T a b l o [ i ] g
Sábado, 24 de
janeiro de 2004. 14h30
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
Nas próximas cinco semanas, estarei publicando aqui o
texto "Cartografia das Íntimas Paisagens", um
texto dividido em cinco partes escrito em meados do ano passado.
Espero que gostem!
I ATO: DAS DESSEMELHANÇAS ou SOLIDÃO TOTÊMICA
No livro das parecenças, ainda não encontrei quem
me assemelhasse.
Não falo de identidade perfeita, cuja inexistência
atesta-se ao menor contato com o universo de além dos limites
de si. Falo de identificação plena, ainda que efêmera.
Falo de conseguir conversar com alguém e, ao cabo, pensar:
este aí fala a minha língua; sem a necessidade
de transladar o seu léxico sentimental para o meu.
Esta constante necessidade de transladar léxicos sentimentais
fez-me um douto em línguas da alma, da psique, do coração.
Compreendo-as todas, decifro as novas, sei de seus dialetos e
regionalismos. Mas ainda não encontrei quem me decifrasse,
ou quem falasse, ao menos, uma variação distante
de minha língua sem etimologias conhecidas até então.
A isto chamo solidão totêmica ou fundamental.
Terça-Feira, 13
de janeiro de 2004. 01h30
A Mulher Amada
(para Cynthia S. Badaró)
Celebrar mais um ano que se inicia parece fornecer algum motivo
para festa, embora não se alcance muito freqüentemente
a frivolidade deste ato. O ano novo não renova a vida,
não modifica ninguém, não tem porque trazer
esperanças. Desentendo a alegria (que cada vez me parece
mais desespero) que se sente quando os relógios marcam
meia-noite. Seria mais fácil se todos rasgassem apenas
as folhas dos calendários, sem o exagerado ruído
dos fogos, numa festa em que não se festeja nada.
Se a vida continua a mesma, talvez se possa, ou se deva, ou se
espere o desenvolvimento de um olhar novo sobre a vida. Quem sabe
o homem não possa extrair dela um sentido mais edificante,
não pela mudança da própria vida, mas pelo
traslado da perspectiva com a qual a observa. Talvez esta lembrança
se estenda até a primeira semana do novo janeiro, do novo
calendário. Mas o tédio, ou a absoluta desmemoria
lançam no olvido todas as promessas, as esperanças
e as expectativas (de novo olhar ou até de nova vida) na
morosidade de um ano que nasce já velho, já pré-fabricado
pelos artífices dos fogos que estouram nas praias e enlouquecem
os cães. Nem o vestido branco trouxe mais paz, nem a simpatia
mais dinheiro, nem o olhar novo se sustentou para muito além
da ressaca.
Embora o homem seja capaz de abstração, seus atos
carecem de concretude para ganharem a conformação
da existência, a qualidade de fenômeno. A própria
filosofia ocidental, exercício de mais de dois mil e quinhentos
anos de abstração, só é um fenômeno
pela concretude das obras que trouxe ao mundo, pela pena de um
Platão, pelas idéias impressas e libertárias
de um Espinosa, pelos livros de um Nietzsche, ou de um santo Agostinho,
ou as obras tardiamente achadas de um grande sistematizador como
Aristóteles. O ano novo não ganha a qualidade de
novo fenômeno pela repetição pré-fabricada
do mesmo olhar, pelas escolhas que se impõem e tolhem a
liberdade de criação e, sobretudo, porque são
estéreis nas obras que supostamente deveriam fazer. O olhar
novo não é um fenômeno concreto, nem uma esperança,
mas uma repetição desta sociedade-standard que quer
sempre que o novo se imponha, e faz da novidade uma necessidade
velha e desgastada.
Por que, em lugar de buscar o novo no novo ano, tudo de novo,
não volvemos os olhos para o que nos cerca e enxergamos
a poesia do habitual e do quotidiano, daquilo que sempre está
lá como num eterno e terno enleio de aurora? Por que não
procurar celebrar o novo elegendo aquilo que gostaríamos
de que estivesse mais uma vez e sempre conosco, em ato, palavra
ou pensamento? Por que não pensar na mulher amada, não
sussurrar ao pé do ouvido dela nosso amor chama
infinita enquanto dura? Por que não ouvir, em lugar da
algaraviada dos fogos tão sem sutilezas, o coração
da amada enquanto repousa sobre seu colo a cabeça?
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Quando se tem a mulher amada ao lado, não se quer o novo.
Quer-se o congelamento do instante, quer-se o instantâneo
do tempo, quer-se o quebrar dos ponteiros que movem o mundo do
passado para o futuro. Em síntese, o que se quer aos braços
da amada é a eternidade. Como a eternidade da beleza destes
olhos que miram a câmara escura que, por mágica,
a flagra tão iluminada. E como não desejar que os
olhos da amada não cintilem, que seus lábios não
sejam sorrisos e beijos, que sua pele não seja fonte de
aromas e relevos gráceis? E como não desejar o amor
de Cynthia, o eterno retorno do mesmo amor?
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