T a b l o [ i ] g
Domingo, 29 de fevereiro
de 2004. 01h55
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
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V ATO: DAS INCONSTÂNCIAS ou TEMPO PRESENTE
Quereria prescindir deste quinto ato, terminar minha história
naquele ponto em que calei, pois intensa era a felicidade de então.
A inconstância dos humores e da própria ventura trouxe
orvalhos frios à retina retinta de pranto.
O que ruíra? As melhores esperanças, as maiores
alegrias... Julguei não haver felicidade neste mundo, mas
somente efêmera alegria, ração diária
de morfina e orgia destinada a um termo infecundo. Colhi um amor-perfeito
olvidando que todas as flores murcham com o vagar do tempo. Esqueci-me,
enleado com a metonímia fácil e ilusória
da efemeridade, de plantar um jardim de flores, pois tomei a parte
(a flor colhida) pelo todo (o jardim a plantar).
Mas as tempestades não causaram estragos apenas no jardim
que ainda não havia plantado. Não lutava somente
na arena do amor. O meu próprio lar era um campo de batalhas
que cumpria a defenestração de minha alma. O único
reconforto que encontrava eram os instantes de solidão,
no silêncio das músicas ou no silenciar das melodias.
De resto, havia o vozerio que redundava e vencia a calmaria, revés
dos tempos.
Minhas dores conheceram o ápice quando os dois fronts
em que pelejava se juntaram num único exército de
desgraças. As horas malditas daquele infortúnio
trouxeram-me um imenso nada sangrando, e minha alma, singrando
por todos os infernos, desejava a noite do sepulto silêncio,
a bênção da não-existência. Cheguei
a duvidar novamente de Deus...
Mas Deus não duvidou de mim! Minhas dores, aos poucos,
foram sendo mitigadas, ensalmadas minhas chagas. Os combates foram
sendo aplacados, coroados meus esforços. Algumas sementes
haviam sido lançadas ao solo ancho do bem-querer. Delas
renasceu o amor quase extinto. Vivo meu cintilante idílio
de hoje sob o concreto do tempo presente, instante de todas as
realizações. Com o coração limpo,
vou cumprindo a minha missão: viver um dia de cada vez.
Não quero significar com isto que a dor não é
mais hóspede em mim, que a felicidade que vivo é
inabalável ventura contínua ou que constantes são
meus sorrisos e inexistente meu pranto. O elemento dor existe,
embora mais suave, dentro de meu lar e dentro de mim. Minhas esperanças,
no entanto, têm sido a cada dia revigoradas. O encaminhamento
das aflições é perceptível, o que
alimenta mais a força necessária ao bom combate.
Vivo
do sopro vigoroso de minhas esperanças e da poesia colhida
a cada hora. A felicidade tem sido pródiga em suas visitas,
com sua habitual inconstância. Abrigo em mim todas as esperanças,
exceto a de que posso esperar para a história de minha
vida um final feliz.
Não creio hoje que a vida terá fim...
Quinta-feira, 19 de fevereiro
de 2004. 00h38
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
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IV ATO: DAS ANTINOMIAS ou ETERNO RETORNO DO MESMO
Retornei à metrópole, meu berço, sem quaisquer
laços telúricos com ela. Era-lhe um estrangeiro,
um peregrino. A ausência de raízes tardou minha fixidez
neste solo. Regressei muitas vezes à mesma terra, e a cada
vez que se dava este eterno retorno do mesmo, o mesmo eu já
não era. Deixava-me pelo caminho aos pedaços.
Deixava muito de mim misturado ao pó da estrada. Minhas
certezas e crenças, meus hábitos e idiossincrasias,
até mesmo alguns sonhos e esperanças foram deixados
para trás. Cada vez que tornava à metrópole,
eu era outro menos ligado à província, a tudo quanto
me fiz lá, plaga de meu adolescer.
Minha religiosidade sucumbiu ao mais profundo e obstinado materialismo,
complexo e imanente. A arte passou a ser encarada como ética
do acaso. Deus não era mais do que uma invenção
da linguagem em sua busca aflita por sentido. Vida, pensamento
e sociedade não possuíam quaisquer atributos transcendentais.
Considerava-os níveis de complexidades da própria
matéria, decorrência desta última.
A própria noção de niilismo subverteu-se
em mim. O niilismo constituía-se no caráter ascético
ou metafísico das religiões e utopias. O único
culto que conhecia era o dionisíaco, que em última
instância era o culto artístico e corporal. Transformei-me
no iconoclasta que filosofa com o martelo, destruindo os ídolos.
Acreditei ser possível viver sem crenças, na absoluta
imanência. Não percebia, obviamente, que isso já
era uma crença. Sequer suspeitava do paradoxo em que me
enredava, pois o absoluto é uma figura de transcendência.
Os êxtases ou instantes de plenitude passaram a ser vistos
como reações orgânicas ligadas à respiração,
ao aumento do metabolismo pela maior oxigenação
do cérebro e à sugestionabilidade da mente. Eu os
continuava tendo, ligados apenas à fruição
artística ou intelectual. Eram menos freqüentes, todavia.
Todo este cepticismo convicto durou até a primeira primavera
do milênio, quando experienciei algo a que nominei pura
imanência. Por um estímulo absolutamente físico,
sensual, aumentando a atividade conectiva de meu cérebro,
eu me achei no seio da antinomia entre o materialismo complexo
e o espiritualismo panteísta. E me inclinei ao retorno
do espiritualismo em mim. Enleio da estesia e ampliação
do intelecto conduziram-me ao Aleph (ponto que contém todos
os pontos).
Ver o Aleph é perigoso? O ritual de iniciação,
os veículos... Cada ligação (química
ou pessoal) não me parecia mais do que um rito que se cumpre.
Quando me expandira para o todo num espaço pontual, foi
quase impossível viver somente o rito, pois o mundo contínuo
passou a ser visto à semelhança do mundo atômico.
Movimento não se afigurava nada mais do que a sensação
provocada pela percepção visual da soma das temporalidades,
na confluência do que Parmênides um dia ousou chamar
de ser.
No interior do Aleph, vivenciei uma profunda indiferença
pela minha vida-fio-consciência. Contudo, não senti
medo de me perder, pois quem se perde (acolhe a ética do
acaso) nunca está perdido (busca o não-lugar do
destino). Outra coisa que me dava a certeza de que esse fio não
se romperia era o fato de entender o que significavam as ligações
entre as pessoas em seus aspectos mais imperceptíveis.
Longe de perder minha consciência, eu a sentia expandir
para o todo, sentia-me esticar para o interior das pessoas, mas
sabia que o limite que eu estava rompendo existia e existiria,
malgrado o fato de eu esquecê-lo por completo. Creio também
que a compreensão de que havia um lugar para mim no mundo
e de que eu ainda possuía alguma crença que dava
sentido à minha vida (a de que minha poesia poderia valer
tanto quanto a vida que o acaso me negara) não permitiu
que eu sentisse tentador o convite de adentrar fora do fio a que
chamo eu. Minha poesia sempre me permitiu o acesso
aos ícones que levam às alheias vidas, pois ela
foi, em todo o tempo, minha liturgia e minha transubstanciação.
Havia recuperado alguma coisa de minha antiga transcendência
naquela primavera. A mudança de estação trouxe-me
algo além. E não houve tempo, então. Houve
instante. A alegria veio eclipsar as tristezas mais arcaicas.
E não houve treva, então. Houve luz nos olhos dela.
Não houve carências que seus carinhos não
curassem. Os sentimentos não podiam ser aprisionados em
palavras.
O verão trouxe consigo o calor. Eu cintilava! Eu e ela
ofuscávamos o mundo com o brilho de nossos olhos. A intensidade
daquele amor eu não sei precisar. A matemática dos
amantes é feita de números complexos e imaginários
puros, pois quem ama não sabe calcular. A geometria das
paixões viscerais desconhece eqüidistâncias.
A geografia do espírito carece de precisos limites...
Quinta-feira, 12 de fevereiro
de 2004. 00h34
CARTOGRAFIA DAS ÍNTIMAS PAISAGENS
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III ATO: DO ADOLESCER ou TODAS AS TRANSCENDÊNCIAS
Minha adolescência nasceu sob o signo da poética.
Descobri o lirismo e o amor num mesmo movimento de alma. Desde
então, fiz-me poeta, e este foi meu primeiro e maior sacerdócio.
Amiúde, esta é a fase da imanência, das descobertas
do corpo e das vontades imediatas, da matéria e dos desejos
urgentes. Segui caminho contrário a este. O fundamento
de meu adolescer foram todas as transcendências, todos os
idealismos. Mesmo o sensual e o lúbrico tinham um caráter
metafísico nas verdades que me seguiam então.
A religiosidade foi uma característica marcante deste
tempo. Meu vocabulário era voltado para o sagrado e o sublime,
o belo e o inefável. Todos os sacerdotes cresceram em mim.
Fui a bacante e o rabino, a pitonisa e o levita, a feiticeira
e o padre, a santa e o pastor, a profetiza e o médium...
Professei todos os credos, acreditei na veracidade de todos os
misticismos.
Também na descoberta das artes fui um eclesiástico.
Acreditava que o artista era um sacrário de Deus. Não
me tornava um artífice, ordenava-me artista. Todo jaez
de arte que conheci e cultivei me era uma revelação.
A poesia era meu dom, a música, meu encontro com a divindade,
o teatro, meu culto à criação e às
formas religiosas primevas. Vivia alimentado por êxtases
ou plenitudes.
O apogeu do transcendente foi o alfa de seu ômega. Na plena
libação de todos as santidades e idealizações,
imiscuiu-se o vinho imanente dos cepticismos. A minha saída
iminente da província oferecia um prognóstico do
martelo com o qual eu iria filosofar na metrópole, no tempo
crepuscular dos ídolos.
Sábado, 07 de
fevereiro de 2004. 14h31
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II ATO: DO ADOLESCER ou TODAS AS TRANSCENDÊNCIAS
Não logrei ainda descobrir em que ponto de minha existência
fabricou-se esta linguagem. Minha história, embora dorida,
é como outras tantas de tantos outros que carregam suas
mazelas.
Minha dor é congênita, formou-se ainda no ventre
materno. Trago-a em meu corpo. E aquilo que se vê de dor
em mim é o que menos dói. Dano maior aloja-se sob
a pele... Na carne, não penso em transcendências
neste ponto! A calamidade que hospedo é imanente, diagnosticada,
bífida, corporal...
Nos tempos de eu menino sempre houve esta dor. Mas já
havia também minha linguagem solitária, rara, única
e avessa a quaisquer parentescos. Vivia metido nela, em seu ventre
sereno de noite e mar. Já neste tempo me acometiam três
grandes inquietações de que ainda tenho reminiscências,
e outras tantas que ficaram perdidas no pretérito-mais-que-perfeito
(que este é o passado dos sonhos e das lembranças
vaporosas). A criança que fui trazia consigo muito mais
ciência do mundo do que hoje possuo. Havia uma clarividência
das coisas ocultas sob véu do livro das ignorâncias.
Havia sapiência, pensamentos que já não mais
sei sequer intuir.
A primeira inquietação (que já revelava
minha sede por compreender o outro em sua totalidade) provinha
do desejo de saber se aqueles ao meu redor tinham a mesma percepção
do mundo que eu possuía. Não quero aludir a uma
percepção transcendente, interpretação
das coisas. Quero me remeter ao exato pensamento da época
infantil (um tempo de pura imanência), cujo sentido, o cerne
da questão era se as pessoas ao meu redor viam, ouviam,
cheiravam, sentiam e degustavam como eu o fazia. Inquietava-me
ver que os gostos variavam tanto, que todos os cinco sentidos
percebiam mundos diferentes em cada indivíduo. Que mundos
eram esses? Ardia minha curiosidade infantil...
Minha outra inquietação, que dava a ver minha vocação
filosófica, parecia-me um pensamento bastante ousado e
original à época. Não sabia que Descartes
já o havia formulado (e com método, coisa que aos
sete ou oito anos eu nem sabia o que era) em algum dos séculos
que me precederam. Era uma indagação acerca da realidade
do mundo. A dúvida fundamental que gerou o cogito,
ergo sum. Perguntava-me se o mundo, a realidade, tudo, enfim,
não era uma espécie de sonho (quem estaria sonhando
as nossas vidas?) sem existência real. Meu pensamento vagava
horas nas possibilidades desta idéia, mas em criança
jamais propus um bom encaminhamento a esta questão.
A última inquietação remanescente dos tempos
de eu menino revela uma outra vocação: a literária.
Queria saber das intimidades das palavras. Ardia no desejo de
conhecê-las. Como bom ocidental, queria inteirar-me de suas
classificações, embora distinguisse apenas nomes
e pronomes, advérbios e adjetivos, verbos e numerais. As
demais palavras, que não se encaixavam nesta classificação
restrita, meu íntimo acreditava serem conjunções
(uma espécie de sétima classe gramatical, de ordem
cabalística, reservada apenas aos iniciados). Não
sei como se consolidou esta crença em mim (destroçada
com a descoberta dos advérbios, no final de minha infância).
Talvez seja porque a palavra conjunção remetesse
minha mente a uma idéia de conjunto (de palavras que não
se encaixavam nas demais classificações). Mas creio
mesmo que fora pelo fato de já ter ouvido vagos rumores
sobre uma classe de palavras assim chamada. Desta forma, por ter
sido a única categoria gramatical conhecida
fora daquelas já estudadas, minha mente menina classificou
todo aquele conjunto de palavras como conjunções.
Afora toda esta turbulência íntima, vivi a meninice
com o corpo e os olhos brincantes, bacantes de divertimento. Banqueteava-me
com meus brinquedos, minhas fantasias e meus sonhos infantes.
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