T a b l o [ i ] g
Sexta-Feira, 30 de abril
de 2004. 15h00
SOBRE FÉ
Alhures escreveu Rousseau e já tomei nota
de suas palavras compreender "porque os que moram em
cidades, e só vêem paredes, ruas e crimes, têm
pouca fé (ROUSSEAU, J. J. As Confissões.
Livro XII, p. 582). Tais palavras muito me impressionaram e julgo
cada vez meis ter a nítida percepção do seu
sentido.
A fé evaporara no seio de uma grande metrópole,
entre paredes, asfalto e concreto. A fé esmoreceu ao sentir
a frieza das pessoas, a distância mantida fechada atrás
das portas dos apartamentos; ao ver o céu entrecortado
de janelas dos edifícios e pouco da amplidão azul
para ser admirado.
Não tenho certeza se o concreto dos edifícios,
a artificialidade da orla aterrada, tão simétrica,
tão geométrica, tão distante de suas naturais
sinuosidades são responsáveis por essa descrença
adquirida no livro das imanências, essa desconfiança,
essa incerteza até em relação às coisas
que podem ser vistas e tocadas, que são sólidas,
mas se desmancham no ar das desilusões. Não sei
se, quando o olhar está imerso somente no universo humano,
na materialidade dos problemas estruturais, das descrições
físicas, biológicas, sociológicas das massas
(de matéria, de células e das gentes), o olho perde
a capacidade de perguntas às coisas sobre o Criador, "consisitindo
a pergunta em contemplá-las e a resposta em sua beleza"
(AGOSTINHO, St. Confissões. Livro X Cap. 6). Isso
porque contemplar a cidade não é contemplar só
a genialidade do gênero humano, mas também a utilitária
forma das coisas, onde nem sempre assiste a beleza, posto não
haver beleza utilitária, posto que a beleza se dá
gratuitamente à contemplação dos sentidos
dispostos a contemplá-la.
Não sei se o fato de meus pés já
há muito desconhecerem a textura de um chão de
terra ou areia , só experimentarem a lisa indiferenciação
de pavimentos e não poderem se sentir raízes para
penetrarem e se irmanarem à terra contribui para a descrença.
Quem não tem raízes pode também não
ter certezas.
Onde minhas certezas telúricas?
Segunda-Feira, 19 de
abril de 2004. 21h45
CONSIDERAÇÕES INTEMPESTIVAS SOBRE UMA
VITÓRIA
O que faz com que nos alegremos com uma conquista que,
racionalmente, não é nossa?
Se o conceito de Estado-Nação, como argumenta
Benedict Anderson em Imagined
Communities: Reflections on the Origin and Spread of Nationalism,
depende do desenvolvimento dos meios de comunicação
(especificamente da imprensa) que integram diferentes falantes
de uma mesma língua, que passam a se conceber uns aos outros
como uma comunidade, uma comunidade imaginada, não é
muito diferente o que acontece em relação a uma
torcida de futebol. Uma relação identitária
é erigida e passamos a nos comportar como se determinados
eventos fossem intimamente ligados a nós, a todos quantos
se integram a esta relação.
O Flamengo "levantou poeira" e venceu o Vasco
por 3 x 1. É uma conquista que, diretamente, não
tem relação real comigo. Mas estou muito satisfeito
com essa vitória, como se minha fosse. Hoje, ao encontrar
o porteiro do prédio no qual eu moro, certamente eu ou
ele diremos: "nós ganhamos". A um vascaíno,
diríamos: "vocês perderam". E tudo isso
é uma relação imaginada, pois, em verdade,
nem eu nem o Victor (o porteiro) estivemos lá no local
do jogo (a relação é mediada por um meio
de comunicação de massa, que nos integra) e, inda
que estivéssemos lá, como torcedores, entre os mais
de oitenta mil que estiveram no Maracanã, não poderíamos
dizer, de fato, que nós ganhamos. Podemos dizer, ao acompanharmos
a vitória do Flamengo sobre o Vasco, que vimos vencer o
time de nossa predileção. Mas isso parece frio!
Efetivamente, sofremos se o time de nossa predileção
perde, e nos alegramos, quando se dá a sua vitória.
Por quê? A relação se torna apaixonada, como
uma relação patriótica (a idéia de
morrer pela pátria é tão estranha quanto
esta que ora exponho).
Isto para mim se constitui um mistério. Por que
é tão bom conquistar um título, ou antes,
ver o time do Flamengo conquistar um título em cima do
time do Vasco?
P o e i r a !
P o e i r a !
P o e i r a !
L e v a n t o u p o e i r a ! . . .

Domingo, 18 de abril
de 2004. 21h20
POEIRA! POEIRA! POEIRA!
LEVANTOU POEIRA!

Não é preciso dizer mais nada, não é? FLA 3 x 1 VAS É C A M P E Ã O !
Quinta-Feira, 15 de abril
de 2004. 11h55
TEXTO DE 02 DE ABRIL DE 2004
QUANDO DE MINHA VIAGEM A CABO FRIO
Cabo Frio de minhas adolescências permanece a mesma, não
obstante as marcas da passagem do tempo. Há quanto tempo
não pisava naquela plaga! E, principalmente, há
quanto tempo eu não a sentia.
Cabo
Frio de minhas certezas idas permanece lá. O tempo passou
menos no rosto de um antigo professor do que naquela escola, cujas
obras mudaram-lhe um pouco o aspecto e a disposição
das coisas. Mais ainda atuou o tempo no rosto de minhas certezas
e de meus projetos. Haverá rugas e cãs precoces
dentro de mim?
Ainda no terminal rodoviário, esperando quem me haveria
de buscar, contemplei o céu. Senti-o, como quem abre uma
gaveta cheia de pó, que guarda uma fotografia bela, velha
e empoeirada do que fomos.
Nas pouco mais de três horas que estive naquela cidade
(não conto o tempo que passei no ônibus, pois quem
está na estrada saiu e ainda não chegou, é
apenas fluxo de espectativa), senti que ali estavam os meus mais
profundos laços telúricos. Há um pouco daquela
gente, daquele céu, daquelas ruas e daquelas águas
espalhadas em mim. E, principalmente, acho que há algo
que eu perdi em mim que talvez esteja lá, espalhado naquelas
águas, naquelas ruas, naquele céu e naquela gente,
sobretudo nos muitos amigos que não vi, na exigüidade
daquelas poucas horas.
Acho que vi um pouco do meu rosto refletido no espelho daquela
cidade...
|