Resumo da História
Algumas Palavras sobre o Mahabhárata
Em tempos remotos reinava na cidade de Hastinapura, no país de Aryavartha (hoje Índia), o Rei Vichitravirya
(descendente do grande rei Bhárata, da Dinastia Lunar da Índia), casado com duas irmãs, Ambikâ e Ambâlikâ,
o qual faleceu sem deixar descendentes. Vichitravirya tinha dois irmãos, um só por parte de pai, Bhishma,
e outro só por parte de mãe, Krishna Dwaipâyana1, um grande Rishi denominado
“o Vyasa”, o qual assumiu o trono. Por insistência de Bhishma, Krishna Dwaipâyana tomou as duas viúvas
por esposas (segundo o costume da época) e delas teve dois filhos: Dhritarashtra, o primogênito (cego
de nascença), e Pându, cujos descendentes foram os Kauravas (ou Kurus) e os Pândavas, respectivamente,
protagonistas da epopéia do Mahabhárata. – Os Kauravas e os Pândavas eram descendentes dos Kurus.
De acordo com as leis da Índia, todo príncipe cego, aleijado, mudo, gago, surdo, ou de compleição franzina
ou enfermiça que o impedisse de exercer o poder, ficava excluído da sucessão à coroa, sendo beneficiado
seu irmão mais novo, embora conservasse o direito a um amparo vitalício, de acordo com sua origem real.
Por esse motivo, com a morte do pai, ocupou o trono de Hastinapura o príncipe Pându, ao qual, por direito,
ficou pertencendo o trono.
Dhritarashtra, mesmo cego, contraiu matrimônio, casando-se com Gandhari; consta na história que teve
cem filhos, noventa e nove dos quais eram varões, sendo Duryodhana o primogênito. – Pându se casou com Kunti
(ou Pritha), da qual teve três filhos: Yudishthira (o primogênito), Bhima e Arjuna. De sua segunda esposa,
Mâdri, teve mais dois filhos: Nakula e Sahadeva; seus filhos são os cinco príncipes
Pândavas, heróis desta história.
Pându morreu em plena maturidade, e Dhritarashtra, mesmo cego, por falta de outro herdeiro direto, ocupou
o trono dos Kurus e educou seus sobrinhos (filhos de Pându) junto com seus cem filhos. Quando
os príncipes Pândavas atingiram certa idade, o rei os entregou aos cuidados de um Sacerdote guerreiro
chamado Drona, o qual os educou na arte militar e em todas as ciências necessárias aos descendentes reais.
Terminada a educação, o rei Dhritarashtra colocou no trono Yudishthira, filho de Pându, que já atingira
a maioridade, e era o herdeiro legítimo da coroa.
As austeras virtudes de Yudishthira e a integridade, o valor e a devoção, tanto dele como
de seus quatro irmãos, despertaram o despeito e a inveja nos filhos de Dhritarashtra. Estes, liderados
por Duryodhana, o mais velho, tramaram um plano criminoso para se livrarem de seus virtuosos primos.
Numa cidade próxima chamada Varanavata, ia ser celebrado um festival religioso. Duryodhana e seus irmãos
convenceram os primos e sua mãe a irem ao festival, pois sabiam que eram muito devotos.
Duryodhana, já com propósito de livrar-se dos primos, havia mandado construir naquela cidade um palácio feito
de madeira, cânhamo, resina e laca, materiais inflamáveis. Nele acomodou toda a família, com o intuito
de atear fogo ao palácio enquanto todos estivessem dormindo. Porém, o bondoso Vidura, cunhado de Duryodhana
e de seus irmãos, avisou os Pândavas, e estes fugiram sem que ninguém notasse.
Quando os Kauravas viram o palácio em cinzas, julgaram que estavam para sempre livres de seus primos
e apoderaram-se do trono, pondo Duryodhana a coroa em sua cabeça e proclamando-se rei.
Os Pândavas sabiam que, se Duryodhana soubesse que eles haviam escapado, não descansaria enquanto
não os eliminasse; por isso se refugiaram no bosque levando consigo sua mãe. Aí se disfarçaram
de estudantes brâhmanes, vivendo das esmolas que lhes davam nos arredores. Embora sofressem
inúmeros dissabores e humilhações, sua força mental, seu ânimo e coragem venceram todas as dificuldades
e perigos.
Um dia tiveram notícia de que num país vizinho seria escolhido um noivo para uma linda princesa,
o qual deveria vencer uma difícil prova. A princesa, que deveria casar-se com o vencedor, era Draupadi,
filha de Drupada, o poderoso rei dos Panchalas. Era uma jovem de peregrina beleza e relevantes dotes.
Como era de costume em tais casos, grande era o número de príncipes e nobres que acorreram a disputar
a mão da bela princesa.
A prova era dificílima, e nenhum dos concorrentes conseguiu vencê-la. Então o filho do rei Drupada
levantou-se e exclamou:
— A classe dos Kshatriyas (guerreiros reais) fracassou na prova, portanto serão admitidos a ela
os pretendentes das demais castas, e mesmo que seja um sudra (serviçal) o vencedor, este se casará
com Draupadi.
Entre os brâhmanes estavam os príncipes Pândavas disfarçados, e Arjuna, como era habilíssimo no manejo
do arco, se levantou para tomar parte na prova, vencendo-a na primeira tentativa, conquistando assim a mão
da princesa.
Os brâhmanes são pessoas pacíficas e tímidas e, segundo a lei, não devem tocar em nenhuma arma de guerra,
nem brandir uma espada, e jamais cometer qualquer violência, pois sua vida deve ser uma vida de contemplação,
estudo e domínio de sua natureza interna. Por isso, quando Arjuna se levantou, os brâhmanes presentes
temeram que a ira dos Kshatriyas se voltasse contra eles. Porém Arjuna não desistiu, pois, como sabemos,
ele não era um brâhmane e sim um autêntico Kshatriya, de casta real.
Os príncipes e nobres vencidos se revoltaram ao ver que um pobre brâhmane se casaria com a princesa,
prevalecendo contra a assembléia de reis e príncipes. Resolveram então lutar com Arjuna para arrebatar-lhe,
à força, sua noiva. Porém os cinco irmãos lutaram juntos, e, depois de vencê-los em combates singulares,
levaram triunfalmente a princesa.
Chegando à cabana onde viviam, no bosque, exclamaram alegremente antes de entrar:
— Mãe, hoje trouxemos uma esmola verdadeiramente valiosa.
Como era costume dos cinco irmãos (bons e obedientes filhos que eram) sempre entregar à mãe o fruto
de suas andanças, isto é, as esmolas que recebiam, para que ela as distribuísse irmãmente, Kunti (sua mãe),
sem perguntar nem olhar qual era a esmola, respondeu de dentro da casa:
— Como bons irmãos que sois, deveis reparti-la entre vós igualmente.
Porém, ao sair e ver Draupadi, exclamou assombrada:
— Oh! Que disse eu? É
uma jovem!
Porém já não havia nada a fazer, porque uma mãe, naquele tempo, não tinha duas palavras, e aquilo
que dissesse uma vez teria que ser cumprido. Assim, Draupadi foi a esposa comum dos cinco príncipes
Pândavas2.
O irmão de Draupadi, preocupado pelo destino de sua irmã, sem saber que tipo de gente a havia levado,
seguiu-os de longe e descobriu (ouvindo junto à cabana, protegido pela escuridão da noite, o que conversavam)
que eram Kshatriyas, de casta real. O rei Drupada ficou felicíssimo, porém, por via das dúvidas, quis saber
se era correto que sua filha fosse esposa comum dos cinco príncipes. Consultou um Sábio Vyasa sobre
o caso, perguntando-lhe se era lícito uma mulher contrair matrimônio com cinco irmãos3. O Sábio respondeu que, tratando-se daqueles príncipes, não havia
inconveniente.
Os Pândavas viveram em paz e prosperidade, tornando-se cada dia mais poderosos, em parte devido aos muitos
amigos que, por sua alta qualidade humana, valor, coragem e bondade, foram conquistando nos reinos
e países vizinhos.
Duryodhana e seus irmãos acabaram descobrindo que seus primos haviam escapado de sua armadilha, e continuaram
tramando perversas maquinações para se livrarem deles; porém, todas fracassavam. Os Anciãos do Reino
aconselharam então Dhritarashtra a firmar um tratado de paz com os Pândavas. Aceitando o sábio conselho,
Dhritarashtra convidou os príncipes a voltarem à corte, prometendo dar-lhes metade do reino. O povo
se alegrou com o restabelecimento da paz. Os príncipes concordaram com a oferta do rei seu tio, e edificaram
uma formosa cidade para sua residência, à qual deram o nome de Indra-prastha, estendendo seus domínios
por toda a comarca.
Sentindo-se poderoso, Yudishthira, que fora destronado por seu primo Duryodhana, quis erigir-se Imperador
de todos os reis da antiga Índia. Com esse fim decidiu celebrar um “Yagna Rajasuya” (Sacrifício Imperial)
com toda pompa. Sri Krishna (o Avatar, protagonista da Bhagavad Gita), que era parente e amigo dos Pândavas,
aprovou a idéia.
Acontece que outro rei vizinho, chamado Jarasandha, projetava fazer o mesmo. Sri Krishna aconselhou-os
a resolver a disputa em singular combate4, o que foi aceito por ambos os pretendentes. Depois
de quatorze dias de luta contínua, Jarasandha foi vencido por Bhima, um dos príncipes Pândavas. Tendo saído
vitoriosos os Pândavas, foi celebrado o Sacrifício com grande pompa, e em seguida a coroação de Yudishthira
como Imperador e senhor supremo. Estiveram presentes às comemorações, como convidados de honra,
o rei Dhritarashtra e seus filhos, os quais participaram das duas cerimônias, mal disfarçando seu despeito.
Duryodhana, vendo seu detestado primo no trono, querido e homenageado por todos, encheu-se de inveja
e tornou-se seu declarado inimigo, não podendo suportar seu esplendor e poderio. Sabia que era impossível
derrotá-lo pela força. Como sabia que Yudishthira era apaixonado pelos jogos de azar, encontrou na fraqueza
de seu primo a maneira de perdê-lo. Combinou com seu tio Sakuni, habilíssimo no jogo de dados, um plano
para arruinar Yudishthira, usando dados falsos. Sakuni deveria reter Yudishthira por longo tempo no jogo,
até que ele perdesse tudo que possuía.
Na antiga Índia, diz a lenda, se um Kshatriya fosse desafiado ao combate, era seu dever aceitar o desafio
e combater a todo custo, sob pena de ver menosprezada sua honra. Da mesma forma não podia recusar um desafio
para jogar dados. Dessa maneira Yudishthira não pôde esquivar-se à armadilha, e embora ele fosse a encarnação
de todas as virtudes como Kshatriya e como rei, não pôde deixar de aceitar o desafio de Sakuni. Dessa forma
foi perdendo partidas e mais partidas e, na ânsia de recuperar o que já havia perdido, e na esperança
de uma desforra, foi apostando e perdendo tudo que possuía, inclusive o reino, seus irmãos, e até
a formosa Draupadi. Assim os Pândavas caíram nas mãos dos Kauravas, sendo humilhados ao extremo,
e a delicada e bela Draupadi tratada como escrava e submetida a terríveis humilhações.
Finalmente o rei Dhritarashtra interveio e lhes permitiu tomar posse novamente de seu reino, devolvendo-lhes
a liberdade. Porém o astuto Duryodhana, vendo o perigo, antes de que fosse cumprido esse decreto, forçou
o pai a confiar a decisão a uma última partida de dados entre Pândavas e Kauravas. O grupo que perdesse seria
desterrado por doze anos, no fim dos quais ainda teria que viver um ano incógnito, em outra cidade. Se
o desterro fosse quebrado, sofreria o castigo por mais doze anos, e somente então recuperaria o trono.
Como os dados usados por Sakuni eram falsos, era de se esperar que Yudishthira perdesse, e assim sucedeu.
Os Pândavas tiveram que abandonar o reino e foram viver nos bosques e montanhas onde, por doze anos, viveram
uma vida austera, realizando ações de virtude e valor, empreendendo muitas vezes peregrinações
a lugares sagrados, aperfeiçoando sua vida interior e cultivando os dotes da alma. Muitos Yogues
os visitavam em seu desterro e lhes enriqueciam o espírito com seus conselhos, ensinamentos, narrações
e histórias construtivas. – Muitas dessas histórias e Ensinamentos fazem parte do Mahabhárata.
Porém o ódio de Duryodhana os acompanhou mesmo no desterro, muitas armadilhas lhes foram preparadas,
e muitas ciladas para tirar-lhes a vida foram tramadas contra eles. Porém, todos estes intentos de más ações
dos Kauravas sempre fracassavam.
Quando se aproximava o décimo terceiro ano de exílio imposto aos Pândavas, um Yaksha5, para testar Yudishthira, fez cair como mortos, um a um, seus quatro irmãos
que se aproximaram de um regato para apanhar água. Vendo que seus irmãos não voltavam, foi ele ver
o que havia acontecido. O Yaksha lhe disse que, se ele não respondesse satisfatoriamente suas perguntas,
seria o quinto cadáver; porém, se as respondesse, poderia levar a água que quisesse e seus irmãos
seriam salvos. O Yaksha lhe fez então perguntas de difícil resposta, de fundo profundamente filosófico,
às quais Yudishthira respondeu com grande sabedoria, deixando satisfeito o Yaksha, que lhe disse:
— Eu sou o Dharma, o Deus da Justiça, e vim para pôr-te à prova. Teus irmãos não morreram; tudo foi obra
de minha magia. Posto que consideras a abstenção de toda injúria superior ao prazer e ao luxo, teus irmãos
viverão, ó vencedor de teus inimigos e fortaleza dos Bháratas!
Em suas respostas Yudishthira havia demonstrado ser mais que um filósofo, que um Yogue e que um rei. Ele era
um grande Sábio.
O Yaksha então recomendou-lhes que se refugiassem, durante esse último ano de desterro, no reino de Virat,
e que ali vivessem disfarçados para não serem reconhecidos pelos sequazes de Duryodhana, os quais
os procuravam por toda parte.
Obedientes ao conselho do Yaksha, buscaram o reino de Virat e entraram para o serviço doméstico
do palácio real.
Yudishthira foi o Brâhman (Sacerdote) da corte; Bhima, cozinheiro; Arjuna, disfarçado de eunuco, foi nomeado
mestre de música e dança da princesa Uttara, ficando alojado nas habitações particulares do rei; Nakula foi
admitido como escudeiro; Sahadeva, como boieiro; Draupadi e Kunti, como camareiras, foram admitidas
ao serviço pessoal da rainha.
Assim a família permaneceu unida e conseguiu cumprir os treze anos de desterro, permanecendo incógnita
e livrando-se das perseguições de Duryodhana, que tudo havia feito para descobri-los, sem resultado.
Ao completar o décimo terceiro ano de desterro, havendo os príncipes cumprido estritamente as regras
do que foi estipulado, Yudishthira enviou um emissário ao rei Dhritarashtra intimando-o o cumprir sua palavra,
devolvendo-lhe a metade do reino que novamente lhe pertencia, de acordo com o que havia sido combinado.
Duryodhana odiava seus primos e se negou, em nome de seu pai, a devolver o trono e o reino que, por direito,
lhes pertencia. Em vista dessa negativa, os Pândavas enviaram novo emissário pedindo ao rei que pelo menos
lhes devolvesse a soberania sobre cinco cidades do reino, o que também foi negado por Duryodhana, o qual
respondeu que, a não ser pela força das armas, não cederia nem sequer a terra que desse para sustentar
a ponta de uma agulha.
Dhritarashtra sempre se bateu pelo restabelecimento da paz, porém em vão. Sri Krishna também interveio,
bem como os Anciãos do Reino, no sentido de preservar a paz e evitar uma guerra fratricida iminente,
com a morte certa de guerreiros, amigos e parentes do mesmo sangue. Porém todos os argumentos foram em vão,
e as negociações no sentido de uma justa e pacífica partilha do reino fracassaram. (Veja referência
a este episódio da história e sua explicação na “Introdução ao Estudo da Gita”, nesta primeira parte
do livro.)
Na impossibilidade de fazer a paz, devido à obstinação de Duryodhana, ambos os grupos se prepararam para
a guerra. De acordo com os antigos costumes dos Kshatriyas, todos os reinos belicosos tomaram parte
no conflito.
Yudishthira enviou mensagens aos reis vizinhos solicitando sua aliança, com a certeza de que seria atendido.
Nenhum deles deixaria de atender a um pedido desse chefe honrado, íntegro, justo e sábio, principalmente
sendo um pedido de auxílio no sentido de reconquistar o reino que lhe pertencia.
Duryodhana também lançou mão desse recurso, sendo atendidos ambos de acordo com a precedência do pedido,
como era a norma dos costumes da época. Assim, alguns se aliaram aos Pândavas, e outros aos Kauravas,
disso resultando que cada exército tinha parentes, amigos, mestres, discípulos, pais, irmãos ou filhos
no exército oposto.
Ambos os exércitos buscaram obter a aliança de Krishna, mas Este não tomou parte ativa na contenda, porém
Se ofereceu para conduzir o carro de guerra de Arjuna (Seu discípulo) e atuar como conselheiro dos Pândavas;
como compensação, cedeu aos Kauravas todos os guerreiros que estavam sob Suas ordens.
Yudishthira e Duryodhana chefiavam seus respectivos exércitos. Como comandantes diretos estavam, do lado
dos Pândavas, o valoroso e experto Bhima, filho de Pându e irmão de Arjuna; e do lado dos Kauravas,
o grande Bhishma, o ancião, tio-avô tanto dos Kauravas quanto dos Pândavas6.
Os dois exércitos, pondo-se em marcha, encontraram-se frente a frente no campo de Kurukshetra,
a sagrada planície de Kuru (o Campo do Dever).
A qualquer momento iria começar a batalha, pois em ambos os exércitos os combatentes, cheios de impaciência,
formados em ordem de batalha, já tinham armados seus arcos, esperando somente a ordem para começar o combate.
Em tão críticos momentos, Arjuna pede a Sri Krishna para postar Seu carro entre os dois exércitos, a fim
de que ele possa avaliar o poderio de ambos, e principalmente daqueles contra os quais deveria lutar.
Ao contemplar os dois exércitos de perto, prontos para a batalha, ele se acovarda e, cheio de dor
e sofrimento, horrorizado ao ver seus parentes e amigos como antagonistas integrando ambas as hostes,
deixa cair seu arco e declara a Krishna que se deixará matar sem resistência, antes de levantar sua arma
contra aqueles em cujas veias corria o mesmo sangue que o seu. Krishna (o Homem-Deus, que guiava seu carro
de guerra) faz Arjuna ver seu lamentável erro ao adotar semelhante resolução, expondo-lhe então
os sublimes Ensinamentos da Bhagavad Gita (o Canto Celestial). Aconselhado por Sri Krishna, Arjuna
desce de seu carro e entoa o Hino de adoração à Deusa Durga7 (um dos Aspectos da Suprema Deusa Yoga-Devi)
e, fortalecido pela Graça da Iniciação conferida pela Deusa, se sobrepõe ao anterior estado de debilidade
emocional em que se encontrava, toma parte ativíssima na batalha, e os valorosos príncipes Pândavas vencem
a guerra8.
Pereceram no combate Drona, Karna, Duryodhana com todos os seus irmãos, e milhares de guerreiros
de ambas as partes. A guerra durou dezoito dias, terminando com a morte de Duryodhana e a vitória
dos Pândavas.
Com a vitória obtida no campo de Kurukshetra, Yudishthira recuperou o reino e o trono de Hastinapura.
Bhishma, o sábio e venerando guerreiro (o ancião tio-avô dos Pândavas e dos Kauravas, e que educou
os príncipes Pândavas), que foi gravemente ferido no décimo dia da batalha, deu a Yudishthira
(em seu leito de morte), instruções a respeito dos deveres de um rei, das quatro castas, das quatro etapas
da vida humana, das leis do matrimônio, da concessão de favores, etc., baseado nos Ensinamentos dos antigos
Sábios, preparando-o para ser um rei justo, bom e sábio. Explicou-lhe também as filosofias Sankhya
e Yoga, falando-lhe sobre as numerosas tradições referentes aos Deuses e aos reis.
Esses ensinamentos formam a quarta parte do Mahabhárata, e são um grande conjunto de leis, costumes
e códigos de moral da antiga Índia.
Yudishthira foi coroado rei pouco tempo depois, porém em seu coração pesava o sentimento de culpa
por tanto sangue derramado, pela morte de tantos parentes, mestres e amigos. Celebrou, por isso, aconselhado
por um Vyasa, um grande Yagna (ritual de sacrifício) e muitas austeridades.
Dhritarashtra viveu mais quinze anos no palácio, honrado e obedecido pelos príncipes seus sobrinhos.
Sentindo-se velho e enfermo, retirou-se para o deserto em companhia de sua abnegada esposa e de Kunti,
a mãe dos Pândavas, para terminar seus dias como asceta.
Depois de trinta e seis anos de reinado, Yudishthira soube que Krishna, seu Divino e Sábio amigo e parente,
havia deixado o plano físico. Havendo sido comprovada Sua partida, ele e seus irmãos ficaram
muito consternados, e declararam que também eles se retirariam, pois havia chegado a hora de empreender
sua caminhada final, em busca de seu amado Divino Amigo.
De acordo com os costumes da Índia antiga, quando um homem chegava à decrepitude, devia renunciar
às coisas do mundo e retirar-se para o ascetismo, ou empreender viagem, a pé, até os Himalayas,
em completo jejum, com o pensamento firme em Deus, até morrer de inanição. Era crença de que para se chegar
ao Céu (de acordo com a Mitologia Hindu), era necessário atravessar os altos picos dos Himalayas,
além dos quais se acha o Sagrado Monte Meru, em cujo cume está o Céu, a Morada dos Deuses.
Os cinco príncipes e Draupadi, tendo à frente Yudishthira, empreenderam a sagrada viagem com a roupa do corpo,
sem levar nenhum alimento, já que deveriam todos guardar estrito jejum. Durante a caminhada notaram
que um cão os acompanhava. Seguiram caminhando, chegaram aos Himalayas, e já avistavam o Monte Meru
quando a rainha Draupadi caiu morta. Bhima avisou Yudishthira; ele chorou, e respondeu sem olhar para trás:
— Vamos ao encontro de Krishna e não há tempo de olhar para trás; sigamos em frente.
O mesmo foi sucedendo com seus irmãos, os quais foram morrendo um a um, e Yudishthira chorava e seguia
em frente, sem olhar para trás. Por fim, só o acompanhava o fiel cão, que não o abandonou um só momento.
Os dois caminhavam sem se deter, subindo encostas, de cume em cume, através do gelo e da neve, até chegar
às faldas do Monte Meru, onde o rei ouviu celestiais harmonias e recebeu copiosa chuva de flores
que os Deuses derramaram sobre ele.
Neste momento desceu do Céu o Deus Indra na carruagem dos Deuses e lhe disse:
— Sobe nesta carruagem, ó tu, o mais excelso dos mortais! Somente a ti é concedido entrar no Céu em corpo
e alma.
Ele respondeu que não queria entrar no Céu sem seus irmãos e Draupadi; Indra lhe respondeu que eles
já estavam lá.
Então Yudishthira fez sinal ao cão para que subisse na carruagem com ele. Indra, assombrado, lhe disse
que afastasse o cão, pois que a um cão não era permitido entrar no Céu, e lhe perguntou:
— Que vais fazer, ó grande rei, tu que és o mais virtuoso da raça humana, e a quem foi permitido
o excepcional privilégio de entrar no Céu em corpo e alma? No Céu não é permitido entrar homens acompanhados
de cães; deves abandoná-lo sem receio de cometer uma injustiça.
Yudishthira lhe respondeu:
— Sem o cão não irei para o Céu; nunca abandonarei aquele que me acompanhou fielmente, que se aliou a mim
e não me abandonou quando a rainha e meus irmãos morreram. Comigo ele estará enquanto eu viver. Jamais
me afastarei da retidão, nem pelas delícias do Céu, nem pelas insinuações de um Deus!
Disse-lhe então Indra:
— Somente com uma condição ele entrará no Céu. Tens sido o mais virtuoso dos mortais, e o cão um devorador
da carne de outros animais. Ele está cheio de pecados por haver destruído outras vidas. Renuncia tu ao Céu
e o cão entrará em teu lugar.
Yudishthira disse:
— Aceito. Que o cão vá para o Céu em meu lugar!
Ao pronunciar Yudishthira estas palavras, o cão se transformou no Deus Yama, o Senhor do Dharma, da Justiça
e da Morte, o qual se havia disfarçado em cão para provar Yudishthira.
Disse Yama:
— Ó Rei, jamais houve homem tão abnegado como tu, pois quiseste renunciar ao Céu e anular tuas virtudes
em benefício de um cão, condenando-te ao inferno ao assumir seus pecados. És nobilíssimo, ó Rei dos reis!
Tens compaixão de toda criatura, ó digno representante dos Bháratas! Desde já são tuas as regiões
da Felicidade Permanente. Tu as conquistaste, e o Céu é teu!
Yudishthira, Indra, Yama e outros Deuses presentes se dirigiram para o Céu na divina carruagem.
Lá Yudishthira passa pelas Provas Iniciáticas, banha-se no Ganges do Swarga, e adquire um corpo celestial.
Encontra-se com Draupadi, com sua mãe e com seus irmãos, e todos vão ao encontro de seu amado Senhor
– Krishna – e gozam de eterna felicidade.
Assim termina o Mahabhárata.
É claro que Bhagavan Sri Krishna e Arjuna, apresentados na Gita como Mestre e Discípulo, os quais foram
Avataras de Naráyana e Nara, não vieram à Terra somente para trazer aos homens a Mensagem
contida no Sagrado Diálogo da Bhagavad Gita, cujos transcendentais Ensinamentos são a expressão
do Yoga-Brahma-Vidya (ou Ciência Sintética do Absoluto). Porém, se o legado de tal tesouro fosse
Sua única missão, já seria, por si só, uma grande bênção para a humanidade.
Sendo Sri Krishna um Mahavatara do Senhor Naráyana (segundo os Śuddhas),
e Arjuna Avatara de Nara, o Representante e Porta-voz da humanidade perante o Ishwara terrestre,
Suas presenças no mundo foram uma gloriosa bênção para os homens. Eles vieram à Terra no limiar da Kali-Yuga
para restabelecer o Dharma (a Lei), num dos períodos mais críticos que atravessava a humanidade,
em que imperava no mundo o Adharma, levando a civilização daquela longínqua época, a passos largos,
em direção à decadência e degradação total. A Missão e atuação de Sri Krishna anterior à Gita, isto é,
à batalha relatada no Mahabhárata, tem sido pouco divulgada no Ocidente, pois o conhecimento da literatura
que existe sobre as maravilhas de Seu nascimento (as circunstâncias em que se deu), e de Sua vida e atuação
como Avatara (desde a infância à juventude) no desempenho de Sua grande Missão, bem como sobre
a impressionante semelhança de Seu nascimento e de muitas passagens de Sua vida com a história da vida
de Jesus, é privilégio de relativamente poucos, apesar do grande interesse atual pela Literatura Oriental.
A Missão dos dois Avataras, cujos ecos chegam até nós, foi sublime, culminada pelo Sagrado Diálogo da Gita,
o qual sintetiza toda a essência dos Ensinamentos, códigos de moral, e todo o roteiro que devem seguir
aqueles que buscam a Realização Espiritual e a conseqüente Liberação (Moksha), não somente
para os Egos evolucionantes no planeta naquela época longínqua, como também para a civilização atual
e vindouras. Seus Ensinamentos são a expressão do Sanátana-Dharma, isto é, da Eterna Lei
(ou Śuddha Dharma), a Lei Pura, benéfica para todos os seres, em todos os tempos e lugares.
Apesar de Sri Krishna ser referido no Mahabhárata como um Homem-Deus, um Ser
de altíssima evolução espiritual, as referências a Ele neste resumo são muito pobres em detalhes e dizem
relativamente pouco sobre Sua gloriosa vida, sobre Sua grandeza e atuação como Avatara
dos mais elevados que já desceram à Terra.
Do grande legado desses dois transcendentes Seres que desempenharam os papéis de Sri Krishna
e de Arjuna, a Bhagavad Gita é o mais precioso tesouro, a jóia mais valiosa. A sublime Missão
que desempenharam no mundo (da qual o tempo não pôde apagar a história), jamais será esquecida
pela humanidade, pois sua memória será sempre alimentada pela maravilhosa Mensagem da Gita, a qual
tem sido zelosamente cuidada pelos Mestres da Divina Hierarquia, através dos milênios, para
que chegasse aos nossos dias em toda a sua integridade e pureza originais. Não temos dúvidas de que Eles
continuarão cuidando para que ela chegue também às civilizações vindouras, tão íntegra e fiel como
a recebemos agora de Suas amorosas mãos.
A história do Mahabhárata, e o porquê da batalha realizada entre parentes descendentes do mesmo ramo
de uma família real para disputar um trono, parece não ter sido considerada muito importante
pelos inúmeros tradutores e comentaristas da Bhagavad Gita tradicionalmente conhecida entre nós. Como é
uma Obra monumental (o Mahabhárata), porém relativamente pouco conhecida do grande público ocidental
e talvez do mundo inteiro (a não ser de nome, pois poucos a possuem), achamos que seria interessante, para
o leitor que não a conhece, saber algo sobre ela, ainda que superficialmente, super resumida como
a apresentamos aqui. Assim o leitor entenderá melhor a Mensagem da Gita, conhecendo algo de cada personagem,
e entendendo a trama dessa história mesclada de lenda e misticismo, cujo final é tão belo e tão poético
que consegue enternecer e comover a alma, pelos exemplos contidos nela, de nobreza, de fé
e confiança absoluta n’Aquele Divino Amigo, o Homem-Deus, Bhagavan Sri Krishna, o Qual foi, na antigüidade,
e ainda hoje é, na Índia e no Oriente, o mesmo que Jesus é para nós ocidentais na atualidade, bem como
para todos os Cristãos no mundo inteiro – veja no Glossário o termo Avatara.
H. T. W.
Algumas Palavras sobre o Mahabhárata