T a b l o [ i ] g
Domingo, 04 de julho
de 2004. 23h50
CELEBRAÇÃO E SAUDADE
A gente é arrancado de uma porção
de coisas e está no mesmo lugar, diz Guimarães Rosa.
Tal sentença, a que ele aplica ao personagem Miguilim,
contém uma verdade que se verifica não apenas nas
grandes tragédias, nas escolhas cruciais da vida, mas nas
pequenas saudades e distâncias, nas mais corriqueiras situações.
Há dois dias atrás, aniversariou a mulher
de minha vida. E como eu queria estar junto dela, celebrando os
seus 26 anos, com a alegria e o maravilhamento pelo simples fato
de sua existência, de sua vida pulsante, radiante, cintilante!
Mas as contingências não me trouxeram no rastro,
na sucessão da existência, esta oportunidade.
Por
isso, envio meu abraço, me beijo e meu melhor sorriso (juntamente
com minha melhor roupa) codificada em bits e bytes, que poderão
ser decodificados por qualquer computador em que ela estiver.
Assim, ela poderá decodificar o meu amor!
Parabéns, minha amada Cynthia!!!
Sexta-Feira, 30 de abril
de 2004. 15h00
SOBRE FÉ
Alhures escreveu Rousseau e já tomei nota
de suas palavras compreender "porque os que moram em
cidades, e só vêem paredes, ruas e crimes, têm
pouca fé (ROUSSEAU, J. J. As Confissões.
Livro XII, p. 582). Tais palavras muito me impressionaram e julgo
cada vez meis ter a nítida percepção do seu
sentido.
A fé evaporara no seio de uma grande metrópole,
entre paredes, asfalto e concreto. A fé esmoreceu ao sentir
a frieza das pessoas, a distância mantida fechada atrás
das portas dos apartamentos; ao ver o céu entrecortado
de janelas dos edifícios e pouco da amplidão azul
para ser admirado.
Não tenho certeza se o concreto dos edifícios,
a artificialidade da orla aterrada, tão simétrica,
tão geométrica, tão distante de suas naturais
sinuosidades são responsáveis por essa descrença
adquirida no livro das imanências, essa desconfiança,
essa incerteza até em relação às coisas
que podem ser vistas e tocadas, que são sólidas,
mas se desmancham no ar das desilusões. Não sei
se, quando o olhar está imerso somente no universo humano,
na materialidade dos problemas estruturais, das descrições
físicas, biológicas, sociológicas das massas
(de matéria, de células e das gentes), o olho perde
a capacidade de perguntas às coisas sobre o Criador, "consisitindo
a pergunta em contemplá-las e a resposta em sua beleza"
(AGOSTINHO, St. Confissões. Livro X Cap. 6). Isso
porque contemplar a cidade não é contemplar só
a genialidade do gênero humano, mas também a utilitária
forma das coisas, onde nem sempre assiste a beleza, posto não
haver beleza utilitária, posto que a beleza se dá
gratuitamente à contemplação dos sentidos
dispostos a contemplá-la.
Não sei se o fato de meus pés já
há muito desconhecerem a textura de um chão de
terra ou areia , só experimentarem a lisa indiferenciação
de pavimentos e não poderem se sentir raízes para
penetrarem e se irmanarem à terra contribui para a descrença.
Quem não tem raízes pode também não
ter certezas.
Onde minhas certezas telúricas?
Segunda-Feira, 19 de
abril de 2004. 21h45
CONSIDERAÇÕES INTEMPESTIVAS SOBRE UMA
VITÓRIA
O que faz com que nos alegremos com uma conquista que,
racionalmente, não é nossa?
Se o conceito de Estado-Nação, como argumenta
Benedict Anderson em Imagined
Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism,
depende do desenvolvimento dos meios de comunicação
(especificamente da imprensa) que integram diferentes falantes
de uma mesma língua, que passam a se conceber uns aos outros
como uma comunidade, uma comunidade imaginada, não é
muito diferente o que acontece em relação a uma
torcida de futebol. Uma relação identitária
é erigida e passamos a nos comportar como se determinados
eventos fossem intimamente ligados a nós, a todos quantos
se integram a esta relação.
O Flamengo "levantou poeira" e venceu o Vasco
por 3 x 1. É uma conquista que, diretamente, não
tem relação real comigo. Mas estou muito satisfeito
com essa vitória, como se minha fosse. Hoje, ao encontrar
o porteiro do prédio no qual eu moro, certamente eu ou
ele diremos: "nós ganhamos". A um vascaíno,
diríamos: "vocês perderam". E tudo isso
é uma relação imaginada, pois, em verdade,
nem eu nem o Victor (o porteiro) estivemos lá no local
do jogo (a relação é mediada por um meio
de comunicação de massa, que nos integra) e, inda
que estivéssemos lá, como torcedores, entre os mais
de oitenta mil que estiveram no Maracanã, não poderíamos
dizer, de fato, que nós ganhamos. Podemos dizer, ao acompanharmos
a vitória do Flamengo sobre o Vasco, que vimos vencer o
time de nossa predileção. Mas isso parece frio!
Efetivamente, sofremos se o time de nossa predileção
perde, e nos alegramos, quando se dá a sua vitória.
Por quê? A relação se torna apaixonada, como
uma relação patriótica (a idéia de
morrer pela pátria é tão estranha quanto
esta que ora exponho).
Isto para mim se constitui um mistério. Por que
é tão bom conquistar um título, ou antes,
ver o time do Flamengo conquistar um título em cima do
time do Vasco?
P o e i r a !
P o e i r a !
P o e i r a !
L e v a n t o u p o e i r a ! . . .

Domingo, 18 de abril
de 2004. 21h20
POEIRA! POEIRA! POEIRA!
LEVANTOU POEIRA!

Não é preciso dizer mais nada, não é? FLA 3 x 1 VAS É C A M P E Ã O !
Quinta-Feira, 15 de abril
de 2004. 11h55
TEXTO DE 02 DE ABRIL DE 2004
QUANDO DE MINHA VIAGEM A CABO FRIO
Cabo Frio de minhas adolescências permanece a mesma, não
obstante as marcas da passagem do tempo. Há quanto tempo
não pisava naquela plaga! E, principalmente, há
quanto tempo eu não a sentia.
Cabo
Frio de minhas certezas idas permanece lá. O tempo passou
menos no rosto de um antigo professor do que naquela escola, cujas
obras mudaram-lhe um pouco o aspecto e a disposição
das coisas. Mais ainda atuou o tempo no rosto de minhas certezas
e de meus projetos. Haverá rugas e cãs precoces
dentro de mim?
Ainda no terminal rodoviário, esperando quem me haveria
de buscar, contemplei o céu. Senti-o, como quem abre uma
gaveta cheia de pó, que guarda uma fotografia bela, velha
e empoeirada do que fomos.
Nas pouco mais de três horas que estive naquela cidade
(não conto o tempo que passei no ônibus, pois quem
está na estrada saiu e ainda não chegou, é
apenas fluxo de espectativa), senti que ali estavam os meus mais
profundos laços telúricos. Há um pouco daquela
gente, daquele céu, daquelas ruas e daquelas águas
espalhadas em mim. E, principalmente, acho que há algo
que eu perdi em mim que talvez esteja lá, espalhado naquelas
águas, naquelas ruas, naquele céu e naquela gente,
sobretudo nos muitos amigos que não vi, na exigüidade
daquelas poucas horas.
Acho que vi um pouco do meu rosto refletido no espelho daquela
cidade...
Sexta-feira, 26 de março
de 2004. 17h00
O AMOR É FOGO...
Parece-me difícil falar do amor que se sente. Como difícil
é falar de tudo que é pleno em si, tudo que se traduz
translúcido no cerne próprio da vida.
Quando se fala de amor, as palavras parecem arredias, pois não
nos é dado aprisionar a riqueza do que sentimos na pobreza
de sua expressão. Mesmo amando as palavras, o amor que
sentimos parecem fugir à expressão inerente a elas.
O amor, que é tão arredio no reino das palavras,
parece, no entanto, deixar-se aprisionar em sorrisos, em arrepios
da pele e brilho dos olhos. Um soneto não fala da maciez
dos lábios ou dos seios da amada. Apenas insinua; mas a
experiência de senti-la, a expressão cuidadosa de
nossas mãos ou lábios fruindo dessa lânguida
experiência é algo insuperável, em sua eloqüência.
Camões mesmo, na lide para buscar exprimir o que seu peito
sentia, luta quartetos e, no último terceto, querendo estar
preso por vontade, como já expressara, pergunta Mas
como causar pode seu favor / nos corações humanos
amizade, /se tão contrário a si é o mesmo
Amor? É contrário a si porque, por exemplo,
buscando a própria saciedade, se dá ao outro, ao
coração amado.
Minha
humanidade, cheia de contradições, ama. Nos muitos
lugares que ocupa, ama. Ama como filho, como irmão, como
amigo. E ama como homem, ama com desejo, fervor e sofreguidão.
E neste amor que deseja o corpo e a alma do objeto amado, que
quer estar a ele preso por vontade, meu coração
elegeu o compasso dum outro coração, que na diversidade
rítmica do seu bater o enriquece de novas síncopes,
novos contratempos, variações novas. A música
complexa de nossos peitos forma uma música composta a dois,
plena de paixão, desejo e cumplicidade.
Meu coração é de Cynthia... E com ele, nossos
corações expressam o amor com a eloqüência
que sói faltar nas palavras, porque nossa lavra de expressão
é mais profunda.
Domingo, 29 de fevereiro
de 2004. 01h55
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
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II ATO Clique aqui!
III ATO Clique aqui!
IV ATO Clique aqui!
V ATO: DAS INCONSTÂNCIAS ou TEMPO PRESENTE
Quereria prescindir deste quinto ato, terminar minha história
naquele ponto em que calei, pois intensa era a felicidade de então.
A inconstância dos humores e da própria ventura trouxe
orvalhos frios à retina retinta de pranto.
O que ruíra? As melhores esperanças, as maiores
alegrias... Julguei não haver felicidade neste mundo, mas
somente efêmera alegria, ração diária
de morfina e orgia destinada a um termo infecundo. Colhi um amor-perfeito
olvidando que todas as flores murcham com o vagar do tempo. Esqueci-me,
enleado com a metonímia fácil e ilusória
da efemeridade, de plantar um jardim de flores, pois tomei a parte
(a flor colhida) pelo todo (o jardim a plantar).
Mas as tempestades não causaram estragos apenas no jardim
que ainda não havia plantado. Não lutava somente
na arena do amor. O meu próprio lar era um campo de batalhas
que cumpria a defenestração de minha alma. O único
reconforto que encontrava eram os instantes de solidão,
no silêncio das músicas ou no silenciar das melodias.
De resto, havia o vozerio que redundava e vencia a calmaria, revés
dos tempos.
Minhas dores conheceram o ápice quando os dois fronts
em que pelejava se juntaram num único exército de
desgraças. As horas malditas daquele infortúnio
trouxeram-me um imenso nada sangrando, e minha alma, singrando
por todos os infernos, desejava a noite do sepulto silêncio,
a bênção da não-existência. Cheguei
a duvidar novamente de Deus...
Mas Deus não duvidou de mim! Minhas dores, aos poucos,
foram sendo mitigadas, ensalmadas minhas chagas. Os combates foram
sendo aplacados, coroados meus esforços. Algumas sementes
haviam sido lançadas ao solo ancho do bem-querer. Delas
renasceu o amor quase extinto. Vivo meu cintilante idílio
de hoje sob o concreto do tempo presente, instante de todas as
realizações. Com o coração limpo,
vou cumprindo a minha missão: viver um dia de cada vez.
Não quero significar com isto que a dor não é
mais hóspede em mim, que a felicidade que vivo é
inabalável ventura contínua ou que constantes são
meus sorrisos e inexistente meu pranto. O elemento dor existe,
embora mais suave, dentro de meu lar e dentro de mim. Minhas esperanças,
no entanto, têm sido a cada dia revigoradas. O encaminhamento
das aflições é perceptível, o que
alimenta mais a força necessária ao bom combate.
Vivo
do sopro vigoroso de minhas esperanças e da poesia colhida
a cada hora. A felicidade tem sido pródiga em suas visitas,
com sua habitual inconstância. Abrigo em mim todas as esperanças,
exceto a de que posso esperar para a história de minha
vida um final feliz.
Não creio hoje que a vida terá fim...
Quinta-feira, 19 de fevereiro
de 2004. 00h38
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
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IV ATO: DAS ANTINOMIAS ou ETERNO RETORNO DO MESMO
Retornei à metrópole, meu berço, sem quaisquer
laços telúricos com ela. Era-lhe um estrangeiro,
um peregrino. A ausência de raízes tardou minha fixidez
neste solo. Regressei muitas vezes à mesma terra, e a cada
vez que se dava este eterno retorno do mesmo, o mesmo eu já
não era. Deixava-me pelo caminho aos pedaços.
Deixava muito de mim misturado ao pó da estrada. Minhas
certezas e crenças, meus hábitos e idiossincrasias,
até mesmo alguns sonhos e esperanças foram deixados
para trás. Cada vez que tornava à metrópole,
eu era outro menos ligado à província, a tudo quanto
me fiz lá, plaga de meu adolescer.
Minha religiosidade sucumbiu ao mais profundo e obstinado materialismo,
complexo e imanente. A arte passou a ser encarada como ética
do acaso. Deus não era mais do que uma invenção
da linguagem em sua busca aflita por sentido. Vida, pensamento
e sociedade não possuíam quaisquer atributos transcendentais.
Considerava-os níveis de complexidades da própria
matéria, decorrência desta última.
A própria noção de niilismo subverteu-se
em mim. O niilismo constituía-se no caráter ascético
ou metafísico das religiões e utopias. O único
culto que conhecia era o dionisíaco, que em última
instância era o culto artístico e corporal. Transformei-me
no iconoclasta que filosofa com o martelo, destruindo os ídolos.
Acreditei ser possível viver sem crenças, na absoluta
imanência. Não percebia, obviamente, que isso já
era uma crença. Sequer suspeitava do paradoxo em que me
enredava, pois o absoluto é uma figura de transcendência.
Os êxtases ou instantes de plenitude passaram a ser vistos
como reações orgânicas ligadas à respiração,
ao aumento do metabolismo pela maior oxigenação
do cérebro e à sugestionabilidade da mente. Eu os
continuava tendo, ligados apenas à fruição
artística ou intelectual. Eram menos freqüentes, todavia.
Todo este cepticismo convicto durou até a primeira primavera
do milênio, quando experienciei algo a que nominei pura
imanência. Por um estímulo absolutamente físico,
sensual, aumentando a atividade conectiva de meu cérebro,
eu me achei no seio da antinomia entre o materialismo complexo
e o espiritualismo panteísta. E me inclinei ao retorno
do espiritualismo em mim. Enleio da estesia e ampliação
do intelecto conduziram-me ao Aleph (ponto que contém todos
os pontos).
Ver o Aleph é perigoso? O ritual de iniciação,
os veículos... Cada ligação (química
ou pessoal) não me parecia mais do que um rito que se cumpre.
Quando me expandira para o todo num espaço pontual, foi
quase impossível viver somente o rito, pois o mundo contínuo
passou a ser visto à semelhança do mundo atômico.
Movimento não se afigurava nada mais do que a sensação
provocada pela percepção visual da soma das temporalidades,
na confluência do que Parmênides um dia ousou chamar
de ser.
No interior do Aleph, vivenciei uma profunda indiferença
pela minha vida-fio-consciência. Contudo, não senti
medo de me perder, pois quem se perde (acolhe a ética do
acaso) nunca está perdido (busca o não-lugar do
destino). Outra coisa que me dava a certeza de que esse fio não
se romperia era o fato de entender o que significavam as ligações
entre as pessoas em seus aspectos mais imperceptíveis.
Longe de perder minha consciência, eu a sentia expandir
para o todo, sentia-me esticar para o interior das pessoas, mas
sabia que o limite que eu estava rompendo existia e existiria,
malgrado o fato de eu esquecê-lo por completo. Creio também
que a compreensão de que havia um lugar para mim no mundo
e de que eu ainda possuía alguma crença que dava
sentido à minha vida (a de que minha poesia poderia valer
tanto quanto a vida que o acaso me negara) não permitiu
que eu sentisse tentador o convite de adentrar fora do fio a que
chamo eu. Minha poesia sempre me permitiu o acesso
aos ícones que levam às alheias vidas, pois ela
foi, em todo o tempo, minha liturgia e minha transubstanciação.
Havia recuperado alguma coisa de minha antiga transcendência
naquela primavera. A mudança de estação trouxe-me
algo além. E não houve tempo, então. Houve
instante. A alegria veio eclipsar as tristezas mais arcaicas.
E não houve treva, então. Houve luz nos olhos dela.
Não houve carências que seus carinhos não
curassem. Os sentimentos não podiam ser aprisionados em
palavras.
O verão trouxe consigo o calor. Eu cintilava! Eu e ela
ofuscávamos o mundo com o brilho de nossos olhos. A intensidade
daquele amor eu não sei precisar. A matemática dos
amantes é feita de números complexos e imaginários
puros, pois quem ama não sabe calcular. A geometria das
paixões viscerais desconhece eqüidistâncias.
A geografia do espírito carece de precisos limites...
Quinta-feira, 12 de fevereiro
de 2004. 00h34
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
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III ATO: DO ADOLESCER ou TODAS AS TRANSCENDÊNCIAS
Minha adolescência nasceu sob o signo da poética.
Descobri o lirismo e o amor num mesmo movimento de alma. Desde
então, fiz-me poeta, e este foi meu primeiro e maior sacerdócio.
Amiúde, esta é a fase da imanência, das descobertas
do corpo e das vontades imediatas, da matéria e dos desejos
urgentes. Segui caminho contrário a este. O fundamento
de meu adolescer foram todas as transcendências, todos os
idealismos. Mesmo o sensual e o lúbrico tinham um caráter
metafísico nas verdades que me seguiam então.
A religiosidade foi uma característica marcante deste
tempo. Meu vocabulário era voltado para o sagrado e o sublime,
o belo e o inefável. Todos os sacerdotes cresceram em mim.
Fui a bacante e o rabino, a pitonisa e o levita, a feiticeira
e o padre, a santa e o pastor, a profetiza e o médium...
Professei todos os credos, acreditei na veracidade de todos os
misticismos.
Também na descoberta das artes fui um eclesiástico.
Acreditava que o artista era um sacrário de Deus. Não
me tornava um artífice, ordenava-me artista. Todo jaez
de arte que conheci e cultivei me era uma revelação.
A poesia era meu dom, a música, meu encontro com a divindade,
o teatro, meu culto à criação e às
formas religiosas primevas. Vivia alimentado por êxtases
ou plenitudes.
O apogeu do transcendente foi o alfa de seu ômega. Na plena
libação de todos as santidades e idealizações,
imiscuiu-se o vinho imanente dos cepticismos. A minha saída
iminente da província oferecia um prognóstico do
martelo com o qual eu iria filosofar na metrópole, no tempo
crepuscular dos ídolos.
Sábado, 07 de
fevereiro de 2004. 14h31
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
I ATO Clique aqui!
II ATO: DA INFÂNCIA ou DUAS GENEALOGIAS
Não logrei ainda descobrir em que ponto de minha existência
fabricou-se esta linguagem. Minha história, embora dorida,
é como outras tantas de tantos outros que carregam suas
mazelas.
Minha dor é congênita, formou-se ainda no ventre
materno. Trago-a em meu corpo. E aquilo que se vê de dor
em mim é o que menos dói. Dano maior aloja-se sob
a pele... Na carne, não penso em transcendências
neste ponto! A calamidade que hospedo é imanente, diagnosticada,
bífida, corporal...
Nos tempos de eu menino sempre houve esta dor. Mas já
havia também minha linguagem solitária, rara, única
e avessa a quaisquer parentescos. Vivia metido nela, em seu ventre
sereno de noite e mar. Já neste tempo me acometiam três
grandes inquietações de que ainda tenho reminiscências,
e outras tantas que ficaram perdidas no pretérito-mais-que-perfeito
(que este é o passado dos sonhos e das lembranças
vaporosas). A criança que fui trazia consigo muito mais
ciência do mundo do que hoje possuo. Havia uma clarividência
das coisas ocultas sob véu do livro das ignorâncias.
Havia sapiência, pensamentos que já não mais
sei sequer intuir.
A primeira inquietação (que já revelava
minha sede por compreender o outro em sua totalidade) provinha
do desejo de saber se aqueles ao meu redor tinham a mesma percepção
do mundo que eu possuía. Não quero aludir a uma
percepção transcendente, interpretação
das coisas. Quero me remeter ao exato pensamento da época
infantil (um tempo de pura imanência), cujo sentido, o cerne
da questão era se as pessoas ao meu redor viam, ouviam,
cheiravam, sentiam e degustavam como eu o fazia. Inquietava-me
ver que os gostos variavam tanto, que todos os cinco sentidos
percebiam mundos diferentes em cada indivíduo. Que mundos
eram esses? Ardia minha curiosidade infantil...
Minha outra inquietação, que dava a ver minha vocação
filosófica, parecia-me um pensamento bastante ousado e
original à época. Não sabia que Descartes
já o havia formulado (e com método, coisa que aos
sete ou oito anos eu nem sabia o que era) em algum dos séculos
que me precederam. Era uma indagação acerca da realidade
do mundo. A dúvida fundamental que gerou o cogito,
ergo sum. Perguntava-me se o mundo, a realidade, tudo, enfim,
não era uma espécie de sonho (quem estaria sonhando
as nossas vidas?) sem existência real. Meu pensamento vagava
horas nas possibilidades desta idéia, mas em criança
jamais propus um bom encaminhamento a esta questão.
A última inquietação remanescente dos tempos
de eu menino revela uma outra vocação: a literária.
Queria saber das intimidades das palavras. Ardia no desejo de
conhecê-las. Como bom ocidental, queria inteirar-me de suas
classificações, embora distinguisse apenas nomes
e pronomes, advérbios e adjetivos, verbos e numerais. As
demais palavras, que não se encaixavam nesta classificação
restrita, meu íntimo acreditava serem conjunções
(uma espécie de sétima classe gramatical, de ordem
cabalística, reservada apenas aos iniciados). Não
sei como se consolidou esta crença em mim (destroçada
com a descoberta dos advérbios, no final de minha infância).
Talvez seja porque a palavra conjunção remetesse
minha mente a uma idéia de conjunto (de palavras que não
se encaixavam nas demais classificações). Mas creio
mesmo que fora pelo fato de já ter ouvido vagos rumores
sobre uma classe de palavras assim chamada. Desta forma, por ter
sido a única categoria gramatical conhecida
fora daquelas já estudadas, minha mente menina classificou
todo aquele conjunto de palavras como conjunções.
Afora toda esta turbulência íntima, vivi a meninice
com o corpo e os olhos brincantes, bacantes de divertimento. Banqueteava-me
com meus brinquedos, minhas fantasias e meus sonhos infantes.
Sábado, 24 de
janeiro de 2004. 14h30
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
Nas próximas cinco semanas, estarei publicando aqui o
texto "Cartografia das Íntimas Paisagens", um
texto dividido em cinco partes escrito em meados do ano passado.
Espero que gostem!
I ATO: DAS DESSEMELHANÇAS ou SOLIDÃO TOTÊMICA
No livro das parecenças, ainda não encontrei quem
me assemelhasse.
Não falo de identidade perfeita, cuja inexistência
atesta-se ao menor contato com o universo de além dos limites
de si. Falo de identificação plena, ainda que efêmera.
Falo de conseguir conversar com alguém e, ao cabo, pensar:
este aí fala a minha língua; sem a necessidade
de transladar o seu léxico sentimental para o meu.
Esta constante necessidade de transladar léxicos sentimentais
fez-me um douto em línguas da alma, da psique, do coração.
Compreendo-as todas, decifro as novas, sei de seus dialetos e
regionalismos. Mas ainda não encontrei quem me decifrasse,
ou quem falasse, ao menos, uma variação distante
de minha língua sem etimologias conhecidas até então.
A isto chamo solidão totêmica ou fundamental.
Terça-Feira, 13
de janeiro de 2004. 01h30
A Mulher Amada
(para Cynthia S. Badaró)
Celebrar mais um ano que se inicia parece fornecer algum motivo
para festa, embora não se alcance muito freqüentemente
a frivolidade deste ato. O ano novo não renova a vida,
não modifica ninguém, não tem porque trazer
esperanças. Desentendo a alegria (que cada vez me parece
mais desespero) que se sente quando os relógios marcam
meia-noite. Seria mais fácil se todos rasgassem apenas
as folhas dos calendários, sem o exagerado ruído
dos fogos, numa festa em que não se festeja nada.
Se a vida continua a mesma, talvez se possa, ou se deva, ou se
espere o desenvolvimento de um olhar novo sobre a vida. Quem sabe
o homem não possa extrair dela um sentido mais edificante,
não pela mudança da própria vida, mas pelo
traslado da perspectiva com a qual a observa. Talvez esta lembrança
se estenda até a primeira semana do novo janeiro, do novo
calendário. Mas o tédio, ou a absoluta desmemoria
lançam no olvido todas as promessas, as esperanças
e as expectativas (de novo olhar ou até de nova vida) na
morosidade de um ano que nasce já velho, já pré-fabricado
pelos artífices dos fogos que estouram nas praias e enlouquecem
os cães. Nem o vestido branco trouxe mais paz, nem a simpatia
mais dinheiro, nem o olhar novo se sustentou para muito além
da ressaca.
Embora o homem seja capaz de abstração, seus atos
carecem de concretude para ganharem a conformação
da existência, a qualidade de fenômeno. A própria
filosofia ocidental, exercício de mais de dois mil e quinhentos
anos de abstração, só é um fenômeno
pela concretude das obras que trouxe ao mundo, pela pena de um
Platão, pelas idéias impressas e libertárias
de um Espinosa, pelos livros de um Nietzsche, ou de um santo Agostinho,
ou as obras tardiamente achadas de um grande sistematizador como
Aristóteles. O ano novo não ganha a qualidade de
novo fenômeno pela repetição pré-fabricada
do mesmo olhar, pelas escolhas que se impõem e tolhem a
liberdade de criação e, sobretudo, porque são
estéreis nas obras que supostamente deveriam fazer. O olhar
novo não é um fenômeno concreto, nem uma esperança,
mas uma repetição desta sociedade-standard que quer
sempre que o novo se imponha, e faz da novidade uma necessidade
velha e desgastada.
Por que, em lugar de buscar o novo no novo ano, tudo de novo,
não volvemos os olhos para o que nos cerca e enxergamos
a poesia do habitual e do quotidiano, daquilo que sempre está
lá como num eterno e terno enleio de aurora? Por que não
procurar celebrar o novo elegendo aquilo que gostaríamos
de que estivesse mais uma vez e sempre conosco, em ato, palavra
ou pensamento? Por que não pensar na mulher amada, não
sussurrar ao pé do ouvido dela nosso amor chama
infinita enquanto dura? Por que não ouvir, em lugar da
algaraviada dos fogos tão sem sutilezas, o coração
da amada enquanto repousa sobre seu colo a cabeça?
 |
Quando se tem a mulher amada ao lado, não se quer o novo.
Quer-se o congelamento do instante, quer-se o instantâneo
do tempo, quer-se o quebrar dos ponteiros que movem o mundo do
passado para o futuro. Em síntese, o que se quer aos braços
da amada é a eternidade. Como a eternidade da beleza destes
olhos que miram a câmara escura que, por mágica,
a flagra tão iluminada. E como não desejar que os
olhos da amada não cintilem, que seus lábios não
sejam sorrisos e beijos, que sua pele não seja fonte de
aromas e relevos gráceis? E como não desejar o amor
de Cynthia, o eterno retorno do mesmo amor?
|