Não há melhor definição para Elvis Costello do que ?indefinível?. Um artista que passou por punk, new wave e blues, entre outros gêneros; que fez músicas com orquestras de jazz (Charles Mingus), quartetos de corda (The Brodsky Quartet), Paul McCartney e Burt Bacharach; que foi interpretado por Chet Baker e Ute Lemper e interpretou Charles Aznavour e Bob Dylan; que mudou o rock com a banda The Attractions e mudou Diana Krall com casamento e composições em parceria ? um artista assim não pode ser classificado.
As lojas de disco costumam colocá-lo nas gôndolas de pop-rock, mas Costello não se enquadra. Tampouco se resume pelo adjetivo ?eclético?, que não capta a consistência de sua inquietude, o traço que liga os pontos mais dispersos de sua carreira, seu talento para a canção.
É por isso que uma seleção de seus seis melhores CDs se torna tão difícil. Há pessoas que preferem o Elvis Costello do início, que lançou com a banda The Attractions nada menos que seis discos entre 1977 e 1981, entre My Aim is True e Trust, com um rock agressivo e hiper-acelerado, no qual se destaca Armed Forces, que tem hits como Peace, Love & Understanding e Oliver?s Army.
Há outras pessoas, como eu, que preferem o Costello mais classicista ou jazzista dos últimos anos, especialmente a partir de Painted from Memory, sua obra-prima com Burt Bacharach, de 1998. E há outras ainda que acham que seus dois melhores discos são da segunda metade dos anos 80, King of América (1986) e Spike (1989), em que faz um pop de alta qualidade, a meio caminho entre a fase rock e a fase jazz.
Mas essa divisão cronológica não explica muita coisa. Por exemplo: foi ainda em 1981 que Costello fez Almost Blue, o disco cuja faixa-título compôs para Chet Baker (e Diana Krall regravou em seu CD mais recente, The Girl in the Other Room). Mal saído do punk, Costello fez uma das músicas mais ?cool? de que se tem notícia, com uma letra que parece ser a própria melodia, de tão suave que desliza no azul da tristeza.
E o mais recente CD de Costello, The Delivery Man (2004), com a banda The Imposters, que forma a base do show que dará no Brasil, é a volta do Elvis antigo, se bem que transformado e, no caso, namorando o gênero country, com belas faixas como Nothing Clings like Ivy (?Though she cuts deep/ It never leaves a mark? ? embora ela corte fundo, nunca deixa uma marca). No entanto, neste ano ele já fez um CD com a apenas competente música orquestral que compôs para uma companhia de balé italiana, Il Sogno, com o maestro Michael Tilson Thomas (London Simphony Orchestra), baseado em Shakespeare e com influência de Gershwin e Bartók.
Elvis vive de acordo com seus interesses musicais, sem se preocupar com o que seu fã espera do próximo trabalho. Nem por isso deixa de emplacar sucessos. Como compositor, depois da fase inicial, fez músicas como Indoor Fireworks, Verônica e God Give me Strength que qualquer ouvinte de rádio reconhece.
Como intérprete, ficou famoso por sua versão de Aznavour, She, usada no filme Notting Hill, e sua interpretação do standard My Funny Valentine também é conhecida. Uma de suas gravações mais bonitas e executadas, Baby Plays Around, não foi escrita por ele e sim por sua ex-mulher, Cait O?Riordan, e não à toa está entre as preferidas das mulheres.
Costello, por sinal, cai no gosto de intérpretes femininas: a mezzo-soprano Anne Sofie Von Otter, um dos timbres mais especiais da música clássica, fez com ele For the Stars, gravando três músicas suas, incluindo a que dá título ao CD, e ainda três letras que ele fez para melodias compostas por autores eruditos suecos; e Ute Lemper, em Punishing Kiss, também interpretou três canções suas, ao lado das de Nick Cave e Tom Waits, todas tendo como tema central a desilusão amorosa.
E é essa desilusão amorosa que indica a coerência autoral de Costello em meio a tantas aventuras musicais. Ele casa letra e melodia com uma habilidade rara porque domina ambas, além de ter vasto domínio de ritmo e conhecimento de harmonia. É também um cantor muito bom, que dá a dose certa de emoção a cada frase, embora sua voz seja mais agradável quando canta melodias mais complexas, nas quais passeia dos graves aos agudos, já que seu timbre nasalado cansa um pouco quando fica só em tom alto. Isso tudo permite que expresse sua sensibilidade para as situações em que um dos amantes foi abandonado pelo outro ou então não se sente correspondido à mesma altura. Costello amarra imagens verbais com linhas melódicas ? ou seja, é por essência um cancionista, um trovador. E isso vale para todas as suas fases.
?I talk to my self and I don?t listen? (Falo comigo mesmo e não escuto), escreveu ele em 1979. ?Diving for dear life/ when we could be diving for pearls? (Mergulhando por uma vida preciosa quando poderíamos mergulhar por pérolas), em 1983. Dez anos mais tarde: ?I can always pretend words/ I don't have the courage to send/ Reach you? (Eu sempre posso fingir que as palavras que não tenho coragem de enviar chegam até você). ?Does the extinguished candle care/ About the darkness?? (A chama apagada se importa com a escuridão?), perguntou há sete anos. São todos versos bem escritos que a música e o canto amplificam emocionalmente, traduzindo um estado de espírito ao mesmo tempo sutil e instantâneo. Portanto, leitor, para carregar seu iPod, mergulhe por pérolas de todas elas. No belo North, CD de 2003, ele canta, entre feliz e desamparado: ?All the words you say to me/ Have music in them/ All the sorrows and the joys like magnetism? (Todas as palavras que você me diz têm música em si. Todos os sofrimentos e as alegrias, como magnetismo). É esse magnetismo da música das palavras que Costello entoa como poucos na atualidade.