no irrefreado processo de hegemonização neoliberal, mostrando-se como um dos principais e mais eficientes mecanismos de estratificação. Perante tais desigualdades, os adjetivos preto / pobre fundem-se, formando a base de uma sociedade, que compactua das mais diferentes formas, com as atrocidades inerentes ao imperialismo.

As banalizadas manifestações desse tal mecanismo, são fatores que se fazem onipresentes na vida de qualquer negro do terceiro mundo, e apesar de tais evidências manifestarem-se de forma tão crua nossa realidade, somos continuadamente enganados pela miragem de uma suposta harmonia inter-racial, que faz com que vejamos a herança racista da aculturação brancatólica, como "as maravilhas da modernidade globalizada".

"Lê, lê, lê, lê, lê, lê, lê, lê, lê, lê..." É, se vida de preto é difícil, vida de preto/pobre é mais difícil ainda! Mas a partir dessas dificuldades, tiramos a sabedoria para resistir e aprender que, mais do que um pernicioso preconceito estético / racial, o racismo é um conjunto de valores que definem de forma sutil e inteligente, em que mãos o poder fica. Não adianta mentirmos para nós mesmos. Mentiras que dizem que "somos iguais", que a "sociedade brasileira é harmonicamente multirracial ou que o racismo é crime previsto por lei" são milongas que não enchem nossas esfomeadas barrigas.

Na verdade, o direito de sermos natural e dignamente negros sempre nos foi negado e tanto o enquadramento para as exigências do mercado capitalista, como a marginalização são pólos opostos do mesmo joguinho racista. A vontade de ser "gente", faz com que o negro oprimido absorva aos valores branco / burgueses e a alienação da consciência popular, mina nossa resistência tendo como maiores consequencias a trairagem e o egoísmo do negro contra o próprio negro.

É de certo da nossa diáspora que o racismo encontra força para nos fuder com essa mesma intensidade. Na luta pela sobrevivência, às vezes vemos o nosso irmão mais próximo transformar-se no nosso pior inimigo, e essa situação do povo negro só traduz a sistemática política do "dividir para dominar".

A sutileza, como já vimos é uma característica básica do neoliberalismo e os seus ditames, embora quase desapercebidos desaumanizam brutalmente o ser do negro fazendo com que travemos uma luta constante com nós mesmos. A partir dessa crise de identidade, nos dispersamos de um passado / presente de luta e cremos numa simulada e utópica abolição.

Mas será que não enxergamos as similaridades entre ônibus lotados e navios negreiros? Entre detenções e senzalas? Entre multinacionais e engenhos? Entre um "gambé" e um capitão-do-mato?

Será que não percebemos que a lei do ventre livre, a lei sexagenária e a lei áurea, correspondem respectivamente à institucionalização dos meninos de rua, da miséria, da aposentadoria e da exploração operária?

Como "eles" estimulam o consumo de alisantes capilares e cremes clareadores de pele nas mulheres negras> Como a maior parteda população de Salvador canta carnavalescamente que "minha cidade é linda de ver", enquanto diariamente nessa mesma cidade, 3 a 5 pessoas morrem vítimas de uma faxina etno-social?

Será que não tomamos conhecimento do nosso próprio sofrimento? Será que os nossos motivos para lutar já não são mais os mesmos?

Mas chega! O nosso holocausto chegou a um ponto insuportável! Chega de servir com olho vendado, ouvido entupido e boca calada! Chega de humilhações!

Dizer que o racismo vem do negro é comentário preferido de hipócritas racistas e essa nossa desunião só nutre aos abutres que insistem em classificar-nos como uma sub-raça. Então chega de trairagem! Chega de violência desnecessária!

O povo negro precisa de pessoas que amem a negritude e façam dela um instrumento para revolucionar essa generalizada fudição. A construção de uma identidade disvinculada dos valores eurocêntricos ocidentais mostra-se como um importante fator da militância anti-racista e o boicote a esses valores é uma das nossas armas mais potentes. Então chega! Não precisamos do veneno branco / burguês! Não precisamos sangrar o nariz! Não precisamos derreter pedra! Não precisamos de alisantes capilares ou clareados epidérmicos!

Ser negro não consiste apenas em ser preto, nem tampouco a luta anti-parasita resume-se na frase: "Eu não sou racista". A sociedade patrocina o linchamento étnico do negro nas mais variadas formas, e nós devemos estar o tempo todo atentos e conscientes do funcionamento deste mecanismo.

O estupro da negritude, a inculcação sistemática do preconceito, a violência fardada, a sub-vida inumana que levamos... Tudo isso faz com que olhemos a carta dos direitos humanos como demagógicas piadas.

Então chega! Não podemos aceitar sermos eternas cobaias de exércitos, de igrejas e de demagógicos estudos acadêmicos. A nossa luta está para a nossa emancipação, assim como a nossa emancipação estará para nossa libertação. Ogun faz-se presente, a guerra continua e nós estamos nela de qualquer forma. Lavando uma roupa aqui, fazendo outro biscate ali... sobrevivendo, apesar de todas as fudições. E essa luta segue atravessando a séculos de opressão, se mantendo viva naqueles que fazem dela um motivo para continuar resistindo. Mas por outro lado, a escravidão perdura, e o tal gripo de liberdade ainda encontra-se engasgado na garganta dos filhos da periferia, que "contrariando estatísticas", arrastam suas sandálias pelas ruas dos morros, mantendo viva a esperança de um dia podermos ver o povo negro, com a dignidade quel he é realmente merecida.

"MESMO QUE VOLTEM AS COSTAS ÀS MINHAS PALAVRAS DE FOGO, NÃO PARAREI DE GRITAR"


Essa é para você se livrar de vez do extrato de tomate:
Cozinhe 500g de macarrão sem ovos, escorra, lave e separe. Pegue 1kg de melância, descasque, tire os caroços e liquidifique (ou não). Numa panela, refogue com óleo e sal uma cebola, alho, pimentão, coentro e cebolinha, nessa ordem. Junte a melância, abaixe o fogo e deixe cozinhar até engrossas. Ponha o macarrão numa travessa, cubra com o molho, polvilhe orégano e leve ao forno. Sirva com cebolinha aferventada e ervilha refogada.
Bom apetite, livre da tortural animal!


Cultura?

"Conscientização: a cada dia, você se auto-descobrir, refletindo a sua ação conscientiza a ação, revolução..."
(Conscientização, da banda Bosta Rala)

Qualquer um que transite desavisado pelas ruas noturnas de Salvador, hipnotizado pela diversidade de cores e luzes, pelos sabores e calores, oferecidos aqui aos visitantes, certamente não hesitará em afirmar eufórico, que a capital baiana é realmente a terra da magia e da cultura, como nos garantem os imponentes out-doors espalhados pela cidade, por parte do Big Brother.

A verdade é que no circuito oficial de Salvador, a cultura do povo é excluída. Primeiro, pelo fato do imaginário das elites brancalhoras nacionais, ter estereotipado o povo em dois extremos, bastante confortáveis para eles, mas permanentemente prejudiciais a nós outros. Na folclorização burguesa, o povo ou é indigente desdentado, analfabeto e doente na rua, ou é o domesticado que sorridente no palco ou na televisão, cuida do entretenimento da Corte.

Segundo, porque na realidade eles não tem nenhum interesse em permitir que o povo usufrua da sua própria cultura, que devido ao contexto social em que germina, é em si, contracultural e transformadora dos padrões estabelecidos. Esquece propositadamente então, a mídia burguesa, da existência do povo, do samba, que através da dança e da música retratam o cotidiano dos morros e das baixadas, em contraponto à artificialidade do asfalto. Esquecem do povo angoleiro, que incansável, mantém e renova as raízes da subelevação do oprimido, esquece do povo quilombola, balaio, cabano, alfaiate, esquece do povo que faz mutirão, esquece do povo punk, do povo hip-hoper que em suas músicas e atitudes políticas reconstroem uma contracultura de periferia urbana que atinge frontalmente os interesses dominantes. O que eles fazem é supervalorizar a idéia de povo alienado e alienante, dando a falsa idéia de que no processo de conscientização você sobe um degrau hierárquico e se separa de seus irmãos.Então eles nos deixam o fascismo populista dos Ratinhos, as bundas neopagodeiras, as novelas que falam sobre os desamores dos senhores de engenho, as terças da benção do crack e todo esse lixo. Não deixam de cobrar ingressos dos shows turísticos que deturpam nossa cultura, aos turistas, é claro. Quem sai na rua em busca de cultura, corre o risco de dar de cara com as imbecilidades descartáveis tipo Aninha Franco ou Rita Assemany (que sobrenomes lindos), ou ainda de ser barrado na porta de uma exposição, por um subservente capitão-do-mato (vida Casa de Jorge Amado), que lhe dirá: "- Só cumpro ordens!"

Necessário é que, tenhamos a maturidade necessária para que, insistentemente, conquistemos nossos espaços, não na mídia, mas em nossos bairros, em nossas ruas, para que possamos dar um basta nessa oligarquia cultural que impera em Salvador e que visa nos por para sempre na galeria dos aculturados. Para que possamos alicerçar, com nossa cultura contra-cultural, as bases da transformação dessa sociedade em um mundo outro.

"You're the one will got the blues, not me, just wait and see"
(Backlash - Nina Simone)


TEATRO PELA METADE NÃO VIBRA


Estamos na era do computador, do sexo virtual, da violência televisiva. Estamos cada vez mais distante de nós mesmos, do que há de humano. Possuímos vendas nos olhos e cadeados nas bocas, não damos um passo pelo próprio sangue pulsando nas veias. Giramos do lado contrário do que é a vida: a vida como presente, como prazer, como atitude, deixamos que uma série de razões interiores e exteriores nos aprisione até o fim dos nossos dias.

E o teatro? O que é feito do mesmo nas mãos de seres de veias que não pulsam, de gargantas que não soltam gritos de amor, de ódio vibrando nas vísceras, que não esmurram os seus opressores?

O que faz o teatro nas mãos dessa gente que não explode de orgasmos de alegria, que não diz sim diante das possibilidades de tornarem-se autênticas. O teatro resiste, já quieto e à espreita, e, quando algum sobrevivente bondosamente lhe pede a mão, ele o teatro, bondosamente se oferece aos cuidados do grito, do caos, das vísceras que saltam.

O teatro é o sangue que pulsa nas veias, descuidar disso é viver teatro pela metade e toda a sua vida (amor, sexo, comida...) será pela metade!


Este mundo que ofereço
é cheio de partes e endereços
muito largo e confuso
um vasto pasto
este mundo sem tudo
coragem fria de um dentro
que esvazia o mundo
em que ningúem se confia
pois tudo está a regalia
de mentes e doentes
pertencentes ao outro dia
este mundo que ofereço
não tem preço nem tropeço
é o avesso do avesso
onde as coisas estão ligadas
ao começo.

S. ZARATUSTRA


UM SORRISO AOS IMPOSTORES

Que caiam as máscaras
eu já estou cansado
desses sérios hipócritas
desses donos de verdades
Tão ridículas quanto absolutas
que estão sempre prontos a te censurar
quando de um rasgo seu de riso
num momento fúnebre
ou numa lágrima sua suja
no momento em que sorriem histéricos
que te querem sempre presumido
certos que estão das suas unanimidades
que por mais que discutidas
serão sempre burras
estou injuriado
mas só caminho sorrindo
aos impostores com seus out-doors de taipa
vou iluminado na aurora
certo de que por sobre tudo isso
meu sorriso é que vigora.

Mendigo


POESIA

A POESIA
COM SEUS LÁBIOS AVELUDADOS
DÁ-ME BEIJOS DE LÍNGUA
E DIZ-ME AOS OUVIDOS
BRINCADEIRAS LUCIDAMENTE LOUCAS
DEITA-ME EM TRAVESSEIRO MACIO
MAS QUE ÀS VEZES FAZ-ME ROLAR
DE SUORES E FEBRES NOTURNAS
OUTRAS VEZES
CEDE-ME UMA ROSA
AVISANDO DOS ESPINHOS
ARRANCA-ME A CABEÇA
LEVANDO MEU CORPO
A LUGARES ESTRANHOS
DEIXANDO SENSAÇÕES DE MENINA
QUE PERDEU O CAMINHO DE VOLTA PRA CASA
A POESIA
DÁ-ME BOA NOITE
FINGINDO IR PRA MUITO DISTANTE
QUANDO FLAGRO-A, BRINCANDO NOS MEUS SONHOS
A POESIA
VESTE-ME DE UM TOM PERVERSO E ARROGANTE
COMO QUE UM ESCUDO DE MENINA MALCRIADA
A POESIA
ESSA COMPANHEIRA INSEPARÁVEL
DÁ-ME A MÃO E SOMOS JUNTAS
NOS CAMINHOS DE ROSAS E DE PEDRAS

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