T a b l o [ i ] g
Sexta-feira, 26 de março
de 2004. 17h00
O AMOR É FOGO...
Parece-me difícil falar do amor que se sente. Como difícil
é falar de tudo que é pleno em si, tudo que se traduz
translúcido no cerne próprio da vida.
Quando se fala de amor, as palavras parecem arredias, pois não
nos é dado aprisionar a riqueza do que sentimos na pobreza
de sua expressão. Mesmo amando as palavras, o amor que
sentimos parecem fugir à expressão inerente a elas.
O amor, que é tão arredio no reino das palavras,
parece, no entanto, deixar-se aprisionar em sorrisos, em arrepios
da pele e brilho dos olhos. Um soneto não fala da maciez
dos lábios ou dos seios da amada. Apenas insinua; mas a
experiência de senti-la, a expressão cuidadosa de
nossas mãos ou lábios fruindo dessa lânguida
experiência é algo insuperável, em sua eloqüência.
Camões mesmo, na lide para buscar exprimir o que seu peito
sentia, luta quartetos e, no último terceto, querendo estar
preso por vontade, como já expressara, pergunta Mas
como causar pode seu favor / nos corações humanos
amizade, /se tão contrário a si é o mesmo
Amor? É contrário a si porque, por exemplo,
buscando a própria saciedade, se dá ao outro, ao
coração amado.
Minha
humanidade, cheia de contradições, ama. Nos muitos
lugares que ocupa, ama. Ama como filho, como irmão, como
amigo. E ama como homem, ama com desejo, fervor e sofreguidão.
E neste amor que deseja o corpo e a alma do objeto amado, que
quer estar a ele preso por vontade, meu coração
elegeu o compasso dum outro coração, que na diversidade
rítmica do seu bater o enriquece de novas síncopes,
novos contratempos, variações novas. A música
complexa de nossos peitos forma uma música composta a dois,
plena de paixão, desejo e cumplicidade.
Meu coração é de Cynthia... E com ele, nossos
corações expressam o amor com a eloqüência
que sói faltar nas palavras, porque nossa lavra de expressão
é mais profunda.
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